O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


domingo, 31 de maio de 2009

Corpo-movimento-dança





Fotografias Liliana Jasmim

És Música e a Música Ouves Triste?

És música e a música ouves triste?
Doçura atrai doçura e alegria:
porque amas o que a teu prazer resiste,
ou tens prazer só na melancolia?
se a concórdia dos sons bem afinados,
por casados, ofende o teu ouvido,
são-te branda censura, em ti calcados,
porque de ti deviam ter nascido.
Vê que uma corda a outra casa bem
e ambas se fazem mútuo ordenamento,
como marido e filho e feliz mãe
que, todos num, cantam de encantamento:
É canção sem palavras, vária e em
uníssono: "só não serás ninguém".

William Shakespeare, in "Sonetos (8)"

Virgílio Ferreira, in Aparição

Pela última vez, durmo na casa do Alto. É uma noite sem lua mas com um céu vivo de estrelas. Mas a minha atenção prende-se à cidade, à planície. Para os lados da estrada de Viana descubro um espectáculo extraordinário que me alvoroça, que me fascina: numa vasta extensão de terreno, um incêndio lavra interminávelmente, iluminando a noite. É uma "queimada", suponho, o incêndio do restolho para a renovação da terra. Alinhadas pelos sulcos, as chamas avançam como um flagelo inexorável. E aos meus olhos saqueados é como se uma cidade ardesse, uma cidade fantástica, aberta de quarteirões, de praças, de sonhos. Cidade, minha cidade... Que a terra tenha razâo sobre ti, que essa força que mal sei te absorva, te revele em cinzas, tire delas outra fecundação e outro ignorado recomeço - que me importa? A minha vida é "a" vida, só existe o que sou: não se imagina quem se não é..
Acendo um cigarro, fico-me a olhar o incêndio.

Lembra-me imagens da guerra, de cidades bombardeadas. Alguém deve ir pegando o fogo por sectores, estabelecendo linhas de chamas que o vento vai impelindo. O campo arde vastamente, como uma destruição universal. Quase ouço o crepitar das chamas como o fervor final de uma inundação. Sinto-me só e nu, escapando ao desastre. Mas esta nudez que eu algum dia julguei possivelmente coberta pela compreensão dos outros, esta redução extrema às minhas raízes, esta solidão inicial de quem não pode esquecer a sua pobre condição é o sinal humilde e amigo de que à vida que me deram a não repudiei, de que cuidei dela, a não perdi, a levo comigo nesta viagem breve, a aceito ao meu olhar de fraternidade e perdão... A noite avança, a minha cidade arde sempre. Vou fundar outra noutro lado. Mas não sabia eu que ela devia arder? Acaso será possivel construir uma cidade como a imagino, a cidade do Homem? Acaso não dura ela em mim, no meu sonho, apenas porque a penso sem consequências, a imagino, a não vivo, lhe não exijo responsabilidades? Não o sei, não o sei...

Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche - o ciclo, a viagem mais perfeita.

o irreparável

o irreparável é o facto das coisas serem como são, deste ou daquele modo, entregues sem remédio à sua maneira de ser. irreparáveis são os estados de coisas, sejam elas como forem:tristes ou alegres, cruéis ou felizes. como és, como é o mundo- é isto o irreparável.
agamben, a comunidade que vem
saudações

Uma proposta de exercício prático

Hoje é dia de Pentecostes e, de partida para a Festa do Espírito Santo, na Arrábida, deixo-vos uma proposta de exercício que nos permita ir para além das meras palavras em que tanto nos enredamos, por mais belas e justas que possam ser. É um excerto do meu livro Da Saudade como Via de Libertação e uma proposta de acção que nos pode efectiva e radicalmente mudar, a nós e ao mundo, sem sairmos do lugar onde estamos, de forma mais eficaz que mil acções exteriores, sem contradizer estas, sempre que necessárias. Caso queiram fazer a experiência, boa prática!

[...]

Além dos exercícios anteriores, que desenvolvem na mente a sua qualidade inata de atenção, tornando-a estável, calma e clara, para que possa permanecer no reconhecimento-fruição da sua natureza primordial, outros há que despertam e desenvolvem, como indispensável complemento dos primeiros, a qualidade inata de sensibilidade, amor e compaixão que há nessa mesma natureza primordial da mente. Um dos mais potentes e eficazes é o que passamos a descrever e que se pode chamar troca.

Verifica primeiro os sete pontos da postura física, assegurando teres a coluna bem direita. As mãos podem ficar agora sobre os joelhos, com as palmas viradas para baixo. Começa por deixar a mente livre de qualquer referência e focalização, numa abertura da consciência tão vasta como o espaço, sem outro suporte da atenção senão a própria experiência de estar consciente. Deixa-te residir na experiência primordial, sem pensares nisso. Centra agora a consciência no coração e evoca aquele ser (ou seres) que neste preciso momento mais amas e/ou pelo qual mais te compadeces. O ser cuja felicidade mais desejas e/ou cujo sofrimento mais te é insuportável. Isto de modo mais autêntico, incondicional e pleno, com menos expectativas de reconhecimento, retribuição ou recompensa, ou seja, com menos apego. Esteja vivo neste mundo ou dele haja já partido, não importa. Se sentires que és tu próprio, não há qualquer problema. É por aí que deves começar.

Pensa nesse ser e sente-o, vê-o, visualiza-o bem presente diante de ti. Ele aqui está, porque a mente, o amor e a compaixão não conhecem tempo nem espaço… Para eles nunca há limites, separação ou distância…Ele aqui está… Podes agora fechar os olhos, se preferires, para melhor o ver e sentir, bem vivo e presente diante de ti… Bem vivo e sensível. Considera e sente todo o seu sofrimento, toda a sua dor e suas causas, todas as suas ilusões, obscurecimentos e negatividade…Todos os seus tormentos e dificuldades materiais, físicos, emocionais e mentais…Os que conheces e os que desconheces, os reais, os potenciais e os possíveis, as sementes de negatividade, implantadas pelas suas acções passadas, mentais, verbais e físicas, que já, sem que ele o saiba, no seu íntimo germinam em tendências que, perante as adequadas circunstâncias externas, no futuro desabrocharão em todo o tipo de problemas… Contempla tudo o que o fez, faz e fará sofrer… Que mais não seja a ignorância do seu bem profundo, o tormento da perda do que agora o faz feliz e a dor da morte inevitável. Considera, vê e sente tudo isso e aspira do fundo do coração a libertá-lo completamente de tal !

Se começas por ti próprio, desdobra-te e contempla-te diante de ti carregado de tudo isso. Do lado de cá está a tua natureza primordial, a dimensão saudável e incorruptível de ti mesmo, livre de todos esses problemas e aflições e por isso apta a fazer alguma coisa. Ama-te verdadeiramente. Cultiva realmente o amor-próprio. Não te limites à busca do prazer medíocre e fugaz. Reconhece tudo o que te atormenta e te pode vir a atormentar e deseja, do fundo do coração, veres-te livre, de uma vez por todas, de tudo isso ! Deseja a felicidade infinita !

Não consideres natural e fatal o sofrimento, nem o teu, nem o de ninguém. Revolta-te serenamente contra a indiferença, preguiça e distracção em que tens andado. Decide-te a fazer alguma coisa, a instaurar desde este preciso instante uma profunda diferença na tua vida e, assim, no universo !

Inspirando profundamente, bem concentrado no que estás a fazer, absorve então tudo isso, sob a forma de fumo negro que vem das entranhas desse ser, no mais fundo do teu coração subtil, no centro do teu peito. Aí toca e dissolve a sua carapaça e o seu cerne mais fechado e insensível, o núcleo cego e duro de ignorância, medo e auto-protecção de onde provém todo o nosso egocentrismo, todo o nosso apego à ideia de uma felicidade egoísta e a nossa rejeição do sofrimento para os outros, bem como a nossa indiferença… No caso de estares a praticar por ti, considera igualmente que esse fumo negro, ao tocar o teu coração, dissolve a sua armadura de ignorância e indiferença ao teu bem e felicidade profundos, que tantas vezes trocas pelo apego a prazeres efémeros e egoístas que só te deixam frustração, sede e dor. Toma em ti toda a ilusão e sofrimento do ser à tua frente e todo este fumo negro, toda esta negatividade, pelo amor e compaixão da tua motivação, ao tocar e dissolver esse núcleo cego e duro, converte-o e converte-se imediatamente numa luz, branca ou dourada, que ao expirar irradias agora abundantemente, banhando-o e impregnando-o de uma paz, uma saúde, um bem-estar e uma felicidade onde se dissipam todas as suas dificuldades e sofrimentos materiais, físicos, emocionais e mentais... À medida que praticas, profundamente concentrado e confiante nas tuas capacidades, contempla a transformação que ante ti e em ti se opera…Este ser que tanto amas torna-se saudável, radiante, feliz, bem-aventurado… E tu experimentas essa mesma plenitude e alegria, deixando que ela irradie num sorriso nos teus lábios.

Pratica assim durante algum tempo, embrenhando-te cada vez mais na experiência como uma oportunidade extremamente preciosa e gratificante. Não a vejas nem vivas como um sacrifício ou uma obrigação, de carácter moral ou religioso. Sente-a antes como a plena realização das tuas melhores aspirações a desenvolveres e manifestares o melhor que há em ti, como o cumprimento da mais funda saudade de plenitude que desde sempre em ti e tudo habita.

Se começaste por ti, passa então, durante uns momentos, a outro ser que ames de modo mais incondicional, considerando-o inseparável de ti. Depois, abre mais o coração, pensando em alguém conhecido, em relação ao qual tens uma atitude neutra e indiferente, não lhe querendo bem nem mal… Contemplando-o como um ser sensível que, tal como o primeiro, não deseja senão ser feliz e não sofrer, coloca-o a seu lado, considerando-os inseparáveis. Podes mesmo contemplar que no mais fundo do coração deste ser estás tu ou aquele(s) que mais amas. Pratica exactamente do mesmo modo por ambos sem perda de motivação, concentração e intensidade…Tenta mesmo aumentá-las, que mais não seja considerando que o benefício do primeiro ser e o teu próprio benefício será tanto maior quanto mais a partir dele abrires o coração a outros seres. Vive a crescente alegria, entusiasmo e calor de um coração que se abre, de uma respiração que se converte em bálsamo da dor, de uma mente que se torna mais vasta e consciente.

Após algum tempo, evoca então aquele ser ou seres que mais aversão te causam, o ser ou seres que os empedernidos conceitos e juízos que estruturam a tua actual percepção classificam como teus piores inimigos ou rivais. Se isso te não for imediatamente possível, por te perturbar em excesso, pensa em alguém que te suscite a máxima aversão que fores capaz de suportar, sem prejuízo da calma e concentração necessárias à prática deste exercício. Começa por aí e um dia chegarás aos outros. Tem essa coragem e vive a profunda alegria de te libertares do ódio, da raiva e do ressentimento, de transcenderes os teus limites e de os converteres em limiares, em portais de acesso a uma dimensão maior e melhor de ti mesmo. Pensa nesse ser ou seres como inseparáveis dos anteriores. Considera mesmo que no fundo do seu coração estás tu e/ou os seres que te são mais queridos. E sente a profunda gratidão por serem eles que te permitem tomares consciência dos teus limites e superá-los, por serem eles que através deste exercício te permitem evoluir mais e mais rapidamente, libertando-te de toda a ilusão, negatividade, rancor e ressentimento que te levam a percepcionar inimigos e a sofrer terrivelmente com isso. Bem presentes diante de ti, praticas pelos três tipos de seres, sem qualquer parcialidade nem hesitação e ainda com mais empenho e entusiasmo, desenvolvendo um sentimento de profunda alegria e imparcialidade no amor e na compaixão. É por todos que igualmente inspiras negras nuvens de ilusão, negatividade e dor, expirando luz dourada, sábia e benfazeja, convertendo o teu coração no mais precioso e poderoso forno alquímico, onde pela combustão da saudade emerge a tua e universal saúde e natureza primordial.

Abre-te progressivamente mais, bem para além do que o teu acanhado ego alguma vez julgou ser possível. Descobre poderes ser ou seres desde já mais do que alguma vez imaginaste possível. Abre-te e pratica, em círculos concêntricos em constante expansão, por todos os seres vivos e sensíveis, humanos e não humanos, visíveis e invisíveis, que habitam o lugar onde estás… a casa… o bairro… a povoação ou cidade… o país… o planeta… a galáxia… e, enfim, o inteiro universo !... Abre o coração a tudo, absorve toda a dor, negatividade e treva de todos os mundos – todas as doenças, cancros e sidas, todos os medos, angústias e loucuras, todas as solidões, torturas e misérias, todas as ilusões, desgraças e mortes - , transmutando-as em luz, paz e bem-aventurança cada vez mais poderosas e irradiantes. Pratica, pelo bem relativo e absoluto de todos os seres, pela satisfação das suas necessidades básicas e imediatas e pela sua felicidade e libertação suprema, imparcialmente, sem qualquer excepção. Faz do teu coração uma festa e um festim cósmico, eterno e infinito, para o qual todos são convidados. Pratica assim e sente que por esta prática o mundo, a percepção de ti e do mundo, se revoluciona e transmuda. A mente e o coração convertem-se progressivamente na própria luz que irradiam e nada percepcionam senão luz…Uma luz infinita, subtil e viva, livre, consciente e sensível, na qual tu, todos os seres e fenómenos se dissolvem, sem qualquer conceito de eu, de outro e de prática, de sujeito, objecto e sua relação…Uma imensidão luminosa, sem centro nem periferia, sem interior nem exterior… Um infinito esplendor… Inominável.

Ao emergires desta funda absorção, faz imediatamente a dedicatória, tal como atrás descrito (II, 4), oferecendo todo o benefício do exercício, sem qualquer apego, para a paz, a felicidade e o bem, relativos e absolutos, de todos os seres. É importante fazê-lo enquanto sentes o efeito pleno da prática, antes que na mente regressem as suas habituais e sobreviventes tendências dualistas e egocêntricas, reprodutoras da percepção comum e dita normal do mundo. A melhor dedicatória, tal como a melhor prática, é acompanhada da ausência de crença na realidade efectiva do sujeito, do objecto e da própria acção, mas sem prejuízo do entusiasmo, do amor e da compaixão. Isso permite que, durante e após este exercício, não tenhamos uma visão dualista e substancialista do mundo e de nós mesmos, não caiamos na tentação de nos sentirmos especiais, não nos orgulhemos do que estamos a fazer, não tenhamos qualquer sentimento de superioridade “espiritual” ou pretensão a sermos ou tornarmo-nos justos, sábios, santos, iluminados ou mestres (o sinal mais óbvio de o não ser é ter essa pretensão). É decisivo que a prática dissolva qualquer forma de auto-conceito e auto-imagem, positivos ou negativos. Tudo é como um jogo, insubstancial e ilusório, por isso mesmo eficaz libertador de todas as ilusões. O que fica é a natureza-experiência primordial, a fundamental sanidade de todas as coisas, que não carece de se conceber como tal e não se atribui qualidade, valor ou importância alguma.

Erasmo de Rotterdam: Elogio da Loucura (excertos)

Um texto muito divertido. Apreciei sobremaneira o que Erasmo escreve sobre a mulher, esse querido animal, e a loucura.

[…]
Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira dispenseira de bens, a que os italianos chamam Pazzia e os gregos Mória. E que necessidade havia de vo-lo dizer? O meu rosto já não o diz bastante? Se há alguém que desastradamente se tenha iludido, tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, bastará olhar-me de frente, para logo me conhecer a fundo, sem que eu me sirva das palavras que são a imagem sincera do pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando-me eu por fora o que sou no coração. Sou sempre igual a mim mesma, de tal forma que, se alguns dos meus sequazes resumem não passar por tais, disfarçando-se sob a máscara e o nome de sábios, não serão eles mais do que macacos vestidos de púrpura, do que burros vestidos com pele de leão. Qualquer, pois, que seja o raciocínio feito para se mostrarem diferentes do que são, dois compridos orelhões descobrirão sempre o seu Midas. Para dizer a verdade, não estou nada satisfeita com essa gente ingrata, com esses perversos velhacos, porque, embora pertençam mais do que os outros ao nosso império, não só publicamente se envergonham de usar o meu nome, como muitas vezes chegam a aplicá-lo aos outros como título oprobioso. Portanto, sendo eles loucos e arquiloucos, embora assumam a atitude de sábios e de Tales (14), não teremos razão de chamá-los loucamente de sábios?
[…]
Nascida no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto, como quase todos os homens: mal fui parida, comecei a rir gostosamente na cara de minha mãe. Não invejo, pois, ao supremo Júpiter, o ter sido amamentado pela cabra Amaltéia, pois que duas graciosíssimas ninfas me deram de mamar: Mete (22), filha de Baco, e Apedia (23), filha de Pã. Ainda podeis vê-las, aqui, no consórcio das outras minhas sequazes e companheiras. Se, por Júpiter, também quereis saber os seus nomes, eu vo-lo direi, mas somente em grego. Estais vendo esta, de olhar altivo? É Filavtia, isto é, o amor-próprio. E esta, de olhos risonhos, que aplaude batendo palmas? É Kolaxia, isto é, a adulação. E, a outra, de pálpebras cerradas parecendo dormir? É Lethes, isto é, o esquecimento. E aquela, que se acha apoiada nos cotovelos, com as mãos cruzadas? É Misoponia, isto é, o horror à fadiga. E esta, que tem a cabeça engrinaldada de rosas, exalando essências e perfumes? É Idonis, isto é, a volúpia. E a outra, que está revirando os olhos lúbricos e incertos e parece dominada por convulsões? É Ania, isto é, a irreflexão. Finalmente, aquela, de pele alabastrina, gorducha e bem nutrida, é Trofís, isto é, a delícia. Entre essas ninfas, podeis distinguir ainda dois deuses: um é Komo, isto é, o riso e o prazer da mesa; o outro é Nigreton hypnon, isto é, o sono profundo. Acompanhada, pois, e servida fielmente por esse séquito de criados, estendo o meu domínio sobre todas as coisas, e até os monarcas mais absolutos estão submetidos ao meu império.
[…]
Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos. Por conseguinte, se houver uma única cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da multidão, só lhe posso dar um conselho: que, a exemplo de Timão (42), se retire para um deserto, a fim de aí gozar à vontade dos frutos de sua sabedoria.

sábado, 30 de maio de 2009

Diálogos do Jardim


Para se aproximarem das rosas, as palavras nascem sopradas de um som de partida. Um regresso ao anverso, ao avesso do fim. Ao fim do verso; ao lugar do desejo que diz que há laços íntimos entre corpo e escrita. Vêm, de costas voltadas para o nunca do texto e do jardim, os pescadores de sedas. Vêm desdobrando o fio de seda até ao olho do Minotauro, até ao caminho das pétalas das rosas, em direcção à luz. Em flores de fim de tarde, notas de laranja no branco das casas. O jardim abre as arcadas ao violino das palavras. As palavras fecham os olhos à luz exterior para melhor ouvir no marulhar da memória o enrolar da onda desfeita na praia do corpo reclinado do poeta. A onda cobre o corpo do poeta e há um incêndio a alastrar na sua cabeça em febre.A cabeça do poeta é um tigre ao sol. Parado na tarde, o jardim é uma savana, uma lua em forma de barco ou boca para dar de beber ao vento do deserto. A rapariga afasta-se da janela e a luz fecha o dia à chave. Como uma pedra a arder, um astro, a cabeça do poeta gira sobre si mesma antes de cair no mar, com o que nasce no peito da Saudade, com o que nasce da chegada para a outra chegada. Uma angústia de Aurora. Uma morte enche o peito subida em nostalgia. Saúdo o regresso. Um regresso que é um naufrágio. Nesse naufrágio com espectador salvam-se os que se afundam.
O pintor olhou o rosto das três raparigas cegas por terem visto a cabeça do poeta. A rapariga disse que a escuridão, ao Norte, é uma noite muito comprida. E nessa noite comprida, o poeta está dentro do tronco da árvore. Fuma cachimbo e é louco. Duma loucura sem sossego. De súbito, um sorriso desvia o centro da atenção para o lábio. A mão suspensa no ar é uma fenda no centro do mundo, uma eterna possibilidade de mudar o pensamento e a hora do jardim. Fazíamos crescer as tardes atadas ao frágil coração das rosas. Rosas de nascer. De regresso, o poeta viu o lilaseiro cobrir de flor as torres do jardim e o musgo das paredes. Tudo mudado! Ontem o leitor pensou que o paraíso é andar distraído a desfrutar os sons das aves. Foi esse som que levou o monge-cantor a atravessar o portão do convento, e a inaugurar um outro tempo para o ouvido. Os passos do cantor regressaram ao jardim. Não há tempo nem no nascimento nem na morte. Não há tempo no poema como não há no beijo: o mundo desapareceu há muito.O leitor mal desvia a vista, já se lhe escorrega o sentido pela húmida e fresca porção de terra de onde brotam os últimos malmequeres da Primavera. À mais pequena distracção, as rosas mudam. O poeta está distraído do sentido do texto. Perdido. O seu olhar abandona o jardim. Sobe pela janela do quarto das gaivotas para se perder na nuvem que, como floco macio do tempo, vaga para o lugar onde se fecharam algumas vozes. Taparam o rosto com a erva que sobrou do “Sonho de uma noite de Verão.” Sabe-se, desde o segredo de hoje e da luminosa presença do primeiro jardim, que na dança das vozes o poeta havia de emudecer. Uma língua natural tinha desabrochado desde as vides, na parede asida, e em todas as direcções onde o vento tinha espalhado sementes.Tinham esgotado o silêncio os pássaros e as mãos descascavam laranjas para um recipiente de loiça branca, ao lado da cisterna. Bebe o silêncio como um potro manso a vagarosa tarde. Sorviam o veneno da taça as sensações. Canções. “A ave que tem um laço na pata é humana. As rosas florescem uma vez” alguém terá escrito uma palavra de vento na superfície da folha, mesmo no desenho das pétalas caídas no “encadernado” do jardim. O jardim labiríntico das folhas! Visto de cima, o jardim era como uma estrela, mas de mais complexo desenho, em bifurcados e arredondados caminhos de arbustos. Um labirinto para outro tempo! Um buraco negro para as letras e para o sentido. Um tempo de jardineiros de pedra, mudos na dança. Atlantes.
Um sopro suave na face de uma palavra florida em cristalino vaso! Uma corda a vibrar na epiderme da língua: no céu do canto, no luminoso lago, entre lírios e rosas. Os olhos, parados, são o reflexo polido de um espelho de água, um coração de pérola. Brilhos que na lisura da tarde são pasto para a alegria nascente do sorriso de outras flores que brotam no jardim.

Cioran: Música, êxtase e saudade

"S.J.: - Em resumo, a música confronta-nos com este paradoxo: a eternidade entrevista no tempo.
C.:É com efeito o absoluto captado no tempo, mas incapaz de aí permanecer, um contacto simultaneamente supremo e fugitivo. Para que permanecesse, seria necessária uma emoção musical ininterrupta. A fragilidade do êxtase místico é idêntica. Nos dois casos o mesmo sentimento de incompletude, acompanhado por uma mágoa dilacerante, por uma nostalgia sem limites.

S.J.: Esta nostalgia é precisamente o fundamento da vossa visão do mundo. Como a definiríeis?
C.: “Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”

- Cioran, Entretien avec Sylvie Jaudeau, Entretiens, Paris, Gallimard, 1999, p.230.

Almada Negreiros: Reconhecimento à Loucura

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

José de Almada Negreiros
Poemas
Assírio & Alvim

sexta-feira, 29 de maio de 2009

"Nenhuma palavra pode esperar outra coisa senão a sua própria derrota"

- São Gregório Palamas, Defesa dos Santos Hesicastas.

E os silêncios...


Na mesma janela
desde a que chovia
deixo que acarinhe
a pura luz do sol
a pele
e os cantinhos de terra
que ainda ficam
no sentido prendidos
as pálpebras da mãe
que tinha medo
e a gentes tão diversas
que passam sob o sol,
que nunca voltam
a pairar no meu olhar
com as harmonias diluídas
nos passos liberados,
no trânsito das luzes
a sonhar.
Iolanda R. Aldrei

Transcender Deus

Apresento a conclusão da comunicação que apresentarei hoje, pelas 18.00, com o título "Transcender Deus: de Eckhart a Silesius", no encerramento do II Colóquio da Sociedade Portuguesa de Filosofia Medieval, no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa:

Poder-se-ia dizer que a verdade última da religião, desvelada pela mística, é a morte de Deus, vivida não só como a extinção de todos os conceitos e representações teológicos, mas também como a ausência, a abs-entia, a não entidade, da suposta Presença absoluta. Neste sentido, e para dialogar apenas com uma das emergências do tema da “morte de Deus” no pensamento ocidental, cremos ser esta primordial morte de Deus, inerente à experiência última do que se designa como Deus, que permite compreender o efeito da morte de Deus proclamada pelo “insensato” nietzscheano: “Para onde vamos nós próprios? […] Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio?”. Não será afinal, esta experiência de vazio, ausência de fundo e referências - consequência da humana abdicação da ideia de um absoluto princípio ordenador do mundo e da vida - , a própria experiência desse abismo, fundo sem fundo, deserto e morada onde ninguém mora que a tradição mística vive como a experiência última do transcender Deus? Não será o que Nietzsche proclama como “morte de Deus” a própria experiência do absoluto trans-divino e trans-teológico, porém por sujeitos que não parecem preparados para a suportar? Daí a confissão: “A grandeza deste acto é demasiado grande para nós”.
Há assim um ateísmo, primordial e inumano, que excede o humano e que, embora imprevistamente se lhe abra no seio da experiência de negação do divino, lhe é dificilmente suportável. Daí que o “insensato” nietzscheano acrescente à declaração anterior: “Não será preciso que nós próprios nos tornemos deuses para, simplesmente, parecermos dignos dela?”. Passa-se assim da morte de Deus para a divinização do homem, o que é já uma demissão do abismo trans-divino, que procura introduzir no “deserto” primordial quem o habite, insulando entificações na sua vastidão hiante. Perante a efectiva transcensão mística de Deus, o projecto ateu da modernidade parece ser bem mais piedoso, trocando o abismo pelo ídolo deificado da própria humanidade. Como também viu Nietzsche, os ateus comuns são afinal bem “piedosas gentes”, que apenas se desprendem da metade divina do rosto do ídolo para mais se prenderem à sua gémea metade humana.

Carta para um mundo a Haver

Em prol de uma Fundação Agostinho da Silva

Carta

Dear Mister John Malkovich,

We don’t know if you really exist, but if, we would like to meet you, or one of you, too talk about a real Portuguese and worldwide matter, which we like to share with you. It’s about the great Portuguese philosopher Agostinho da Silva and about his utopic, and we think realistic, thinking: to do it in praxis. It’s about the world and how it could be better for everybody and everything. Don’t hesitate, just try. We would like to meet you some day in this summer of 2009 in the well known Café Martinho da Arcada. You know, it was the place of Fernando Pessoa. We think you now this place already.

Kind regards

Associação Agostinho da Silva
Prof. Paulo Borges

Outro Dia no Martinho da Arcada

Paulo Borges: Hello Mister Malkovich, how do you doo?

Mister Malkovich: I’ am fine, thank you.

Paulo Borges: Sorry, but do you speak Portuguese?

Mister Malkovich: Yes indeed.

Paulo Borges: Então, Senhor Malkovich, escrevemos uma carta para Você participar no nosso projecto.

Mister Malkovich: Sim, entendi, mas não sei muito sobre a cultura portuguesa e menos ainda sobre o Senhor Agostinho da Silva, mas eu gostei o que Vocês falaram sobre o mundo a Haver e também sei que posso ajudar Vocês. Quanto dinheiro precisa Você por ano para realizar este projecto óptimo, utópico mas realístico?

Paulo Borges: 150’000.- Euro por ano, para começar. Para fazer 5 viagens com científicos magníficos pelo mundo por ano, para fazer 3 congressos no mundo lusófono ou mundial por ano e para publicar um livro por ano em qualquer língua, sempre sobre o mundo a Haver.

Mister Malkovich: Ok. I see. It’s a lot of money, but I have a lot of friends.

Paulo Borges: Óptimo. Vamos brindar. O que e que você prefere: Water or Wine.

Mister Malkovich: Wine of course!

Paulo Borges: Olá Martinho, muito vinho para nos brindar!

Ainda não o Fim.

vida nua/belavista II

a decisão soberana está desde o início ligada à discriminação entre membro e não-membro. o leviathan não precisa de utilizar o seu monopólio da violência para decidir sobre a vida e a morte, pode excluir e colocar a condição humana individual numa situação periclitante ou mesmo ausente.
o poder soberano faz a ligação entre norma e realidade, institui a norma e cria a excepção para melhor dominar.não se limita ao antigo poder do patriarca que é uma relação fundacional e de violência à qual se pode resistir.ele decide sobre a condição de vida ao transformar um individuo em vida nua.

ps.estes pequenos apontamentos são baseados num estudo próprio sobre giorgio agamben

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O assassínio de Portugal-Inês

"É como se Patrício deixasse a mensagem cifrada de que esse Portugal-Inês, de vocação aberta ao exterior de si mesmo, perece às mãos dos que dirigem o destino do país, e quando os Pedros que a amam têm a faculdade decisória é já demasiado tarde, e encontram um cadáver que tentam em vão, demencialmente, reanimar. [...] É também, por outro lado - tanto em Patrício como em Pessoa - , a intuição de um Portugal cultural atávico, internalizado, expresso na poesia das artes e na permuta dos afectos, que não se revê na menoridade do Portugal político de rosto exterior e na miséria social que o estigmatiza; daí a alegoria do feminino: um Portugal como anima vilipendiada - alvo de assassinato como em Inês - por um animus ignaro, patriarcalmente tirânico, que não apreende a profundidade e o valor potencial do que castra"

Armando Nascimento Rosa, As máscaras nigromantes. Uma leitura do teatro escrito de António Patrício, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, pp.217-218.

XIX FESTA DO ESPÍRITO SANTO

XIX F E S T A D O E S P Í R I T O S A N T O
DOMINGO DE PENTECOSTES
31 DE MAIO DE 2009
ARRÁBIDA

10.30 h - Encontro junto ao Convento da Arrábida – Fundação Oriente.
Visita ao Convento Velho:
Ermidas do Senhor dos Aflitos e de Frei Agostinho da Cruz.
11.30 h - Capela da Memória de Nossa Senhora da Arrábida
Celebração
Saudação
Leitura de textos: de Agostinho da Silva sobre o Culto do Espírito Santo
e de António Quadros, Dalila Pereira da Costa , Padre António Vieira
Coroação das Crianças
Evocação / Música - Cânticos
Trovas para o Menino Imperador, de António Quadros
Divino Espírito Santo, quadras de Agostinho da Silva

Bodo
13.30 h - Junto ao caminho de Alportuche. Será oferecido o bodo.
Durante a tarde - Confraternização
Convite à livre participação das pessoas presentes.

Colaboração de: Nova Águia / CC.M.I.L - Movimento Internacional Lusófono
Núcleos M.I.L de: Setúbal, Alhos Vedros, Lisboa e Sintra
Escola Aberta Agostinho da Silva - Casa Amarela /
CACAV- Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros
Livraria Uni Verso
BioSani
Art’ H. Palaestra
Ordem de Cavalaria do Sagrado Portugal
União Budista Portuguesa

“O melhor de si mesmos porá os homens no plano do divino e o plano
divino resplandecerá na crença de que é inteligível a estrutura do mundo”
- Agostinho da Silva, "Condições e Missão da Comunidade Luso - Brasileira",
in Nova Águia, Nº3, 2009.

C O N V E N T O S O N H O / A S S O C I A Ç Ã O A G O S T I N H O D A S I L V A
Apoio: Convento da Arrábida - Fundação Oriente

~~~ WORLD WATSU WEEK ~~~



(Peço permissão para divulgar uma actividade...
Para ver melhor o conteúdo, clicar em cima da imagem)


todos sabem que é a minha paixão...
não é segredo para ninguém, por isso...

Queiram fazer o favor de passar a mensagem:

10 a 16 de Junho, nas Caldas de Sangemil, Viseu.
Sessões de Watsu GRÁTIS!!!
Marcações e pedidos de informação em: info.watsu@gmail.com



Apareçam! levem amigos ou familiares
experimentem uma viagem fantástica e relaxante para o corpo e alma*
Eu vou lá estar de certeza!!!

Soneto inútil

O drama do ser é único em toda alma,
na beira-mar sinto o vento me levar
e esta substancia insubstancial é calma,
nesta vida estou morrendo de vagar.

E vago levo o corpo além de tudo
e quando ando, o universo fica mudo,
não somente as coisas também os seres,
amados, conhecidos e tudo que queres.

E todos, na verdade, esperam o declínio,
a minha morte medíocre e prematura
e eu ajudo bastante com o vinho,
que nasce da bondade na sagrada natura.

Ninguém beijo e ninguém pode me beijar,
sou o eterno estrangeiro na beira do mar.

Madragoa 26.05.09

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Nacionalismo e Espelho de Narciso

"O nacionalismo é a arte de consolar a massa por não ser senão uma massa e de lhe apresentar o espelho de Narciso: o nosso futuro quebrará esse espelho"

- Albert Caraco, Bréviaire du Chaos, Lausanne, L'Âge d'Homme, 1999, p.88.

terça-feira, 26 de maio de 2009

belavista

cada vez mais a vida natural é comandada pela vida política, à nascença somos condenados a um estado de inclusão/exclusão. o chamado 'sonho ammericano' torna-se cada vez mais distante. a construção de uma cidadania plena é a génese da exclusão, direitos humanos e de cidadania são quase opostos. construímos cidades com guetos para onde o poder soberano desloca o que não quer ver, a necessidade de exclusão como forma da sua sobrevivência.

(In)Finito(s)



imagem google

gosto da possibilidade de recriar infinitos em mim,

como se me movimentasse em labirinto de espiral,

em busca de silêncio, quietude,

na minha eterna solidão...

"Só há procura por não se saber o que se procura" - Jigme Khyentse Rinpoche

(Centro Karuna, serra de Monchique, 23.5.2009)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

"A minha palavra é como as estrelas, que não empalidecem"



Carta do Chefe Seattle (1855)

Em 1855, o Chefe Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos, Francis Pierce, depois de o Governo ter dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aquela nação índia.
Faz mais de um século e meio. Mas a força das palavras do ancião têm uma espantosa actualidade.

"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é simpático da sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Iremos pensar na sua oferta, pois sabemos também que, se o não fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz, com a mesma certeza com que os nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. A minha palavra é como as estrelas, que não empalidecem.
Como pode-se comprar ou vender o céu, ou o calor da terra? Tal ideia é-nos estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como poderá então compra-no-los? Nós decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e o zumbido dos insectos são sagrados na tradição e na crença do meu povo.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de vida. Para ele, um pedaço de terra é igual a outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exauri-la, vai-se embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai, sem remorsos. Rouba a terra dos seus filhos, e nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. A sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. As suas cidades são um tormento para os olhos do homem de pele vermelha, mas talvez seja assim por ser este um selvagem que nada compreende.
Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar das folhas na Primavera ou o zunir das asas dos insectos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é essa em que o homem não pode ouvir a voz do corvo nocturno ou o falar dos sapos no brejo, à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho de água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e o aroma dos pinheiros. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores e homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.
Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisontes apodrecendo nas pradarias, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisonte, mais do que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afectar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.
Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam o corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não serão muitos. Mais algumas horas, ou até mesmo alguns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança, como o nosso.
Uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a descobrir um dia: o nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez ele julgue que pode ser dono d’Ele, da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há-de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejectos. Depois de abatido o último bisonte e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem a gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então as florestas e as pradarias ? Terão acabado. E as águias? Ter-se-ão ido embora. Restará dizer adeus à andorinha da torre, e à caça; o fim da vida e o começo da luta pela sobrevivência.
Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, que visões de futuro oferece para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são-nos desconhecidos. E por serem, desconhecidos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda, será apenas para garantir as reservas que nos prometeste. Lá, talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra duma nuvem a pairar sobre as pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e margens, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amámos. Protege-a, como nós a protegíamos. Nunca esqueças como era a terra quando dela tomaste posse. E com toda a tua força, o teu poder e todo o teu coração, conserva-a para os teus filhos, e ama-a como Deus a todos nos ama. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."


Fonte: http://www.culturabrasil.pro.br/seattle1.htm
(ortografia e sintaxe adaptadas)
Original inglês: http://www.context.org/ICLIB/IC03/Seattle.htm
MANIFESTO

proletários deste miserável país
unamo-nos

todos os que devemos
abaixo de mil euros
juntemo-nos
federemo-nos
fundemos nosso próprio Banco

tomemos
nossas dívidas por quotas
calotes por ações
devamos em conjunto
não mil
mas mil milhões

reclamemos
às portas de S. Bento
para o Hall de entrada
do Banco de Portugal:
Socorro
este é o nosso Banco
estamos com a corda na garganta

Na impossibilidade física
comercial
de distribuírem
um pequeno baraço
a cada devedor
não tarda nos abordarão
não só para nos cortar a homicida corda da garganta
como para ver se alguém
ficou com marcas
nas carótidas

praxis

.da existência

o medo cerca-nos esse medo tem um nome, biopoder. o estado actualizou os tentáculos 'polvolares' que asfixiavam sartre.

.da necessidade

a revolta quotidiana é a unica solução. é emergente fazer da atitude diária uma práxis revolucionária

Celso Charuri: Existe um amor maior

Existe um amor maior. Existe uma bondade maior. Existe um poder maior. A nossa mente está ligada com o Universo. Nós não somos uma parte isolada do Universo. Nós estamos juntos com todas as partes. Nós fazemos parte da mesma respiração – a grande respiração. A nossa pequena respiração pulmonar é apenas ilusória. O nosso movimento é apenas ilusório. O nosso real movimento é mental, espiritual. É até onde nós conseguimos ver do todo que nos cerca e do qual fazemos parte.

Celso Charuri, excerto de palestra de 8 de Setembro de 1981

domingo, 24 de maio de 2009

Miguel Sousa Tavares: Não Te Deixarei Morrer, David Crockett

Antes que a ideia de Deus esmagasse os homens, antes dos autos de fé, das perseguições religiosas da Inquisição e do fundamentalismo islâmico, o Mediterrâneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das ameaças dos Profetas: na barca da morte até à outra vida, como acreditavam os egípcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebração de cada coisa: a caça, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e não o terror da morte.

Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição, antes dos massacres da Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na celebração da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos – por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade – a grande herança do mundo do Mediterrâneo.
(...) Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.

Miguel Sousa Tavares, in 'Não Te Deixarei Morrer, David Crockett '

Sopra-me na brisa

imagem google

a bandeira balança no vento
contém um pedaço de mim num rasgo de ti
é assim que a luz penetra na penumbra
e a tua sombra se entrelaça na minha

sexta-feira, 22 de maio de 2009

nothing else matters

Corpo Casulo

Primeiro Segredo
Há esconderijos nas conchas do corpo.

Mão, cancela que abriga e obriga, concha dos olhos

Casa, casar, casulo, centro, local de onde se parte e aonde se chega

A casa sou eu

corpo casulo

Segredo coreográfico para dançar (aqui)


Cada lugar e cada casa têm o seu tempo próprio. Um tempo secreto.
Cada movimento também.
Encontre as conchas do corpo com as mãos.
Viaje com as mãos entre as várias conchas do corpo.
Encontre um segredo numa das imagens.
Esconda esse segredo numa concha do corpo.
Traga agora o segredo à boca para o contar aos dedos.
Entrelace os dedos e deixe as mãos seguirem o caminho dos braços até o corpo se abraçar a si próprio.
Feche os olhos durante cinco segundos e sonhe com casulos.

1. Gérard Castello-Lopes "Bruxelas", 1958
2. Mona Khun "Ton's creation", 1999
3. Alfredo Cunha "Vila Verde", 1997
4. Georges Dussaud "Agrelos, Serra do Barroso, Trás-os-Montes", Agosto 1981
5. João Tabarra, Paulo Muge
6. Camilla Jessel Panufnik "Immediatly After Birth She Can Hear Her Mother's Hearhbeat again"
7. Alfredo Cunha "Benção do gado, Vila Verde", 1991

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Herberto Helder: As Musas Cegas

Quero partilhar convosco este poema, cuja beleza é imensa e que contem o que gosto de chamar "pequenas pérolas de sabedoria". 

Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
- E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.

Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
- Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira. - Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto-
e doado às coisas mínimas.

Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
- Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.

Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
da carne,
tudo o que é úmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
- não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.

E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.

Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito

nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. - E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sobressaltos - Três raças de homens

"[...] se fosse necessário dividir os homens, formariam três raças: os sonâmbulos, que são legião; os racionais e sensíveis, que vivem sobre dois planos e que, sabendo o que lhes falta, se esforçam por procurar o que de modo algum encontram; os espirituais nascidos duas vezes, que caminham para a morte com um passo igual para morrer sós e inteiros, quando acaso não escolhem o momento, o lugar e o modo, a fim de assinalar o seu desprezo pelas contingências. Os sonâmbulos são os idólatras; os racionais e sensíveis, os crentes; os espirituais duas vezes nascidos adoram em espírito o que os primeiros não imaginam e que os segundos não concebem, pois são homens plenamente e, como tais, não irão de modo algum procurar o que obtiveram, nem adorá-lo, pois que eles próprios o são"

- Albert Caraco, Bréviaire du chaos, Lausanne, L'Âge d'Homme, 1999, p.8

Le dessous des choses - The hidden side of things

Eis o momento
de agarrar o chão
com as mãos,
levantá-lo
como um lençol de luz
e passar por debaixo.
.
fotografia de Gilbert Garcin, 2001,
courtesy of Galerie Les Filles du Calvaire
in Uma carta coreográfica
Quarta fábula
A rapariga que inclinava paredes.

Raiz, espalhar casas por todo o lado para fazer o nosso mundo, caminhar para dentro da terra usando as mãos como pás aéreas, pregar a cabeça à terra e existir ao contrário.

Diagonal, abismo, ter os pés colados à terra e desafiar o equilíbrio, inclinar-se sem cair, enterrar-se sem morrer e encontrar-se na inclinação para um beijo de testas.
.
Fazer dos dedos as pernas e tornar-se um gigante.
.
Danças que prendem
.
Fábula coreográfica para dançar (agora)
.
Era uma vez uma rapariga que olhou para os seus dedos e viu as suas pernas, pegou no seu braço e fez dele uma parede inclinada.
Essa parede transformou-se no céu que cobre a sua aldeia.
Dos seus caracóis fez uma vassoura com a qual varreu todas as maldades que corriam de boca em boca.
Ponha os braços em forma de ventoinha e abra com o corpo em rodopio muitas pequenas casas redondas e rectangulares.
Com as mãos, revolva o seu cabelo para conhecer como dançam as vassouras.
Faça dos seus dedos as suas pernas e transforme a pele do seu braço numa montanha por onde passeia.
Veja a aldeia de abraços por baixo de si e incline-se para a frente sem cair.
Continue a inclinar-se até ao ponto de se tornar na metade de um telhado gigante que guarda a sua aldeia.
Entretanto, pode limpar as ruas imaginárias desse mundo feito do seu corpo com as pontas do seu cabelo e ver-se a si próprio virado ao contrário e em ponto pequeno.
Agora, encontre alguém a quem encostar a sua testa para sentir o que é o beijo das grandes montanhas.
.
.
Primeira fábula
Coelhos brancos nas pontas dos cabelos

Ar, caminhar sem chão, dormir no ar, escrever arcos com o corpo.

Expirar, transportar em espiral, dar marradinhas no espaço, levitar os braços.

Nascer dos sinos das saias.

Danças sem chão

Fábula coreográfica para dançar (agora)

Antigamente, todos tínhamos mais ar dentro de nós do que agora.
Esse ar dava origem a que no espaço interior dos corpos pudesse haver mais vida. E havia. Havia coelhos que nasciam, cresciam dentro do corpo e faziam todos os homens saltar mais. Saltos muitos e pequenos, saltos em arco, grandes saltos e reviravoltas que levavam os corpos dos homens a saltar. Porque os coelhos dentro de si não paravam de saltar, os homens mantinham-se no ar com muita facilidade. Um dia, os coelhos quiseram fugir e saíram pelas pontas dos cabelos dos homens.
A partir daí, tudo se tornou mais complicado. Os homens, para saltar, tiveram que inventar a dança, ou então sonhar bastante para poderem por vezes dormir no ar.
Experimente o coelho que poderá ter habitado dentro de si. Dê saltos, muitos e pequenos, saltos em arco, grandes saltos e reviravoltas, respire e volte ao princípio.

In Carta Coreográfica – “O corpo como adivinha, A dança como fábula”
AGEN 2009 - ACÇÃO NACIONAL
TERRITÓRIO ARTES

Palavras que justificam aprender a ler - As cinco aflições

“As cinco aflições que perturbam o equilíbrio da consciência são: ignorância ou falta de sabedoria; ego, orgulho do ego ou o sentimento do “eu”; apego ao prazer, aversão à dor; medo da morte e aferrar-se à vida” – Patañjali, Yoga Sutras, II, 3.

Herberto Helder: Trabalha naquilo antigo

Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move para o centro de si mesmo, como se todos os pontos em que trabalhas fossem o centro do mundo.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Deixa que a vida se reduza a cinzas e sonha que não é a morte

Anactoria

"A minha vida torna-se amarga com o teu amor; os teus olhos
Cegam-me, as tuas tranças queimam-me, os teus suspiros profundos
Dividem a minha carne e o meu espírito com um débil som,
E o meu sangue fortalece-se, e as minhas veias transbordam.
Peço-te que não suspires, não fales, não respires;
Deixa que a vida se reduza a cinzas e sonha que não é a morte.
Queria que o mar nos tivesse escondido, o fogo
(Terás tu medo disso e não receias o meu desejo?)
Quebrou os ossos que branqueiam, a carne que se fende,
E deixa que as nossas cinzas joeiradas caiam como folhas.
Sinto o teu sangue contra o meu; a minha dor
Atormenta-te, e os lábios esmagam os lábios, a veia dilacera a veia.
Que o fruto seja esmagado sobre o fruto, e a flor sobre a flor,
Que o seio desperte o seio e ambos ardam uma hora.
Porque hás-de tu seguir um amor sem importância? É o teu
Demasiado fraco para sustentar estas minhas mãos e estes meus lábios?
[...]"

- A. C. Swinburne, Poemas, Lisboa, Relógio d'Água, 2006, p.37

A controvérsia brâmanes-budistas / Filosofia e Poesia da Saudade

Falarei sobre "Atman e anatman: a controvérsia entre brâmanes e budistas em torno do si-mesmo", numa sessão da Semana Multicultural da Faculdade de Letras, no Anf. III, no dia 22, pelas 15 h, com o tema geral de "Divergências e Aproximações entre o Budismo e o Hinduismo e a sua influência no Ocidente". O outro orador será Shiv Kumar Singh, professor de Hindi na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Deixo também a notícia do meu próximo curso na Associação Agostinho da Silva (Rua do Jasmim, 11, 2º, ao Príncipe Real).

Curso de Introdução à Filosofia e Poesia da Saudade:

5, 12, 19 e 26 de Junho (sempre às sextas) das 18h às 19h30.
Custo: 40 euros
Inscrições até à primeira sessão: agostinhodasilva@mail.pt; 967044286

1. A Saudade e o Amor nos Cancioneiros medievais, em D. Duarte, Luís de Camões e D. Francisco Manuel de Melo.

2. A Saudade no mito de Pedro e Inês e no teatro de António Patrício.

3. Saudade e saudosismo em Teixeira de Pascoaes.

4. A Saudade e a “pátria anterior” em Fernando Pessoa.

Por uma Cultura orientada para o Despertar

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A Linguagem das Paredes - "Feliz Hypocracia!" (num muro em Cascais)

Mario Benedetti/ Certificado de existencia

Fotografia " Mario Benedetti" by GORKA LEJARCEGI

Ah ¿quién me salvara de existir?
Fernando Pessoa


Dijo el fulano presuntuoso /
hoy en el consulado
obtuve el habitual
certificado de existencia

consta aquí que estoy vivo
de manera que basta de calumnias

este papel soberbio / irrefutable
atestigua que existo

si me enfrento al espejo
y mi rostro no está
aguantaré sereno
despejado

¿no llevo acaso en la cartera
mi recién adquirido
mi flamante
certificado de existencia?

vivir / después de todo
no es tan fundamental
lo importante es que alguien
debidamente autorizado
certifique que uno
probadamente existe

cuando abro el diario y leo
mi propia necrológica
me apena que no sepan
qu estoy en condiciones
de mostrar dondequiera
y a quien sea
un vigente prolijo y minucioso
certificado de existencia

existo
luego pienso

¿cuántos zutanos andan por la calle
creyendo que están vivos
cuando en rigor carecen del genuino
irremplazable
soberano
certificado de existencia?


Mario Benedetti (1920-2009): morreu aos 88 anos, no dia 17 de Maio de 2009 em Montevidéu

Sy NAu éZ Lyber aHorA ahSegiRe fuZYlaSSS-TÚ

Ah MuZaN deZtÉ bLoucU fAZe strepTusão pÁ-ra oSh lekTores y fri-esKentaDoros duo PsykaCogito du Rocyo eM deVotá i DeVoraaaAda HomoNagem à LibEroTaçam duuO EgoSeXuz ke des(A)Fie aTóNyta y Akónika ass enRedez Nypcioais dese VirVEre YMundu.

Sy NAu éZ Lyber aHorA ahSegiRe fuZYlaSSS-TÚ

Jigme Khyentse Rinpoche em Lisboa, 21 de Maio, 19 h

border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5337117319863616482" />

Caros Amigos,

É com enorme prazer que vos informamos da presença de Jigme Khyentse Rinpoche em Lisboa, e da Conferência, que aceitou realizar, a convite da Fundação Kangyur Rinpoche e da Songtsen - Casa da Cultura do Tibete.
A data é 21 de Maio, pelas 19h, no hotel Tiara Park Atlantic Lisboa (Rua Castilho, 149).

A contribuição será de 10 euros, (5 eur para os "Amigos da FKR" - www.krfportugal.org) não sendo necessária inscrição prévia.

Esperamos vê-los em breve !

Fundação Kangyur Rinpoche


Dear Friends,

We are delighted to inform you that Jigme Khyentse Rinpoche will give a conference at 19h00, 21 May, at the Tiara Park Atlantic hotel in Lisbon (Rua Castilho, 149).
We hope you will be able to attend this event.
The entrance fee is 10€ (5€ reduced tariff for "KRF's Partners" - www.krfportugal.org).

With best wishes,

Fundação Kangyur Rinpoche


--
Fundação Kangyur Rinpoche
Actividades:
Rua Conde Almoster, nº98 - 13ºE | Tel. 211 535 449 / 21 390 40 22 / 934 353 961
Correspondência:
Rua Conde Almoster, nº106 - 12ºD
1500 - 197 Lisboa
www.krfportugal.org

Chogyam Trungpa Rinpoche: Agora

A espiritualidade é um termo específico que na realidade significa lidar com a intuição. Na tradição teísta há uma certa noção de apego a uma palavra. Um certo acto é considerado como não aceitável para um princípio divino. Um certo ato é considerado aceitável para o divino. Na tradição do não-teísmo, no entanto, é bastante directo que as histórias de casos não são particularmente importantes. O que é realmente importante é o aqui e o agora. O agora é definitivamente agora. Nós tentamos experimentar o que está disponível ali, no momento. Não faz sentido pensar que existe um passado que poderíamos ter agora. Isto é agora. Este precioso momento. Nada místico, apenas "agora", muito simples, directo. E desse "agora", contudo, emerge sempre um sentido de inteligência de que estamos constantemente em interacção com a realidade, um por um. Lugar por lugar. Constantemente. Nós, na realidade, experimentamos uma fantástica precisão, sempre. Mas sentimo-nos ameaçados pelo "agora" e saltamos para o passado ou o futuro. Se prestarmos atenção aos bens materiais que existem na nossa vida, esta vida rica que nós levamos, fazemos escolhas em todos os momentos, mas nenhuma delas é considerada boa ou má, per se, porque se todas as coisas que vivemos são experiências incondicionais, elas não vêm com uma etiqueta dizendo "isto é mau" ou "isto é bom". Mas nós vivemo-las mas não lhes prestamos a devida atenção. Não nos damos conta de que caminhamos para algum lado, consideramos isso um incómodo, esperar pela morte. Esse é o problema. Não confiar propriamente no "agora", que aquilo que experimentamos agora possui muitas coisas poderosas. É tão poderoso que somos incapazes de o enfrentar. Consequentemente, temos que pedir emprestado ao passado e convidar o futuro em cada momento. E talvez seja por isso que procuramos a religião. Talvez seja por isso que andamos na rua. Talvez seja por isso que nos queixamos à sociedade. Talvez seja por isso que votamos nos presidentes. É bastante irónico... Na verdade muito engraçado.

Chogyam Trungpa Rinpoche

domingo, 17 de maio de 2009


fotografia " Descending Angel" by John Wimberley

Eis, pois, como é doloroso o derrame da consciência neste pensamento - deixaste de existir! As rosas brancas acabadas de cortar no jardim nocturno, não deixam repousar a cabeça sobre a almofada; talvez esta almofada seja uma nuvem e, nela dormitar, é ter uma cratera,
um mar turbulento, nas raízes do corpo. Este corpo que sobrevive sem o espírito - está morto!
É nesta súbita lucidez, no quarto rodeado de paredes brancas, que divido a sombra. Diria que é uma divisória envidraçada, onde vejo, além - vêem também? - um homem que faz o gesto de um relógio, e executa o movimento dos ponteiros. E não pára. Grito para que pare, mas ele não me ouve; apenas lê o movimento dos lábios, que narra a deslocação de um silêncio ensurdecedor. «Ouve-me!», peço-lhe mais uma vez. É um pedido, que nunca, nas linhas telefónicas já sem ligação, chegou a acontecer no tímpano, a vibração da música.


Liliana Jasmim

A Princesa Lai e o Espelho de Água...agradecimento


Sentira, desde sempre, uma Saudade inexplicável de si, e do mundo, de algo que não sabia bem o que era mas que parecia tocar-lhe em sopro de vida, transcendente, como que um apelo, sussurro ou segredo de sabedoria.

Remetia-se, frequentemente, para os confins do seu ser, procurando apenas fluir sem que o universo das questões pela busca do ‘porquês' mais essenciais a atormentasse, em demasia…Perdia-se, e reencontrava-se, em espelho de água por vezes turvo pelas emoções mais nefastas que invadiam a sua quimérica existência…Outras vezes, mergulhava no abismo de si em solidão profunda. Chorava, sorria, quedava-se e chorava. E, o seu coração, era como que a macieza de uma pétala de rosa que contemplava a lua e flutuava na água, deleitando-se com pequenos salpicos de mar, chuva e cacimba, capazes de a purificar, em sorriso.

Comunicava, frequentemente, pelo gesto meigo, olhar terno mas melancólico e voz melodiosa que irradiavam a busca pelo Amor, a perfeição de Lótus, a compaixão de Jesus e de Yeshe Dawa cruzadas em horizonte de almejada Felicidade. Intuía, e escrevia, com/pela/na Saudade de um Jardim, algures, perdido no horizonte de si, onde as cores, as palavras e as imagens são acordes de violino e gotas de lágrimas que se movimentam em espiral de redescoberta, e renascimento. Só assim cresceriam asas em Lai…em trilho de deserto, vestígio de praia…Resistindo à miragem de samsara e desvelando o oásis de nirvana que lhe surgia, fragmentado.

Silenciava-se, aquietava-se e sabia que poderia voar pelas asas do coração, onde na sua essência se albergavam a solidão e a saudade, em mistério de si…

Filosofia e Estudos Orientais - Inscrições abertas


Filosofia e Estudos Orientais
Curso de Especialização
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


Objectivos: Curso de especialização que visa estudar e aprofundar os princípios e temas fundamentais do pensamento e da cultura oriental (da Índia ao Japão).


Sinopse do curso: Este curso permitirá uma introdução às tradições filosóficas e culturais cultivadas na Ásia (Hinduísmo, Budismo, Confucionismo, Taoísmo, entre outras) possibilitando o conhecimento dos seus principais ensinamentos filosóficos, bem como das suas diferentes práticas, em particular aquelas que se reflectem na vida artística dessas comunidades. Será igualmente dada importância ao modo como o pensamento e a sabedoria oriental reequacionam a relação do homem com o mundo, criando soluções novas para os dilemas com que as sociedades e os indivíduos hoje se confrontam, e serão abordados aspectos fundamentais da relação da cultura e da filosofia portuguesas e ocidentais com as culturas orientais.


Público-alvo: este curso destina-se a todos os que pretendam compreender o fenómeno de ressurgimento e popularização do interesse pela cultura oriental e queiram desenvolver o diálogo intercultural.


Responsáveis científicos: Carlos João Correia; Paulo Borges
Equipa de docentes: Paulo Borges; Carlos João Correia
Outros Docentes: Filipa Afonso, Ana Cristina Alves, Fabrizio Boscaglia, Duarte Braga, Antonio Cardiello, Bruno Béu Carvalho, Renato Epifânio, Paulo Guedes, Miguel Gullander, Dirk Hennrich, Beatriz Lobo, Rui Lopo, Joana Luís, Vasco Marques, Paula Morais, Lavínia Pereira, Amon Pinho, Romana Pinho, Ricardo Ventura.


Seminários:


1. Filosofia Clássica Indiana (1ºsemestre)
2. Introdução ao Budismo (1ºsemestre)
3. Oriente/Ocidente: diálogos e cruzamentos (2ºsemestre)
4. O Budismo e o Extremo-Oriente (2ºsemestre)


Unidades de Crédito: 60 UC
Horário do curso: pós-laboral
Propinas: a serem definidas pela Universidade de Lisboa
Data-limite das candidaturas: 28 de Agosto de 2009


Para mais informações:
http://www.carlosjoaocorreia.com/oriente


Contactos:
Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Tel: 21 7920050
Fax: 21 7960063


E-mail:
pauloaeborges@gmail.com;
carlosjoaocorreia@gmail.com;
filomena.martins@fl.ul.pt

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Zeitgeist: The Movie

http://www.zeitgeistmovie.com/

A Renúncia

Por isso eu digo: quando o homem renuncia a si mesmo e a todas as coisas criadas - quanto mais amplamente o fizer, tanto mais amplamente será unido e abençoado na centelha da alma, que é intangível tanto pelo tempo como pelo espaço. Esta centelha contradiz todas as criaturas e nada mais quer senão Deus, desvelado, como Ele é em si mesmo.

- Mestre Eckhart, Tratados e Sermões, Paulinas Editora, p. 260

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Poeta

Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.

Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou-
Em num, o antigo tempo é nova idade.

Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.

Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.


Teixeira de Pascoaes
Sempre (1898)
In Poesia de Teixeira de Pascoaes
Org. de Silvina Rodrigues Lopes
Lisboa, Editorial Comunicação, 1987

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Pétalas ao vento


quisera voar livre, como o vento...
sentir o odor dos pastos, do mar e da cidade
ainda que impregnada de vultos vazios

reenergizar-se em trespasse de luz
dança de mil e um sons
encantamento de natureza
sempre vislumbre de pureza

as suas asas eram pétalas de rosa
feminilidade ao luar
maciez ao tocar

um desejo
um suspiro
uma recordação
eis a essência de seu coração

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Cá nesta Babilónia

Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;

Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Repouso de anjo

imagem google


as estrelas sussurravam um embalo d'alma

o anjo repousava em núcleo de lótus

dormia, e sorria

agraciava-o a lua

em luz de sol secreto

e o noctívago odor a jasmim exalava

na penumbra dos amantes

cálido desejo, refreado anseio

Mal

domingo, 10 de maio de 2009

Um traço - Continuidade textual e fulgurações


(Para a Luiza, o Paulo, a Isabel, Lapdrey, José António Lozano e para todos os serpentíneos, em fim de tarde de "llansolianos" maios)
_______________A música é uma maneira de estar à escuta sobre a superfície sonora do papel. O que se eleva é uma partitura lançada sobre a montanha dos nomes do passado. Cada rosa é um canal de uma Veneza esquecida; cada nome é um segredo no sustenido da hora. Amplificar a hora poderia ser esta visão de um texto suspenso no ar, um texto como um agasalho para a nudez do pintor. Nos olhos da bailarina havia um fio que se prolongava até ao rio. Esse rio era frio. A música era um piano a escorregar da nota; a palavra a cair na pauta de um canto em Parasceve. Como um bosque o teu sorriso tinha a cor do espaço edénico de um fim que não tinha início em nenhum tempo preciso. E contudo do teu pescoço alto e dos teus olhos a fogo pintados na paisagem da ausência saia uma luz que se assemelhava às folhas em branco dos cadernos do fim da tarde. A imagem de uma girafa a arder. Isabel passeava pelo jardim com um ramo de palmeira nas mãos. Esperava a Primavera no desejo da luz que trazia nos lábios. Num espaço que não era deste mundo e se desvanecia no pó de milhares de estrelas, a cantora leitora derramava-se na beleza do azul. O mar e a montanha chamavam Camus e Vergílio para o deserto e para a montanha da geografia do texto. Je fixe mon attention sur ce feuillage, et sur les cheveux bien fournis qui sous la lumière... E o homem debruçado sobre o piano tinha os dedos-pássaros poisados no indimensionado piano do tempo. Havia um céu que descia para os pés do homem. As asas estavam escondidas, cobertas pelos ramagens das árvores. O homem pronunciava um som que era como a chuva a cair no sino da aldeia onde se perdeu a mágica partitura de uma palavra transparente. Uma gota a bater na tarde do sino. Je me transforme en (...) musiquante e ofereço um segredo aos amantes sem voz. Eu sou um traço. Não de silêncio, mas a continuidade de uma abertura ao espaço da epiderme das rosas. Ao espaço da minha pele, à libido da minha intocada sede. O espaço de uma palavra viva. A escrita que se abre como um rosto aceso nos olhos da escrita viva. A intensidade de um jardim fulgurante, vivido.

Quem é Satanás?

sábado, 9 de maio de 2009

O Encoberto

(...) o Sol brilha sem cessar; porém, quando uma nuvem ou nevoeiro está entre nós e o Sol, então não nos apercebemos mais do brilho da luz. O mesmo se passa quando o olho está, ele próprio, doente e se mirra ou tolda; então ele também não reconhecerá o brilho. (...) quando um mestre faz uma imagem de madeira ou de pedra, ele não leva a imagem para dentro da madeira, senão que ele talha as aparas que tinham ocultado e encoberto a imagem; ele nada dá à madeira, mas tira e aplana-lhe a cobertura, afasta a ferrugem, para que depois resplandeça o que estava oculto por baixo. Este é o tesouro que estava escondido no campo, de que Nosso Senhor fala no Evangelho (Mt 13,44).

- Mestre Eckhart, Tratados e Sermões, Paulinas Editora, p.169

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Peço desculpa por açambarcar o espaço da Serpente, mas dado que ninguém publica, publico um poema que escrevi há pouco. É um pouquinho deprimente, mas apenas um poema. Espero que não se siga de comentários anónimos desagradáveis, como tem acontecido em alguns posts da Serpente.

Dor

Toda a vida sofri
A dor de não haver
Quem me quisesse aqui
Restando-me morrer.

Toda a vida sofri
A dor de não ser querido
Por isso morri
Só sem nenhum amigo.

Toda a vida sofri
A dor do detestado
Eis porque choro assim
Do mundo abandonado.

Toda a vida sofri
A dor que trago ao peito
Hoje adormeço aqui
No derradeiro leito.

Acrescento-lhe outro que saiu agora:

Fado suicida

Sofro desde um tempo
Que não tem memória
Com um ou outro momento
Em que virei a história.

Sofro desde um tempo
Que terá tido começo
Mas hoje sem alento
Já frio me despeço.

Sofro desde um tempo
Que habita na escuridão
Nos nuncas do vento
Nos nadas da paixão.

Sofro desde um tempo
Que sofrido foi sonhado
Eis que chega o momento
De cumprir o meu fado.

Outro:

Imo negro

Fria e escura realidade
Adormecida insanidade
Infundo corta o inexistir
Vislumbre eterno vou partir.

Cinza vento eis o dia
Anoitece a manhã fria
Alva a noite não se cura
Espinho lento nada dura.

Fria e escura ansiedade
Não nascida sem idade
De nenhures de um confim
Onde late um motim.

Ardente negra a porta
Grito escuro à minha volta
Do outro lado o abismo
Para onde me dirijo.
Aperto

A memória
Aperta o coração
Sufoca a garganta
Traz lágrimas submersas
Reais e não choradas
Vertidas na consciência
Que lembra
A táctil música-espaço
Que anseia o impossível
Tactibilidade selvagem perdida
No horizonte
Sonhado para além
Da negridão para além
Da brancura para além de
Tudo és. Além
Ausente buraco negro
Sem fundo coração - tudo
Tocas, perscrutas
Se te perscruto na sabedoria
Nunca sabida oração até
Que os músicos da saudade
Silenciem a mente tua
Abandonada no mais frio
Imaculado nada.


João Darque, Pautas para uma obra imaginária, Livreira Nocturna, 1999.

Serenos Sobressaltos - "Basta pôr fim às visões falsas"

"Não é necessário procurar a verdade. Basta pôr fim às visões falsas"

- Sin-sin-ming, 3º Patriarca do Ch'an.

Que serão as "visões falsas"? Diria: as visões.

Esvaziar a Alma

Se o homem estivesse em condições de poder esvaziar completamente um copo e de o manter vazio de tudo o que consegue encher, mesmo do ar, o copo renegaria e esqueceria sem dúvida a sua natureza, e o vazio levá-lo-ia para cima até ao céu. Igualmente o ser simples, pobre e vazio de todas as criaturas eleva a alma para Deus.

- Mestre Eckhart, Tratados e Sermões

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Eco

Estou na escuridão
Envolvem-me eternos nadas
No passeio há folhas caídas
Os meus passos silenciosos
Ecoam no infinito e chegam
Aos ouvidos de Deus
Que chora a Sua criação
E ignorante se pergunta:
Meu Deus o que fui fazer?
Mas não obtém resposta
E isolado de tudo na mais
Imaculada solidão
Apercebe-se do nada
Que está para lá de todas
As coisas
Que ecoam ruidosamente
No mais íntimo de Si
E então chora
E envergonha-Se
E sente culpa
Uma culpa tão grande
Que O leva a fechar-Se
Em Si
Num acto suicida
Quando mais nada pode
Que não sofrer a fatalidade
Do Fado que, todo-poderoso
O guia pela rua cinzenta
Onde os brilhos na sujidade são
Deslumbres, meros deslumbres
Que logo passam e que até
O entristecem como a alegria
O entristece ao um dia
Ter vindo a saber
Do seu ser como eco etéreo
Que efémero ecoa no infinito
Longe, como um espelho
Que se quebra no espaço negro
Em alturas imaginadas libertas
De todos os astros que sabe serem
Fogos de artifício que antecedem
A morte que criou, enfeitiçado
Pela Sua própria ignorância impelido
Por uma vontade louca
Que o cegou enquanto se distraía
Na fruição da luz que acabou
Por obscurecê-Lo e transformá-Lo
Em eco no infinito.


João Darque, Pautas para uma obra imaginária, Livreira Nocturna, 1999.

Palavras que justificam aprender a ler - Nonada

"Nonada"

- João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas [primeira palavra do livro].

Visões nocturnas

http://www.youtube.com/watch?v=HwkltB3kzS8 - Uma versão de uma música lindíssima de Suzanne Vega.

http://www.youtube.com/watch?v=ZbwJarFL1c8 - A "Sonata ao luar", com a comovente história de como a música surgiu.

"(...) Despe a mente", comentário anónimo na noite serpentina.

Como responder à pergunta que não se consegue formular?

Fragmento anónimo, séc. 40 a.C.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

SILVESTRES



Lindas mas efémeras



como tudo o que é BELO


uma chita celeste que se esfiapa

quando o sol aperta


e o Jardineiro quem é?

Palavras que justificam aprender a ler - A vergonha

"Yuan Xian perguntou o que é a vergonha. O Mestre disse: "Quando o governo tem princípios, servi-o. Servir um governo sem princípios, eis o que é uma vergonha""

- Confúcio, Analectos, XIV, 1.

Sobressaltos - Estás perdido

"Se abres a boca, estás perdido.
Se fechas a boca, estás perdido.
Se hesitas, sem abrir nem fechar a boca,
Estás a mil léguas da verdade"

- Mumon Yamada (1900—1988)

terça-feira, 5 de maio de 2009

A Idade do Ouro

Como se sabe, os gregos possuíam, com muitos outros povos da Antiguidade, a tradição de que em tempos remotos tinham os homens vivido num estado de perfeita inocência e numa felicidade só comparável à dos deuses; tratavam-se todos como irmãos, alimentavam-se de frutos das árvores. Desconheciam as disputas e a guerra; havia entre eles e a natureza uma completa comunhão, a tal ponto que nem mesmo distinguiam entre si próprios e o mundo que os rodeava; e poderiam ter prosseguido nesta existência beatífica se não tivesse dado uma corrupção dos costumes, se da Idade do Ouro se não tivesse passado para a Idade de Ferro, a actual, em que todas as aberrações se tornaram normais na humanidade.

- Agostinho da Silva, A Comédia Latina

Por que é que se deu uma corrupção dos costumes? Será que é possível regressar à Idade do Ouro, ou o ferro que nós cremos ver afinal é ouro lamacento?

Light of Life

http://www.youtube.com/watch?v=V38nRWZQGvk

"No meu nascimento (eterno)..."

“No meu nascimento (eterno) nasceram todas as coisas e eu fui a causa primeira de mim mesmo e de todas as coisas; e, houvesse eu querido, nem eu seria nem todas as coisas seriam; mas, se eu não fosse, então também “Deus” não seria; que Deus seja “Deus”, disso sou eu a causa primeira; se eu não fosse, então Deus não seria “Deus”” – Mestre Eckhart, Beati pauperes spiritu…

Lançamento de Tratados e Sermões de Mestre Eckhart, "o homem de quem Deus nada escondeu"

Estarei na próxima 5ª feira, pelas 19 h, na Esplanada Central da Feira do Livro de Lisboa, para apresentar a primeira tradução portuguesa de Tratados e Sermões, de Mestre Eckhart, selecção de textos feita por mim, por Jorge Telles de Menezes e pelo Frei José Luís de Almeida Monteiro, tradução de Jorge Telles de Menezes (Lisboa, Paulinas, 2009).
Deixo-vos o prefácio (sem as notas de rodapé) que escrevi para esta obra cuja aparição - por fim! - em português considero o acontecimento editorial do ano. São obras como esta que vão justificando a cultura e cabe interrogar porque só agora se edita em Portugal um autor que é referência maior de toda a cultura europeia e hoje até planetária. Sem nos permeabilizarmos a estas vozes da experiência abissal do ser e da vida dificilmente sairemos da "apagada e vil tristeza".

Mestre Eckhart ou “o homem de quem Deus nada escondeu”

É com funda emoção que prefaciamos esta primeira publicação em Portugal de uma antologia de tratados e sermões de Mestre Eckhart (1260 ? – 1328), o teólogo, filósofo e pregador dominicano cuja profundidade e subtileza espiritual e “mística” o tornam cada vez mais uma referência fundamental para todos os que, independentemente da sua cultura ou religião, procuram ir ao fundo das possibilidades da vida, da consciência e da existência, sem se contentarem com a mera especulação intelectual sobre o seu sentido. Com efeito, em Eckhart dá-se a rara e feliz conciliação de uma sólida erudição universitária com a radicalidade da experiência espiritual que rompe e inova as categorias do pensamento da sua época e da sua tradição, fazendo dele um “Leben Meister” (“Mestre de vida” e não só de doutrina) que influiu decisivamente em gerações de discípulos e tem inspirado um significativo e crescente número de pensadores, psicólogos, escritores, poetas, pintores e músicos contemporâneos.
Consagrado pela posteridade como “o homem de quem Deus nada escondeu”, Eckhart assume de facto a sua visão e discurso como “uma verdade não encoberta, que veio directamente do coração de Deus”. “Voz” vinda “da eternidade”, mas não compreendida senão nos limites do tempo, como o disse Tauler, seu discípulo , acabou por ser objecto de um processo e de uma Bula papal que condenou vinte e oito afirmações suas como heréticas ou “mal sonantes, ousadas e suspeitas de heresia” . Todavia, se Eckhart ousa transgredir o plano teológico-filosófico e doutrinal para falar em nome de uma experiência imediata de Deus, esta fuga à norma da sua própria tradição institucionalizada pode noutro sentido ser vista como fidelidade a uma experiência cristã mais profunda, em que a resposta à questão tradicional – Cur Deus homo; Porque se fez Deus homem ? – é a de que Deus se faz homem para que cada homem “seja engendrado como o próprio Deus”, sendo “a abissalidade [Abgründigkeit] do ser divino e da natureza divina” inteiramente gerada “no seu Filho unigénito” para que “nós próprios sejamos o mesmo Filho unigénito”. Cristo, o Filho único de Deus, não é assim somente considerado uma pessoa individual e distinta, designando sobretudo a suprema possibilidade, histórica e trans-histórica, comum a todo o ser humano, cumprida no acesso de cada um ao estado de unção espiritual que esse nome designa.
Se a pregação eckhartiana tem dois temas capitais - o nascimento de Deus na alma e o trespasse do espírito na Divindade - , é neste último que se torna mais sensível a sua inovação e radicalidade. Bernard McGinn usa a expressão “mística do fundo” para designar a nova forma de experiência espiritual iniciada ou redescoberta por Eckhart, seus contemporâneos e seguidores , sintetizada na afirmação: “o fundo de Deus e o fundo da alma são um fundo” . Grunt (forma antiga do moderno termo germânico Grund) abre assim um “campo de palavra místico”, constituindo uma “metáfora explosiva” (Blumenberg), enquanto “expressa de modo concreto o que não pode ser capturado em conceitos” e “trespassa anteriores categorias da linguagem mística para criar novos modos de apresentar um encontro directo com Deus” . Dos vários sentidos que Grunt assume no alemão medieval, destaca-se em Eckhart o do “mais íntimo” e “oculto” de um ser, “a sua essência” , referindo-se quer ao “mais íntimo da alma”, quer às “profundezas ocultas de Deus”, para designar a radical unicidade desse seu fundo único. Univocamente comum a Deus e à alma, o fundo transcende-os enquanto “Deus” e “alma” surgem como algo distinto em si mesmo e na sua relação mútua. Com efeito, metáfora do infinito e do absoluto livre de todo o limite e referência, o fundo é “sem fundo” e “um único um” que transcende o Deus pensado pelo homem “enquanto causa eficiente do universo” e diferenciado nas pessoas trinitárias: como diz, a origem do ser divino e de todas as coisas reside nesse “fundo simples” e “imóvel” ou “deserto silencioso onde jamais a distinção lançou um olhar, nem Pai, nem Filho, nem Espírito Santo” . Sendo a “indistinção” e a ausência de características a “característica distintiva de Deus” como fundo, este é “nu, livre, vazio, puro”. Daí a relação da metáfora do fundo com as do “deserto”, do “mar” e do “abismo” [Abgrund] , imagens de espaços vastos, uniformes e desobstruídos, sem limites nem entidades. Referindo também o incondicionado que há na alma, esse “algo incriado” que nela reside, o fundo é a mais poderosa metáfora que Eckhart usa – a par de outras, como a “pequena centelha” e a “cidadela” – para indicar a presença em cada ser do absoluto e infinito, isso que transcende e identifica o humano e o divino: “Aqui o fundo de Deus é o meu fundo e o meu fundo o fundo de Deus” .
A questão central de toda a pregação eckhartiana é assim a de reassumir esse incondicionado fundo primordial de toda a experiência, que antecede e transcende não só a constituição do sujeito e do mundo, mas ainda a do próprio Deus enquanto tal, não só na sua determinação trinitária . Um dos sermões mais elucidativos disso é o “Beati pauperes spiritu…”, donde se colhe o título da presente obra, embora nele o autor não recorra explicitamente à metáfora do fundo. Propondo o despojamento radical do sujeito, pelo qual nada queira, saiba ou tenha, libertando-se de tudo e do próprio Deus, enquanto sujeito com atributos pensado pelo homem, Eckhart mostra como isso conduz à reintegração no estado primordial, pré-existencial, onde ele próprio, antes de se determinar como ente humano, vivia numa imanência absoluta, “livre de Deus e de todas as coisas” . É apenas pela sua livre saída desse estado e consequente recepção do seu “ser criado” que obtém “um Deus”, “pois antes que fossem as criaturas, Deus não era «Deus»”, mas apenas “o que era”, ou seja, nem isto nem aquilo, pura indeterminação não entificada nem qualificada. É somente pelo surgimento das “criaturas” nessa e a partir dessa indeterminação primordial, num processo solidário da auto-determinação existencial do próprio sujeito Eckhart, que “Deus” vem a ser, já não “em si mesmo”, mas “nas criaturas”, como um ente divino. É este “Deus”, criado, como tudo o mais, pela auto-criação do próprio sujeito enquanto ente mundano, que não lhe pode bastar, pois ele procede de algo anterior ao próprio “Deus” entificado e divinizado, isso que Eckhart designa como “o abismo eterno do ser divino” [den ewigen Abgrund göttlichen Seins]. “Por isso rogamos a Deus que de “Deus” nos livremos”, como diz, fruindo eternamente a “verdade” “aí onde os anjos mais elevados, a mosca e a alma são iguais”, ou seja, nessa manência primordial, sempre presente, transcendente do mundo da diferenciação criada, onde o sujeito residia quando “não era”, o que, embora sem o nomear, a não ser como “abismo eterno”, é decerto uma das indicações mais sugestivas do Grund ou fundo sem fundo . É a saída ou exílio ex-istencial desse “abismo”, mediante o escorrer ou emanar [Ausfliessen] diferenciador, que a ruptura ou trespasse [Durchbrechen] reintegrador vem anular, libertando o sujeito de si e assim de Deus e de todas as coisas e restaurando-o nesse eterno imo de não diferenciação onde não é “nem “Deus” [Gott] nem criatura”, instância noutros lugares designada como “Divindade” [Gottheit]. Esta é aquela “verdade” que só pode compreender quem se lhe assimila, a “verdade não encoberta, que veio directamente do coração de Deus” .
Cremos residir neste aprofundamento extremo da experiência espiritual , livre de todo o condicionamento e idolatria conceptual e figurativa, a razão pela qual Eckhart também se vem crescentemente a impor como incontornável mediador do diálogo entre o Ocidente cristão e as tradições orientais . Diálogo autêntico, num duplo sentido: após Schopenhauer haver assumido em Buda, Eckhart e nele próprio um mesmo ensinamento fundamental (precipitadamente, cremos) , são autores orientais, sobretudo budistas Zen, como Daisetz Taitaro Suzuki, que encontram em Eckhart, para além das fronteiras terminológicas, uma experiência comum à sua e fecunda para uma “cultura mundial” . A Escola de Kyoto tem particularmente promovido, muito em torno de Eckhart, um fecundo diálogo com a filosofia e mística ocidentais, desde Keiji Nishitani, que estudou o pregador alemão em Deus e o nada absoluto , até Shizuteru Ueda, que sobre ele se doutorou na Alemanha com uma tese sobre os seus dois temas capitais: o nascimento de Deus na alma e o trespasse na Divindade.
Aqui se apresentam ao leitor português alguns textos fundamentais dum autor que muito pode contribuir para dois dos maiores e urgentes desafios da nossa época: o florescimento da nossa consciência espiritual e o diálogo inter-cultural e inter-religioso, com Eckhart aberto - como entre nós com Agostinho da Silva - a agnósticos e ateus, pois uma Divindade equivalente ao “Nada” [Nichts] pode igualmente experimentar-se no silêncio da união místico-contemplativa, no abster-se de afirmar ou negar a sua existência ou no puro negá-la.
Concluímos expressando a nossa gratidão às edições Paulinas, pelo tão bom acolhimento desta proposta, bem como a gratificação de havermos levado a cabo este projecto com o nosso amigo Jorge Telles de Menezes, que a ele dedicou todo o seu imenso talento e experiência de tradutor da língua alemã, poética e filosófica, tal como os seus grandes dons de poeta e escritor.
Bem hajam!