O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 31 de julho de 2009

Amor tudo cala

Homenagem a um concerto religioso de Leonard Cohen, irmão mais velho na Via da Paixão e do Despertar!

Lisboa, Pavilhão Atlântico, 30.09.2009.

(Não consegui postar um video de "Take this Waltz". Haverá uma alma bondosa que o faça?)
LA AVENTURA DE MORIR

Morir al pasado, morir al porvenir, vivir es morir en el arte de ser el instante. Vivir es morir cada segundo para ser el tiempo profundo de la eternidad. Aventura de la paz, morir es renunciar a lo que no se es para ser. Cada renuncia es una muerte que anuncia la vida. Cada muerte es una pausa del no ser en el que habita desnuda la vida.



Jorge Carvajal Posada

Queres salvar-te? Salva o outro

Cristo é Buda e Buda é Cristo

somos todos anónimos. (baal, zona leste do blog)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

AMOR-TE

X

Não é como se a mão hesitasse no gesto fundador.
O movimento espera que um astro se incendeie
em todos os tendões
para que nenhuma palavra seja o frio nexo da loucura
ou o vento soprado como sangue.
Uma pedra sobre a boca pode ser o único sustento
para essa fome.
Mas a mão que escreve avança como faca
arrancando à garganta o seu êxtase carbonizado.
A violência é a religião de Deus.


de O vento soprado como sangue, Cosmorama, 2009.

Eu vos ofereço o meu dia

Para que serve a Lusofonia?

A Lusofonia é o fenómeno de haver quem fale português: 240 milhões de falantes. Isso é um dado incontroverso. A questão, levantada na Declaração de Princípios e Objectivos do Movimento Internacional Lusófono, e até hoje sem resposta, é: qual o melhor sentido a dar à Lusofonia?

A forma que em mim assume essa questão, na linha de Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva, é: como colocar a Lusofonia ao serviço de tudo e de todos, como fazer da Lusofonia um contributo para o bem do planeta e dos seus habitantes, humanos e não-humanos? Para essa questão, não vejo, desde o início da vida do MIL, qualquer resposta.

Alguém tem ideias?

negrume azul


lenta agonia
a decomposição dos estados de alma
expostos aos elementos singrantes da eterna alba
que consome por dentro os compostos
magmáticos em estratos sedimentares
feridas do tempo preenchido de desejo e ansiedade
sombra de sombra
o desamparo e as promessas que irrompem
do fundo do esquecimento
o chão que cicatriza a perdição
a película de espuma que nos separa do abismo
e os rugidos do vento
vindo do colapso dos tempos no princípio
a memória espiralada do nada que nos regurgita
a golpes de cítara lava dos começos
o ermo labirinto de treva e fátuas aparições
plenitude naufragada no aqui

máquinas

isto funciona por toda a parte: umas vezes sem parar, outras descontinuamente. isto respira, isto aquece, isto come. isto caga, isto fode. mas que asneira ter dito o isto (ça). o que há por toda a parte são mas é máquinas, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com as suas ligações e conexões.

gilles deleuze, félix guatarri, o anti-édipo, capitalismo e esquizofrenia1

"O cabelo comprido dá-me um ar exótico" - DJ Poppy, 25/7/2009, p. 24, revista "Vidas" do jornal Correio da Manhã.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Nada se possui

resposta a Rasputine

Proudhom armou a cilada
com filosofias e engodos:
se ninguem tivesse nada
tudo seria de todos

abraço

Espanha: somos cadáveres. Seremos sementes?

"Em Espanha a vida ainda não é eficaz, isto é, não é ainda mecanizada; para o Espanhol, a beleza é mais importante que a utilidade prática; o sentimento mais importante que o êxito; o amor e a amizade mais importantes que o trabalho. Em resumo, o que se sente é o atractivo de uma civilização próxima de nós, estreitamente ligada ao passado político da Europa, mas que recusou empenhar-se na via que é a nossa, a da mecânica, da religião da quantidade e do aspecto utilitário das coisas.

[...] o movimento popular espanhol não se dirige contra um capitalismo chegado ao termo do seu desenvolvimento... mas contra a própria existência desse capitalismo em Espanha... A concepção materialista da história, fundada na crença no progresso, jamais encontrou eco junto dele... O que fere a consciência do movimento operário e camponês espanhol não é a ideia de um capitalismo que se perpetuaria indefinidamente, mas a própria aparição desse capitalismo. Tal é para mim a chave da posição privilegiada do anarquismo em Espanha"

Creio que Espanha pode designar aqui Hispânia, Península Ibérica. Assistimos hoje ao enterro das últimas resistências a este processo. Somos esses semi-cadáveres. Serão os mortos sementes?

- F. Borkenau, Spanish Cockpit (1936-1937), Paris, Champ Libre, 1974, pp.28 e 29-30 (Michael Löwy / Robert Sayre, Révolte et mélancolie. Le romantisme à contre-courant de la modernité, Paris, Payot, 2007, p.113).

Tudo é de todos

Luz e sombra


terça-feira, 28 de julho de 2009

Ética

será que existem um correcto e um errado? penso que sim. é incorrecto bater num pato, a menos que estejamos a morrer à fome, imaginemos: ou comemos o pato ou morremos. qual a escolha correcta? morrer ou matar o pato e sobreviver? se morrermos, penso que somos muito corajosos.

se decidirmos matá-lo para sobreviver estaremos a cometer algum mal?

imaginemos que não existe mesmo outra hipótese, não há mais qualquer tipo de alimento. quer dizer, sempre podemos comer pedaços de nós, é a única outra hipótese.

digo que talvez cometamos um mal se matarmos o pato ou se comermos pedaços de nós próprios, mas também que o contexto é já mau à partida. se há algo moralmente errado neste caso é o contexto.

de resto podemos imaginar alguém num contexto moralmente mau e que foi lá parar sem as causas disso terem sido morais. por exemplo alguém ir parar ao Afeganistão ou ao Iraque. são contextos moralmente maus porque existe muito sofrimento desnecessário neles, mas certamente haverão lá heróis, como há em todas as guerras e revoluções.

um herói é alguém que não obstante o perigo, enfrenta-o para salvar os outros, por exemplo. um médico voluntário numa perigosa zona de guerra. um bombeiro. talvez existam também heróis intelectuais, pessoas que através das suas mensagens criam bem no mundo.

seríamos heróis se não matássemos o pato. ou podemos dizer que seríamos estúpidos porque morreríamos. mas têm de ter em conta que morreríamos para evitar uma morte. imaginemos isto entre humanos. canibalismo.

é errado comer corpos, humanos ou outros, mesmo que já mortos?

se estivéssemos numa situação em que morríamos se não comêssemos um pedaço de um corpo, e se só pudéssemos escolher entre um corpo de um animal e um corpo de um humano ou morrer, qual seria a opção correcta? a que não implicaria mal algum? penso que todas elas implicam mal. comer corpos é mau, morrer é mau. e se morrer é mau o contexto moral do mundo é mau.

onde há sofrimento há moral.
todas as pessoas sofrem.
há moral em todas as pessoas.
em todas as pessoas e animais.

mas quando não têm culpa do sofrimento, sofrem sem razão. isso é o mau. sofrer sem razão. se se sofre com razão, já não é mau: um exemplo, alguém que fume três maços por dia arrisca-se a ter cancro - o que é que estava à espera? - mas alguém que sempre se portou bem contrai cancro... é mau. e é moralmente mau porque é injusto.

mas nem tudo o que é moralmente bom é justo, embora tudo o que seja justo seja moralmente bom. pode ser moralmente bom porque libertador dar um passeio e não ser justo nem injusto. a moral está para lá da justiça, mas a justiça não está para lá da moral.

ainda assim poderíamos contrapor que se o passeio é libertador é porque o sujeito vem já de uma situação em que houve justiça ou injustiça, ou que se não veio de uma situação do género então o passeio é libertador porque lhe permitirá criar situações de justiça. neste caso diríamos o seguinte: o domínio da moral é o domínio da justiça e o domínio da justiça é o domínio da moral.

para simplificar: o domínio da moral é o domínio do correcto e do incorrecto.
se é correcto é bom e justo, se é incorrecto é mau e injusto.
por exemplo, alguém beber um sumo de laranja natural de manhã pode ser bom, saudável, mas só é justo ou injusto caso a pessoa tenha ou não merecido beber o sumo. assim, tudo é do domínio moral. o domínio moral é o mundo.

mesmo que não existissem seres que sofrem existiria moral? se não existisse consciência, por exemplo. se só existissem pedras, calhaus, existiria moral?
não podemos dizer que não e justificar em que não porque as pedras nada sentem, porque há humanos que podem não sentir em dado momento e é mau fazer-lhes mal, por exemplo feri-los com uma faca mesmo que não sintam nada. mas neste caso trata-se de vida.

tal como existe uma química inorgânica, poderá existir uma ética inorgânica?

o que é inorgânico poderá ser bom ou mau em si, e sofrer bem ou mal? creio que não. que é moral apenas em função da vida. mas uma coisa: se a vida é boa por si, e se o inorgânico é a base da vida, então o inorgânico é bom por si.

o carbono origina-se do inorgânico, e considera-se que toda a vida tem adn, mas será que aquilo que forma o carbono, os átomos mais fracos, os protões, os neutrões, os electrões, não estão já vivos? ou a vida começa na célula?

onde começa e acaba a ética?

"A prática do Budismo não implica que a pessoa abdique da sua cultura"

Entrevista com Paulo Borges, publicada no Boletim Informativo nº70, de Maio de 2009, do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, pp.18-19.

Segundo Paulo Borges, presidente da União Budista Portuguesa, a aproximação dos portugueses ao Budismo pode assumir muitas formas. Alguns interessam-se por aspectos específicos como a meditação, outros aprofundam os seus conhecimentos e tornam-se budistas praticantes.

Desde quando existem budistas em Portugal?

As primeiras actividades organizadas surgem nos anos 70, mas antes disso houve certamente quem se considerasse budista. Registe-se que desde a Idade Média conhecemos uma vida cristianizada do Buda – a lenda dos santos Barlaão e Josaphat (de Bodhisattva) – e tivemos contactos pioneiros com as culturas budistas, a começar pelos missionários, que mantiveram diálogos teológico-filosóficos muito interessantes com os budistas, ainda hoje esquecidos em manuscritos inéditos. Antero de Quental aprendeu sânscrito para ler textos budistas e o Budismo interessou e marcou Wenceslau de Moraes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, entre muitos outros. Assim o mostra o livro que organizei, com Duarte Braga, intitulado O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa.

Quem são os budistas portugueses? É possível caracterizá-los?

Somos uma comunidade constituída sobretudo por nacionais, embora exista um número importante de chineses. Não é fácil caracterizar os budistas portugueses. É uma comunidade que abrange várias faixas etárias e pessoas com diferentes actividades e estatutos sociais. Maioritariamente, a comunidade budista está entre os 18 e os 50 anos. Há bastantes pessoas com formação académica, alguns ligados ao meio universitário, mas também muitos com outro tipo de actividades e formações.
Calculamos que possam existir cerca de quinze mil budistas em Portugal. O que é evidente é que o número de adesões aumenta, acompanhando o grande crescimento do Budismo no Ocidente. Temos também a noção de existirem muitas mais pessoas interessadas no Budismo. Temos testemunhos de pessoas que pertencem a uma religião, nomeadamente a Católica, mas se revêem no Budismo em certos aspectos da sua visão do mundo, como por exemplo numa ética não limitada ao homem, respeitadora de todas as formas de vida, e numa maior importância dada à experiência pessoal, em detrimento do dogma. Existe algo de singular que é o Budismo ser quase que uma segunda religião para muitas pessoas, que se reconhecem na atitude e na abertura budista, embora não adiram propriamente a todos os pontos da sua filosofia.
Temos uma difusão nacional, mas a maioria dos budistas praticantes localizam-se no Porto, em Lisboa e arredores e também no Algarve.

Que tipo de percurso têm as pessoas que aderem ao Budismo?

Há muitos percursos diversos, mas em geral as pessoas começam a interessar-se pela meditação, não por desejarem ser budistas, mas por lhes trazer a paz e serenidade que procuram. A partir daí, começam a interessar-se pelos seus fundamentos filosóficos. No decurso desse processo, encontram mestres das várias escolas budistas que convidamos para ensinar em Portugal, como aconteceu com S. S. o Dalai Lama, cujas visitas se traduziram por um grande crescimento da nossa comunidade e actividades.
Há quem também comece por contactar a literatura budista, que conta com vários livros de qualidade, em português. Nesses casos, é a partir da teoria que surge o interesse pela prática da ética e da meditação. Contactando um centro budista, as pessoas participam em actividades comunitárias como a meditação em grupo, a oração e a recitação de mantras, a par da integração disso na sua vida pessoal e quotidiana.

O que procuram essas pessoas?

Como referi, a maior parte das pessoas não procura imediatamente o Budismo, mas antes reduzir a sua ansiedade e stress, gerir melhor dificuldades na vida e praticar meditação. Ora esta é um contacto com uma dimensão mais profunda de nós mesmos, que suscita o desejo de saber mais acerca dos princípios e da visão do mundo que a fundamentam. É aí que as pessoas se começam a interessar pelo Budismo como busca de orientação para as suas vidas, procurando entender qual o sentido e quais as potencialidades da existência humana, em termos de desenvolvimento espiritual e ético.
O que oferecemos na União Budista Portuguesa respeita essas duas grandes motivações. Para as pessoas que visam melhorar a sua qualidade de vida mediante a estabilidade emocional e mental, oferecemos cursos mensais de introdução à meditação. É uma actividade muito procurada, com cerca de trinta ou quarenta pessoas em cada curso. Para quem, além disso, procura conhecer os princípios do Budismo, como orientação espiritual e ética para a vida, oferecemos cursos de introdução ao Budismo e seminários sobre temas específicos da filosofia budista. Convidamos também mestres budistas credenciados, que vêm do Oriente ou residem na Europa, para proporcionar um contacto mais directo com os representantes vivos desta tradição milenar.

O que significa ser português e budista?

Embora o Budismo surja associado a culturas para nós exóticas, a sua prática, para além das vestes culturais que historicamente assumiu, não implica de modo algum que a pessoa abdique da sua cultura e adopte uma outra. O Budismo é apenas uma via para a mente se libertar de ser causa de sofrimento para si e para os outros, realizando, ao mesmo tempo, todas as suas potencialidades cognitivas e afectivas. Se alguns portugueses que aderem ao Budismo incorporam elementos de uma cultura que não é a sua, passado esse primeiro período de fascínio por uma cultura diversa, e com um maior amadurecimento do praticante, o que fica é apenas a busca do desenvolvimento pessoal ao serviço do bem comum. À medida que se evolui na prática e na tomada de consciência do que é ser budista, fica somente o essencial. Aconselho um livro que traduzi, fundamental para nos libertar das ficções acerca do que é ser budista: O que não faz de ti um budista, de Dzongsar Jamyang Khyentse.

Existem alguns preceitos difíceis de seguir numa sociedade ocidental?

Contrariamente ao que por vezes se pensa, os preceitos budistas não são fáceis, pois são exigentes em termos éticos e de disciplina mental. E não apenas nas sociedades ocidentais, pois, para quem os queira seguir de forma minimamente rigorosa, são sempre difíceis de seguir em qualquer sociedade, inclusive nas orientais. Mesmo aí encontramos uma prática popular do Budismo que não corresponde necessariamente a uma prática rigorosa. Mestres budistas provenientes dessas culturas têm reconhecido que o Budismo também aí é muitas vezes “praticado” apenas por hábito social, sem grande esclarecimento, como acontece em geral com todas as religiões. Dito isto, certos preceitos budistas, como a não-violência, o amor e a compaixão universais, a abstenção de tudo o que contribua, directa ou indirectamente, para o sofrimento de qualquer ser vivo, com o que isso por exemplo implica de convite a uma mudança de regime alimentar, chocam com muitos hábitos enraizados na tradição ocidental (apesar do vegetarianismo ser um ideal e não uma condição à partida indispensável para se ser budista). A própria prática quotidiana da meditação choca com os hábitos ocidentais de indisciplina mental e ética, confundindo-se ser livre com pensar, dizer e fazer o que se quer, como se todos os pensamentos, palavras e acções não tivessem efeitos positivos ou negativos para nós e o mundo. Para já não falar da visão central do Budismo, a da vacuidade, a de que nada existe em si e por si, mas em total interdependência, sem características intrínsecas. E ainda transcender a percepção dualista, a separação eu-outro, o apego e a aversão egocêntricos. Tudo isso é difícil, mas não especificamente para um ocidental ou para um português. É difícil para um ser humano que esteja demasiado preso a perspectivas, preconceitos e hábitos social e culturalmente herdados e que não tenha a flexibilidade mental para reflectir sobre o seu fundamento.

Como se relacionam os budistas com as restantes comunidades religiosas em Portugal?

Temos relações de grande cordialidade com todas as comunidades religiosas. Destacamos a participação numa iniciativa da Comunidade Mundial de Meditação Cristã, um encontro inter-religioso mensal que procura congregar pessoas de todas as comunidades religiosas para fazerem meditação em silêncio, cada um segundo a sua tradição, após a leitura de textos sagrados de cada religião, à qual se pode seguir um diálogo. O silêncio inter e trans-religioso é a condição indispensável para um diálogo inter-religioso mais profundo. Quanto a este, assumimos o compromisso com S. S. o Dalai Lama de tudo fazer em Portugal para o promover e temos participado em ou organizado vários encontros inter-religiosos, que têm sido bastante fecundos, na medida em que o facto de representantes de várias religiões se encontrarem e dialogarem é, só por si, um exemplo positivo para as suas comunidades. Todavia, ainda se fica um pouco aquém do que seria um debate mais profundo, não só daquilo que nos aproxima, mas também daquilo que nos diferencia. Se o diálogo inter-religioso em Portugal, compreensivelmente, se tem focado mais nos pontos de convergência, penso que, para maior conhecimento e aceitação mútuos, seria conveniente investigarmos também aquilo que nos divide e a sua razão. Como tenho defendido, creio ainda nas vantagens de que este diálogo se alargasse a agnósticos e ateus, em prol de uma cidadania mais aberta e tolerante.
Devo dizer que lamento não termos sido ainda convidados para a Comissão de Liberdade Religiosa, apesar de sermos a comunidade com maior crescimento nacional e de acordo com o princípio de igualdade consagrado na Lei da Liberdade Religiosa. Segundo o mesmo princípio, também me parece extremamente injusto, grave e discriminatório, além de contrário ao mais elementar espírito científico, continuar a não existir nos Censos a possibilidade dos cidadãos se declararem budistas, hindus ou bahá’is.

União Budista Portuguesa

A União Budista Portuguesa é uma federação das principais escolas budistas portuguesas. Nasceu em Junho de 1997, procurando estabelecer em Portugal uma entidade que represente oficialmente o Budismo e que averigue da autenticidade das escolas budistas, reconhecendo-as como autênticas e aceitando-as como seus membros.
Por outro lado, a União Budista Portuguesa pretende também ser um espaço de diálogo e de intercâmbio, não só entre a comunidade budista, a sociedade portuguesa, as outras religiões e o Estado português, mas também de diálogo interno entre as várias escolas budistas existentes em Portugal, representantes do Budismo Tibetano, do Budismo Chan, do Budismo Zen e outras.

www.uniaobudista.pt

segunda-feira, 27 de julho de 2009

se procurarmos dentro de um computador não encontramos software, como se procurarmos dentro do corpo não encontramos ideias

Deus está por criar... ou não.

“A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser avaliados pela forma como trata os seus animais” - Gandhi

Serpente Emplumada: a Vida humana no seu esplendor?

Vento não é certamente. Fui ver, era o .................

domingo, 26 de julho de 2009

O céu está limpo e o sol forte, não chove. Será vento?

ardente desmesura


ardente de sóis de sempre de inquietação ardente
o meu ser ardente traça-se no espaço corola ardente
semente de girassol ardente jogada ao acaso
pela força ardente de não ter que ser
alada sede vespertina
consumada agonia do horizonte
circum-navegação do oceano de ser mais
vela de espanto largada ao vento
perdição consumada a cada instante
ardente paixão de ser errante
todos os versos são derradeiros
todos os poemas são verdadeiros
sem razão sem impostura
na implosão da continuação
a versificação do sem nome
e

religião universal

em nome do passado e do futuro, os servidores teóricos e os servidores práticos da humanidade acabam de tomar a direcção geral dos assuntos terrestres, para construir finalmente a verdadeira providência, moral intelectual e material, excluindo de modo irrevogável da supremacia política todos os diversos escravos de deus, católicos, protestantes ou deístas, como gente que é ao mesmo tempo retrógrada e perturbadora.
augusto comte
catecismo positivista ou exposição sumária da religião universal em onze colóquios sistemáticos entre uma mulher e um sacerdote da humanidade.

A máxima prevista para hoje em Lisboa é de 18º. Será que chove?

Se te pudesse dar um conselho para a vida diria apenas: ama

Dedicado ao Maltez: Portugueses: materialistas ou religiosos?

sábado, 25 de julho de 2009

aprender a viver

falo igualmente de uma outra religião- a da transmutação.
em setúbal, na caldeira do rio onde toda a vida nasce. quando criança aprendia a ver ea espantar-me com o fluxo da vida ao sabor das marés. caranquejos, bivalves, pequenos peixes, tudo fluía num movimento imparável. a terra funda-nos as raízes, omar empura-nos para um fluxo eterno. a religião do movimento e da solidez. o mundo.

Do Alentejo profundo: a religião da Terra ou a terra da irreligião?

Se vives para ti estás morto

"A ironia é a consciência clara da agilidade eterna, do Caos infinito e completo"

- Friedrich Schlegel, Fragments, 69, traduzido e apresentado por Charles le Blanc, Paris, José Corti, 1996, p.233.

(Para a Liliana Jasmim, com votos de um irónico e ágil Aniversário)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Portugal, um país de transcensão. Num mundo pós-colonial: transcensão ou morte?

Esperar pela vida é esperar pela morte

"Não fundei a minha causa em Nada"

"Eu sou o proprietário da minha potência e sou-o quando me sei Único. No Único, o possuidor retorna ao Nada criador de onde saiu. Todo o Ser superior a Mim, seja Deus ou o Homem, fraqueja diante do sentimento da minha unicidade e empalidece ao sol desta consciência.
Se fundo a minha causa em Mim, o Único, ela repousa no seu criador efémero e perecível que se devora a si mesmo e posso dizer:
Não fundei a minha causa em Nada"

- Max Stirner, O Único e a sua Propriedade.

Diálogos IV, A Pena de Holderlin

Rui Fernandes, "Sailing", 2007


A leitora não sabe como acordou no deserto. Os que chegam ao deserto nunca sabem como lá chegaram. O deserto, num certo sentido, é o não-lugar. Os que lá chegam desfiguram-se e desnorteiam-se. Na mão, a leitora tem “O Louco” e tem uma vaga lembrança de L. deitada junto ao rio a receber as ninfas que se enrolavam nos seus cabelos. Sem nunca ter estado no deserto, Hölderlin é dos homens mais desérticos que poderia ter conduzido a leitora ao seu não-lugar. Foi o deserto como não-lugar que o tornou um vate, um profeta da Grécia por haver. O poeta, [como o João], procurava e dirigia-se para uma Grécia mais perto do seu orion. Foi no deserto que a leitora encontrou dispersos os ecos dos poemas desfragmentados do último Hölderlin que, desencantado e louco, lhe segredou enigmas que a sua paciência descobriria na conjuntura e num mesmo fio de luz e sombra. No deserto não há norte. Não há início nem retorno. É um invulgar lugar do irretornável. A última poisagem. O lugar por onde já nem os flamingos, nem as corças, nem os corvos, nem as outras aves e animais da arca ou da realidade inútil passam ou fazem caminho, ou se cruzam no olhar da leitora. No deserto, a leitora torna-se cega porque as páginas, as paisagens, não têm margens e são rasgos alucinados de memória. O que se lê, no deserto, não está escrito, nem inscrito, nem gravado, nem preso a caracteres ou frases. O que se lê não se encontra ou se procura; encontra-nos, procura-nos, como a voz de Deus aos profetas. O lido elege-nos para uma desorientação que deixa de atormentar, o lido é uma desorientação vital para a alma de quem leu os poetas e quer com eles alcançar os píncaros da Vida (Pascoaes, “O Poeta”).
Nesses instantes de irreprimível afluxo e influxo de imagens, metáforas e analogias, remissões e contrições – a leitora caminha de cabeça baixa e arrasta os pés pelo deserto, perde os passos como quem larga penas, os passos são asas cansadas e desritmadas - alma sente-se um altar onde repousam ideias como aves aguardadas da Distância do tempo. O que se lê está algures disperso, perdido, flutuante, tacteante, gaguejante, hesitante entre o corpo do texto e o incorpóreo de um som que se solta das cordas da harpa que o sol desenha para ser tocado pelos olhos de um cego que não o quer conhecer mas se quer iluminar. Na leitora do deserto não são os olhos que lêem o Dito, são os ouvidos que escutam: a iluminação é um estado de escuta ardente, cadente. As palavras formam constelações e ardem onde antes o corpo sentia frio. As palavras são pontos de luz que irradiam na noite interior, na noite escura e nela florescem clareiras de som, não de sentido. O iluminado ouve o que não entende, mas o som crepita como o fogo que tem o nome irrepetível, o único que, livre do sentido, o chama e o abençoa. A leitora, cega, abraça Hölderlin. Reconhece a sua melodia e repete os nomes ilegíveis com que ele conversou por fim num quarto que era mais interior do que aparentava ser. O seu quarto chamava-se deserto. O deserto é, num sentido certo, o oposto do Jardim ou do Éden. Não há nomes nem tarefa adâmica para cumprir. No deserto a alma tem a tarefa ética de obliterar o que existe do nome, de libertar a alma do legível. Libertar os nomes do peso e do sentido. Tornar o que existe, o que resiste, ilegível, sem nome. Devolver o nome ao silêncio. No deserto, os nomes devem ser removidos no vento. A boca deve fechar-se, os olhos esbranquecerem. As travessias do deserto não servem para chamar Deus ou para ver Deus. A leitora não é eleita pela palavra de Deus, mas pelo seu silêncio. No deserto está o posfácio da criação. O livro ilegível do silêncio divino. Sabendo isso, a leitora sente uma beatitude que lhe foge, mas a envolve como uma túnica de Lázaro que se enrola e desenrola no vento que dedilha os seus dedos nos fios de sol e do peito constrangido. O peito range um sonido, a leitora sabe tocar a harpa solar que aquece os que a vida arrefece no medo e no esquecimento. O deserto empresta-lhe uma suavidade que gera consolo. O vento conversa com ela e Hölderlin ri. As penas aquecem-lhe os pés e ele, com fome de bondade, pensa que são penas de pelicano. Mas não se lembra da bondade do pelicano e da sua lenda. Os nomes dão lugar aos sons do seu canto de anjo caído.

Os cegos, relembrava Ernst Junger, dirigiam-se para estes lugares. Os lugares da luz, mas os lugares da luz são os lugares da sombra. Onde ela é também mais extensa e mais intensa. A sombra, como o bastão do cego, orienta não os que se afastam do mundo, mas do imundo em que a alma combate com o outro o que ela deveria combater com o seu duplo, o seu daimon. Há muitos anos a leitora foi colhida numa tempestade de areia, tinha nas mãos a arca vazia do passado e ainda assim, no corrupio dos ventos, na sua movimentação de dervixe, as saias dos ventos recolheram o vazio e espalharam-no nas páginas abertas do livro do deserto. A leitora vislumbrou linhas de aves invisíveis e perscrutou o imperceptível que atravessa a vida. As aves soletravam e cantavam o hino à vida que nenhum humano soube entoar. Ela admirou o seu bailado em fundo azul. E leu com o coração, de cor, nas páginas sem margens e plenas de memória das areias do deserto, para que aves raras conhecessem a melodia do mundo antigo, os versos do último Hölderlin. Essa memória era o convento onde fechara os sonhos para se entregar às vertigens. A leitura era um voo e os livros o peito aberto do pelicano que alimentou os pobres de espírito. Misturando a sua voz à dos versos ininteligíveis com a dos pássaros sem nome, a leitora recebeu Messiaen no céu do deserto. De um lado tinha o rosto de Hölderlin e do outro a música de Messiaen. O inexistente oitavo livro dos pássaros era Hölderlin a cantar os seus próprios versos, cego no indireccionado do bailado das aves. Acolhido o milagre, como a revelação a que toda a leitura conduz, a leitora prosternou-se diante dos seus pés, dos pés do poeta da escrita iluminada. O da escrita iluminada, caminhou pela sombra e o único bastão que levou na mão foi a pena dos pássaros que com ele fizeram corona sua derradeira experiência trágica da música e da poesia. Esta foi a pena que a leitora encontrou na areia sem rasto por onde, na sombra do poeta, a leitora fez a mais densa experiência da leitura. Ler o que não se vê, mas a memória sabe na sua cegueira de Tirésias, é esquecer a liturgia e receber o que é divino. O deserto transfigura a voz da leitora em sons de harpa divina. Ler com o coração é ler mais do que ler com a inteligência. A voz aquecida nos fios da harpa solar, tocados pelo vento desértico, faz a leitora pronunciar a verdade sem o nome e ler o mundo como composição musical, mesmo quando ele é ruído e devastação.
Para o João Beato que tem uma pena escondida nas mãos e vive com o olhar direccionado para o deserto da Índia.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Limpar Portugal!

31 de Outubro 2009 o dia inteiro - Portugal

Neste dia, todos juntos, vamos fazer de Portugal, de facto, um "Jardim à Beira Mar Plantado"!

Venha auxiliar a limpar Portugal. A Estónia já o fez num só dia. Acredito que os portugueses também sejam capazes!


Sobre LimparPortugal

Landmania clube de Portugal, Nuno Mendes, lançaram a ideia de se recrutar nacionalmente milhares de voluntários, e num dia, LIMPAR PORTUGAL!

mais em http://limparportugal.ning.com/

para além da crítica

parece com efeito, que se eu sou obrigado a não fazer qualquer mal ao meu semelhante, é menos por ele ser um ser dotado de razão do que por ser um ser sensível, qualidade que sendo comum ao animal e ao homem deve pelo menos dar àquele o direito de não ser de modo algum inutilmente maltratado pelo homem.

jean-jacques rousseau

Rua Augusta, junto ao Rossio, 5ª feira, a partir das 17 h - Recolha de assinaturas para o PPA

Comunicado de Imprensa
PPA – Partido Pelos Animais

Na próxima quinta-feira, dia 23 de Julho, a partir das 17 horas, um grupo de cidadãos, entre os quais várias personalidades do meio artístico e cultural, vai estar presente na Rua Augusta, junto ao Rossio, numa acção de rua com o objectivo de recolher assinaturas para a oficialização do PPA.

O Partido está a proceder em todo o país à recolha das 7500 assinaturas necessárias para entregar no Tribunal Constitucional.

Esta causa conta com o apoio, entre outros, de várias personalidades nacionais e internacionais, como o líder espiritual tibetano Dalai Lama, a ex-ministra indiana Maneka Gandhi, os actores Sandra Cóias, Pedro Laginha e Heitor Lourenço, a cantora Ágata, o líder dos Blasted Mechanism Valdjiu e o pintor Vítor Pomar.

Nesta acção de rua estarão presentes Sandra Cóias, Heitor Lourenço, Bárbara Taborda, Alexandra Silva, Mafalda, Sónia Brazão e Ana Bola, entre outros actores, actrizes, modelos, manequins e figuras conhecidas da comunicação social.

Para mais informações contacte:
Paulo Borges
918113021
www. partidopelosanimais.com
geral@partidopelosanimais.com

A Comissão Coordenadora do Partido Pelos Animais

Algo ainda mais intolerável no sofrimento dos animais do que no dos homens

"Para um homem cuja mente seja livre há algo ainda mais intolerável nos sofrimentos dos animais do que nos sofrimentos do homem. Pois com os últimos é pelo menos admitido que o sofrimento é mau e que o homem que o causa é um criminoso. Mas milhares de animais são inutilmente chacinados todos os dias sem uma sombra de remorso. Se alguém se referir a isso, será considerado ridículo. E esse é o crime imperdoável"

- Romain Rolland, Prémio Nobel de Literatura.

...


A brisa num poema

A tarde delicada em alfazema

Todas as palavras são incertas

As frases no imenso estão desertas

O silêncio a verdade impura

A escultura de mim no mármore da escrita

Soltura de versos abertos

No fogo da expiação da loucura

Ilusão ou impiedade maldita

Todos os erros na errância são certos

Como de purpurinas inconstantes

Nos enfeita o desejo

Como se ajeita a perdição dos errantes

Tão certa tão ritmada com o vagar das estrelas

Que todo o mundo se perde por um beijo

E a vida toda toda acesa por demais

As saudades e os cadernos de folhas amarelas

Partir partir sem a completude de um cais

São desiguais os dias todos tão iguais

Perdem-se as alegrias por medo de perdê-las

A cobardia do homem torna a realidade terrível: um nada devorador.

Animais-máquinas ou de como os filósofos podem ser muito estúpidos

"Na Holanda discute-se agora, alto e bom som, se os animais são máquinas. As pessoas até se divertem a ridicularizar os cartesianos, por estes conceberem que um cão que é agredido emite um som que é similar ao de uma gaita de foles quando é comprimida"

- G. W. Leibniz, Carta de 1648 a Ehrenfried Walter von Tschirnhaus, in G. W. Leibniz, Philosophical Papers and Letters, Dordrecht, Reidel, 1969, pp.275-276.

terça-feira, 21 de julho de 2009

XVI

De cada vez que um de nós morre
há uma faca apontada às jugulares:
o silêncio como mantimento.

A morte equilibra-se em nossos corações
com o deslumbramento.

Há-de haver um corpo que transite de alma em alma
e em cujos olhos se alumie a força brutal da mesma vida.
Há-de haver uma voz desvairada que se derrame como napalm
sobre a noite que nos envolve.

Por agora não sei como tocar a distância de onde nos falam.


de O vento soprado como sangue, Cosmorama, 2009.

Transcender Deus e igualdade primordial

"Por isso rogamos a Deus que de "Deus" nos livremos e acolher e fruir eternamente a verdade aí onde são iguais os anjos mais elevados, a mosca e a alma, aí onde me mantinha e queria o que era e era o que queria"

- Mestre Eckhart, "Beati pauperes spiritu...", Sermão 52.

EPIPSYCHIDION (5)

.............................................

Existia um Ser que o meu espírito
tantas vezes encontrava, lá no alto, entre os sonhos
ao despontar a manhã clara e dourada da juventude;
sobre as ilhas encantadas, com luminosas clareiras
entre montanhas maravilhosas, e as cavernas
do sono divino; sobre a ondulação aérea
de sonhos cheios de prodígio, cujo oscilante chão
suportava os seus ligeiros passos, e numa margem
imaginada sob a pálida falésia de qualquer promontório,
-esse Ser vinha ao meu encontro, vestido de tal esplendor
que se tornava para mim invisível. Com a solidão,
a sua voz veio até mim dos bosques sussurrantes,
chegou com o canto das fontes, com o profundo aroma
das flores, como se os próprios lábios do sonho
murmurassem os suaves beijos que a adormecem
e, na atmosfera enamorada, apenas falassem do seu nome;
chegou com o maior ou menor rumor das brisas,
com as chuvas que caem de todas as nuvens,
com a harmonia dos pássaros do estio,
com todos os sons, e o silêncio. Nas palavras
de poemas antigos e de lendas - na sua forma,
sonoridade, cor - , em tudo o que pacifica aquela
Tempestade
que sufoca o passado com o presente destruído,
nesta suprema filosofia, cujos indícios
são o destino que conduz a nossa dolorosa vida
a um glorioso, ardente martírio,
ficava o seu espírito, a harmonia da verdade.
Erguia-me das cavernas onde sonhava a minha juventude
e encaminhava-me, com sandálias de fogo,
em direcção ao astro do meu único desejo,
voava perturbado como uma falena, cujo movimento
é igual a uma folha morta numa luz crepuscular
quando vai procurar junto de Vésper
uma morte luminosa, um radioso sepulcro,
como se fosse a lâmpada duma chama terrestre.

Shelley
in Poesia Romântica Inglesa (Byron, Shelley, Keats)
Relógio D'Água, 1992
Tradução de Fernando Guimarães

Homens e animais ou de como tudo é "pó" e "vaidade"

"Quanto aos homens, penso assim: Deus os põe à prova para mostrar-lhes que são animais. Pois a sorte do homem e a do animal é idêntica: como morre um, assim morre o outro, e ambos têm o mesmo alento; o homem não leva vantagem sobre o animal, porque tudo é vaidade.

Tudo caminha para um mesmo lugar:
tudo vem do pó
e tudo volta ao pó"

- Eclesiastes, 3, 18-20.

"Vaidade" traduz o hebraico "hebel" (vapor, sopro), que aqui designa o "ser ilusório das coisas", segundo o comentário da Bíblia de Jerusalém.

Madalena




Que isto pode pensar-se e intimizar-se com o vazio e a tristeza mas sem deixar de escutar aquela pura pulsação que traz o bom.

Para Mada

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Os portugueses segundo Miguel Real - "Jornal de Leiria", 11.06.09

A realidade é inútil

A Baqueante

Não sei onde estará o retiro que eu quero
Não sei se o há
Havendo-o, não o vejo
Não o havendo, mais o anseio
Ainda mais concretamente
O desejo
Nunca fui de encobertos, da bruma em glória
Sou, desde tenra memória
De frescas alvoradas macias azuis
Antes,
De ocasos cor de fogo e prenhes de tudo
Contudo
Contudo…
O retiro que eu queria não se retira dessa fímbria
Dessa fina tira da reminiscência
Não assoma agora
Àquela porta
Não se adentra pelas janelas que batem com as correntes de ar
(Será que há ar, no retiro a que aspiro?
Aspirar sem respirar não poderia!)
Será talvez castigo este desencontro
Este apartamento, o desmembramento de sentir
Se amores tenho
Qual a impossível razão
Deste ansiado check-in para a Utopia
Que é, como sabemos, nenhum lugar?
De que tépida desrazão é feito o mundo?
Os mornos serão cuspidos
Como eu cuspo tudo, neste serão
Porque é verdade que a cidade é putrefacta e me enoja deveras
Assim como é sabido do fim prematuro de todas
As Primaveras
Por causa das psicopáticas alterações climáticas
Lamento meus caros
Mas é talvez verdade que já não tenha
Forças simbólicas
Pernas erráticas
Sonhos desvairados e sãos
Talvez a existência seja um arame farpado
De mil nãos
De mil mãos
Fechadas
Talvez afinal todas as histórias de infância fossem para nada
E o meu retiro não seja sequer
Em parte alguma

...

E se agora tergiverso
É decerto porque
Já não me sobram versos para descortinar
A dúvida
De saber se também inexisto
Como aquele lugar
Que não é
Pois não?

domingo, 19 de julho de 2009

ausência



Não se repete o que é eterno

A dança de dentro na quietação do pleno

A paixão da luz que se entrança

Nas coisas desertas de mim

A sede a frescura presa a dois dedos de conversa

Conversos ao sonho voamos na largura que nos tem

No regaço da noite presa por pouco

Ao sorriso de alguém

Pode até ser a imaginação e tudo mais

A irromper do fundo de onde o escuro brota

Para fecundar a claridade

A intensidade do olhar

Nada tem que o torne presa da concretude

Num dia o universo inteiro se faz no dia

O que nos chega descoberto ou não

Mas tudo é mais que tudo

Se visto com o coração

Até a sombra do que foi

Os restos só são restos na incompletude da memória

sábado, 18 de julho de 2009

animais domésticos

o que me incomoda nesses bichos? bem não foi um calvário eu suporto, o que me incomoda... não gosto de roçadores, um gato passa seu tempo se roçando, roçando em voçê, não gosto disso. um cachorro, o que reprovo, fundamentalmente no cachorro, é que ele late. o latido me parece ser o grito mais estúpido.
gilles deleuze

"A presunção é a nossa enfermidade natural e original. A mais calamitosa e frágil de todas as criaturas é o homem, e ao mesmo tempo a mais orgulhosa"

- Montaigne, "Apologie de Raimond Sebond", Essais, II, 12.

Divina Dialéctica

Nesta terra terrivelmente livrada
através da liberdade fictícia e crua
rege o rei corno, o coroado do nada
andando vermelho, rígido e nu

nos palcos vaidosos da humanidade
embrutecida na fé pelo material,
ela acredita ainda na despida verdade
e louva o imanente e o infernal

mas o que cicatriza é o transcendente
a vertigem sublime, bela e convulsiva
que ultrapassa o barro e a serpente

na união delirante, absoluta e viva
do espírito leve com o corpo independente,
sensual e celeste - na ascese erótica da vida.

para o nosso amigo R. L.
Madragoa, 17.VII.09

"O verdadeiro teste moral da humanidade..."

"A verdadeira bondade do homem só pode manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros"

- Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, tradução de Joana Varela, Lisboa, Dom Quixote, 2000, p.329.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Luxúria

“Luxúria, luxo, comércio, indústria, ciência, filosofia devem ser abominadas quando se exercerem apenas numa forma terrena, alheada dos Céus. Mas quando o sopro divino destes animar quaisquer ocupações da Vida, quando essas ocupações forem formas particulares de ascese, então eles se divinizarão, saindo da sua atitude profana e herética. Enquanto só da Terra é que tudo é condenável, desde a vida do lar ou a actividade bruta e inteligente das oficinas até à prostituição ou aos movimentos sociais revolucionário. […] Desde que tenhamos só preocupações humanas, terrenas, não sentindo exclusivamente Deus em toda nossa vida, somos infernalmente condenados, quer haja em nós honestidade quer haja desonra. O que devemos é viver só para Deus, na luxúria, na pomba e em toda a vida. […] O pai que se preocupa muito com os filhos, o comerciante honrado que pensa muito nos seus negócios, o escroc que só vive para as suas trapalhices, são igualmente abomináveis visto as suas preocupações serem da Terra e não dos Céus. Não encontro neles diferença alguma. E na mesma ordem de ideias abomino, no fundo, a luxúria que não e de místicos e não se exerce misticamente. Mas quando assim se exerce o caso e diferente, então Sodoma divina-se.”

Raul Leal, Sodoma Divinisada, p. 12

rosa- velho

o que aprouver aos deuses a mim há-de:
a mirra o incenso o jade

o alabastro a ogiva

o que a mim aprouver
aos deuses con-cativa:

o sal o sul
o teu perfume a sol

o azul

detrás da tua forma-carne
a rósea cor festiva

viva a liberdade

morte a quem nos mata, nós queremos viver

quarta-feira, 15 de julho de 2009

The Lost Sheep


felizmente há luar

livra-te do medo. opta pela luta. resiste ao novo fascismo.
São as experiências não passíveis de memória que nos relembram o Imemorável.

“Não posso estar em parte alguma. A minha / Pátria é onde não estou [...]"

- Álvaro de Campos, Opiário.

Contrição


Pintura: "anjo"

O Caminho
não pode ser percorrido
num instante
Mas deve ser perfeito no Instante

Só perfaz o Caminho
quem em si se cala
e no grito supremo
instala a morada
do sopro mais ténue
da sua respiração

O silêncio
é a vibração do oco do tempo
em campânulas aceso
no seio da obscura
presença da totalidade

em flor o olhar
o perfume a essência
o longe que vem anunciado
no vento das vésperas

terça-feira, 14 de julho de 2009

Blogs: terapia da solidão ou distracção da morte precoce?

Inscrições abertas até 28 de Agosto. Informações: 217920000

Os Cinco

Primeiro:
Branco ou tinto, confrades?
Hoje não sei se preciso branco ou tinto,
A leveza branca ou o profundo vermelho das uvas
Do nosso país.

Segundo:
Que país, pá!
De que falas?
Pede o vinho e cala-te.

Terceiro:
Também não sei?
Carne ou peixe, céu ou mar?
Tudo se abre em mim como no horizonte
E antes do horizonte indefinido.
Carne sangrenta ou peixe branca e salgada?
O sangue doce é a anunciação do crepúsculo,
O peixe do mar é o voo do espírito.
Mas o que quero, será que sei?

Quarto:
Eu não tenho duvida do meu cardápio,
Pois vou comer uma Omeleta
Nem carne, nem peixe
Somente ovo –
Ai, mas o ovo também me faz pensar…

Segundo:
Não começa de novo
Você já escolheu
E as perguntas só aparecem depois.
Eu vou comer um salmão.

Terceiro:
O que, um salmo? Que salmo?

Segundo:
Um salmão, caramba!
Escolhe tu o vinho!!!

Quinto:
Se eu pudesse escolher o vinho
Um vinho bom
Iria escolher um vinho que ainda não existe.
Mas assim prefiro um vinho tinto
Para chamar o profundo
O fundo sem fundo
Que ainda não chegou em nos.

Terceiro:
Então a carne, um bife
Para acompanhar o vinho
Para me.

Primeiro:
Um vinho tinto então!

(o vinho tinto vem e eles enchem os copos e brindam)

Primeiro:
Nos somos cinco e tudo que seja, será cinco.
Cinco como nos cinco,
Quinto, cinco, quinto…

Todos:
Nos, o Quinto
Cinco dedos da nossa mão
Cinco sentidos unidos
Cinco extremidades e um coração

Quarto:
Mas, o que…?
Não entendi?
Que extremidade?

Segundo:
A sexta extremidade.

Terceiro:
Para de rir e de falar besteira,
Somos todos tudo ao mesmo tempo!


Primeiro:
Somos tudo todos. Os cinco e o quinto…
Saúde!

Todos:
Saudade!


Silencio … E no encoberto do restaurante ergue se uma voz sonora:

E quando vamos para Amarante?

FIM

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Os Mortos

Na ambígua intimidade
que nos concedem
podemos andar nus
diante de seus retratos.
Não reprovam nem sorriem
como se neles a nudez fosse maior.

Carlos Drummond de Andrade
(De Lição de Coisas)

dança leve

QUADRA P´RA PULAR

Tribunal nacional condenou recentemente
"pilha-galinhas"
a alguns meses de privação de liberdade.

A QUADRA

POR ROUBAR DUAS GALINHAS
LÁ VAI PRESO O SALAFRÁRIO
LIVRE COMO AS ANDORINHAS
SÓ ROUBANDO UM AVIÁRIO

boas férias - se for caso disso

Pluma de Silêncio



O instante sempre a nascer e a morrer, entre os teus braços, entre ... o silêncio e o Silêncio de Saudade...

O risco de tudo o que é muito antigo ou muito novo... Seduz com a aparência de não pertencer ao tempo, deslumbra com o brilho da falsa eternidade.

filosofia libertária

volto à questão o que é a filosofia? a resposta deveria ser muito simples... um sistema aberto é quando os conceitos são relacionados a circunstâncias e não mais a essências... é preciso inventar, criar os conceitos e há aí tanta invenção quanto na arte ou na ciência.
deleuze.
libertemos a filosofia das essências, dos unos, sejamos criadores. abandonemos a camelice.

domingo, 12 de julho de 2009

st

Da Saudade e da "Índia de miragem"

“Saudade… […] movimento pendular do coração lusíada entre a pátria e todas as Índias que se atingem e aquela Índia de miragem, que não é nenhuma destas e sempre se procura e deseja, quando estas se nos deparam; incessante movimento do coração do homem entre as terras e os céus visíveis e um Céu e uma Terra que apenas se pressentem na misteriosa polarização de toda a nossa alma”

– Leonardo Coimbra, “Sobre a Saudade”, in Dispersos. III - Filosofia e Metafísica, compilação, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel, nota preliminar de Francisco da Gama Caeiro, Lisboa, Editorial Verbo, 1988, pp.137-138.

Pascoaes e Hölderlin

Poetas da profecia e da divina loucura
à procura da índia ainda distante
encontram se numa infinita despedida
na ponte do tolo de Amarante

e lembram as ruínas do continente
célticas e gregas pedras no sol-pôr
e falam das hecatombes e da dor
da ignorância do dia impertinente

que alvoreceu na Europa desencantada
onde os gritos do mercado derrubam o mito
que era tudo mesmo e que é não mais nada

do que uma velha e gorda vaca bem acabada
na lembrança, remota, do rito
com o touro divino numa praia dourada.

sábado, 11 de julho de 2009

IFotografia

Eu sou uma função humanística tardia,

aquilo que nunca é,

uma obtusa força esvaziada do passado.

Só na tradição, no incontaminado dialecto,

existe o meu amor, submerso pelo incandescente horror,

sem solução de continuidade até ao final...

Sou certamente o espelho de um organismo social.

Venho das ruínas perdidas no bulício da vida,

na periferia dos dias,

das igrejas dilaceradas por um obscuro escândalo de consciência,

dos retábulos de altar, das desconcertantes e sinceras aldeias esquecidas...

onde viveram os irmãos.

Ando pelo espaço como um doido.

Canto as ilhas do mundo antigo,

as angras da História, a "vida" que resiste...

a qualquer sonho de coisa alguma.

"Inactual" vagueio fiel pelas ruas como um cão sem dono,

estritamente técnico,

assinalando as osmoses entre imagens e versos.

Ou contemplo os crepúsculos, as manhãs,

nas colinas, no mundo,

no que jaz sem ser visto,

como os primeiros actos da Pós-História,

em perpétua comunhão,

em limites espaçados do verbo,

que ressuscito pelo privilégio do registo civil,

da orla extrema de alguma era sepulta.

Venço a atrofia momentânea do "corpo-literatura".

Regenero-o.

Ele está ali. De olhos fixos e costas arqueadas.

Ele e as palavras.

Profiro: - Monstruoso é quem nasceu das vísceras de uma ideia morta.


E eu, feto adulto,

sucumbo ao febril fervilhar, movo-me,

mais moderno que os amados rostos de ontem,

mais moderno do que qualquer moderno,

a buscar os irmãos que já não existem.

Maria Guedes, Junho de 2009

Grato amiga.