O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 30 de junho de 2009

"O humano é o sonho de uma sombra"

"Tu que existes exposto ao que os dias te trazem, o que é ser Alguém ? O que é não ser Ninguém ? O humano é o sonho de uma sombra [skiâs ónar anthrôpos]”

- Píndaro, Odes Píticas, VIII.

LIBERALISMO ECONÓMICO

50 000 milhões de falcatruas

=

150 anos de prisão

Moreu MAD OFF

Viva MAD IN

Trans-Pátria - "Somos portugueses antes de sermos homens - eis a doença da hiperidentidade que nos corrói"

"Suponhamos que o nosso verdadeiro problema é a identidade. Suponhamos que a raiz do nosso mal são os nossos problemas de identidade individual e colectiva. Mas o que significa para nós, portugueses, ter problemas de identidade? Antes de mais, fazer da identidade um problema, o problema nuclear da nossa existência e da nossa cultura [...].
[...] Eis os seus pressupostos: 1. O que é a nossa identidade - no sentido em que se apresenta como a última protecção narcísica e derradeiro obstáculo à transformação do indivíduo português? Definamo-la assim: é o surgir do rosto do eu, como condição de possibilidade de afirmação de todos os atributos "mundanos" do indivíduo, da afirmação deste como sujeito, antes do surgimento da singularidade do indivíduo como homem, ser nu em devir. Neste sentido a identidade é uma patologia de que o eu é o vírus despótico. Eu uno, unificador e omnipresente. Em tudo, na acção, na fala, nas relações sociais, na vida profissional, no espaço público, nós somos "fulanos de tal", somos pessoais e auto-reflexivos (ao contrário da criança ou do artista ou artesão, perdidos no objecto e no jogo). Somos portugueses antes de sermos homens - eis a doença da hiperidentidade que nos corrói. 2. A nossa falta de confiança, a inércia, a autocomplacência, o queixume e a inveja são pragas nacionais que nos envenenam. Todas decorrem naturalmente do tipo de subjectividade produzida pela doença da identidade. Esta fecha-nos em nós mesmos, impedindo-nos de criar um "fora", ar e vento livres, respiração para viver"

- José Gil, Em Busca da Identidade. O desnorte, Lisboa, Relógio d'Água, 2009, pp.9-10.

José Gil é hoje um dos autores com quem, nesta questão da identidade nacional, mais concordo e discordo. Concordo com o que diz, discordando das razões pelas quais o diz e das consequências que daí extrai. Mas a ver vamos. Comecei agora mesmo a ler este seu último livro.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

procuração

sou um simples animal. no meu caso uma perversa aranha. não faço por mal mas construo a teia para caçar os inocentes. e, penso na razão pela qual os humanos não se metem simplesmente na sua triste vida. concluo, por não saberem, se soubessem tratavam deles.
procuração não passo de certeza. porque sei que eles não sabem (sócrates). na verdade não passo de um aranhuço.

Artigo no jornal Público: "Promotores querem ir às legislativas. Petição para a criação do Partido pelos Animais circula na Net"

"Um partido político no qual os principais beneficiados não pensam, não falam e, muito menos, votam. Estranho? Não para os fundadores do Partido pelos Animais, aspirantes a uma cadeira no Parlamento português.

O partido ainda não está formalizado junto do Tribunal Constitucional. Como são necessárias 7500 assinaturas para isso - possui até o momento cerca de mil adesões na sua página no Facebook -, os coordenadores António Rui Ferreira dos Santos, de 45 anos, Pedro Luís de Oliveira, de 49, Paulo Alexandre Borges, de 49, e Fernando Leite, de 45, contam com um site na Internet (www.partidopelosanimais.com), apoio de artistas, como a actriz Sandra Cóias e os actores Pedro Laginha e Heitor Lourenço, da ex-ministra indiana Maneka Gandhi e do líder espiritual tibetano Dalai Lama.

Os quatro aspirantes a uma sigla política no país não são amigos de infância, nem possuem profissões afins. Pelo contrário. Fernando é consultor de vendas, Paulo é escritor e professor de Filosofia na Universidade de Lisboa, Pedro é licenciado em Direito e técnico superior de Segurança e Higiene do Trabalho no desemprego e António é empresário da área da construção civil.

O que uniu esses quatro apaixonados pelos animais e pela natureza foram as petições. Pedro lançou uma em Janeiro de 2007 para salvar os golfinhos no Japão, a qual já juntou mais de 1.200.000 assinaturas. António, naquele mesmo ano, criou uma contra a estilista Fátima Lopes, que utilizava peles de animais nas roupas da sua criação. Paulo, em 2008, durante os Jogos Olímpicos de Pequim, realizou uma outra para condenar a repressão no Tibete. Fernando, por sua vez, sensibilizou-se com a causa do Pedro. Depois de inúmeras conversas, perceberam que poderiam juntar forças. Criaram, então, um partido voltado para a causa dos animais.

"Em Portugal, os animais são tratados como coisas pela Constituição. São tratados pelo Departamento de Resíduos Sólidos. Estamos no ponto zero, na Idade da Pedra", reclama António, que veste uma t-shirt com os dizeres "as peles são usadas por animais bonitos e pessoas feias".

O partido, por sua vez, não é monotemático, pois manifesta-se também "a favor da defesa da natureza e de todas as formas de vida. Isso inclui o próprio homem, cuja felicidade depende da sua relação harmoniosa com esses outros seres vivos", explica Paulo, presidente da União Budista Portuguesa.

Correr contra o tempo
Não há uma data limite para inscrição no Tribunal Constitucional para a candidatura do partido, mas os fundadores estão a correr contra o tempo para angariar assinaturas. Segundo eles, o processo só não está mais avançado porque as pessoas precisam preencher formulários manualmente, não podendo fazer isso pela Internet.

O grande trunfo, explicam os coordenadores, para conseguir arrecadar as outras 6500 assinaturas que ainda faltam para que se tornem um partido oficial, são as mil pessoas que já aderiram. A ideia é que, cada uma delas, arranje outras 20. Além disso, estão a contactar as associações de protecção de animais do país para conseguir apoio.

"Sendo um partido, podemos e devemos ser a voz das associações", esclarece Pedro. Já para conseguir conquistar cadeiras no Parlamento, apostam também no facto de a população portuguesa "estar desesperadamente desencantada, saturada do discurso vazio", afirma Fernando. Uma das propostas do partido, que já existe na Alemanha, Inglaterra, Holanda, Espanha e Itália, é a mudança na legislação - "os animais deixarem de ser considerados coisas".


http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1389180

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres

"Porque o desfecho e remate do homem não é gozar, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem o saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. Este erro antropocêntrico é a imoralíssima moral dos filósofos evolucionistas [...].

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.[...]

A moral religiosa é falsa, porque é a moral do indivíduo. A moral filosófica, à maneira materialista, positivista, evolucionista, livre-pensante, é falsa, porque exclui os animais. A moral ascética é falsa, porque exclui as coisas.
O ascetismo e o abandono são falsos, porque importariam ou a salvação pessoal ou, tão só, a sectarista. A não resistência ao mal é falsa, porque, precisamente, eliminar o mal é o fim do homem, único e supremo.
Não foi Tolstoi. Quem encontrou a palavra do enigma foi o poeta alemão Novalis. Novalis escreveu que: - o fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza. Esta palavra vai até o fundo do fundo do abismo. Nunca nenhuma assim sublime brotou de lábios inspirados. O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza.
Como? Trabalhando, para saber, a fim de poder. E, podendo, cumpre-lhe esquecer-se, não acreditando, como até aqui, que a decifração dos mistérios é para que sua curiosidade se satisfaça; para que, redundantemente, seus prazeres aumentem. O homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a grande libertação universal"

- Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, Porto, Lello & Irmão, 1902, pp.468-470.

domingo, 28 de junho de 2009

sem título

Morreu quando os dias eram ainda novos.
Saiu voado,
Peixe de luz na água da noite.


1-Coltrane
2 -Miles Above

by Aaron Scott Badgley

pintura "Half Dome, Yosemite Valley" by Albert Bierstadt

execução

Um círculo de sangue

Ínfimo entre a noite e o dia.

Nem sombras

Nem sonhos:

Rumor de salitre

Laminando os olhos

(Microscópico alvitre)

Antes do silêncio.

Mas antes do silêncio.

A palavra com voz,

Um símbolo no termo

Da luz petrificando

A teia

No labor de aranha.

Um círculo de morte

Suspendendo o sangue.

sábado, 27 de junho de 2009

Lobos

Every wolf`s and lion`s howl
Raises from hell a human soul.
[William Blake]

Os índios americanos acreditam que todos nós temos um animal guardião e que este nos é revelado em sonhos. Talvez esta crença tenha um significado mais profundo.

A verdade é que os lobos estão à beira da extinção total, entre tantos outros seres. São dos poucos animais monógamos. São inteligentes, profundamente leais aos membros do grupo, meigos e brincalhões. Talvez a próxima geração possa vê-los apenas no YouTube.


Música: The Memory of Trees, Enya

Se quiser ajudar a preservar o Lobo Ibérico: Grupo Lobo

William Blake: Auguries Of Innocence

To see a world in a grain of sand,
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour.

A robin redbreast in a cage
Puts all heaven in a rage.

A dove-house fill'd with doves and pigeons
Shudders hell thro' all its regions.
A dog starv'd at his master's gate
Predicts the ruin of the state.

A horse misused upon the road
Calls to heaven for human blood.
Each outcry of the hunted hare
A fibre from the brain does tear.

A skylark wounded in the wing,
A cherubim does cease to sing.
The game-cock clipt and arm'd for fight
Does the rising sun affright.

Every wolf's and lion's howl
Raises from hell a human soul.

The wild deer, wand'ring here and there,
Keeps the human soul from care.
The lamb misus'd breeds public strife,
And yet forgives the butcher's knife.

The bat that flits at close of eve
Has left the brain that won't believe.
The owl that calls upon the night
Speaks the unbeliever's fright.

He who shall hurt the little wren
Shall never be belov'd by men.
He who the ox to wrath has mov'd
Shall never be by woman lov'd.

The wanton boy that kills the fly
Shall feel the spider's enmity.
He who torments the chafer's sprite
Weaves a bower in endless night.

The caterpillar on the leaf
Repeats to thee thy mother's grief.
Kill not the moth nor butterfly,
For the last judgement draweth nigh.

He who shall train the horse to war
Shall never pass the polar bar.
The beggar's dog and widow's cat,
Feed them and thou wilt grow fat.

The gnat that sings his summer's song
Poison gets from slander's tongue.
The poison of the snake and newt
Is the sweat of envy's foot.

The poison of the honey bee
Is the artist's jealousy.

The prince's robes and beggar's rags
Are toadstools on the miser's bags.
A truth that's told with bad intent
Beats all the lies you can invent.

It is right it should be so;
Man was made for joy and woe;
And when this we rightly know,
Thro' the world we safely go.

Joy and woe are woven fine,
A clothing for the soul divine.
Under every grief and pine
Runs a joy with silken twine.

The babe is more than swaddling bands;
Every farmer understands.
Every tear from every eye
Becomes a babe in eternity;

This is caught by females bright,
And return'd to its own delight.
The bleat, the bark, bellow, and roar,
Are waves that beat on heaven's shore.

The babe that weeps the rod beneath
Writes revenge in realms of death.
The beggar's rags, fluttering in air,
Does to rags the heavens tear.

The soldier, arm'd with sword and gun,
Palsied strikes the summer's sun.
The poor man's farthing is worth more
Than all the gold on Afric's shore.

One mite wrung from the lab'rer's hands
Shall buy and sell the miser's lands;
Or, if protected from on high,
Does that whole nation sell and buy.

He who mocks the infant's faith
Shall be mock'd in age and death.
He who shall teach the child to doubt
The rotting grave shall ne'er get out.

He who respects the infant's faith
Triumphs over hell and death.
The child's toys and the old man's reasons
Are the fruits of the two seasons.

The questioner, who sits so sly,
Shall never know how to reply.
He who replies to words of doubt
Doth put the light of knowledge out.

The strongest poison ever known
Came from Caesar's laurel crown.
Nought can deform the human race
Like to the armour's iron brace.

When gold and gems adorn the plow,
To peaceful arts shall envy bow.
A riddle, or the cricket's cry,
Is to doubt a fit reply.

The emmet's inch and eagle's mile
Make lame philosophy to smile.
He who doubts from what he sees
Will ne'er believe, do what you please.

If the sun and moon should doubt,
They'd immediately go out.
To be in a passion you good may do,
But no good if a passion is in you.

The whore and gambler, by the state
Licensed, build that nation's fate.
The harlot's cry from street to street
Shall weave old England's winding-sheet.

The winner's shout, the loser's curse,
Dance before dead England's hearse.

Every night and every morn
Some to misery are born,
Every morn and every night
Some are born to sweet delight.

Some are born to sweet delight,
Some are born to endless night.

We are led to believe a lie
When we see not thro' the eye,
Which was born in a night to perish in a night,
When the soul slept in beams of light.

God appears, and God is light,
To those poor souls who dwell in night;
But does a human form display
To those who dwell in realms of day.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

quarta-feira, 24 de junho de 2009

É a Hora!

Earthlings (documentário)


Earthlings (Terráqueos, em português) é um documentário norte-americano de 2005, realizado, escrito, produzido e dirigido por Shaun Monson e co-produzido por Persia White. Levou 5 anos a ser realizado, pois inicialmente o projecto visava essencialmente uma campanha de consciencialização pública sobre a castração dos animais de estimação. Mas o realizador e a equipa desenvolveram o tema devido às pesquisas e situações encontradas, o que resultou na longa-metragem 'Earthlings'.

Narrado pelo actor - e activista dos direitos dos animais - Joaquin Phoenix, que também é 'vegan' e membro da PETA (a maior organização de defesa dos direitos animais do mundo). A banda sonora foi composta exclusivamente para o documentário pelo músico Moby.

O documentário mostra como funcionam as grandes indústrias e corporações e relata a dependência da humanidade sobre os animais, para obter desde a alimentação, vestuário e calçado até objectos diversos, incluindo a diversão, não esquecendo o abuso em experiências científicas. Mostra como a espécie humana e as suas relações de dominação, como o racismo e o sexismo, a xenofobia, etc. tem tratado com a maior falta de ética, humanidade e compaixão a natureza, os animais e a si mesmo.

http://www.earthlings.com/
(contém imagens impressionantes "não recomendadas" a pessoas sensíveis)

terça-feira, 23 de junho de 2009

deixar de ser

'mas o neoplatónico esforçar-se por tornar-se aquilo que deus é - a meta da sua actividade é deixar de «ser, de ser entendimento e razão.» o êxtase e o arroubo constituem para o neoplatónico, o supremo estado psicológico do homem. semelhante estado objectivado como ser é o ser divino. assim, deus procede apenas do homem, mas não ao invés, pelo menos originariamente, o homem a partir de deus.... com efeito, onde é que este ser sem dor e sem necessidades pode ter o seu fundamento e origem senão nas dores e necessidades do homem? a miséria da necessidade e da dor corresponde também o sentimento da beatitude. só em oposição à infelicidade é que a beatitude é uma realidade. só na miséria do homem tem deus o seu lugar de nascimento'
ludwig feuerbach, princípio da filosofia do futuro, edições 70






Mar adentro,
mar adentro.

Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.


Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
‘más adentro’, ‘más adentro’
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.

Ramón Sampedro, Mar Adentro

Fotografia: Alejandro Amenábar, Mar Adentro

poema e fotografia encontrados neste cantinho

Se nada é novo, e o que hoje existe
Sempre foi, por falha a nossa mente
E, se esforçando por criar, insiste,
Parindo o mesmo filho novamente!

Que do passado houvesse uma mensagem,
Já com mais de quinhentas translações,
Mostrando em livro antigo a sua imagem
Quando a escrita mal tinha convenções!

Para eu ver o que então diria o mundo
Da maravilha dessa sua forma;
Se nós ou eles vamos mais ao fundo,

Ou se a revolução nada reforma.
Estou certo que os sábios do passado
A alvo pior tenham louvado.


William Shakespeare, soneto (59)


segunda-feira, 22 de junho de 2009

http://www.refugiodaspatinhas.org/

http://www.refugiodaspatinhas.org/

Descobri hoje o site acima.

Se puderem, ajudem por favor este trabalho tão dedicado. É "com o pouco de muitos" que as boas obras podem fluir melhor e dar mais. Neste caso, salvar mais.

Obrigada a todos.

Abraços tamborínicos


"A mermaid found a swimming lad,
Picked him for her own,
Pressed her body to his body,
Laughed; and plunging down Forgot in cruel happiness
That even lovers drown."


William Butler Yeats

The Lady from the Sea - Edvard Munch, 1896

Sua Santidade o Dalai Lama apoia o Partido pelos Animais




Partilho com os leitores deste blogue a profunda Alegria por acabar de receber o apoio pessoal de Sua Santidade o Dalai Lama ao Partido Pelos Animais, acompanhado da seguinte declaração, que a seguir traduzo:

"Today, together with a growing appreciation of the importance of human rights there is a greater awareness worldwide of the need for the protection not only of the environment, but also of animals and their rights. Unfortunately, there continue to be those who feel it is not only acceptable, but also a pleasure, to hunt or fight with animals, resulting in the painful deaths of those animals. This seems to contradict the general spirit of egalitarianism growing in most societies today.

I deeply believe that human beings are basically gentle by nature and I feel that we should not only maintain gentle and peaceful relations with our fellow human beings but that it is also very important to extend the same kind of attitude towards the environment and the animals who naturally live in harmony with it. As a boy studying Buddhism in Tibet, I was taught the importance of a caring attitude towards others. Such a practice of non-violence applies to all sentient beings – any living thing that has a mind. Where there is a mind, there are feelings such as pain, pleasure and joy. No sentient beings want pain, instead all want happiness. Since we all share these feelings at some basic level, we as rational human beings have an obligation to contribute in whatever way we can to the happiness of other species and try our best to relieve their fears and sufferings"

"Hoje, em conjunto com um crescente apreço pela importância dos direitos humanos, há uma maior consciência em todo o mundo da necessidade de proteger não apenas o ambiente, mas também os animais e os seus direitos. Infelizmente, continuam a existir aqueles que sentem ser não apenas aceitável, mas também um prazer, caçar ou lutar com animais, resultando nas suas mortes dolorosas. Isto parece contradizer o geral espírito igualitário que hoje cresce na maioria das sociedades.

Creio profundamente que os seres humanos são fundamentalmente amáveis por natureza e sinto que devemos não apenas manter relações gentis e pacíficas com os nossos companheiros seres humanos, mas ser também muito importante estender o mesmo tipo de atitude ao meio ambiente e aos animais que vivem naturalmente em harmonia com ele. Quando era um rapaz que estudava o Budismo no Tibete, foi-me ensinada a importância de uma atitude carinhosa para com os outros. Uma tal prática de não-violência aplica-se a todos os seres sensíveis - toda a criatura viva que tem uma mente. Onde existe uma mente, existem sentimentos como dor, prazer e alegria. Nenhum ser sensível deseja a dor, em vez disso todos desejam a felicidade. Visto que todos partilhamos estes sentimentos nalgum nível fundamental, nós, como seres humanos racionais, temos uma obrigação de contribuir, de todos os modos que pudermos, para a felicidade das outras espécies e dar o nosso melhor para aliviar os seus medos e sofrimentos"

- Sua Santidade o Dalai Lama

Unguento

Eu não aguento tanto sentimento
Eu não aguento tanto sentimento

Eu não aqueço mais um Dezembro
Eu não acendo mais um ciúme

Não suporto mais nenhum ruído, nem um rumor
Nem este meu canto demente
Nem mais um recado de amor

Eu não aguento tanto sentimento
Eu não aguento tanto
Sem ti minto
Eu não aguento tanto sentimento
Eu não aguento
Tanto
Sem ti meto
Medo
Eu não aguento tanto
Sem ti

domingo, 21 de junho de 2009


Fotografia "Sunset and cherry trees in bloom" by Peter Krogh

(para acompanhar o fim de tarde)

Naci En Alamo:"no tengo lugar/ y no tengo paisaje/ yo menos tengo patria"

Duas "versões" fabulosas dum mesmo original.

Quem tiver pátria e lugar dela bastante, que escolha a paisagem... e "com seus dedos faça o fogo"...

(Minha gratidão a Saudades, por me ter dado a conhecer a voz de Yasmin Levy)






Naci En Alamo
no tengo lugar
y no tengo paisaje
yo menos tengo patria
con mis dedos hago el fuego
y con mi corazon te canto
las cuerdas de mi corazon lloran
naci en alamo
naci en alamo
no tengo lugar
y no tengo paisaje
yo menos tengo patria
naci en alamo
naci en alamo
ay cuando canta(s)
y con tus dolores
nuestras mujeres te chican
ay, ay
ay
ay, ay
ay
naci en alamo
naci en alamo
no tengo lugar
y no tengo paisaje
yo menos tengo patria

sábado, 20 de junho de 2009

Dos "Belamente Adornados"


"Trois regnes", desenho de José Roosevelt



Eis provido de um assento o esqueleto do bastão-insígnia!
Tu, designada para seres sua mãe,
Tu, designado para seres seu pai;
Isto acontece para que tenhais
Bela grandeza de coração.
Só assim haverá perfeita plenitude.


[recolha de Léon Cadogan, estudioso do povo Guarani]


Estas palavras, vindas de um deus e pronunciadas pelo sábio que as ouviu, anunciam que a mulher está grávida de um rapaz, metaforicamente chamado “esqueleto do bastão-insígnia”: este instrumento brandido pelos homens durante as danças rituais, é o sinal da masculinidade. Engendrar uma criança é uma das condições de acesso ao estado de aguyje, de perfeita plenitude, pois trata-se de tornar um espaço – o corpo que irá nascer – apto para receber uma pequena partícula da substância divina, uma Bela Palavra, uma alma. As crianças são assim uma mediação entre os adultos e os deuses.

Pierre Clastres
(in”O Grão-Falar, Mitos e Cantos Sagrados dos índios Guarani
Editora Arcádia, Lisboa, 1977, pág. 101 e seg.
Tradução de Luísa Neto Jorge, aprovada pelo autor


Atrevo-me a acrescentar, na base de tão belas palavras.
Cada alma, cada Bela Palavra (como dizem os Guarani),”esses que belamente são adornados” brotam-nos do futuro, como flores do presente, dando sentido pleno e inteiro ao “Velho Álbum” que nos escreve e vê no “silêncio dos versos.”

Cada palavra e cada silêncio nela, reflectem-se mutuamente. Tal como os seres: reflexos, às miríades, d’O que não tem reflexo, pois neles mora e a todos adorna - adormecido, ainda que acordado; desperto, ainda quando saudosamente esquecido de si.


Desde o mar, espaço primordial de todos os estados e todo o estar...
(A Liliana Jasmim, que persevera no Belo Adornar de si...)

"The Old Album"


pintura "The Old Album "
by Iman Maleki

(um dos meus pintores predilectos)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Relendo Céline com Pacheco


Fonte: imagem Google


Não há nada mais terrível dentro de nós e sobre a terra e, talvez até, nos céus, do que aquilo que ainda não foi dito.
Só ficaremos de todo tranquilos quando tudo tiver sido dito, dito duma vez para sempre; só então tudo estará em silêncio, ninguém mais terá medo de se calar.

Céline,“A Viagem ao Fim da Noite”,
citado por Luiz Pacheco, in “Crítica de Circunstância”,
Editora Ulisseia, Lisboa, 1966, pág. 85
CALOR


o homem disse
a propósito de Mercado
ser a situação actual
bastante introgessiva

nem o homem sabe
seguramente o que dizia
nem eu sei
nem nunca saberei
o que é
introgressivo

a palavra contudo
me parece clara
e me agrada
e a sinto perfeitamente adaptada
ao tempo que faz hoje:
mais de quarenta graus de temperatura
o sol a reluzir no céu
como no guiador cromado
de qualquer
nossa primeira bicicleta

os pássaros calaram-se nos galhos
sombreados dos freixos e dos choupos
nas oliveiras cinzentas
nem as cigarras cantam
como se o calor
lhes tivesse impiedosamente
derretido as asas

procuro nos poetas gregos:
Arquílogo de Paros
Ìbico de Régio
em Safos natural de Lesbos
a palavra exacta
que defina
este insuportável
desarranjo meteorológico

posso associá-lo
vagamente a Vulcano
ou à fusão do átomo
ao efeito de estufa
nada porém que me diga tanto
como o insuspeitado introgressivo
do homem
a propósito de
Mercado

sendo que
não poder sair à Rua
é um estado
indiscutívelmente introgressivo
não me resta outra saida
que não seja:
despir a alma
e pendurá-la num cabide
onde corra
um mínimo de aragem

deixá-la assim a abanar
inflada como vela de pequeno barco
T-shirt de Ulisses
que o conduzisse
de regresso
a Ítaca

é penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor
disse Alceu de Mitilene
há pelo menos
dois mil
e setecentos anos

isto
pelo facto simples
de não ter sido ainda
a propósito de Mercado
criado o inefável
vocábulo
INTRO
GRESSIVO

Tenga Rinpoche em Lisboa - Conhecer a natureza da mente

Caros Amigos,

É com enorme satisfação que vos informamos da presença em Lisboa de Kyabje Tenga Rinpoche.

Tenga Rinpoche nasceu em 1932 em Kham, no Tibete oriental. A sua educação decorreu inicialmente nos Mosteiros de Benchen e Palpung, sob orientação do 9º Sangye Nyempa Rinpoche (irmão de Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche), e dos anteriores Situ Rinpoche e de Jamgon Rinpoche. Posteriormente, estudou com muitos outros Mestres e completou os seus estudos com um retiro de 3 anos. Foi também discípulo de Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche e de Kyabje Dudjom Rinpoche.

Após deixar o Tibete, em 1959, instalou-se em Sikkim no Mosteiro de Rumtek. Aí, Tenga Rinpoche serviu durante 17 anos S. S. o XVI Karmapa. Desde 1976, Tenga Rinpoche vive no Nepal, onde estabeleceu o Mosteiro Benchen Phuntsok Dargyeling e um Centro de Retiros em Pharping (http://www.benchen.org/home). É também o fundador de Centros na Polónia, em Itália e na Alemanha.

Kyabje Tenga Rinpoche é um dos poucos Mestres detentores da linhagem não interrompida da tradição Karma Kagyu do Budismo Tibetano. A sua visita a Portugal constitui uma oportunidade rara e preciosa para contactar com um grande Mestre da actualidade.

Programa:

21 de Junho de 2009 (Domingo) – 16h00
Desenvolver a calma mental

22 de Junho de 2009 (2ª feira) – 17h00
Visão profunda da paz mental

23 de Junho de 2009 (3ª feira) – 17h00
Meios para transformar a mente e revelar a sua pureza original

Local: Hotel Marriott, Av. dos Combatentes, Lisboa

Custo de participação: 20 euros por dia; 50 euros os 3 dias

Esperamos vê-los !

Fundação Kangyur Rinpoche

"É tão difícil o silêncio" (Friedrich Nietzsche)

"Zaratustra",Nicholas Roerich


Ai, meus irmãos! Sabemos talvez um pouco demasiado sobre todos nós! E muitos há que se nos tornam transparentes, mas ainda assim não o suficiente para que os consigamos penetrar.
É difícil viver entre os homens: é tão difícil o silêncio.
E não é para com aquele que nos é mais ofensivo que somos mais injustos, mas para com o que nos é indiferente.
Se, contudo, ocorrer teres um amigo que sofra, sê um abrigo para o seu sofrimento, mas um leito duro, como uma cama de campanha; mais útil lhe serás desse modo.
E se um amigo te fizer mal, diz-lhe: "Perdoo-te o que me fizeste; mas houvesse-lo tu feito a ti mesmo, e como poderia eu perdoar-to?"
Assim fala todo o grande amor: ele sobrepuja o perdão, e até mesmo a piedade.
É preciso conter o coração: porque, se o deixamos à solta, bem depressa podemos perder a cabeça!
Ai! Onde encontramos nós na terra loucuras maiores que entre os compassivos? E que foi no mundo maior causa de sofrimento que as loucuras dos tais?
Pobres dos que amam, se não estão acima da sua piedade!
Assim me disse o diabo, um dia: "Até Deus tem o seu inferno: é o seu amor pelo homem".

Friedrich Nietzsche
“Assim Falou Zaratustra”, II, “Os compassivos

(Versão com base na tradução inglesa de Thomas Common,
Dover Thrift Editions, 1999, pág. 58 e seg.)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

NOVA PETIÇÃO MIL: “NÃO DESTRUAM OS LIVROS!”

Verificando-se que editoras nacionais estão a proceder à desativação comercial dos livros não esgotados mediante a sua destruição, e que esta hipótese é igualmente contemplada pela editora do Estado português, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO considera isto um escandaloso crime de lesa-património, que vai fazer desaparecer muitos milhares de volumes preciosos da nossa cultura que, apesar do seu valor, não tiveram sucesso comercial junto do grande público.

Perante esta situação, o MIL apela a todos os cidadãos que assinem esta petição, exigindo que as editoras nacionais, e em particular a Imprensa Nacional - Casa da Moeda, não destruam as obras em questão, oferecendo-as antes às bibliotecas, escolas e centros culturais nacionais, aos leitorados de Português e departamentos onde se estude a Língua e a Cultura Portuguesas nas universidades estrangeiras, bem como às universidades e centros culturais dos países lusófonos. Para tanto, os Ministérios da Cultura, da Educação e dos Negócios Estrangeiros (este através do Instituto Camões), bem como a TAP AIR Portugal, devem-se articular com as Editoras na estratégia da distribuição e transporte dos livros a nível nacional e internacional.

Em vez de se destruir património precioso e insubstituível, esta é uma ótima oportunidade de se prestar um serviço à cultura e à educação nacionais, bem como de promover a cultura portuguesa no espaço lusófono e no mundo, tarefa por todos reconhecida como fundamental na qual o Estado não se tem empenhado devidamente.

PARA ASSINAR:
http://www.gopetition.com/online/28707.html


MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO
Comissão Coordenadora

silenciar a mente...

Budismo e Meditação em Leiria - 19 e 20 de Junho

Ani Chöying Drolma em Portugal - 6ª, 19 - 18.30



A monja nepalesa Ani Chöying Drolma, mundialmente conhecida pela comovente beleza da sua voz e enquanto defensora dos direitos das mulheres, estará entre nós para o lançamento do seu livro A Minha Voz pela Liberdade, na 6ª feira, dia 19, pelas 18.30, no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A apresentação será feita pelo Dr. Rui Lopo (União Budista Portuguesa) e pela Drª Alexandra Correia (Grupo de Apoio ao Tibete/União Budista Portuguesa).

Organização: Editorial Presença / Projecto "Filosofia e Religião" do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (coordenado por Carlos João Correia) e do Curso "Filosofia e Estudos Orientais" / Departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa (coordenado por Carlos João Correia e Paulo Borges)

Apoios: União Budista Portuguesa e Songtsen - Casa da Cultura do Tibete

Entrada Livre

Oração das mulheres bem resolvidas - Júlio Machado Vaz




Que o mar vire cerveja e os homens aperitivo,

que a fonte nunca seque,

e que a nossa sogra nunca se chame Esperança,

porque Esperança é a última que morre...



Que os nossos homens nunca morram viúvos,

e que os nossos filhos tenham pais ricos e mães gostosas!



Que Deus abençoe os homens bonitos,

e os feios se tiver tempo...

Deus...Eu vos peço sabedoria para entender um homem,

amor para perdoá-lo e paciência pelos seus actos

,porque Deus

,se eu pedir força,eu bato-lhe até matá-lo.



Um brinde...

Aos que temos,aos que tivemos e aos que teremos.



Um brinde também aos namorados que nos conquistaram,

aos trouxas que nos perderam,

e aos sortudos que ainda vão conhecer-nos!


Que sempre sobre,que nunca nos falte,

e que a gente dê conta de todos!

Amén.


P.S.: Os homens são como um bom vinho: todos começam como uvas e é dever da mulher pisá-los e mantê-los no escuro até que amadureçam e se tornem uma boa companhia para o jantar.

tempos dificeis

um grito 'antigo', para os tempos actuais
8.
a vida social é essencialmente prática. todos os mistérios que empurram a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no conceber desta práxis.

11.
os filósofos interpretam o mundo de diversas maneiras; a questão, porém, trata-se de o transformar.
karl marx,teses sobre feuerbach,1845

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Tempo e Saudade


Quando a morte nos acerta
e se nos alvorece
sabemos a não memória
sabemos tudo.

"Só a verdade nos mente..." (Suli-Andriéu Peyre)

Fonte: Google search engine



Transpus
(Ai franqui)

Transpus o cume da minha vida
e desço pela outra encosta,
mas sou ainda um aprendiz,
e a alma às vezes ainda sonha.

As minhas mãos nunca estarão cheias;
só a verdade nos mente;
toda a agitação do mundo
não sacode as mãos engelhadas.

Talvez ao fundo daquele vale
aonde desço sempre com a tarde,
conheça melhor a minha solidão.

Sentar-me-ei ainda uma hora
para ver a comparação
do eterno e dos dias quebrados.


Suli-Andriéu Peyre (1890-1961)

in "Antologia da Poesia Provençal Moderna",
selecção e tradução de Louis Bayle e Manuel de Seabra,
Editorial Futura, Lisboa, 1972, pág. 44

Esfera Armilar - A grande questão e a grande encruzilhada

"[...] cada vez mais o homem se tem posto e considerado [...] no mundo como o dono do mundo, com o direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens, de transformar a vida inteira nalguma coisa que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material"

- Agostinho da Silva, "A Comédia Latina" [1952], Estudos sobre Cultura Clássica, organização e introdução de Paulo Borges, Lisboa, Âncora Editora, 2002, p.307.

Querendo dominar e avassalar o mundo, adoecemos e destruímo-nos, física, emocional e mentalmente. Pondo-nos ao serviço do bem do mundo e de todas as formas de vida, humanas e não-humanas, curamo-nos e libertamo-nos. Esta é hoje a grande questão e a grande encruzilhada.

O que escolhes? E que escolha gostarias que fosse a de Portugal e dos países lusófonos?

Qual a escolha digna de uma Esfera Armilar, de um Abraço ao Universo, de um Coração do tamanho do Universo?

s/t


terça-feira, 16 de junho de 2009

Não fazer nada

Man, of this nature is always astir; he is always busy, because he wants to do! The candidate on the path comes to fathom the mystery which lies in Lao-Tze’s words “not-doing”, not letting the I-being take precedence. It is He, the Lord of all Life, who fashions the willing and the doing in you. When the candidate is united again with “It”, with the path, with Tao, with the Gnosis, he has entered into a bond of voluntary obedience with the eternal, with the kingdom of God within him, with the Jesus-Man within him. Then it comes to pass that the other one, who cannot be explained from this nature, does, lives and is.

Catharose De Petri

Deixem-me dizer-vos neste momento que não fazer nada é a coisa mais difícil do mundo, a mais difícil e a mais intelectual.

Oscar Wilde

Saudade do Presente

Os sítios falam dos que já não estão

Se ao meu encontro fores
Passarás pelos vários sítios onde estive
Lembrar-te-ás onde estou.


polir a lente

'a mons sens,voyez-vous,les artistes, les savants, les philosophes semblent trés affairés à polir des lentilles. tout cela n'est que vastes préparatifs en vue d'um évenement qui ne se produit jamais. un jour la lentille sera parfaite; et ce jour-là, nous perceverons tous clairement la stupéfiante, l'extraordinaire beauté de ce monde'
henry miller, citado em 'spinoza, philosophie pratique', gilles deleuze

tentativa,verdadeiramente tentativa, de tradução

Para mim,vejam bem, os artistas, os sábios, os filósofos aparentam estar muito ocupados a polir as lentes. fazem preparativos para algo que não se produz. um dia a lente será perfeita por si; e nesse dia apreenderemos a estonteante, a extraordinária beleza deste mundo.

Comunhão



Um poema
que se dissolvesse
em silêncio na boca
como uma hóstia
Um poema de quem se dissesse
como se diz de Jesus:
“Eu sou a Verdade e a Vida.”
Nesse poema me faria atar
como Cristo
pelos pés e pelas mãos
e pela boca
ao Silêncio que me nasceu
Como rosa no mar.
Boca de espuma.


Rosa em ondas levada
Ofélia de mim
Amor lavado em sal
Purificado, Amor de Marear
de mareado: de (A)marar
exaltado de vinho e de jejum.
Rosa de Sharon
Amor divino,
brilho, Luz, beleza
Rosa de morrer
Viventes penas
De luzente mar
De me dissolver:
em ardente rosar.


Um poema silente
como um beijo
de Amado,
Ó meu Amigo sonhado.

O sonho e a erecção

"De noite, o sinal de que há um sonho é a erecção.
De dia, desde que há erecção, é o sinal de um sonho"

- Pascal Quignard, Le nom sur le bout de la langue, p.76.

Chicken a la Carte

Do fumar e da morte?!...


...tecto de uma sala de fumadores...
imagem enviada por e-mail, desconheço a fonte

segunda-feira, 15 de junho de 2009

versinhos de quando era proibido não sonhar

à Saudades


Versinhos sobre a Reforma Agrária

R. A.

Duas palavras apenas
Pra escrever Reforma Agrária
É das palavras pequenas
Aquela que mais abarca:

Charnecas de urze olivais
Campos de milho ervilhaca
É das palavras que mais
De ser pequena me encanta

Suor e pó sobre o rosto
Espigas de trigo na cara
Chapéus queimados de Agosto
Esperança força de seara

Frescura de barro – cântaro
De sombra e de prata fria
Mundo melhor alavanca
Bolota glande alegria

Ai Alentejo ai motor
Reforma Agrária poesia
Casa de velho senhor
Virada pra outro dia

"Este Verão, queres ser sereia ou baleia?"

Há uns dias, numa cidade de França, um cartaz, com uma jovem espectacular, na montra de um ginásio, dizia:"ESTE VERÃO, QUERES SER SEREIA OU BALEIA?"
Dizem que uma mulher jovem-madura, cujas características físicas não interessam, respondeu à pergunta publicitária nestes termos:
"Estimados Senhores:
As baleias estão sempre rodeadas de amigos (golfinhos, leões-marinhos, humanos curiosos).
Têm uma vida sexual muito activa, engravidam e têm baleiazinhas ternurentas, às quais amamentam.
Divertem-se à brava com os golfinhos, enchendo a barriga de camarões.
Brincam e nadam, sulcando os mares, conhecendo lugares tão maravilhosos como a Patagónia, o mar de Barens ou os recifes de coral da Polinésia.
As baleias cantam muito bem e até gravam CD's. São impressionantes e praticamente não têm outros predadores além dos humanos. São queridas, defendidas e admiradas por quase toda a gente.
As sereias não existem.
E, se existissem, fariam fila nas consultas dos psicanalistas, porque teriam um grave problema de personalidade, "mulher ou peixe?".
Não têm vida sexual, porque matam os homens que delas se aproximam, além disso, por onde? Por isso, também não têm filhos.
São bonitas, é verdade, mas solitárias e tristes.
Além disso, quem quereria aproximar-se de uma rapariga que cheira a peixaria?
Para mim está claro, quero ser baleia.
P.S.Nesta época em que os meios de comunicação nos metem na cabeça a ideia de que apenas as magras são bonitas, prefiro desfrutar de um gelado com os meus filhos, de um bom jantar com um homem que me faça vibrar, de um café e bolos com os meus amigos.
Com o tempo ganhamos peso, porque ao acumular tanta informação na cabeça, quando já não cabe, espalha-se pelo resto do corpo, por isso não estamos gordas, somos tremendamente cultas.
A partir de hoje, quando vir o meu rabo no espelhos, pensarei, Meu Deus, que inteligente que sou..."

Tudo vale, em tempos de crise...

imagem recebida por e-mail, desconheço a fonte da foto

Trans-Pátria - Um Portugal que padece do problema de se ver como problema

Um dos aspectos mais notáveis que ressalta da observação atenta da cultura e da vida portuguesa é a inflação de Portugal nessa mesma cultura e vida. Portugal tende a assumir uma presença incontornável no modo como pensamos a nossa própria existência, a nossa presença no mundo e a natureza da própria realidade. Isto não só naqueles autores paradigmáticos, como Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva, que fizeram ou tenderam a fazer de Portugal, por vezes obsessivamente, a mediação por excelência para o divino ou a universalidade – atribuindo a uma nação ou a uma pátria funções que só parecem poder pertencer às consciências individuais - , mas também no comum dos cidadãos, que aparentam não conseguir falar de si, do mundo e da existência sem falar de Portugal e da sua relação feliz ou infeliz, sempre mais emocional do que racional e quase sempre traumática, com o mesmo. Como notou Eduardo Lourenço, padecemos não de falta, mas de excesso de identidade nacional. Creio que deriva daí, como aponta o mesmo autor, o irrealismo prodigioso da imagem que fazemos de nós próprios.

Com efeito, e embora se constate que isso tende e provavelmente tenderá a diminuir nas gerações mais jovens, é um facto que um dos temas mais destacados da cultura portuguesa é o da própria identidade nacional. Portugal como Problema, título de uma antologia de Pedro Calafate, designa aquilo em que a nação se tem convertido para os portugueses em geral: um problema, decerto sem solução, porque carente de real fundamento.

Do mesmo modo que não parece razoável considerar que todos ou a maior parte dos nossos males e bens se relacionem com Portugal, também não se afigura razoável esperar que Portugal venha a ser a solução ou parte da solução de todos os nossos problemas. Isto pela simples razão de que, antes de sermos portugueses, somos homens, seres vivos conscientes e sensíveis, cuja existência e presença no mundo antecede e excede os limites da história, da língua e da cultura que recebemos pela educação e pela imersão no mundo social que nos acolhe. Considerar a nação, enquanto organismo cultural, social e político, o factor determinante da existência e da solução dos nossos problemas existenciais, éticos e intelectuais, individuais e colectivos, é condenar-nos a reproduzir o que tem sido a nossa constante relação de amor-ódio com ela e a sua inevitável frustração contínua: esperando da nação o que ela não pode dar e alienando na identificação com ela o fundo mais íntimo e responsável do nosso ser, julgamo-la de acordo com expectativas irreais e tornamos dependente das suas vicissitudes a nossa felicidade ou infelicidade. Em particular, por essa compenetração entre indivíduo e nacionalidade, o nosso egocentrismo assume dimensão nacional e precipitamo-nos no constante e pendular complexo de inferioridade-superioridade que nos faz sentir ora os piores, ora os melhores do mundo, no círculo vicioso do autocentramento umbilical que caracteriza a hipertrofia do sentimento de identidade, neste caso individual-nacional. Daqui resultam as nossas anedóticas e contrapolares tendências, grosseiramente irrealistas, para nos vermos no centro do mundo ou na sua periferia, como a sua cabeça ou a sua cauda, como os eleitos ou os danados da sua história. Daqui resulta o gosto mórbido de nos maldizermos e depreciarmos constantemente, frustrado reverso do apego onírico e onanista a uma delirante auto-imagem de sucesso e glória planetários – fruto do apogeu dos Descobrimentos - , a qual, sempre desiludida pela natural indiferença da história e da realidade, se compraz na expectativa de sermos pelo menos campeões mundiais ou europeus em futebol ou no facto de termos o melhor jogador do mundo, a maior ponte, o maior ou segundo maior centro comercial, a maior feijoada (ao longo de toda a Ponte Vasco da Gama), etc…

Disto resulta o facto grave de muitos portugueses continuarem a fazer da nação e do seu sentido a principal questão da sua existência, para além do nível relativo em que legitimamente se coloca, relativizando a ela as grandes questões eternas e actuais com que se defronta universalmente a humanidade, como as do sentido da existência, da vida e da morte, a natureza e possibilidades da mente, a relação ética do homem com a natureza, o ambiente e os seres vivos, humanos e não-humanos. Isto configura, quase um século e meio após as Conferências do Casino, um Portugal ainda adormecido, alheio e marginal, pelos piores motivos, às encruzilhadas e dilemas da civilização contemporânea. Um Portugal que padece do problema de se ver como problema e que, assim, não pode ter solução.
Aldeia da Estrela - ALQUEVA

criatividade:
Viver como se a Vida fosse um postal-ilustrado

"A imensidão é o movimento do homem imóvel" (Gaston Bachelard)



Poderíamos dizer que a imensidão é uma categoria filosófica do devaneio. Sem dúvida, o devaneio alimenta-se de espectáculos variados; mas por uma espécie de inclinação inerente, ele contempla a grandeza. E a contemplação da grandeza determina uma atitude tão especial, um estado de alma tão particular que o devaneio coloca o sonhador fora do mundo próximo, diante de um mundo que traz o signo do infinito.

Pela simples lembrança, longe das imensidões do mar e da planície, podemos, na meditação, renovar em nós mesmos as ressonâncias dessa contemplação da grandeza. Mas trata-se realmente de uma lembrança? A imaginação, por si só, não poderá aumentar ilimitadamente as imagens da imensidão? A imaginação já não será activa desde a primeira contemplação? De facto, o devaneio é um estado inteiramente constituído desde o instante inicial. Não o vemos começar; e no entanto ele começa sempre da mesma maneira. Ele foge do objecto próximo e imediatamente está longe, além, no espaço do além (1).

Quando esse além é natural, quando não se aloja nas casas do passado, ele é imenso. E o devaneio é, poderíamos dizer, contemplação primordial.

Se pudéssemos analisar as impressões de imensidão, as imagens da imensidão ou o que a imensidade traz a uma imagem, entraríamos imediatamente numa região da mais pura fenomenologia – uma fenomenologia sem fenómenos ou, para falar menos paradoxalmente, uma fenomenologia que não precisa esperar que os fenómenos da imaginação se constituam e se estabilizem em imagens completas para conhecer o fluxo de produção das imagens. Noutras palavras, como o imenso não é um objecto, uma fenomenologia do imenso remeter-nos-ia sem rodeios à nossa consciência imaginante. Nesse caminho do devaneio de imensidão construiríamos em nós o ser puro da imaginação pura. Ficaria então claro que as obras de arte são os subprodutos desse existencialismo de ser imaginante. Nesse caminho do devaneio de imensidão, o verdadeiro produto é a consciência dessa ampliação. Sentimo-nos promovidos à dignidade do ser que admira.

Por conseguinte nessa meditação não somos “lançados no mundo”, já que de certa forma abrimos o mundo numa superação do mundo visto tal como ele é, tal como ele era antes que sonhássemos. Mesmo se estivermos conscientes do nosso ser mirrado – pela própria acção de uma dialéctica brutal - , tomamos consciência da grandeza. Somos então entregues a uma actividade natural do nosso ser imensificante.

A imensidão está em nós. Está ligada a uma espécie de expansão de ser que a vida refreia, que a prudência detém, mas que retorna na solidão. Quando estamos imóveis, estamos algures; sonhamos num mundo imenso. A imensidão é o movimento do homem imóvel. A imensidão é uma das características dinâmicas do devaneio tranquilo.



Gaston Bachelard

A Poética do Espaço
trad. António de Paula Danesi
Livraria Martins Fontes
S. Paulo, 1989


(1) “A distância arrasta-me no seu exílio móvel”, Supervielle,L´escalier

Fonte(imagem): http://www.pianolessons.net/img/lessons/bluespiano.jpg

A doença do tempo: "Nunca nos detemos no tempo presente" (Pascal)

Foto: Trey Ratcliff, Templo de Angkor Wat, Cambodja


Nunca nos detemos no tempo presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence, e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.

Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.

Blaise Pascal
Pensamentos Escolhidos
Tradução de Esther de Lemos
Editorial Verbo,Lisboa,1972
pág.45

sábado, 13 de junho de 2009

o paradoxo das ilusões

«Tomemos aleatoriamente um "ponto" de referência perante o infinito.

Denominaremos este ponto de "o observador".

A partir do observador, olhemos o passado; veremos que todas as coisas possíveis e impossíveis já aconteceram.

Agora olhemos para o futuro; veremos que todas as coisas possíveis e impossíveis irão acontecer.

Finalmente, olhemos para o presente, veremos sempre o mesmo: que neste instante, todas as coisas possíveis e impossíveis estão acontecendo.

Então o "observador" é uma abstração mental; uma ilusão paradoxal diante do infinito aparentemente imutável.

Na realidade, aquele ponto aleatório de referência (você e eu), constitui um instante mágico que se pontua o infinito; nada mais do que isto porque o "finito está para o infinito sempre a uma distância infinita".»

(J. Krishnamurti)