O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 30 de abril de 2010

"Enquanto houver matadouros... existirão campos de batalha" - Leão Tolstoi

- …era um Homem que vomitava homens. E não me lembro de mais nada.

vou deixar a palavra ser assoprada devagarinho. se começar por uma vogal deixo que a lingua passeie pelo céu da boca até se cansar, quando for uma consoante a língua estará pousada à saída da minha boca. vou assoprar como se assobiasse uma canção devagar, tão devagar que me esqueço do sentido dela. assim a palavra cresce e morre entre o inspirar e expirar. liberta do pensamento a palavra voa sem destino. o silêncio mostra a face em cada intervalo desse meu jeito de estar. um dia quando eu crescer serei somente esse intervalo - um modo de ser sem ser.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Alternativas



há duas formas
de alcançar coisas de joelhos
:
rezando
ou
arrombando

A lusofonia não é lusófona, mas universal

A lusofonia não é lusófona, mas universal

(excerto)

A lusofonia não cobre um fundo cultural comum, mas é um espaço de eclosão cultural aberto. Não há uma cultura lusófona, nem as culturas que se encontram no espaço da lusofonia estão marcadas, de forma indelével, por uma mesma intencionalidade destinal. O que se pode dizer é que o espaço lusófono se apresenta ao mundo como a possibilidade de se romper com o regime logocêntrico que marca a vigência da metafísica ocidental enquanto configuração civilizacional criadora de uniformidade e instauradora dum fechamento onto-fenomenológico da experiência humana do mundo em relação ao horizonte grácil da emergência da vida espiritual veiculadora duma cultura eco-eudemoníaca, sem a anomalia sapiensial que separa o humano do animal, a sociedade da natureza, o terrestre do celeste.

A uniformização eurocêntrica leva à destruição das culturas ancestrais que eclodiram para lá dos constrangimentos do totalitarismo da mesmidade sem um avesso de si que a interpelasse à dissolução transmutadora. E aqui cabe uma chamada de atenção para algo que tem que ser atendido com seriedade: a instrumentalização da cultura portuguesa e do pensamento português, nascido à margem da metafísica sem um impulso interno para o outro de si, para os colocar ao serviço dum gesto totalitário análogo à totalitária imposição da mundividência eurocêntrica ao resto do mundo, não só se apresenta como um erro grotesco, como atraiçoa o sentido espiritual da expansividade da vida ética e do pensamento seminal para o ainda não pensado, para o preterido pela tradição metafísica ocidental, próprio do pensamento português e assumido por autores tão importantes quanto, por exemplo, Antero de Quental, Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, José Marinho, Eudoro de Souza, ou Agostinho da Silva, para só referir estes e para não referir os que hoje seguem na sua senda .
E a Língua Portuguesa não é constringente em termos espirituais e existenciais, ou seja, não aparece como um obstáculo até mesmo à sua ultrapassagem – tem sido um útero aberto à emergência de outras vias de apropriação linguística do mundo, coisa própria de uma língua viva, capaz de dar à luz outras línguas.

Por isso, qualquer tentativa de domesticar a língua, de a contratualizar em nome de imperativos económicos e políticos, é um passo na destruição da lusofonia, do que ela tem de mais original e imperioso para o mundo, a sua não constringência em termos espirituais.

A Língua Portuguesa não conhece fronteiras, não se institui como um território mental instaurador de barbarismos. Desse centro de divergência coalescente, não se vê nem estrangeiros nem bárbaros. Ter a Língua Portuguesa como Pátria, indo para além do lugar comum pessoano que tem sido usado para tudo e para nada, é não ser mais do que cidadão do Universo, encarado como o que, a cada instante, em cada um dos existentes e a cada um engloba numa corrente de transcensão transmutadora e re-criadora. É no diverso que se dá a patência da conversão plenificante ao que a tudo excede e, nesse excesso, tudo abraça num amplexo oceânico, sem fundo e sem margens.

- Paulo Feitais, "A lusofonia não é lusófona, mas universal", Cultura ENTRE Culturas, nº1 (Lisboa, 2010), pp.20-21.

arevistaentre.blogspot.com

O negócio das culturas e o ócio do essencial: o olhar do eremita

"O olhar do eremita tolda-se, recolhe-se mais ainda, a evitar todo este ruído que por fala é tomado. Sim, que a arte hoje vende bem, por isso se pode ser tolerante; a filosofia, nem tanto, donde estar em declínio de valor; as religiões constituem um grande investimento, qual nova expressão do capitalismo do século XXI; e a "exploração do homem pelo homem" é cientificamente desenvolvida em utilidades técnicas e robóticas que quase escravizam o homem com tanta cedência ao bem-estar... Culturas, pois, de interesses e de negócios bem periféricos àquele único ócio do essencial que converte o olhar do eremita ao lugar humilde de um silencioso e transfigurante acolhimento"

- Carlos Silva, "Vocação eremítica e diálogo intercultural - do único e sua diferenciação", Cultura ENTRE Culturas, nº1 (Lisboa, 2010), p.47.

arevistaentre.blogspot.com

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Do patriotismo como hábito de preferir o habitual ao estranho




"Sob análise estética verificamos que o habitual é vivenciado como "bonito". esta é a base do patriotismo: a pátria é mais bonita que qualquer outra situação, precisamente porque a sua estrutura fundante passa despercebida. Toda a irrupção que destrua o hábito, toda a "novidade radical", é vivenciada como "feia", horrível. Esta é a base da xenofobia: o estranho é horrível e deve resistir-se a ele"

- Vilém Flusser, in "Da migração dos povos", inédito publicado em Cultura ENTRE Culturas, nº1.

Colóquio Internacional "Do Diabólico ao Simbólico: a filosofia de Vilém Flusser", Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 3 e 4 de Maio.

Um singular pensador checo, que escreveu algumas das suas obras maiores em português do Brasil. Consultem o programa e excertos no blog. A revista Cultura ENTRE Culturas publica um inédito seu e vai ser de novo apresentada no final do Colóquio, no dia 4, pelas 17.30.

vilem-flusser.blogspot.com

Contemplações

Da imensidade pacífica do mar elevam-se as ondas agitadas. Da imensidade morta do tempo destacam-se as horas vivas, que bailam em volta do Sol, com os Anjos e os Demónios.
O mar é a Eternidade, a onda é a hora. A onda exalta-se no seu bailado, endoidece e suicida-se de encontro às penedias. E o seu cadáver de espuma, coberto de flores, bóia sobre as águas em que, por fim, se dissolve. A onda regressa à intimidade calma do mar. A hora funde-se, outra vez, na Eternidade.

 - Teixeira de Pascoaes

(...)

De tanto cantar
não resta da cigarra
senão a casca

 - Matsuo Bashô

terça-feira, 27 de abril de 2010

"a oração mental"

«[... ] a oração mental. No meio do ruído da corte, e dos concursos do paço, recolhia-se sua majestade [ D. Maria Francisca Isabel de Sabóia] por muitas horas ao seu oratório como a um deserto e ali, levantando o espírito sobre todas as coisas cá de baixo, ouvia da boca de Deus, no silêncio da contemplação, aqueles altíssimos desenganos, e via, no espelho da eternidade, aquelas claríssimas luzes, em que o tudo e o nada são da mesma cor: em que o tudo e o nada têm a mesma conta; em que o tudo e o nada têm o mesmo peso; em que o tudo e o nada têm as mesmas medidas; e por isso nenhuma mudança ou variedade das coisas humanas lhe alteravam o coração, tendo-o sempre unido com a vontade divina. E como nesta união da vontade humana com a divina consiste a suma da santidade, e a santidade suma, [...]»

 - Padre António Vieira

paixão marítima dos PRs


agora em moda
quando se fala de Mar
fala-se de Mário

Mário Soares

sem dúvida
Mar = Mário

mas RUIVO
Leste-me uns versos do Aleixo como quem derrete bronze e olha os poetas tristes em meu redor puxando arados dentro das páginas

segunda-feira, 26 de abril de 2010

civilização



“Falas de civilização,
e de não dever ser,
ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem,
ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes,
sofreriam menos.

Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.

Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.

Se as coisas fossem diferentes,
seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres,
seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
a querer inventar a máquina de fazer felicidade!”

Alberto Caeiro

Lançamento do número 1 da Cultura ENTRE Culturas e de Uma Visão Armilar do Mundo - 3ª, 27, Largo do Alecrim, 70





Car@s Amig@s

Convido-vos para o lançamento do número 1 da revista Cultura ENTRE Culturas, por Frei Bento Domingues e Miguel Real, em conjunto com a apresentação do meu último livro Uma Visão Armilar do Mundo, por Paulo Teixeira Pinto. O Dr. Fernando Nobre associa-se ao evento, falando sobre o diálogo intercultural.

O acontecimento tem lugar no IADE Chiado Center - Rua do Alecrim, 70, na 3ª feira, 27, pelas 18.30

A revista Cultura ENTRE Culturas é uma revista internacional e intercultural por mim dirigida que publica ensaio, poesia e fotografia. A direcção artística é de Luiz Reys e a edição da Âncora Editora.

Comissão de Honra: François Jullien, Hans Küng, Jean-Yves Leloup, Raimon Pannikar, Matthieu Ricard e Agostinho da Silva (In Memoriam).

Publica neste número inéditos de Vilém Flusser, François Jullien, Hans Küng, Jean-Yves Leloup, Raimon Pannikar e Agostinho da Silva.

Ensaios e textos de Paulo Borges, Maria Sarmento, Paulo Feitais, Rui Lopo, Ricardo Ventura, Carlos Silva, Isabel Santiago, Amon Pinho, Miguel Real, Romana Valente Pinho e Inês Borges.

Poesia de Francisco Soares, Duarte Braga, Rui Fernandes, Luiza Dunas, Dirk Hennrich (aforismos), Francisco Soares e Donis de Frol Guilhade.

Fotografia de Beat Presser, Ilda Castro, Rui Fernandes, Francisco Soares e Adama.

O próximo número (Outubro de 2010) será dedicado a Fernando Pessoa e ao Diálogo Ocidente-Oriente, por ocasião dos 500 anos da chegada dos portugueses a Goa.

Propósitos:

1. Contribuir para o desenvolvimento de uma consciência-experiência integrais, multidimensionais, inter e trans-disciplinares do real e do que possa haver além-aquém do que como tal se designa, enriquecendo criativamente a vida e a existência mediante a compreensiva realização das suas supremas possibilidades.

2. Explorar antigas e novas possibilidades espirituais, mentais, éticas, artísticas, científicas, educativas, ecológicas, comunicacionais, sociais, políticas e económicas, alternativas à crise e declínio do paradigma civilizacional ainda dominante e que obedeçam ao soberano critério do melhor possível para todos os seres sencientes, humanos e não-humanos.

3. Promover o conhecimento e diálogo entre culturas, civilizações, religiões e espiritualidades, bem como entre estas, o ateísmo e o agnosticismo, no espírito da mais ampla imparcialidade e
universalismo.

4. Contribuir para a harmonia e a não-violência na relação do homem consigo, com a natureza e com todos os seres sencientes, capazes de sentir dor, prazer e emoções.

5. Despertar e orientar para estes fins a cultura e a sociedade portuguesas, bem como a comunidade lusófona, valorizando e promovendo as tendências que nelas mais apontem neste sentido

....

Será para mim uma honra a vossa presença.

Saudações

Paulo Borges

domingo, 25 de abril de 2010

falta fazer 25 de Abril de cada um

não pode

nem de longe
nem de perto

toda a gente estar errada

só eu certo

que força é essa?

O Espírito

A razão voluntária essencial de me ver católico não seria a da existência de um Deus Pai ou de um Deus Filho; seria a da crença no Deus Espírito Santo. É o Espírito o que une Pai e Filho, dos quais vem tudo o resto, como criação da redenção; é o Espírito o traço comum de sujeito e objecto, por onde se estabelece todo o diálogo; é o Espírito a fonte indefinível de onde a vida pode fluir sob quaisquer formas, aquelas que eu conheço e venero ou não, e aquelas de que nem sequer posso ter uma ideia; é o Espírito que anima os que estão comigo e os meus adversários; foi o Espírito quem me trouxe o Cristo e quem a outros trouxe Buda, Maomé e Lao-Tseu; foi o Espírito quem me deu Eckhart e quem me deu a geometria analítica; nele se reconciliam Aristóteles e Platão, nele se acabam as geografias, ou políticas, que separam Ocidente de Oriente. Por ele a Igreja é, e só o será enquanto Ele o quiser; quando se canta «Veni, creator Spiritus», inicia-se a maior aventura da História: porque nunca se sabe o que Ele irá criar; e pode não criar coisa nenhuma e refluir à Unidade essencial; (...)

Agostinho da Silva, in Ecúmena

THINK | 2010


amanhã e durante toda a semana, em Vila Nova de Paiva
http://think2010aear.blogspot.com/

sábado, 24 de abril de 2010

"O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres"

"Porque o desfecho e remate do homem não é gozar, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem o saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. Este erro antropocêntrico é a imoralíssima moral dos filósofos evolucionistas [...].

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.[...]

A moral religiosa é falsa, porque é a moral do indivíduo. A moral filosófica, à maneira materialista, positivista, evolucionista, livre-pensante, é falsa, porque exclui os animais. A moral ascética é falsa, porque exclui as coisas.
O ascetismo e o abandono são falsos, porque importariam ou a salvação pessoal ou, tão só, a sectarista. A não resistência ao mal é falsa, porque, precisamente, eliminar o mal é o fim do homem, único e supremo.

Não foi Tolstoi. Quem encontrou a palavra do enigma foi o poeta alemão Novalis. Novalis escreveu que: - o fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza. Esta palavra vai até o fundo do fundo do abismo. Nunca nenhuma assim sublime brotou de lábios inspirados. O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza.

Como? Trabalhando, para saber, a fim de poder. E, podendo, cumpre-lhe esquecer-se, não acreditando, como até aqui, que a decifração dos mistérios é para que sua curiosidade se satisfaça; para que, redundantemente, seus prazeres aumentem. O homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a grande libertação universal"

- Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, Porto, Lello & Irmão, 1902, pp.468-470.
Esta paisagem: esta pedra oceânica: deslumbramento igual ao interior do sossego

Um desenho nocturno
                                 vestido de fogo

Esta paisagem nua: granito desfeito no ante-poema marmóreo
Lá em baixo: um marinheiro a pulsar inúmeros nortes
sonhando contrafeito (n)o espesso mar:
                                                      uma tela não autografada.

O mar
      a casa
          o milagre da nascente
                     os sítios onde morremos todas as noites:
                     nossos corpos irremediavelmente cansados pós- poema

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Marcha contra a criação do Biotério da Azambuja - Hoje, 24 de Abril, 14.30 - Saldanha

A Fundação Champalimaud pretende construir um BIOTÉRIO COM 25 MIL JAULAS PARA PRODUÇÃO DE ANIMAIS, CUJA ÚNICA FINALIDADE É A EXPERIMENTAÇÃO (em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian e a Universidade de Lisboa e em terrenos cedidos pelo município da Azambuja, Portugal).

A concretizar-se, esta “fábrica” de produção de animais será uma das maiores da Europa, cujos fins comerciais envolvem dinheiros públicos e cujo objectivo é a exportação de animais para todo o mundo, inclusive para países onde não existe qualquer legislação de protecção animal.

Vai realizar-se a 2ª Marcha contra a construção do Biotério da Azambuja, organizada pela Plataforma de Objecção ao Biotério - http://www.pob.pt.vu/

A concentração inicia-se pelas 14h30 do próximo Sábado, dia 24 de Abril, no Saldanha, em frente à Fundação Champalimaud (Atrium Saldanha) de onde sairá a marcha até à Fundação Calouste Gulbenkian - Lisboa.

A tua presença é fundamental e INSUBSTITUÍVEL!

VAMOS FAZER DE PORTUGAL UM MODELO DE CIÊNCIA SÉRIA E RESPONSÁVEL!

Estrelas




"Ora( direis )ouvir estrelas!
Certo, perdeste o senso!
E eu vos direi, no entanto
Que, para ouvi-las,
muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila.
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido tem o que dizem,
quando estão contigo? "

E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Olavo Bilac

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Fábricas...

"A publicidade é uma fábrica de perfeitos fregueses, ávidos e estúpidos; a educação, que lhe é paralela, fabrica cidadãos servis e crentes"

- Agostinho da Silva, Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 169.

a primeira rosa / desta Primavera
enche-me a casa toda
de perfume e
vermelho

sem titulo




Uma forma de "expressar, conhecer e reflectir as mais altas, fundas e amplas experiências e possibilidades humanas, onde os limites se convertem em limiares. Sofrimento, mal e morte, iniciação, poesia e revolução, sexo, erotismo e amor, transe, êxtase e loucura, espiritualidade, mística e transcendência. Tudo o que altera, transmuta e liberta. Tudo o que desencobre um Esplendor nas cinzas opacas da vida falsa."

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Viver




“Sempre cheguei tarde
ou cedo demais.

Nunca floresceram
em minha primavera
as rosas que sonhei colher.

Mas,
sempre os passarinhos cantaram
e fizeram ninhos,
pelos beirais do meu viver”

Helena Kolody

A União

A união com a pessoa amada é uma hierogamia, o casamento divino entre o céu e a terra,  união primordial, o arquétipo constitutivo da vida, o onfalo, o centro do mundo que irradia a fecundidade, a essência de todas as coisas. A união é uma celebração da qual somos oficiantes, pelo que é constitutiva do divino. A divindade, o sagrado, manifesta-se nos celebrantes e através dos celebrantes, e irradia a sua força benéfica em redor, sobre as coisas e sobre os homens. São os dois celebrantes que, ao unirem-se, acendem o fogo sagrado, constituem eles próprios esse fogo, tornam manifesta a divindade e são personificação dessa divindade. É através da sua união que o sagrado se torna presente, é neles que se realiza a hierofania.

Francesco Alberoni, in O Mistério do Enamoramento

Lançamento da revista Cultura ENTRE Culturas e do livro Uma Visão Armilar do Mundo, dia 27, 3ª feira, 18.30



O IADE CHIADO CENTER convida para o lançamento da revista Cultura ENTRE Culturas, apresentada por Frei Bento Domingues e Miguel Real, e do livro Uma Visão Armilar do Mundo, de Paulo Borges, apresentado por Paulo Teixeira Pinto, no próximo dia 27 de Abril, 3ª feira, pelas 18.30, na Rua do Alecrim, nº 70, em Lisboa.



Para mais lançamentos:
arevistaentre.blogspot.com

terça-feira, 20 de abril de 2010

quaresma permanente


é situação actual da Europa

não só as quartas-feiras
:
todos dias da semana são
de CINZAS

Todas as coisas




"Todas as coisas são palavras do idioma
Em que Alguém ou em que Algo, noite e dia,
Escreve aquela infinita algaravia
Que é a história do mundo. [...]"

- Jorge Luís Borges, "Uma bússola", in O Outro, o Mesmo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

                                        ~

Não atireis culpas para o céu, porque Deus ainda é uma criança

                                       ~

domingo, 18 de abril de 2010

Curso livre "Uma Visão Armilar do Mundo"

Uma Visão Armilar do Mundo. A vocação universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

Curso livre na Associação Agostinho da Silva, Rua do Jasmim, 11 - 2º.

21 e 28 de Abril, 5, 12 e 19 de Maio, das 18 às 20h.

Contribuição: 30 euros.
Inscrições: agostinhodasilva@mail.pt / 21 3422783 / 967 044 286 / 918 113 021

Uma Visão Armilar do Mundo



Reúno aqui um conjunto de estudos e ensaios dispersos, bem como um extenso texto inédito, que versam sobre um dos rumos maiores da minha actividade enquanto investigador e docente, a reflexão acerca de Portugal e do seu sentido no diálogo hermenêutico com alguns dos seus mais destacados poetas, profetas e pensadores: Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

Em todos eles o leitor encontrará um nítido fio condutor: por vias diversas, estes cinco autores vislumbram e assumem em Portugal, na sua dimensão simultaneamente real e simbólica, uma vocação para a universalidade. Este Portugal e esta vocação, naturalmente pensados a partir da experiência histórico-cultural dos Descobrimentos e da diáspora planetária ainda em curso, assumem duas vertentes, simultâneas e inseparáveis: 1 - designam, por um lado, a predisposição e o impulso do povo, da nação e da sua cultura para uma aventura e convivência planetárias, que nos intérpretes aqui estudados se converte na assunção de Portugal como mediador ou inaugurador de um novo ciclo cultural e civilizacional, sob o signo de uma globalização ético-espiritual, em tudo contrastante com aquela, de teor económico-tecnológico, que hoje se impõe, com todos os problemas e riscos inerentes; 2 – por outro lado, Portugal e a sua vocação para a universalidade são assumidos, pelos mesmos autores, como símbolos de algo que interpretamos como o próprio homem ou a própria consciência, em busca de uma visão-experiência mais plena do real e na aspiração a realizar integralmente as suas supremas possibilidades. Desta interpenetração de dois registos do que se designa como Portugal, o real e o simbólico, e que se prolonga na leitura feita de algumas das suas mais paradigmáticas figuras, mitos e símbolos histórico-culturais, decorre uma complexa ambiguidade, que exige um rigoroso discernimento hermenêutico e crítico. É isso que procuramos fazer ao longo deste livro, num diálogo com os autores que procura pensar com e a partir deles e dos seus temas, problematizando as suas leituras, sem deixar de lhes aproveitar as sugestões especulativas.

Seja como for, encontro nestes cinco poetas, profetas e pensadores de Portugal, do seu sentido e destino, aquilo a que chamo Uma Visão Armilar do Mundo. O que designo como tal é uma visão-experiência do mundo sob o signo de tudo o que no símbolo da esfera armilar se implica: perfeição, plenitude, totalidade e infinidade. Tudo se passa como se nestes cinco autores o sentido último de Portugal, e/ou do que como tal se simboliza, não deixasse de ser o divino globo do mundo, ou a sua divina visão, revelada por Tétis a Vasco da Gama na camoniana Ilha dos Amores. Directa descendente da Esfera do Ser em Parménides, da Esfera do Amor em Empédocles e da Esfera camoniana, além de todas as tradições que figuram o divino e o incondicionado como uma Esfera infinita e omniabrangente, a Esfera Armilar acresce a essas, no entrecruzamento das suas múltiplas armilas, o símbolo da interconexão dinâmica de todos os seres e coisas, de todas as tradições e culturas, de todas as artes e saberes.


Muito antes de se tornar a divisa de D. Manuel I, conectada com o domínio imperial e territorial do mundo, é essa a maior fecundidade simbólica da Spera Mundi – Esfera e/ou Esperança do Mundo, conforme foi interpretada – que tremula na nossa bandeira, como marca disso que Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva divisam na nossa cultura: ao contrário da atitude do nacionalismo ou patriotismo comum, luso ou lusófono, sempre tendentes a resguardar-se (agressivamente) atrás de supostos e estáticos perfis identitários e a privilegiar o mesmo em relação ao outro, a cultura portuguesa e lusófona primaria pelo impulso de converter muros em pontes, fronteiras em mediações e lugares de passagem, limites em limiares, num descentramento e abertura incircunscritos ao mundo e ao universo, a todos os povos e seres, a todas as línguas, culturas, religiões e irreligiões, a todas as formas de alteridade. Como se acentua em Pessoa e Agostinho da Silva, Portugal e a Lusofonia seriam mesmo movidos por um ímpeto de ser tudo de todas as maneiras e nisso sacrificar, esquecer e perder a própria identidade, transfigurando-a divina e cosmicamente, tal um sujeito místico que só se realiza plenamente, sendo tudo quanto pode ser, quando já não é isto ou aquilo, quando não existe, quando não é nada.

Decerto que nesta visão haverá uma boa parte de idealização optimista, que projecta na nação as próprias e supremas aspirações dos autores, pois o Portugal e a comunidade lusófona que, noutras perspectivas, surgem como reais, parecem ter sido e ser bem diferentes, para o melhor e o pior. Tudo depende, como sempre, da perspectiva que condiciona e dá forma à percepção do que chamamos real. Contudo, para além de toda a deconstrução psicológica e psicanalítica possível, permanecerá qualquer coisa por esclarecer, que é o fundo obscuro que torna esta visão reiteradamente presente nalguns dos nomes mais representativos e geniais da nossa cultura. Independentemente de esta visão armilar do mundo corresponder a uma missão, vocação, potencialidade ou aspiração, creio que ela é, indubitavelmente, a visão mais fecunda que do mundo se pode ter, sobretudo se for assumida não como mera forma de autogratificação intelectual, cultural e/ou supostamente “patriótica”, como algo de já garantido e possuído de uma vez por todas, mas antes como projecto individual e colectivo a desenvolver, dádiva, tarefa e serviço a prestar a si, à nação, ao planeta e ao universo. Porque uma visão armilar do mundo é, como vimos, uma visão-experiência do mundo sob o signo da perfeição, plenitude, totalidade e infinidade, real ou possível, convidando à abertura da mente e do coração ao entrecruzamento, intersecção e interacção armilares de todos os seres e coisas – que na verdade não são, mas entre-são, como disse Pessoa - , ela não pode senão conduzir a um Abraço solidário à natureza e a todos os entes, que seja a busca de realização do seu Bem, a todos os níveis, do espiritual e cultural ao ecológico, social, económico e político, sem discriminação de raça, sexo, religião, nacionalidade ou espécie. Uma visão armilar do mundo é uma visão-experiência integral do mundo, sem cisões, exclusões ou parcialidades.

É sob a influência deste potente símbolo, a Esfera Armilar, e em busca de uma filosofia armilar como cumprimento da vocação de toda a filosofia, antes modo de vida do que mera teoria, que inicio com este livro um novo ciclo da minha produção filosófica e literária, numa natural metamorfose daquele antes iniciado sob o signo do Finisterra e do Atlântico [1], já antecipada num livro e na ficção sobre Agostinho da Silva [2] e emergente nas obras publicadas mais recentemente [3]. É também sob o signo da Esfera Armilar que publico aqui os três últimos ensaios, de carácter mais pessoal, onde os dois últimos apontam rumos concretos de acção e intervenção pública, inspirados no que designo como patriotismo trans-patriótico e universalista e consubstanciados no projecto Refundar Portugal/Outro Portugal.

E é o símbolo holístico da Esfera Armilar que - numa era celebrada como multicultural, mas ainda tão falha de uma visão real da interdependência ou do entre-ser universal de todos os seres, povos, nações, saberes e culturas - invoco como paradigma plenamente actual e contemporâneo de um destino por cumprir, de um potencial em aberto, de um chamamento urgente, vindo do mais fundo sem fundo de cada um de nós e do qual depende hoje a própria sobrevivência humana, a biodiversidade e o equilíbrio do planeta: ver e experimentar o mundo divinamente, ou seja, integralmente, sem cisões, exclusões ou parcialidades.

[1] Cf. Paulo Borges, Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001; Pensamento Atlântico. Estudos e ensaios de pensamento luso-brasileiro, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002.
[2] Id., Tempos de Ser Deus. A espiritualidade ecuménica de Agostinho da Silva, Lisboa, Âncora Editora, 2006; Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva, Lisboa, Ésquilo, 2006.
[3] Id., Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes, 2 volumes, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008; A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido (aforismos), Lisboa, Zéfiro, 2008; Da Saudade como Via de Libertação, Lisboa, Quidnovi, 2008; A Pedra, a Estátua e a Montanha. O Quinto Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008; O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, Lisboa, Portugália Editora, 2008.

Prefácio de Paulo Borges, Uma Visão Armilar do Mundo, Lisboa, Verbo, 2010.

sábado, 17 de abril de 2010

meu amor camponês

meu amor camponês
não me abandonou de vez

às vezes telefona
dos trabalhos no campo
de mondar as searas
de ervas de balanco

diz coisas sem sentido
como chuva tempestade vento
mesmo que não lhe dê ouvidos
tudo o que ela fala entendo

espalha-se pelo astro
um ácido cheiro a cio
que me entra pelas narinas
como odor de lodo em estuário de rio

entre o pólen das favas
e o rubro escandaloso das papoilas
meu amor transpira cheiros de ervas bravas
arrulha-me recados como se fosse rola

evola-se no ar até chegar a mim
quando ela telefona tolda-se a atmosfera
as manhãs parecem nunca mais ter fim
meu amor camponês é mãe da Primavera

sexta-feira, 16 de abril de 2010

FACTOGRAFIA


AGRIÕES em placas flutuantes.

Cada família em Cabo-Verde, em Timor ou Moçambique pode ter à porta de casa, na Varanda, a sua cultura anual de Agriões. As Universidades dos respectivos países podem/devem dedicar algum tempo a estudar o método de produção.

Mas eu também posso explicar, sem cobrar um cêntimo, como a coisa funciona

TÁ?
Não descures nunca a ignorância,
que ela pode servir um dia para completar a tua sabedoria

nuvem vulcânica


minúsculo
ridículo
anónimo
insignificante fogaréu

bastante para pôr em causa
a posse
lúdica do céu

negócios
inabaláveis riquezas
fantásticos concertos

tudo posto em causa
por capricho infantil
da divertida
Natureza

homem
sabe ao menos
ser gigante

como o insignificante fogaréu
que resolveu
mostrar-se na Islândia

Tempo de Chuva

Há muito que ouço a canção da chuva,
Durante o dia, noites a fio,
Pairando, suspensa, caindo como em sonhos,
Envolta num clamor eterno e sempre igual.

Assim me soou outrora no distante reino
Dos chineses a música deslizante,
Um cantar de grilo alto e sempiterno,
Mas encantador em todos os momentos.

Cair da chuva e música chinesa,
Cascata de música e bramir do mar,
Que poder é este? Que fascínio
Me arrasta pelo mundo fora?

A vossa alma é a nota eterna,
Que não conhece tempo nem mudança,
De cuja pátria há muito escapámos,
E cuja lembrança nos arde no coração.

 - Hermann Hesse

"Vivo a vida infinita"



"Vivo a vida infinita,
eterna, esplendorosa.
Sou neblina, sou ave,
Estrela, Azul sem fim,
Só porque, um dia, tu,
Mulher misteriosa,
Por acaso, talvez,
Olhaste para mim"

- Teixeira de Pascoaes, "Elegia do Amor".

quinta-feira, 15 de abril de 2010




“Vê minha vida à luz da protecção,
que dás disposta a dar-se por amor
e quando a mãe te deu à luz com dor,
o espírito adensou-se nela então
o mesmo que em espigas pelo verão,
a negra fronte bela foi compor,
de Inverno em voz amarga acusador,
a cuja vista as lágrimas virão.

Meu amor em teu corpo se cinzela
e dele os outros seres recebem vida
perante ti criança os que da ferida,
sangram exposta ao mundo que flagela.

A mim foste mais bálsamo porém
do que as curas balsâmicas que tem.”

Walter Benjamin, Vê Minha Vida à Luz da Protecção
Não te aconselhes perante os deuses; que a galinha olha para o céu e também chora

Ninguém faz falar o silêncio, assim como ninguém cala uma velha

O silêncio queima; e as feridas não mentem

Os homens de verdade nascem da terra e morrem no ventre de uma mulher

abdicar da procura (que fazer?)

mas não da luta (que é o que nos resta). 'é preciso saber que não existe finalidade no universo. ele é como é , como se produz e como aparece, não tem razão nem finalidade.)'
a nossa luta é inglória. mas já que estamos aqui...

"Quando fazes alguma coisa, deves consumir-te por completo, como um bom fogo-de-artifício, sem deixares vestígios de ti próprio."

 - Shunryu Suzuki

"Que há dentro deste ser, que não tem limites?"

"Que há dentro deste ser, que não tem limites? Que há dentro deste ser de real e verdadeiro? Cada um assume proporções temerosas. Caem lá dentro palavras, sentimentos, sonho - é um poço sem fundo, que vai até à raiz da vida. À superfície todos nós nos conhecemos. Depois há outra camada, outra depois. Depois um bafo. Ninguém sabe do que é capaz, ninguém se conhece a si próprio, quanto mais aos outros, e só à superfície ou lá para muito fundo é que nos tocamos todos como as árvores de uma floresta - no céu e no interior da terra"

- Raul Brandão, "Húmus".

"Nós outros todos"

"Nós outros todos, que vivemos animais com mais ou menos complexidade, atravessamos o palco como figurantes que não falam, contentes da solenidade vaidosa do trajecto. Cães e homens, gatos e heróis, pulgas e génios, brincamos a existir, sem pensar nisso (que os melhores pensam só em pensar) sob o grande sossego das estrelas"

- Bernardo Soares, "Livro do Desassossego".

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Assaz

Harold Ortiz Sandova


Tudo o que precede esquecer. Eu não posso muito ao mesmo tempo. Isso deixa à caneta o tempo de anotar. Eu não a vejo mas ouço-a lá em baixo atrás. É o silêncio. Quando ela pára eu continuo. Demasiado silêncio não posso. Ou é a minha voz demasiado fraca por momentos. A que sai de mim. Eis pela arte e o modo.


Excerto de Assaz in Textos para nada | Samuel Beckett
1.ª Edição. Lisboa. Publicações Dom Quixote

segunda-feira, 12 de abril de 2010

questões sem razão

extintas as touradas extingue-se a raça de touros bravos?

sem barbárie quem nos defende?

fazemos manifestações para impor a verdade?

todos vegetarianos não será um desequilibrio?

as organizações e religiões são contra a liberdade?

os animais sofrem mais do que nós no regime capitalista?

centenas não são milhares (+ de dez)?
Penso-te como o homem de asas a calcular o chão,
o pescador a recolher memórias das brumas,
na equitação das aves sobre o tempo doutro tempo

Penso-te com as duas mãos a começar o amor,
na respiração dos vulcões que sonham os dias pela calada,
nos pedaços de trigo que levo à boca

Penso-te em abril junho e dezembro,
na casa com a lua cheia por cima,
ao nascer da ninhada de gatos

Penso-te de pulso firme à tatuador
neste primeiro andar do beliche
neste pouco que sou
mas que não faz mal
porque penso-te como pensa o cego
a ler o rosto de uma mulher cega

Discurso final na Marcha pelos Animais de 10 de Abril - II

Discurso final na Marcha pelos Animais de 10 de Abril - I

Convite:


Terceira sessão de apresentação do livro VOZES DO PENSAMENTO, de Isabel Rosete, 18/04/2010 (Domingo), a partir das 21.30h, no DECANTE-BAR, em AVEIRO

Aguardo a vossa presença e participação, que muito me honrará, para mais uma encenação da Poesia, ao som do piano de Rui Pereira, num acolhedor porto de honra. Este convite é extensível a todos os vossos familiares e amigos.
Para mais informações: http://isabelrosetevozes.blogspot.com



Bem-hajam,

Isabel Rosete
Doce é o momento quando me esqueço
Floresce o campo na Primavera
Abunda a neve no cimo da montanha
Canta o rouxinol no bosque
E o dia cede lugar à noite gentilmente

Como o poema que nasce em cada estrofe
Morrendo abro caminho à vida

domingo, 11 de abril de 2010

Carta ao Director do "Público" sobre a mentira acerca da Marcha pelos Animais de 10 de Abril




Exmº Sr. Director

Tinha 14 anos em 25 de Abril de 1974 e saí à rua com o mesmo entusiasmo de milhões de portugueses para saudar a restauração das liberdades fundamentais dos cidadãos, entre as quais a liberdade de imprensa. Depois disso desiludi-me com a política convencional, a meu ver demasiado estreita, e dediquei-me sobretudo à docência universitária. Há cerca de um ano faço parte da Comissão Coordenadora do Partido Pelos Animais e foi nessa qualidade que apoiei a Marcha pelos Animais, em 10 de Abril, e que fui entrevistado pelo vosso jornal. Lendo a afirmação do jornalista de que "centenas" de pessoas estiveram presentes, não posso reprimir a minha indignação: como podem "centenas" de pessoas, em filas de cerca de dez, encher completamente o percurso do Saldanha ao Marquês de Pombal, dar a volta a esta Praça e entrar ainda na Rua Braancamp, como muitas fotos e videos documentam? Como pode alguém reduzir a "centenas" as 3000 pessoas que, no mínimo, estiveram presentes?

A minha indignação é tanto maior quando vejo o "Público", cuja qualidade prezo, fazer coro com outros jornais de qualidade muito inferior e ficar atrás dos canais televisivos, que deturparam ligeiramente menos a realidade, falando de "mil" pessoas...

Compreende-se que os órgãos de comunicação social não estejam interessados nos animais, que felizmente não lêem jornais nem vêem televisão, como se compreende que o poder e as forças políticas não se interessem por quem não vota e é apenas vítima passiva e silenciosa de todo o tipo de maus-tratos e abusos. Não se compreende é que os media tenham o despudor de insultar com tamanha mentira o crescente número de cidadãos que se erguem para dar voz a quem não a tem e que colocam a defesa dos direitos dos animais como condição para uma sociedade humana melhor e mais evoluída. Assim o comprova, além dos milhares de pessoas que saíram à rua no dia 10 de Abril, a recente entrega de uma petição contra a criação de uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura, de que sou primeiro subscritor, e que obteve 8200 assinaturas em menos de dois meses.

Sinceramente, Sr. Director, não foi para isto que a liberdade de imprensa foi restaurada em Portugal! Tenho hoje 50 anos e sinto o meu entusiasmo adolescente traído por ver a liberdade de imprensa convertida em liberdade de manipular a opinião pública. Não esperava era ver o "Público" ir tão despudoradamente neste rumo...

Paulo Borges
(Professor na Universidade de Lisboa)

Sucesso absoluto! 10 de Abril: um dia histórico para a causa animal em Portugal




Sucesso absoluto! 3 a 4000 pessoas na rua em defesa dos direitos dos animais! Antero de Quental, Sampaio Bruno, Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoaes e Agostinho da Silva teriam estado lá. Surge em Portugal um novo dinamismo social e uma alternativa que coloca os direitos dos animais e o equilíbrio ecológico no centro da construção de uma sociedade humana melhor e mais evoluída. 80% de jovens: a causa do presente e do futuro!
Enganei-me no verbo. Um verso bem feito deve ser todo refeito. Feito e refeito.
Antes que eu tivesse tempo de apagar e reescrever o sentimento, a verdade mostrou-me que todo o verso estava no avesso. Quem não conhece não sofre.


Faz um par de anos que estou à porta do Paraíso.

Dizia-se que uns merecem mais, outros que quase não merecem nada e por fim existem uns outros tantos que não deveriam merecer mesmo nada, mas o universo é generoso e fá-los acreditar que até a miséria é um bem a ser apreciado.
Estes últimos fazem-me lembrar aquelas meninas nos bailes de escola, que ficam sempre sentadas sabendo desde o primeiro momento que nunca serão convidadas para dançar.

Ainda agora cedi o meu lugar a dois amigos que mostraram pressa em entrar. Assustei-me com a voracidade dos dois. Esse querer tão claro contrasta com a ausência do meu.

Sou como as meninas do baile que passam a noite sentadas.
Na sala há suor. Na cadeira a vontade de suar.

sábado, 10 de abril de 2010

É Hoje! 14h, Campo Pequeno.

O PPA entrega na Assembleia da República a petição contra a criação de uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura



O Partido Pelos Animais entrega a petição contra a criação de uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura, com mais de 8200 assinaturas em menos de 2 meses. Um novo paradigma surge na política nacional: não é pensável uma sociedade humana evoluída sem respeito pelo meio ambiente e por todas as formas de vida senciente. A petição continua aberta para que assinem e divulguem. E Hoje é o grande dia: 14 h, Campo Pequeno, Marcha-Protesto pelos Animais.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

um parto eterno



Para quando?
Não sei se a clarividência (todas as formas de cegueira mental se querem as mais excelsas formas de clarividência).
Mas para quando o reconhecimento do que há aquém e além do egotismo?
Ou seja: até quando andaremos a desgraçar o que sem Graça não chegaria a existir?
Por todo o lado, poluição mental. Para quando a chegada à vida?
«Vindos de longe chegámos à vida! Vindos de aqui, chegámos cá!»
Um «aqui» não exclusivista, onde não se entra, nem de onde se sai.
Mas é imperioso contarmos os botões de quem chega, de quem parte, de quem está. A brancura da camisa não é maculada pelo negrume que há dentro das frestas de invejar que se abrem do lado de cá dos olhos das gentes.
E depois?
Depois… morrem as vacas e nem cá ficam os bois.
A coisa demoniocósmica vem apetrechada com autoclismo de sifão. Ou de cifrão, tanto faz.
«Com a agência Pinheiro desfaz-se de si por pouco dinheiro, a diferença está no caixão»
“É de cor que hoje como outrora os filósofos pensam segundo o preceito platónico: «com a alma inteira». Simplesmente como as almas estão acanhadas pelas espessas paredes dos corpos mais densos, pensar com a alma inteira tem pouco resultado.” (José Marinho, Aforismos sobre o que mais importa).
Os sapateiros de outrora sabiam que até os sapatos tinham alma. Coisa difícil de apreender na era dos sneekers.
E se, à semelhança dos antigos sapateiros, víssemos os problemas a partir de dentro? Primeiro, os sapatos eram feitos a partir das características dos pés do cliente. Depois eram obrigados a adaptarem-se aos pés.
«Quem quer casar com a Carochinha?!»
E se a nossa alma não agradar ao João Ratão? Ou não puder aceitar a ideia de o ver no caldeirão? Todos os João Ratão acabarão no caldeirão. Rima e com razão.
E quem é que se cura dos devaneios da Razão Pura?
O melhor é deixar em paz a Razão. Tudo o que vem com ‘R’ grande é estranho.
Deus, por exemplo.
O melhor é vivê-lo com ‘r’ pequeno - «ratus sum ratus es ratus est ratī sumus ratī estis ratī sunt»
Mas o rateio da dívida da Grécia parece que será sempre com ‘R’ grande.
O caro leitor fica esclarecido: fique-se pelo vídeo da Chavela Vargas.

A BAUDELAIRE



O Estrangeiro

"Quem amas mais, homem enigmático, anda? Teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Teus amigos?
- Utilizas uma palavra cujo sentido me é até hoje desconhecido.
- Tua pátria?
- Ignoro em que latitude ela se situa.
- A beleza?
- Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.
- O ouro?
- Odeio-o como odeias Deus.
- Ora! Que amas então, extraordinário estrangeiro?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam... lá longe... lá longe... as maravilhosas nuvens!"
É branca a pele do poema
assim como os sonhos
que nele nos fazem jazer


É santa a mãe-poesia
que amamenta com ternura
cada poeta que nasce
cada poeta que morre
nos braços de uma palavra

FIGURAS DE ESTILO


(para BAAL)

não sou especialista, também por isso não sei bem
a diferença
entre metáfora e eufemismo

no caso "Corrupção"
arriscaria "metáfora" para "luvas"

chamar "robalos"
a um "Mercêdes" último modêlo
não hesitaria em classificar
de "eufemismo"

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Cursos Livres na Associação Agostinho da Silva

Caros Amigos, começa já na próxima 2ª feira, dia 12, um Curso de Introdução ao Pensamento de Agostinho da Silva, dado por vários membros da Direcção da Associação Agostinho da Silva e investigadores da sua obra. No dia 21 começa outro curso, dado por mim, Uma Visão Armilar do Mundo: a vocação universal de Portugal em Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva, baseado no livro com o mesmo título, que acabo de publicar.
Sempre ao fim da tarde, na Rua do Jasmim, 11, ao Princípe Real, em Lisboa.
Caso queiram participar convém fazerem desde já a inscrição. Podem obter todas as informações na página da AAS: www.agostinhodasilva.pt

Saudações agostinianas

Paulo Borges

terça-feira, 6 de abril de 2010

Serpente emplumada

I

A serpente emplumada
vive na caverna
e, no ar plúmbeo,
pulveriza com um silvo
a pulseira de silêncio

E compõe a jarra
num arranjo:
destaca uma pluma de
pavão no conjunto floral

II

Em plena noite cerrada
semi-cerrados os olhos
de serra em serra na sombra

Em plena montanha pétala
passo a passo até aos píncaros
perfeitamente perdida

Em plena nuvem ebúrnea
enrolada subterrânea
sombra a sombra entre címbalos

Em pleno, implementada
na planta dos pés fincados
n’água da cascata cúbica

III

Pertenço a uma espécie rastejante
mas o solo que raso é o mais limpo:
as asas recolhidas no meu dorso
marfilíneo, a marginar um ovo mágico

Pertenço a uma espécie delirante
com lírios nos cabelos de corsário
e livros de leitura muito bíblica
e laivos de lisérgica pesquisa

Pertenço a uma espécie de poeta
emplumada d’impulsos e de pedra

IV

Plumas de papel
escrito dos dois lados
com profundas rasuras
que atravessam os poros

Plumas que semeiam
um jardim de pombos
a florir planctôn
na flotilha dos teus ombros

Plumas perpétuas:
buganvílias
em antigas telefonias
a ecoar bigornas

Plumas, palácios
de causas de carvão
calculadas nos mínimos
pormenores de som

V

Pedra polida na
superfície branca
pela aresta viva
de faca almofadada

Pedra perfeita na
cavidade negra
completamente em
brasa estereofónica

Pedra de pranto, pedra
de precipício cristalino
aonde se amarinha
em caso d‘erro próprio

Ritual análogo / António Barahona; extratextos de Catarina Baleiras.
1.ª edição. Lisboa: Rolim, 1986. pp. 34-38

O que liberta os escravos escraviza os livres.

CURSO DE INTRODUÇÃO ÀS GRANDES RELIGIÕES (entrada livre)

Programa

7 de Abril - Hinduismo
Saroj Parshotam

14 de Abril - Budismo
Paulo Borges

28 de Abril - Judaismo
Alan Hyat

5 de Maio - Cristianismo
Fr. Bento Domingues

12 de Maio - Islamismo
Sheik David Munir

19 de Maio - Fé Bahá’i
Ivone Félix Correia

Das 18,30 às 20,00h

Contactos: Manuel Lancastre: 91.450.5775 / luisa.lancastre@gmail.com

Centro Nacional de Cultura

Rua António Maria Cardoso, 68, ao Chiado (Lisboa)

ENTRADA LIVRE
...

O diálogo entre culturas e religiões é reconhecidamente um dos grandes desafios do mundo actual e das nossas sociedades multiculturais e multi-religiosas, dependendo dele que a globalização económica e tecnocientífica se acompanhe da promoção de uma cultura da compreensão, da paz e da fraternidade à escala planetária.

Verifica-se, todavia, que tradicionalmente as grandes tradições religiosas não privilegiaram o conhecimento mútuo e o diálogo entre si, não acompanhando as mutações sociais e mentais nem os progressos de disciplinas como a História, a Filosofia e as Ciências das Religiões, que parecem mostrar que as religiões não surgem e não existem como entidades independentes e separadas, participando antes de uma profunda interacção que faz com que o aprofundamento do conhecimento de uma implique o conhecimento de outras.

Esta situação reflecte-se nos encontros inter-religiosos, onde – apesar da boa vontade dos intervenientes, que dão o passo extremamente positivo de se juntarem para se ouvirem – se sente que há ainda um grande desconhecimento da religião que cada um professa e pratica, o que torna difícil aprofundar o diálogo e a compreensão mútua. Isto torna-se particularmente sensível em Portugal, onde, por vários motivos e em contraste com a nossa experiência histórica, não tem havido um grande investimento no conhecimento da diversidade cultural e religiosa do mundo.

Por estas razões tomámos a iniciativa de realizar um Curso de Introdução às Grandes Religiões, onde responsáveis e praticantes das seis grandes tradições religiosas exponham os fundamentos históricos, espirituais e doutrinais das vias religiosas que seguem e as suas singularidades mais salientes. Pretende-se com isto dar a conhecer as grandes religiões, não só naquilo que as faz convergir, mas também naquilo que as diferencia, sem que as separe.

Cremos ser urgente ultrapassar o medo e o incómodo de nos confrontarmos com a diferença no plano religioso e ser apenas o conhecimento das diferenças que permite compreender, aceitar e respeitar plenamente o outro como outro, além de nos permitir esclarecer e aprofundar mais o sentido das nossas próprias experiências e opções espirituais e religiosas. Cremos ser a partir de um sólido conhecimento dos fundamentos da diversidade religiosa que se torna possível estabelecer a base de um verdadeiro diálogo inter-religioso e reconhecer o que afinal não deixa de unir as religiões e fazer delas os ingredientes da maravilhosa polifonia do humano na busca e no encontro do divino ou inefável.

A Comissão Organizadora

Saroj Parshotam (Comunidade Hindu de Portugal)
Paulo Borges (União Budista Portuguesa)
José Carp (Comunidade Israelita de Lisboa)
Manuel Lancastre (Comunidade Mundial de Meditação Cristã)
Sheik David Munir (Comunidade Islâmica de Lisboa)
Ivone Félix Correia (Comunidade Bahá’i de Portugal)

Uma iniciativa com o apoio da revista Cultura ENTRE Culturas:
arevistaentre.blogspot.com
Vinde a mim com coragem, atirai-me toda a vossa cólera,
fome, desgraças, doenças raras e outras negações
Atirem-me para o lado mais negro da vida
e soltem os caninos a sorrir
Atirem-me à cara a Língua Portuguesa,
a gramática inteira, enciclopédias, S. Ciprianos,
e que o poema me saia num vómito
e a minha alma se magnifique com o estrondo!

Ó palavras minhas, como vos hei-de entender
se eu próprio me perdi na origem?

Ó palavras humanas, tão cheias de carne,
como pegar na caneta sem me aterrorizar?

Sempre ouvi dizer que o poema tem de sofrer
que em cada verso o chão treme e sisma em enlouquecer
por isso abram portas às colmeias quando eu por lá passar!

Fazer um poema como se faz um filho à mulher amada
diante do altar não é pecado; já muitos me vieram contar
...mas a mim falta-me o à-vontade.

A inspiração é um redemoinho sempre ligado à cabeça,
torna-nos loucos,
a ganhar ramagem entre os dentes e os dedos.

Pergunto: como fazer um poema sem perder a erecção?
Como dizer ao mundo que sou poeta se nunca chupei a teta à poesia?

Ó palavras altas, tesas, ardentes, vinde com trinta olhos,
trinta sóis apontados,
tenho o compromisso de terminar este poema
a minha morte é já acolá
E ainda tenho uma estrela para devorar
Preciso de escurecer,
tenho pássaros e peixes algures entre os rins e o coração,
que, se lhes faltar o pasto, ó meu deus,
se lhes faltar o pasto,
ficarei entregue e exposto ao mundo das coisas,
apostando tudo numa última reza.

domingo, 4 de abril de 2010

múltiplo cheiro


A Sol a Primavera a Páscoa a Van- Gogh
Se a minha Alma falasse

Não se entenderia com a linguagem dos Homens,

Cegos e surdos,

Em veredas (des)amparados.



Pedaços de mim lançam-se por esse Mundo incógnito,

Soltos,

Completamente soltos

Como se o puzzle a que um dia pertenceram

Se tivesse desfeito, para sempre,

Na anarquia caótica dessas gentes que escondem

Os sorrisos de gratidão,

As lágrimas de felicidade,

Os aplausos, a um só ritmo,

Que não soam mais nos timbres da harmonia

Dos tambores da Paz e da Justiça

Que, outrora, me consolavam a Alma,

Viandante,

Que parte e fica num mesmo lugar,

Num outro e mesmo lugar qualquer,

Algures perdido na imensidão do Universo.



Ah, se encontrasse, um dia, esse meu topos,

Esse lugar natural que me foi destinado,

Esse espaço só do Tempo e só do Espaço,

Apenas para mim guardo,

Só para mim colhido e não para mais ninguém!



Mas a podridão dos sentires putrefactos

Sempre se eleva,

Sempre fala mais alto

Pelas aquelas vozes ignóbeis

Da maledicência propositada.



Isabel Rosete

PÁSCOA



"Minha aldeia na Páscoa...
Infância, mês de Abril!
Manhã primaveril!
A velha igreja.

Entre as árvores alveja,
Alegre e rumorosa
De povo, luzes, flores...
E, na penumbra dos altares cor-de-rosa .

Rasgados pelo sol os negros véus.
Parece até sorrir a Virgem-Mãe das Dores.
Ressurreição de Deus!

Em pleno azul, erguida
Entre a verde folhagem das uveiras.
Rebrilha a cruz de prata florescida...
Na igreja antiga a rir seu branco riso de cal.

Ébrias de cor, tremulam as bandeiras...
Vede! Jesus lá vai, ao sol de Portugal!
Ei-lo que entra contente nos casais;
E, com amor, visita as rústicas choupanas.

É ele, esse que trouxe aos míseros mortais
As grandes alegrias sobre-humanas.

Lá vai, lá vai, por íngremes caminhos!
Linda manhã, canções de passarinhos!
A campainha toca: Aleluia! Aleluia!

Velhos trabalhadores, por quem sofreu Jesus.
E mães, acalentando os filhos no regaço.

Esperam o COMPASSO...
E, ajoelhando com séria devoção.
Beijam os pés da Cruz."

Teixeira de Pascoaes

sábado, 3 de abril de 2010

LÍNGUAS


gaviota ou gaivota?
as letras são as mesmas

espanhóis ou
portugueses
quem?

sem saber voar
lhe trocou
(cortou?)
impiedoso as asas?

as letras são as mesmas

12 Razões pelas quais vou à Marcha-Protesto contra a tauromaquia e todos os maus-tratos aos animais, 10 de Abril, às 14h, no Campo Pequeno



12 Razões pelas quais vou participar na Marcha-Protesto contra a tauromaquia e todos os maus-tratos aos animais, no próximo dia 10 de Abril, pelas 14 h, com início no Campo Pequeno

No dia 10 de Abril vou sair à rua porque:

1. Sinto ser fundamental dever de todo o ser humano ser solidário com todos os seres sencientes, em especial os que mais sofrem e os mais indefesos, humanos ou não-humanos.

2. Considero o especismo - a discriminação, opressão e instrumentalização de seres de espécie diferente - tão repugnante e injustificável como o racismo, o esclavagismo e o sexismo. E estou farto de viver num mundo onde se considera normal que um número imenso de seres, iguais a mim na capacidade de sentirem dor, prazer e emoções, seja quotidiana, sistemática e desnecessariamente sacrificado para a alimentação, o vestuário e o divertimento cruel dos humanos. Estou farto de viver num mundo de holocausto encoberto e silenciado.

3. Considero que a luta pela libertação dos animais é inseparável da luta pela libertação dos homens de todas as formas de opressão e exploração e que podem e devem ser travadas em simultâneo.

4. Considero que lutar pelos direitos dos animais torna os homens melhores, mais conscientes, sensíveis e generosos, individual e colectivamente.

5. Considero que maltratar os animais ofende não só as vítimas mas também os agressores, no mínimo degradando-os enquanto seres humanos. Conforme vários estudos demonstram, violentar os animais predispõe para violentar os humanos. Saio portanto à rua pelo bem de todos, vítimas e agressores, num espírito não-violento.

6. Quero melhorar o meu país e o mundo e lutar para que em Portugal os animais deixem de ser considerados objectos pelo Código Civil. Quero que o seu direito à vida e ao bem-estar seja reconhecido pela lei e que os atentados contra eles sejam efectivamente punidos.

7. Estou farto de viver num país onde, havendo tantas causas nobres e urgentes pelas quais lutar, humanitárias, animalistas e ecológicas, só vejo as multidões moverem-se para encher centros comerciais, estádios de futebol e ouvirem candidatos políticos que, mal eleitos, fazem precisamente o contrário do que prometeram. E estou farto de ver outras multidões aparvalharem-se em frente a programas de televisão medíocres ou distraírem-se das necessidades alheias com prazeres egoístas.

8. Estou farto de viver num país onde todos criticam tudo, mas poucos tomam a iniciativa de serem a diferença que desejam para o mundo. E respeito mas não aceito justificações espirituais e intelectuais para não se agir também no exterior, como se interior e exterior, ou conhecimento e acção, estivessem separados.

9. Acho inadmissível, enquanto cidadão, professor, escritor e agente cultural, que a tauromaquia seja promovida no Conselho Nacional de Cultura, com o dinheiro dos contribuintes, só porque a actual ministra é uma aficionada e leva os seus perniciosos gostos pessoais, bem como os interesses de um lobby minoritário, contrários à sensibilidade da maioria da população, para o exercício de um alto cargo público. Acho escandaloso e um autêntico insulto que a arte de torturar seres pacíficos e indefesos seja equiparada à actividade de todos aqueles que promovem a evolução das mentalidades criando beleza e aumentando a inteligibilidade do mundo.

10. Aprendi com Buda, São Francisco de Assis, Antero de Quental, Gandhi, Agostinho da Silva e o XIV Dalai Lama, entre muitos outros, que todos os seres são igualmente dignos de amor e compaixão e, também como membro e representante da União Budista Portuguesa, da Associação Agostinho da Silva, do Movimento Outro Portugal e do Partido pelos Animais, quero ser fiel ao que tão ilustres mestres e professores me ensinaram.

11. Reconheço a minha imperfeição e quero tornar-me um ser humano melhor, sabendo que não basta vir um dia para a rua, mas que isso é um testemunho fundamental para que o poder político, os órgãos de comunicação social e a opinião pública saibam que há quem não se conforme e que as vítimas mudas e indefesas têm uma voz que as defende.

12. Saio à rua no dia 10 de Abril porque estou farto de viver num país e num mundo dominados por todos os tipos de lobbies, à excepção de um, que quero ajudar a criar: o lobby da consciência ética, da sensibilidade, do amor e da compaixão, que nos faça decidir sempre em prol do bem comum de todos os seres e do equilíbrio ecológico. E saio à rua no dia 10 de Abril porque sei que estas e/ou outras são as tuas razões, amiga/amigo leitor(a), e que lá te encontrarei para caminharmos lado a lado por um mundo melhor para todos, humanos e não-humanos.

Paulo Borges
Lisboa, 3 de Abril de 2010
A realidade não é o que é ; Os verdadeiros Homens nascem, crescem e morrem nos livros.

Boa Páscoa/Passagem! Boa Morte-Ressurreição!

Boa Páscoa, ou seja, Passagem do Mar Vermelho da ignorância, conceitos e emoções dualistas para a Terra Prometida do Despertar! Boa Morte e Ressurreição! Morte e Ressurreição no que para além de espaço-tempo, em todos os espaços e tempos, desde sempre e para sempre, com todos os seres sencientes, somos!

Uma questão de cultura (ainda a tauromaquia)

A cultura é o mecanismo que nos permite, enquanto espécie, evoluir para lá do lento e aleatório processo da evolução natural. A cultura é também aquilo que, a cada momento, gera o ambiente civilizacional no qual uma determinada comunidade opera. Nessa medida, estando nós globalmente na era da sociedade da informação, muitos grupos humanos continuam a viver na Idade Média ou nos primeiros tempos da modernidade. Basta pensar nos campos de refugiados, nas áreas de grande pobreza e carências de toda a espécie ou nos que vivem sob regimes de base tribal ou assentes no despotismo. E até há quem - caso de algumas remotas tribos da Amazónia -, se mantenha no muito longínquo neolítico.

Mas estes desfasamentos não sucedem só em agrupamentos humanos que, por qualquer motivo, foram marginalizados do processo histórico. No interior da era coabitam outras eras. No tempo presente coexistem tempos passados. Certos rituais, tradições e comportamentos primitivos, apesar de claramente anacrónicos, persistem nas nossas sociedades desenvolvidas. É o caso exemplar das touradas.

Só na aparência se trata de um tema polémico. Na verdade, não há nenhuma polémica, nem nada digno de debate. O assunto é claro e evidente para toda a gente. Trata-se de um ritual retrógrado que não faz qualquer sentido, nem tem nenhuma justificação, na sociedade contemporânea. Recorde-se que já D. Maria II, em meados do século XIX, decretou a sua proibição por considerar "que as corridas de touros são um divertimento bárbaro impróprio de Nações civilizadas". Pelo menos há dois séculos que as touradas são um sinal de atraso e incivilização.

Todas as pseudo discussões sobre a preservação dos touros, se estes sentem dor ou não, a importância económica da atividade, a defesa da tradição, etc., nada acrescentam ao essencial e cristalino. A tourada é um espetáculo selvagem e criminoso. Ponto final parágrafo.

Muitas outras tradições têm sido abandonadas por serem indignas da condição do homem atual. Caminhamos para o reconhecimento dos direitos dos animais. Caminhamos para uma maior consciência da partilha do planeta com outras formas de vida. Caminhamos até para um sentido de cooperação e não de exploração e extermínio das outras espécies e da própria natureza. Os anacronismos que ainda persistem combatem-se com leis civilizadoras assentes, precisamente, na evolução e consenso cultural. Ou seja, a cultura, em sentido lato e específico nas suas várias vertentes humanizadoras, tem nestes assuntos um papel decisivo. É através dela que se promove o esclarecimento, a educação e uma visão mais avançada sobre o tempo em que nos foi dado viver. A cultura não é isenta, nem irresponsável. Estamos todos implicados.

Ora essa responsabilidade não pode deixar de estar presente a nível governativo. Do Ministério da Cultura espera-se um claro empenhamento na modernização geral do País e dos cidadãos. A par do desenvolvimento das novas tecnologias e novas aptidões, com grande incidência nos planos tecnológicos e nos programas dos Ministérios da Ciência e da Economia, seria de esperar uma participação não menos ativa do Ministério da Cultura na qualificação civilizacional dos portugueses. Ora, infelizmente, não é isso que se passa. Portugal não tem tido nenhuma sorte com os sucessivos ministros da cultura.

Ao incluir uma secção especializada dedicada à tauromaquia no recém criado e pomposo Conselho Nacional da Cultura, a Ministra Gabriela Canavilhas mostra, desgraçadamente, que ainda não é desta que temos à frente do ministério alguém que já viva no século XXI. Em vez de contribuir para a evolução positiva do País, com este gesto incongruente a ministra envia sinais de atavismo e tradicionalismo que só podem reforçar ainda mais o nosso atraso.

Não cabe exigir demissões. Esta gente passa e só deixa um rasto de irrelevância. Mas fica claro que continuamos a nada poder esperar de um ministério que devia dar o exemplo e ajudar a melhorar o nível cultural dos portugueses. A cultura, a verdadeira, continuará a ser desenvolvida noutros lugares.

- Leonel Moura, Jornal de Negócios Online, 26 de Março de 2010

Ressurreição


A flor na mente é uma flor

Coisa pretérita e catalogada

Quando nunca houve flor

Mas infinitude desabrochada