O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 30 de março de 2010

curso do rio Homem



"Amas
como pudesses mudar o curso do mundo,
como pudesses alterar as razões da vida,
como pudesses mudar o curso do largo rio
com uma simples colher...

E ninguém te avisa ou te pergunta:
onde vais com essa peça de talher?!

Amas,
e amas tanto,
que sensibilizas quem te vê cavando,
assim,
tão entretida,
tão meiga e faceira,
como quem cavasse para plantar uma roseira...

Mas queres mudar o curso do rio!
E ninguém há que ao menos te dissesse, tão somente,
que,
se esperança quisesses ter,
talvez devesses tentar na nascente...

Não podes mudar o riacho que já se fez,
o rio que já se avolumou!
Eis o que é amar - remudar o curso que a vida
tantas vezes já mudou...

Mas,
sensibiliza-me tanto,
ver-te tentar,
que talvez,
deva eu pegar minha perdida colher
e cavar bem fundo em mim - p'ra te ajudar!"

O curso do rio, de Marcelo Souza Bandeira
Foto: Rio Homem, de António R. Dias

quântico

companheiro
amigo
camarada

somos um ridículo
grão có(s)mico
de nada

Quanto mais de perto olhamos para uma palavra, tanto mais de longe ela nos devolve o olhar"

- Karl Kraus, Pro domo et mundo, Munique, 1912.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Saudade

Tudo se perde para o reencontro.
Como te escrever com a luz viva dos faroleiros
se ainda ontem me despenhei contra o tempo

como acreditar no ar que toco
se celebro todas as coisas num só delírio

se agisse numa força eléctrica dentro do que sou
perguntar-te-ia: por que escutas (n)o silêncio?
e tu dirias: para entender melhor tuas palavras

Trecho do Rio Lima




“Lima! Mal sabes como em mim influi
tua paisagem doce, azul e calma…
mal sabes como nela se dilui
e a si reflui depois a minha Alma.

Ambição, glória vã … teu curso exclui.
Entre milénios, o ódio não te encalma …
O vingador sem lei que d’antes fui
o teu sereno rumo em mim acalma.

A Vida, até aqui amarescente,
branda e suave em teu redor desliza
com amoroso, promissório brilho.

Meus campos, tua água fertiliza …
Que de ti surja aquela moça ardente
que em flor me dê na Primavera um filho!"

poema: A influência do lima,
em (http://vieiralisboa.blogspot.com/search/label/Poesia)

Foto: António R. Dias

Páscoa

Venha compassivamente sem piedade
feliz no sem idade da saudade
a lúcida melancolia do inadiável viver
verter doces suspiros sobre o entardecer.

sexta-feira, 26 de março de 2010

FIM

dona Emília
resolveu desexistir

foi enterrada
em manhã de chuva ininterrupta

mais do que inumada
dona Emília
como árvore de fruto
foi plantada

ninguém espere é que ela
com o rebentar da
Primavera

venha a dar
cerejas ou
goiaba
Quando acordas, os peixes regressam às águas,
as aves aos céus, os livros às prateleiras e
as árvores ficam paradas. Acordar tem esse quê

NÃO CONFUNDIR


Caminho de mudança
com
mudança de caminho

Da morte como única novidade radical para muita gente

"Para as pessoas, tal como se apresentam hoje, existe apenas uma novidade radical, que é sempre a mesma: a morte"

- Walter Benjamin

ermelo



…”E os frades negros nidificaram ali. Fundaram mosteiros, foram senhores de verdadeiros latifúndios e praças. Radicando e mantendo o culto do padroeiro.

E assim o povo instituiu o seu santo curandeiro para todos os « males ruins »,
mas com especialidades curativas para essas incómodas excrescências na pele das mãos denominadas “cravos”. Constando que estes, nascem nas mãos de quem aponta e conta as estrelas da noite.

Em paga da tutela o santo paga-se em ovos e cravos. Às mulheres lhes reservam exclusivamente, os cravos de cor vermelha e aos homens os de cor branca. Quanto aos ovos, as contas são também rituais: sempre três e seus múltiplos, seis, nove ou uma dúzia conforme a promessa ou a generosidade do “milagre” recebido.

Mas a caminhada até ao santo é dura e é de preceito fazê-la pelos velhos caminhos, tal como a fizeram já os pais, avós e os que geraram a esses….

Assim, partindo dos Arcos: os romeiros sobem a costeira chegando ao Alto de Murelhões, em direcção do Lugar do Castanheiro, Calçada do Prova, Caltada, Nossa Senhora da Luz, Senhora dos Milagres, Gração, descendo a volta do rio Lima, por Vilarinho até ao Ermelo.

E é preciso ser bom caminheiro!

Há que chegar lá, fazer a romaria: dar as voltinhas prometidas (três, cinco, sete , nove, sempre em número ímpar) à volta da capela e da direita para a esquerda.

…mas, tudo isto, terá de ser executado antes do nascer do sol!...”


em: http://ccavaldevez.blog.com/

quinta-feira, 25 de março de 2010

ENTRE! Torne-se assinante e viabilize uma revista-ponte ENTRE todas as coisas (a sair no início de Abril)





Apoie e ajude a viabilizar o projecto de uma revista de qualidade destinada a fazer pontes e mediações entre culturas, saberes e tradições. Torne-se assinante.

Assinaturas (pedidos à editora) 1 Ano / 2 Anos Portugal: € 30.00 / € 55.00; Europa: € 35.00 / € 65.00; Extra-Europa: € 40.00 / € 75.00.
Pagamento: cheque ou transferência bancária

Âncora Editora - Avenida Infante Santo 52 - 3º esq. 1350-179 Lisboa
tel + 351 213 951 223 fax + 351 213 951 222
e-mail ancora.editora@ancora-editora.pt
web http://www.ancora-editora.pt

Tema do número 1: Que diálogo entre culturas?
Tema do número 2: Fernando Pessoa; Encontro Ocidente/Oriente

Direcção: Paulo Borges
Comissão de Honra: François Jullien / Hans Küng / Jean-Yves Leloup / Raimon Pannikar / Matthieu Ricard / Agostinho da Silva (In Memoriam)
Conselho de Direcção:
Pe. Anselmo Borges
Constança Marcondes César (Brasil)
Carlos João Correia
Frei Bento Domingues
António Cândido Franco
Markus Gabriel (Alemanha)
Dirk-Michael Hennrich (Alemanha)
Rui Lopo
Amon Pinho (Brasil)
Andrés Torres Queiruga (Galiza)
Miguel Real
José Eduardo Reis
Luíz Pires dos Reys
Adel Sidarus
Francisco Soares (Angola)
Uma rã mergulha
no velho tanque...
O ruído da água

- Matsuo Bashô

partida

Tudo se mostra

neste gesto de arredar a cortina

Para ver se lá fora chove

Tudo até as estrelas mais distantes

Assomam de leve a incomensurabilidade dum sorriso

Na verdade tudo presente e ausente

Numa ondulação de sempre

Dá uma consistência quase madura

À fugacidade das coisas

E ao de leve a noite vem

E o longe apaga-se nas cores do aqui

E do firmamento mostra a perfeição impossível

É a hora do lume e do abandono

A derrota suave de todos os começos

A muralha do sono em breve virá circundar a mente

Com um oceano de águas argênteas

E num barco de marfim

Serei de novo nauta dos avessos

Encarnação




"Carnais, sejam carnais tantos desejos,
carnais, sejam carnais tantos anseios,
palpitações e frémitos e enleios,
das harpas da emoção tantos arpejos...

Sonhos, que vão, por trémulos adejos,
à noite, ao luar, intumescer os seios
lácteos, de finos e azulados veios
de virgindade, de pudor, de pejos...

Sejam carnais todos os sonhos brumos
de estranhos, vagos, estrelados rumos
onde as Visões do amor dormem geladas...

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias
formem, com claridades e fragrâncias,
a encarnação das lívidas Amadas!"

Encarnação, de João Cruz e Sousa

quarta-feira, 24 de março de 2010

Do mundo entendo as pequenas coisas, os objectos
deixados ao esquecimento das ruas, a casa aberta por cima, as rosas
inclinadas para o pavor, o truque falhado do ilusionista.

Algures o silêncio forma o seu arquipélago, enche os poços
de ruínas e outros espasmos.
Num grito acerto o relógio da torre, mato a tirania dos gestos,
e o mundo
espanta-se com o tamanho da minha ausência.

CAVALO


só se realiza o animal
quando houver alguém
para montá-lo

William Blake: Provérbios do Inferno




Próverbios do Inferno

No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.

Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.

A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.

Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.

O verme partido perdoa ao arado.

Mergulha no rio quem gosta de água.

O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.

Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.

A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.

A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.

As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.

Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.

Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.

Nenhum pássaro se eleva muito, se se eleva com as próprias asas.

Um cadáver não vinga as injúrias.

O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.

Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.

A loucura é o manto da velhacaria.

O manto do orgulho é a vergonha.

As Prisões se constróem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é a glória de Deus.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é a obra de Deus.

O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.

O rugir de leões, o uivar dos lobos, o furor do mar tempestuoso e da espada destruidora são fragmentos de eternidade grandes demais para os olhos humanos.

A raposa condena a armadilha, não a si própria.

Os júbilos fecundam. As tristezas geram.

Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.

O sorridente tolo egoísta e o melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.

O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.

A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes;
o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.

A cisterna contém; a fonte derrama.

Um só pensamento preenche a imensidão.

Dizei sempre o que pensas, e o homem torpe te evitará.

Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade.

A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.

A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.

De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.

Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.

Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da educação.

Da água estagnada espera veneno.

Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.

Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!

Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.

O fraco na coragem é forte na esperteza.

A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa.

Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.

Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.

A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.

Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!

Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.

Criar uma florzinha é o labor de séculos.

A maldição aperta. A benção afrouxa.

O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.

Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!

A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.

Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.

A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.

A Exuberância é a Beleza.

Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.

O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.

Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.

Onde o homem não está a natureza é estéril.

A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.

É suficiente! ou Basta.




Fonte da imagem: cinemaelectronica

segunda-feira, 22 de março de 2010

Tauromaquia é cultura?

Estarei presente no dia 23, 3ª feira, entre as 14 e as 15.30, no programa "Sociedade Civil", da RTP 2, para debater o tema "Tauromaquia é Cultura?", na qualidade de primeiro subscritor da petição contra a criação de uma secção de tauromaquia no Centro Nacional de Cultura e de representante do Partido Pelos Animais.

A petição está quase nas 7500 assinaturaas e será entregue em breve para discussão obrigatória em Plenário da Assembleia da República.

http://www.peticaopublica.com/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=PETPPA

Assinem e divulguem. Pela cultura contra a tortura!

sobre o acontecimento


T E L E V I S Ã O
O PIRILAU DO LÍDER
NESTE FRENTE-A-FRENTE
DEVE ESTAR RESUMIDO
A UM PINGO DE GENTE

"... o sagrado instinto de não ter teorias..." - Bernardo Soares

vislumbre


O despertar do coração

A jugular do tempo

Rasgada pelo punhal dissonante da atenção

Ao rubro o sangue dos começos

Precipita-se em fios cálidos

No chão impossível da continuação

Baila em ritmos alucinantes

O que de dentro não tem exterioridade

Nem se aprisiona em masmorras egóticas

O mundo um incêndio a perdição em alada antecipação

Do que não haverá por não ter sido

E as flores serão flores

À noite as estrelas virão como sempre

Alvoradas distantes

Anunciar o presente

Na tua saudade...

http://www.youtube.com/watch?v=G_EoeeMR71o

Há muito que parti,
e o vazio da minha ausência
Preenche os teus dias.
Não me procures,
não me alcançarás nas árvores do parque.
Não me procures criança,
não estou na água do ribeiro,
nem nas pedras do teu caminho
ou na bola que jogas.
Não estou nas lágrimas salgadas de um sonho.
Estou aqui, em toda a parte!
Soprarei na tua vida,
como uma serena brisa de Primavera.
Preencherei de leveza o teu coração,
e estarei no silêncio
de uma distante canção de embalar,
há muito guardada na tua memória.
E na Luz do teu sorriso!
(in Sentir e Ser - 2008)

domingo, 21 de março de 2010

animal

“O Organismo Animal deve ser encarado com semelhança a uma comunidade bem governada. Uma vez estabelecida a ordem dentro de uma comunidade,
deixa de existir a necessidade de um monarca que presida separadamente às várias tarefas.
Cada indivíduo passa a desempenhar as que lhe competem.”

Rudolf Virchow

Novos Cursos na Associação Agostinho da Silva

(para ler, clicar sobre a imagem)

Revista Visitações


http://revistavisitacoesaear.blogspot.com/

THINK | 2010


inscrições abertas | http://think2010aear.blogspot.com/2010/03/cartaz-e-programa-think-2010.html

a Primavera só existe se acreditarmos que houve Inverno

não há primavera

nos campos eternos

na nervura do mundo

que acende nos olhos

o fogo das constelações perdidas

que mostram um céu invertido

no fundo abissal

onde a treva rebrilha ao som furtivo

das lâminas impregnadas de longe e terminação

não há retorno quando o princípio é a alada expansão

de não ter que haver depois

a exacta geometria da contemplação

vulcão de agonia mental

interrogar é sentir a ondulação do oceano sem começo

os ossos em flautas convertidos

harmonia da carne que é vegetativa anunciação do efémero

por momentos a maré vazia descobre as rochas do abandono

por momentos inamovíveis e peremptórias

nada nasce

o esquecimento dá a aparência de nascer às vidas transitórias

o eterno é instante

terrível abrupto inclemente

são as palavras ânforas no bojo dum navio naufragado

restos de viagem na impossibilidade de chegar

chega um momento em que a vida é só isso

a espera crava-se na nudez da fantasia

e fere de firmamento a capacidade de desejar

sábado, 20 de março de 2010

primavera



"Depois do Inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores."

Miguel Torga

PRIMAVERA


os lírios roxos
de meados de Março
são pré-anúncio
dos jacarandás
de Junho

ENTARDECER



cai a chuva de enxurrada
sobre este final de dia
enchendo tudo de nada
- que é de onde o tudo se cria

"...só há homem, quando se faz o impossível"

"Estou a exigir muito de si? Quem lhe há-de exigir muito senão os seus amigos ? Eles receberam o encargo de o não deixar amolecer e, pela minha parte, tenha você a certeza de que o hei-de cumprir. Você há-de dar tudo o que puder, e mesmo, e sobretudo, o que não puder; porque só há homem, quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem. Quando você saltar e saltar bem, eu direi sempre: agora mais alto! Que me importa que você caia. Os fracos vieram só para cair, mas os fortes vieram para esse tremendo exercício: cair e levantar-se; sorrindo"

- Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 268.

Não tenho pressa


Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde
    o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
 vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

- Alberto Caeiro

Partir



Um dia partirei,
e quando partir
verás no meu rosto
a luz da felicidade,
espelho do meu destino.
Olha os meus olhos!
Vítreos.
Mergulha e segue-me.
Nada temas,
alcançarás as alturas.
Plana comigo
no topo do mundo,
nas profundezas do oceano Mar.
Nada me prende,
espera-me a Liberdade.
Vai…
(In Sentir e Ser - 2008)

sexta-feira, 19 de março de 2010

"Está-se só com tudo o que se ama" - Novalis

contemplando




"Mesmo agora contemplando as tuas aguas pude ver petalas vermelhas descendo...

outro cravo laranja,

pedacos belos de oferendas.

Uma cinza.

Madeira que queimou corpos de quem ja' partiu. Uma borboleta tambem...

caida,

que desiste agora de lutar contra a corrente,

e uma semente,

que promete ser uma grande arvore depois de escolher o lugar onde parar"

Velvet - the dark side to a Rose

The Rose shines over her rose coloured shadows,
it's her velvet touch.

Cultura ENTRE Culturas: uma revista diferenTre (a sair em Abril)





Cultura ENTRE Culturas - Apresentação

Cultura ENTRE Culturas é uma revista semestral dedicada ao diálogo intercultural e a estabelecer pontes e mediações entre todas as disciplinas, saberes e tradições. Publica ensaio, poesia e fotografia e elege-se pelos seguintes propósitos:

1. Contribuir para o desenvolvimento de uma consciência-experiência integrais, multidimensionais, inter e trans-disciplinares do real e do que possa haver além-aquém do que como tal se designa, enriquecendo criativamente a vida e a existência mediante a compreensiva realização das suas supremas possibilidades.

2. Explorar antigas e novas possibilidades espirituais, mentais, éticas, artísticas, científicas, educativas, ecológicas, comunicacionais, sociais, políticas e económicas, alternativas à crise e declínio do paradigma civilizacional ainda dominante e que obedeçam ao soberano critério do melhor possível para todos os seres sencientes, humanos e não-humanos.

3. Promover o conhecimento e diálogo entre culturas, civilizações, religiões e espiritualidades, bem como entre estas, o ateísmo e o agnosticismo, no espírito da mais ampla imparcialidade e universalismo.

4. Contribuir para a harmonia e a não-violência na relação do homem consigo, com a natureza e com todos os seres sencientes, ou seja, capazes de sentir dor, prazer e emoções.

5. Despertar e orientar para estes fins a cultura e a sociedade portuguesas, bem como a comunidade lusófona, valorizando e promovendo as tendências nelas latentes que mais apontem neste sentido.

A revista Cultura ENTRE Culturas tem na Comissão de Honra alguns dos pensadores mais influentes e representativos do diálogo intercultural, integra no Conselho de Direcção destacadas figuras públicas e da academia portuguesa e internacional e conta no Conselho Editorial com alguns dos mais jovens valores da cultura portuguesa e não só.

ficha técnica

direcção
Paulo Borges

comissão de honra

François Jullien
Hans Küng
Jean-Yves Leloup
Raimon Pannikar
Matthieu Ricard
Agostinho da Silva (In Memoriam)

conselho de direcção

Pe. Anselmo Borges
Constança Marcondes César (Brasil)
Carlos João Correia
Frei Bento Domingues
António Cândido Franco
Markus Gabriel (Alemanha)
Dirk-Michael Hennrich (Alemanha)
Rui Lopo
Amon Pinho (Brasil)
Andrés Torres Queiruga (Galiza)
Miguel Real
José Eduardo Reis
Luíz Pires dos Reys
Adel Sidarus
Francisco Soares (Angola)

conselho editorial

João Read Beato
Fabrizio Boscaglia (Itália)
Duarte Drumond Braga
António Cardiello (Itália)
Paulo Feitais
Miguel Gullander
Cem Komürcu (Turquia)
José Lozano (Galiza)
Rui Matoso
Jorge Telles de Menezes
Rodrigo Petrónio (Brasil)
Romana Pinho (Brasil)
Cinzia Russo (Itália)
Isabel Santiago
Luís Carlos Santos
Maria Sarmento
Maurícia Teles da Silva
Ricardo Ventura

tradução e revisão de texto

Dirk-Michael Hennrich
Rui Lopo
Jorge Telles de Menezes
Luíz Pires dos Reys
Martina Weitendorf

comunicação e imagem

Sofia Costa Madeira
Tiago Lucena

direcção de arte

Luíz Pires dos Reys

design gráfico

Xénia Pereira Reys

edição

Âncora Editora

sede

Rua Carlos Ribeiro, 30 - 4º
1170-077 Lisboa

telefone + 351 918 113 021
(para lançamentos e apresentações)
mail: revistaentre2010@gmail.com
blogue http://arevistaentre.blogspot.com
facebook http://www.facebook.com/group.php?v=info&ref=ts&gid=230286389667


índice
entre portas
| editorial
a presentação
| enTre projecto
ensaio geral
| ensaios
paulo borges
a cultura entre ilusão e des-ilusão - para um nomadismo inter e trans-cultural

maria sarmento
uma cultura do ente face a uma cultura do entre - contributo para a compreensão de novos paradigmas interculturais

paulo feitais
a lusofonia não é lusófona, mas universal

rui lopo
contributo para a re-construção da ideia de universalidade - notas para um elogio crítico de Kant

ricardo ventura
conversão e conversabilidade: considerações sobre os relatos das religiões da Ásia na documentação do padroado português do Oriente (séculos XVI e XVII)

carlos silva
a vocação eremítica e diálogo intercultural – do único e sua diferenciação
fulgur acções | entre a sombra e a palavra: a luz

poesia | photo graphia

ilda castro felices radices
beat presser oásis de silêncio
adama tessituras
francisco soares simetrias
duarte braga os que presidem
rui fernandes natural draw
isabel santiago um Deus que diz a-deus
luiza dunas iniciação
dirk-michael hennrich aforismos
francisco soares oráculos
donis de frol guilhade antípoda rareza

éditos e
| inéditos

religião, filosofia e cultura raimon pannikar
crise global da economia e um ethos global hans küng
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os sujeitos culturais por vir françois jullien
da migração dos povos vilém flusser
apresentação dos inéditos de Agostinho da Silva amon pinho
aviso ao mundo agostinho da silva
sobre o “aviso ao mundo” de Agostinho da Silva miguel real
“de Pretérito mais que imperfeito”, diário inédito de Mateus-Maria Guadalupe agostinho da silva
sobre “De „Pretérito mais que imperfeito‟, diário inédito de Mateus-Maria Guadalupe” romana valente pinho

dest ‘ arte
| e da outra

o imperador do mundo miguel real
as Arquitecturas setecentistas de Piranesi, e a das Cidades Obscuras da BD de Schuiten do século XX: um elo artístico no trajecto do risco urbano inês do carmo borges

sobre escritos
|recensões

pós-colonialismo e estudos pós-coloniais em Portugal: três obras-chave (duarte drumond braga)
Daniel Coleman, “emoções destrutivas e como dominá-las, um diálogo científico com o Dalai Lama” (luis carmo)
a tradução do cânone budista tibetano (rui lopo)
Stephen Batchelor, “vivendo com o diabo, uma meditação sobre o bem e o mal” (josé eduardo reis)

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