O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 28 de junho de 2011

o que escrevo é simples:
tem morte e vida no mesmo buraco do umbigo
tem desejos secretos de parir um boi
cabe em qualquer ferida
na língua sádica do coração
na demência precoce do trompetista
no mais pequeno cofre do amor

os meus versos são indecências acabadas de nascer
mas são da mesma forma que nasci
o que escrevo é o resultado da soma entre a fome e a sede
não preciso que venham matemáticos dizerem-me
que a morte é raiz quadrada de um escuro qualquer
ou de literatos dizerem-me que ódio leva assento no O
escrevo porque não me ensinaram nada sobre costura
escrevo para corrigir a minha vida
escrevo para conhecer o escuro por dentro
escrevo porque tenho dois ou três filhos
escrevo porque o taberneiro não aceita fiado
escrevo para aprender a bater asas

escrevo para fazer circular o ar
escrevo para aprender a álgebra do amor
escrevo porque a dor é um dom
escrevo porque só assim me confesso
escrevo porque não há carne no frigorífico

escrevo na medida do impossível
escrevo porque atrás de mim está outro mim
escrevo porque a psiquiatria fica dispendiosa
escrevo porque a esperança é uma espera
escrevo porque o trabalho cansa e a alma agradece

escrevo para me levantar do chão
escrevo porque não tive outra escolha
escrevo porque não sei fazer contas à vida
escrevo porque o vazio ocupa-me bem
escrevo para ter uma farsa verdadeira
escrevo por saber que o amanhã não existe
escrevo porque vivo morrendo
escrevo para boi dormir
escrevo para ter noticias de mim
escrevo porque a palavra é um rim
escrevo porque não tenho terra para lavrar
escrevo o sangue ainda existe
escrevo porque a lucidez é uma chatice

escrevo porque a consciência é a minha empresa
escrevo porque fui picado por um insecto
escrevo para aqueles surdos que ouvem dizer
escrevo porque o fogo abre-me o apetite
escrevo porque entendo que não entendo
escrevo para ter olhos nos olhos
escrevo porque o absinto não faz melhor
escrevo porque não sei morrer de outra maneira
escrevo porque estar sozinho é uma merda!

escrevo para não estar calado
escrevo para viajar sem ter de ir
escrevo mas depois não leio
porque a minha escrita dói!

enfim, o que escrevo é simples.
excepto quando as memórias vêm com tinta fresca!

sábado, 25 de junho de 2011

veja se descobre a rela

poesia? pó e azia?

anda por aqui um dactiloescrito
-projeto de livrinho de poemas
com o nome de
"DESARMÓNICA DE BOCA"

cheio de pó
e talvez me provocando essa tal azia

abro ao acaso e tiro
este exemplar anónimo

:

a cor dos teus olhos
-sem nuvens sem sombras-
é o mar é os barcos
é o sol é as ondas

a cor dos teus olhos
-sem nuvens sem sombras-
é o bem é o mal
o falcão e as pombas

a cor dos teus olhos
-por mais que tu escondas-
é a paz que é capaz
de estar dentro das bombas

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Da primeira vez que fui ao teatro passei a amar o escuro
Da primeira vez que li um poema passei a existir por dentro
Da primeira vez que fiz amor passei a ficar mais tempo em casa
Da primeira vez que disse meu Deus dois pássaros suicidaram-se
Da primeira vez que olhei uma flor entendi a ópera
Da primeira vez que sonhei incendiaram-se-me as pálpebras
Da primeira vez que te vi o relógio tombou
Da última vez estavas no teatro a fazer um poema 
E pediste-me que te levasse a casa porque tinhas dois pássaros em Flor a sonhar com o tempo de agora.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

domingo, 12 de junho de 2011

Quando ele navegou nela,
naufragou o medo,
salvou a esperança
de boa vizinhança.

Na manhã seguinte,
o sol descobriu a manhã
no baixo-ventre dela


quinta-feira, 9 de junho de 2011

10 de JUNHO

raio de país este
- 3 sílabas de plástico?

pletórico de sol
de luz
de Allgarve

contudo macambúzio
esplenético
disfórico

reiteradamente invocado pela diáspora
esquecido injustamente
pelos dióspiros
se eu adormecer
no teu corpo
deixa-me estar
até que eu saiba ouvir
o som longe da brisa
que vem do mar

quando meu corpo
se perder no teu
abraça-o até que ele
saiba despertar
noutro lugar

beija agora
meus lábios
sem descanso
enquanto falamos

SERES TERRA - Ode a uma Terra longínqua

Pequeno, pálido, um ponto azul...
Derivas só, numa via de poeiras.
Longe do centro, dizem-te em órbita,
no braço exterior de uma imensa espiral.

Não sei se cabes na palma da mão da Ilusão,
tu e a espiral e todas as poeiras,
exóticos e cintilantes faróis,
desta vastidão de negro.

Não sei se cabes na explicação da Razão,
tu e todos os cenários e acções,
evoluções e extinções,
deste vastíssimo vazio.

Palco sagrado, de Vida exaltante,
oceanos de brancos véus te cruzam,
cascatas vaporosas de chuvas evaporadas.
Líquido e azul preenche e ondula,
corre e atravessa ancestrais cicatrizes,
memórias de um anoso nascimento.

Gigante palco, de vida fulgurante. Sagrado!
Vestes verdes majestosos e dourados ardentes.
És corredor de todas as existências,
jardim de milhões de cores e odores
abundas de alma e ânimo de vida que flui.

Nos tempos idos, ficou a tua paisagem,
encerrados os Ciclos e as Eras.

Talvez, passadas Eras de vermelho te tingires,
inflamada e fundida na estrela que te ilumina,
sejas fugaz e refulgente recordação
em remotos universos.
Quiçá, ecos de ti ressurjam.

Num assomo de ousadia, qual navegador
num mar desconhecido, lançámos-te,
Terras de ti, além-espaço.

Náufragos errantes,
sonhámos quem nos salvasse da solidão!
Numa pioneira e complexa garrafa,
encerrámos a nossa chave.

Quão longe, quão distante no tempo?

Contornos esfumados de um mapa perdido,
fantasmas de seres cravados na eternidade,
vozes e lamentos de uma humanidade perdida.
Ecos e canções de uma Terra longínqua,
passada e em cinzas talvez dispersada.

Encerrados os Ciclos e as Eras,
perdida em tempos idos, ficou a tua paisagem
e os Seres, que de Vida, te sacralizaram!

(Sentir e Ser - 2011)
http://aworldinsideasoapbubble.blogspot.com/

Aes Dana - The Missing Words

quarta-feira, 8 de junho de 2011

DEMANDA

Demorada é a Noite
em que perdida, demando em mim
um fragmento de Luz, um farol.
Num corpo que ecoa,
de tudo o que me flui e confunde,
nas mãos que te sentem e percorrem,
sou tantas vezes brisa e mar,
cristalina gota de água salpicada,
sal e sol,
árvore e ave, folha seca e chuva,
pedra ou cor
do que vislumbras e julgas ver.

Na busca da Luz,
assumo a vastidão,
encontro a Eternidade.

Nunca morri, nunca nasci.

(Sentir e Ser - 2011)

ENTREGA

Olha-me,
olha-me longamente.
Profundamente.
Quero ver os teus olhos,
paz e brilhos de sol.
Segreda-me
palavras de Luz.
Abraço-te,
abraço-te para sempre
num abraço diluído.
Quero em ti me confundir e fluir
num tempo sem pressa.
Quero escutar os teus pensamentos
e pensar-te os meus.
Quero percorrer a noite
abraçada nos teus abraços,
partir à deriva no Céu e juntos
trazermos nos corpos,
a Luz do amanhecer.
Quero o mágico toque do Amor,
Verdadeiro e Livre.
Quero que depois de ditas e sibiladas
todas as palavras,
na plenitude de todos os gestos,
sejamos apenas nós
caminhantes descalços e livres,
unos na longa via do Amor.

(Sentir e Ser - 2011)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Poema dos amorosos


(Dedicado a Ethel Feldman)


Há na renda do mar

Aquela húmida claridade da boca

O terno olhar das ondas e do esquecimento

Um sismo de violetas nos dedos brancos

Uma revelação de cascatas

No olhar extasiado

Um espanto de terror e de beleza

Quando os navios parados

Ondeiam sombras na brisa iluminada

Uma vontade súbita de ser pássaro

E poisar-te no lábio a esperança

Como um cristal entre os olhos.

E os deuses da água sorriem dentro da boca

Dos novos amorosos.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

com o sol de cada manhã,
beijo teu beijo até anoitecer
e se o rouxinol cantar
direi a ele que esse beijo
é nosso até o amanhecer

domingo, 5 de junho de 2011

em cada palavra inventada
sinto
em cada toque imaginado
sinto
em cada beijo sonhado
sinto
em cada um dos teus ais
sinto
em cada intervalo
sinto
quando dormes e acordas
sinto

o sopro suave da tua voz
o teu corpo no meu corpo
teu olhar no meu
sinto, poeta
não pergunto

Sondagens

Sondagens a cada 5 minutos.
Ora faça lá uma macadada para ver se o público gosta.
Gostam??
Esses polegares para cima!
A senhora aí da fila de trás, de roxo, que me diz?
Gosto, sim senhora, ainda bem que me deram esta oportunidade, estou muito feliz!
Um like para ali.
Andamos com uma sonda debaixo do braço, não podemos esconder ou indiferenciar. O detector de gosto, patente da Taste-Course, vai activar o voto.
Alto!, mais um "gósto", dinamizar o programa, televisão em movimento.
Atenção, baixem os braços, parece que vamos entrar noutro modo. Calma, acalmem-se por favor nos vossos lugares.
Chega-me a informação que o espectáculo é este que se segue, atenção à "VT":
"O senhor Américo mora no mesmo prédio há 22 anos, tem infiltrações desde que a esposa faleceu em 1996".
"Isto antes ainda havia a câmara municipal..."
Pára, pára o vídeo.
Que acham, pessoal? Gostam ou não gostam? Esses polegares no ar!
Eles não gostam! Anota aí, Didinho: minino não gosta do papá mas gosta da mamã.
Sempre alerta, não descansa, ou gosta ou não gosta!
Estou a ver um acenar de cabeça, já está, já gostou, já não há nada a fazer, não vale a pena dizer que não gostou que eu testemunhei que gostou.
Virou!
A TWE noticou que as sondas provocam cancro a médio prazo.
"Como calcula, isso é um assunto a desenvoler posteriormente", garantiu hoje à Lupa Casimiro Brandão, agente oficial das sondagens inForm.
Está prestes a acontecer outra coisa, mantenham-se nos vossos lugares. Já sabem, botão verde gosta, botão vermelho não gosta.
3,2,1, carreguem! Opinião já! Carreguem mesmo que aleatoriamente!
Calma, calma, eles não estão a gostar, choques eléctricos nos bichos é o que vós fazeis, público parlador. Deixaram o bicho agitado, ele vai reagir, só não vos morde porque vocês estão aí nas bancadas e ele na jaula, sujeito-objecto, público-espectáculo, enfim, vocês sabem.
Cada voltagem é de 20000 megabytes, carreguem se vos mandam.
Não queriam participar na vida pública? Então digam sim ou digam não e depressa.
Mas digam a verdade, porque nós temos um polígrafo incrustado no vosso escalpe.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

two wings of the same bird

Deserto inominável



O deserto é um silêncio depois do mar,

É o êxtase da luz sobre o coração da areia.

Vai-se e volta-se e nada se esquece.

Tudo se oculta para depois se dar a ver

No ponto em que os ventos se cruzam

E as almas gritam no fundo dos poços.

Os cestos sobem e descem prometendo água,

Uma frescura que derrete a febre.

Não são as tâmaras que adoçam a boca,

É a beleza das mulheres dissimulando

O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus.

As serpentes assobiam ou cantam

Conforme o veneno que lhes molda o sangue.

Enroscam-se sobre as pedras

como fragmentos de lua à espera da manhã.

E a sombra alonga-se nas dunas

Ondulando rente às palmeiras

Como a última cobra do medo das crianças.

Não há ruído maior que este silêncio

Que se serve com tâmaras e com chá

Na mesa rasteira, sobre a terra molhada.

É no que não se nomeia que está o infinito.

José Jorge Letria
Os Mares Interiores
Lisboa, Teorema, 2001

é preciso ter LATA

-Moita Flores
-Campo pequeno
-toiro a esvair-se em sangue e em cansaço
-Moita Flores agradece a homenagem da Praça pelo seu trabalho em defesa da Festa Brava nacional
:
pela tradição
pela defesa dos direitos humanos
mas também pela defesa dos direitos dos animais

o toiro escarva a areia molhada pelo seu próprio sangue
e parece implorar
que o conduzam o mais rápido possível
ao seu destino final

quarta-feira, 1 de junho de 2011

perdido entre papéis


alguma coisa sobe como um vómito
- é o vento

as uvas e o cão
a vide o veneno velho o velho
que adormece com os olhos espetados
na fasquia dos seus muitos anos miseráveis
as pulgas no alpendre
na pocilga vazia
o choupo
de raízes cravadas na gengiva da casa
de que só eu sou interior

a hortelã nos pingos da torneira
a náusea da pausa vegetativa dos coentros
os limões de umbigo
os diques na caleira
da leira de tomate

a Peugeot cinzenta
pelo vento e pela noite
a grossa grade de portão
guardada por cães de gonzos ferrugentos

os velhos oblíquos
no interior do pátio
das carroças

as sinetas e as vozes
das franjas das echarpes
chamando os netos por entre minúsculos fios de ferro

caracóis nas listras
vermelhas das peúgas dos miúdos
alguns graus de tédio no choro com que nos respondem

o chá nas chávenas
sobre a falsa virgindade das toalhas
a memória de brancos aventais
das criadas
roçagando os soalhos

alguma coisa sobe como um vómito
:
é a cor no ecran
da casa toda branca
sem interior algum