O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 31 de dezembro de 2008





O Pássaro nunca Se mostra à superfície do Voo
apesar das vistosas asas.

Bom 2009 a todos, mesmo ao safado do pedreiro que me "arranjou" o Monte

A partir do primeiro segundo
Isto é, dos primeiros dois segundos, para descontar o adventício - que os homens da Ciência garantem não existe.

De Docta Ignorantia


De Docta Ignorantia
(À memória de Nicolau de Cusa)

Se não soubermos como é nosso o mundo,
e que sabemos dele apenas o que tivermos feito,
e que fazemos só a morte que não foi em vão,
e que não foi em vão quanto nascer de novo
é o muito que sofremos para descobrir
que a descoberta é recordar sem tempo
o tempo exacto qual medido em vidas –
Se não soubermos que a vida é um salto brusco
do inanimado às vidas que se encontram
na quantidade em que a si mesmas se erguem,
até que ter falado é o ser que nunca fomos,
o ser que não seremos, mas o puro
início de lembrar o igual de tudo –
Se não soubermos que os iguais transformam
em único e mortal o que é sinal de um só
que se conhece e conhecendo esquece
como ter visto é terem outros visto
o que, entretanto, em nós se transmutou –
Se não soubermos, como saberemos?
E como criaremos? Qual eternidade
terá sentido, irá como uma seta
ao fim que não acaba, em que se cumpre
o próprio fundamento, a porta, o tecto,
a constelado céu de acasos conquistados?
Se não soubermos, como não saber?

Jorge de Sena
(in “Fidelidade”, 1958)







alado de longe e saudade
saúdo o ano que finda
e guardo o que não findou ainda
para que se cumpra na sua mais plena verdade

o que findou e é pretérito
seja semente de aventura
traga dor alegria fracasso ou mérito
vivido sempre seja com soltura

venha a vida venha a morte
ou o pranto ou a alegria
venha o que vier lançado pela sorte
que seja vivida a vida toda em cada dia

e que os sonhos sejam sempre exaltantes
possam crescer e espraiar-se pelo universo
imensos quimeras de lume vivo extravagantes
incumpridos posto que sonhar é ser diverso

Feliz e Folião Ano Novo no Baile de Máscaras do In-Ex-istir!



Querid@s Amigas e Amigos, sem tempo para ler, comentar e agradecer pessoalmente tudo o que de belo e profundo têm publicado, pois ando em viagem entre várias passagens de ano e várias paisagens exteriores e interiores, aqui vos deixo os meus mais fundos e sem fundo, eloquentes e silentes votos de que todo o tempo se nos ilumine no Sem Tempo e todo o espaço se nos revele a floração sempre nova do Não Lugar que sem ser, não ser, ser e não ser e nem ser nem não ser, em tudo somos!

E que formas, palavras, imagens, pensamentos, sons e silêncios se desvelem Infinito Esplendor!

Saúde!

ângelo monteiro, feridos pelo acaso

Feridos pelo acaso nossos olhos
À luz e à profecia estão vendados,
Para Emaús nós caminhamos órfãos
E o coração é cinza nesse ocaso.

Mais do que órfãos, estamos todos mortos.
E eis que irreconhecida luz abrasa
A voz do Companheiro que nos volta
Trazido pelo sonho à nossa casa.

De súbito a presença de uma vela
Acende a sua face. E, em torno, à mesa,
Quando em sua inteireza se revela,

Como um clarão se esvai. De novo sós,
Para manter sua memória acesa,
Elevamos em canto a nossa voz.

(Ângelo Monteiro é um poeta nordestino, nascido em Alagoas em 1942 e residente no Recife há várias décadas. Este poema faz parte do livro O exílio de Babel (1983 a 1989) e foi incluído na antologia pessoal Todas as coisas têm língua)

poemasem pedra - II

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Zeitgeist: Addendum

Que este filme inspire as nossas resoluções para 2009. Feliz Ano Novo para todos!

Podem encontrar a sua versão integral com legendas em Português em http://www.zeitgeistmovie.com/add_portug_brazil.htm

Variações sobre um mantra

Na recusa de amar
um coração fecha-se e endurece
amordaça-o receio de encontrar.
Se os sonhos advertem e preparam
para os perigos a incorrer,
a desilusão faz-nos ver
Inundado de amor é forte
e nada teme o coração
de vida o seu amplexo.
Saberá o brando e sensível
permanecer incólume
ao desgaste do tempo?
-
Busca a flor que abrir depois da tempestade
e não antes...

O.M.A. (in Tempérie)




Nenhuma voz.

Silêncio.

De nenhuma voz é a lágrima.

Nenhum silêncio de nenhuma voz.

Sozinho.

De nenhum rosto é a lágrima

De nenhuma voz.

Silêncio.

De nenhum Eu, de nenhum Tu é a Voz.

De nenhum deserto

De nenhuma pedra.

Ermo de nenhum coração.

Só de nenhuma ausência

Limpo de nenhuma mácula.

Assim és em mim.

Riso de ninguém.

E de Todo o Mundo.



Para o Paulo Borges,
antes que haja o que se houver não haverá nem não haverá.

A Pedra no Charco: o Povo

"E o povo?", dir-se-á. O pensador ou o historiador que empregue esta palavra sem ironia desqualifica-se. O "povo", sabe-se demasiado bem a que se destina: padecer os acontecimentos e as fantasias dos governantes, prestando-se a desígnios que o abatem e anulam. Toda a experiência política, por mais "avançada" que seja, desenrola-se às suas custas, dirige-se contra ele: ele traz os estigmas da escravatura por decreto divino ou diabólico. Inútil apiedar-se dele: a sua causa é sem recurso. Nações e impérios formam-se pela sua complacência com as iniquidades de que é objecto. Não há chefe de estado ou conquistador que não o despreze; mas ele aceita este desprezo e dele vive. Cessasse de ser frouxo ou vítima, faltasse aos seus destinos, a sociedade desvanecer-se-ia e, com ela, toda a história. Não sejamos demasiado optimistas: nada nele permite considerar uma tão bela eventualidade. Tal qual é, representa um convite ao despotismo. Suporta as suas provações, por vezes solicita-as, e não se revolta contra elas senão para correr em direcção a novas, mais atrozes que as antigas. Sendo a revolução o seu único luxo, para ela se precipita, não tanto para daí retirar alguns benefícios ou melhorar a sua sorte, antes para adquirir também o direito de ser insolente, vantagem que o consola das suas habituais desgraças, mas que perde assim que são abolidos os privilégios da desordem. Não havendo nenhum regime que assegure a sua salvação, acomoda-se a todos e a nenhum. E, desde o Dilúvio até ao Juízo, tudo aquilo a que pode pretender é a executar honestamente a sua missão de vencido"

- E. M. Cioran, "Histoire et Utopie", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, pp.1010-1011.

A Corça

Na sequência do Bosque...
A leitora, chegada a hora tardia da luz, ergue-se para retornar à orla, à clareira por onde entrou. No chão, coberto de folhas húmidas, perscruta o rio por onde entrou, tenta recuar na corrente, voltar a andar, cessar de divagar para, devagar, chegar com o remo amarelo à margem do rio a que se entregou. Na atmosfera, cruzada por pequenas borboletas brancas e transcorrida por negros morcegos delirantes, persegue, ou tenta deslindar, uma linha branca inexistente, um nevoeiro reorientador do porto solitário de onde embarcou. Nas árvores, interrompida a relação com a luz, procura um raio obsidiante de sol retido nos ramos, uma estrela intrusiva perpassando a trama cerrada das folhagens. Afastada da clareira, e de súbito fechada nas ogivas da floresta-mosteiro, a leitora sente que em todas as árvores anoitecidas, contornadas de silêncio e sombra, está prometida e sustida a figura desejada e recordada de um farol. Sorri, distraída do medo, das formas metafóricas com que a ideia de luz apazigua o desnorte, a assombração e o estado de incompreensão em que cai depois do texto ter sido o pretexto para a paragem e não mera passagem pelas estações.

Caída, perdida da razão, sem o raio, a estrela e o foco, a leitora, encostando o corpo ao tronco-raíz da árvore, mas com o espírito a uma majestática altura – o que escreveu o poema teve que subir, escreveu a Gabriela, ao cimo da árvore para recolher luz para o poema; a luz, no cimo da árvore, é a sua clorofila; a árvore o lugar da direcção do poeta – procura o Plátano. A leitora sente os pés humedecidos pela via do rio mas procura o desvio para o olhar ruborescido pela luz do poema. Afinal, a leitora, chegada a hora tardia da luz, queda-se porque não deseja partir e prefere ouvir. No poema a luz é uma voz. E ela vem do alto e não cessa, nem à noite a luz do poema deixa de orientar a que olha para o cimo. O imo é o cimo. No cimo do Plátano, os versos são como ramos que rumorejam e as sílabas aves que reluzem. A árvore do poeta é uma pauta e o poema uma orquestra de flautas. A leitora, tocada e tocadora do poema, tem agora um rosto feito de texto e na sua pele estão, sem que o saiba, as folhas que fundam Parasceve. Parasceve, a cidade humana que se funda, depois de descer do Plátano, não é como as outras cidades que se opõem ao campo. Parasceve é a cidade-canto. Agora a leitora abandona a corrente, escuta a voz que a chama da luminosidade em torrente. E o ramo do irreparável, o ramo dourado ou incendiado do Plátano, não sabe e não distingue, traça no vento ou na música, um ritmo, uma rima com a qual ela enfeitiçadamente confraterniza e se internaliza. O ramo tem no corpo o verbo em modulação. A leitora rendida, ainda que não entretida, não entrega o corpo ao Plátano: não sobe; mas entrega-se de vez na voz e delira.
O poema desce para subir, na voz; nasce para se modular, no canto; expõe-se para reparar a ausência do símbolo perdido, no sentido. É no cimo do Plátano que está o fulgor, é no ramo que tem braços que está o par; é no sentido que está a síntese da semente e da folha. Tocada e tocadora do texto, a leitora iluminada e musicada, troca o rumo pelo rumor e não é o som do rio o que a trespassa, é o ritmo que a perpassa; a leitora em estado de síntese, ou fotossíntese, abandona o passo e a passagem e, na paragem pelo bosque, da raiz até ao cimo que é imo do Plátano dourado ou incendiado, transforma a quietude da árvore, contornada de silêncio e sombras, em devir. Lembra-se de ter lido-ouvido na Gabriela qualquer coisa como o que escreve não tem percurso, vai num decurso libidinal e tem que repor a continuidade. Extasiada, a leitora não encontra a frase nem o ramo, escuta as aves, pontos de luz, e o texto renasce na sua voz como uma pequena fonte, e a voz liberta um gérmen reprodutivo que fecunda o texto. A voz feminina reproduz um sentido masculino que se oferece amorosamente à leitora do poema. Um fio de água insinua-se no interior da leitora, um fio de luz tomba da cabeça esbranquiçada de Hölderlin do cimo do Plátano e um fio de frio, um calafrio, anuncia a sombra da Gabriela que sai do Carvalho em frente para escrever, dar continuidade ao dito. De súbito sabe que veio pela corrente do Reno e sabe que o poema está espalhado como um desejo incontido pelo corpo que ela prende no fechamento dos lábios e dos dedos das mãos. Um espasmo silencioso petrifica-a. A leitora é uma estátua nua de espanto e pranto. A leitora não se move, comove-se.

O que escreve, e o que escreve tem no corpo um manto e na voz um mantra, mais não faz do que cobrir e difundir. O que escreve difunde, quer dizer, permanece à espera de quem escreva com ele, em desejo libidinal, esperando a criação, isto é, cobre a leitora de prazer e formas. Cantar é outra forma de difundir e expandir desejo e prazer. Rejubilar. A Gabriela repete estas palavras quando passa perto, por dentro da leitora nua para a cobrir e revestir com os outros textos. A leitora tem uns na alma e outros no corpo: camadas de húmus desejante e fertilizante revestem-na. Nela o húmus não vem do solo, mas do sol, não se forma pela decomposição, mas pela composição. Por isso, dentro dela, como dentro de quem lê, não há senão o avanço da luminosidade livre em torrente e da memória em estado ardente.

Na leitora, o estado de compreensão do texto a que se eleva, do texto para além do contexto, condu-la a um contacto unificante. Na leitura compreensiva há uma unidade indiferenciada da leitora com o texto. O texto é um outro que não se procura como território para possuir, mas para se fruir e fluir. A unidade da leitora com o texto é a continuidade prometida do poema como criação e a continuidade do poema com o mundo. O poema é igualmente o rio a que uma alma pertence. Ipseidade e alteridade não são conceitos ou outras fixações, são evasões, libertações, modulações, propagações. A leitura não é um acto, é um pacto. Um pacto apaixonante e contagiante. A leitora abala as raízes do corpo sentido mas abala, depois do corpo lido, florida e rejuvenescida. A leitura é um toque de amor perpetuante. Por isso a visão do amor despertada pelo texto é um abalo originante e fecundante. Ler não é senão um canto operante e transformante. Em breve, como os filhos do ancião na Cantata Profana, a leitora se tornará em corça que não abandonará as profundezas do bosque. E, como as corças, responderá aos meramente humanos que Parasceve é uma cidade bosque, uma cidade canto e uma cidade pranto que se espalha por todas as criaturas. A cidade dos que, lendo o poema, procuraram o Ensaio para prolongar a voz do poema mais do que a do seu autor. A Gabriela afastou-se, mas decerto só a esta comunidade retornaria. Ela escreveu, todas as forças da natureza que o poema suscitava, comentava e ensinava a ser, se coligavam para estrangular a voz. Entre a voz e o poema, escolheria a voz. Parasceve não é uma comum cidade humana, é uma incomum cidade de cantores, leitores cantores, uma comunidade para os que, amando o espírito do poema, lhe emprestam a voz e a voz é o seu corpo vivo, a sua matéria inflamável, como no enlace do poema com o olhar da leitora. Do poema e de tudo que, viva e ardentemente, toca o olhar do cantor-legente, também a natureza em estado de poema. A leitora torna-se em tudo aquilo que é tocado pela palavra que sai do poema, é uma estátua meta e polimórfica que se deixa tocar pelo que se aproxima do alto e de dentro. Esta noite a leitora vai com as corças porque ela não pode voltar a ser humana nem doar o poema aos que apenas o são. Com as corças, os veados, as gazelas, o que for, ela aprendeu a responder: quem bebe a água que brota da Fonte Pura não bebe nem pela boca nem pelo copo em que bebem os humanos. O poema bebe-o e brinda-o o espírito em estado puro. Parasceve não é um estado político, é um estado de alma. E a alma é uma folha com asas e é por isso que as estátuas parecem cantar e encantar. Quem as olha torna-se no que olhar, porque ler não é só cantar e religar, é também profanar. As corças de Bartók sabiam-no e por isso não regressaram. Como elas, a leitora olha-nos de uma forma não mais somente humana.


Agradeço a imagem que foi incitante à Ana Moreira. Porque a Ana olha-nos como a leitora, mas agradeço, após um ano, a todos os que se constituíram, de forma velada ou desvelada, una e múltipla, ortónima e heterónima, como comunidade de leitores. A "Serpente" fundou uma comunidade de leitores que, umas vezes mais do que outras, nos direcciona para o deserto, o lugar onde o espírito ultrapassa todos os limites. Bom ano e obrigada pelas vozes a que chamei, há muito, cantografia. Ao Paulo, e porque esta é a sua casa, entrego o texto. E a todos oiço com a folha deixada em branco pelos Anjos de Rilke.





segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Do Alexandre

RIR, ROER






E se fôssemos rir,
Rir de tudo, tanto,
Que à força de rir
Nos tornássemos pranto,


Pranto colector
Do que em nós sobeja?
No riso, na dor,
Que o homem se veja.


Se veja disforme,
Se disforme for.
Um horror enorme?
Há outro maior...


E se não houver,
O horror é nosso.
Põe o dente a roer,
Leva o dente ao osso!



Alexandre O'Neill

Instantes....

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
Na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,
Na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiénico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
Subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha,
Teria problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu a vida sensata e produtivamente cada minuto da sua vida ;
Claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termómetro,
Uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas ;
Se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da Primavera,
E continuaria assim até o fim do Outono.
Daria mais voltas na minha rua,
Contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
Se tivesse outra vez uma vida pela frente...
Mas , já viram, tenho 85 anos e sei que estou a morrer.

(Autor desconhecido)

Pedra de encanto




Canto e cantaria a pedra?


Feitiço para encantar as pedras.

"Ainda terás alento e pedra de canto" (Vitorino Nemésio)

pedra de canto
encantada pedra
pedra de perfil sereno
pedra velha
pedra febril em pedra fina
e pedra na parede
em roxa pedra
pedra do poema
pedra!

catedral de pedra
pedra do funil
fumo de pedra
pedra da noite
longa noite de pedra
pedraria do amor
amor de pedra
toque de pedra
em pedra arrefecida
pedra de pão
pedra de sexo
pedra do poema
pedra de chama
e pedra do sentido
vivo sonho de pedra
pétrea petra derruída
pedra negra
empedrada vida
pedra!

carne de pedra
pedra diluída
pedra no meio do caminho
pedra entre as pedras
pedra de alcanfor
e pedra fria
pedra que se levanta
pedra que caminha
pedra que se inquieta
pedra de coração
pedra nativa
pedra de luz
pedra perdida
pedra desperta
e pedra adormecida
pedra!

pedra sonâmbula
pedra prometida
pedra figurada
e pedra no caminho
pedra literal
e pedra do destino
pedra de moisés
pedra divina
pedra anómima
pedra da marinha
pedra do rei
pedra da farinha
pedra!

pedra sem fim
pedra definida
pedra arcaica
pedra da memória
pedra minha
pedra em carne viva
pedra da palavra
pedra ressuscitada
rosa de pedra
pedra amada
pedra de espinhos
pedra de flor
rosa empedrada
pedra encoberta
rosa viva
pedra!


http://navegare--preciso.blogspot.com/

2009 is coming...


"May your mind set you free,
May your heart lead you on"


James*

Salto sem rede

"Não seria Deus o estado de eu do nada?"

- E. M. Cioran, "Le Crépuscule des Pensées", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.439.

poemas em pedra - I

domingo, 28 de dezembro de 2008

Sete Rosas para Rilke ou o Remorso de não sermos Deus



Somos uma luz agarrada à terra, a querer desprender-se. A aprender a voar.



Vivemos do que inexiste. Nisso somos humanos às cavalitas de deus.



Rosas de luz são corpetes dos anjos, que as enchemos nós, com o nosso corpo!




Em silêncio, oramos, em luz, oramos. Desse cálice deixai que se espalhe o delicado aroma.



Aqui vos entrego a alma, para que a limpeis com vossos dourados raios.



Rosas sois, de muito abrir e maior fenecer.



Quanto à tranparência, vós o sabeis, Senhor, nem para pó do vosso manto servimos.


Resposta a Cioran

A que se reduz a falta de auto-estima senão à narcísica incapacidade de se aceitar plenamente como humano e viver-se como tal, condição fundamental para então partir em direcção a uma verdadeira transcendência e não a escravidões espirituais que se fazem passar como tal?

fernando pessoa e o burrinho de belém...


"não haver deus é um deus também"

Um abraço, Paulo, e um grande ano para todos são os votos daqui de Benguela

Salto sem rede

"A que se reduzem todos os nossos tormentos senão ao remorso de não se ser Deus?"

- E. M. Cioran, "Le Livre des Leurres", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.212.

Do silêncio, das cores

(imagem: olhares.com)
Na verdade, reclamo palavras mas almejo o silêncio, aquele que fala por mil palavras e me reveste de cores, sempre que me olhas, abraças e sorris.
O silêncio dum antes, dum depois, durante o tempo da nossa eternidade, coexistência de espaços percorridos a dois, em cumplicidade, e transparência.

sábado, 27 de dezembro de 2008

obrigada


Conhecer-se a si próprio é esquecer-se de si mesmo.
Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo o que existe no mundo.


Dogen (monge budista japonês do séc. XIII)

Murmúrio

Foi numa noite de Inverno, em que eu fui, serei, lembrado, imaginado, não interessa, crendo em mim, crendo que sou eu, não, não vale a pena, dado que há os outros, onde, no mundo dos outros longos percursos mortais, sob o céu, com uma voz, não, não vale a pena, e com que mexer, de vez em quando, também não, dado que os outros passam, os autênticos, mas sobre a terra, certamente sobre a terra, o tempo de uma nova morte, dum novo despertar, esperando que aqui isto mude, que qualquer coisa mude, que faça nascer mais adiante, ou então ressuscitar, no fundo de fora deste murmúrio de memória e de sonho.


Samuel Beckett, Textos para Nada - XII

(Escre)ver-me



nunca escrevi

sou

apenas um tradutor de silêncios



a vida tatuou-me nos olhos

janelas

em que me transcrevo e apago



sou

um soldado

que se apaixona

pelo inimigo que vai matar



(citando Mia Couto)

"É Natal, ninguém leva a mal!" - III (fim)

Se uma estreita relação se mantém, durante toda a Antiguidade e Idade Média, entre “loucos religiosos e profanos”, consoante a crença nos dons espirituais, de clarividência, profecia e cura, do bobo da corte, e se Festas como a dos Loucos, do Burro e dos Inocentes significativamente só persistem, com vitalidade, enquanto permanece intensa a própria vivência religiosa, declinando com o aburguesamento racionalista que visa excluir a loucura da vida espiritual e social, aí onde Brant a exorciza e Erasmo faz o seu irónico elogio, inconscientemente fúnebre, começando o moderno universo concentracionário e correccionário descrito por Michel Foucault na História da Loucura na Idade Clássica - o que, pensando no famoso quadro de Brueghel, resulta numa autêntica vitória da Quaresma clerical e reformadora sobre o Carnaval popular e tradicional - , não é menos verdade que o louco divino excede o cada vez mais funcionalizado e profissionalizado bobo da corte, na exacta medida do excesso da sua liberdade relativamente a todos os poderes instituídos, e que a divina loucura do total descentramento de uma santidade que se oculta e desconhece transcende a mera catártica descompressão das pulsões e dos instintos individuais e colectivos, geralmente destinada a confirmar e reforçar a ordem vigente, sendo terapeuticamente canalizada para uma vivência mais plena da habitual vida religiosa, conforme o elucida o texto justificativo das Festas dos Loucos, em 1444, pela Faculdade de Teologia de Paris: “Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque deveria ela ser-nos interdita ? Não festejamos seriamente, mas por pura brincadeira, para nos divertirmos segundo a tradição, para que, ao menos uma vez por ano, nos abandonemos à loucura, que é a nossa segunda natureza e parece ser-nos inata. Os tonéis de vinho rebentariam se não se abrisse de vez em quando o batoque para os arejar. Ora nós somos velhas naves e tonéis mal ajustados que o vinho da sabedoria quebraria se o deixássemos ferver assim por uma devoção contínua ao serviço divino. (...) É por isso que entregamos alguns dias aos jogos e às bobices a fim voltar de seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião”.
Parece-nos, todavia, que um outro sentido e motivo, mais profundo que o da mera catarse psicossocial, e mais coerente com a radicalização da louca irrisão de si e do mundo, que encontrámos nos loucos por amor de Deus, se encerra tradicionalmente nestas práticas, porventura já inconscientemente vivido ou quiçá dispensador da necessidade da consciência para que seja operativamente eficaz. Conforme apontámos a propósito de Mestre Eckhart, perguntamo-nos se nesta cáustica e caótica violação e suspensão de todos os respeitos, por ocasião e no seio da própria liturgia religiosa, não se tratará de estender ao sagrado e ao divino, às coisas tidas por mais sacrossantas, aquele libertador iconoclasmo do espírito que se recusa a aceitar como digno de veneração e culto tudo o que se lhe depare, quer como exterior e extrínseco, quer como princípio, fundamento e estrutura de uma ordem de formas, determinações, medidas e limites, e que não possa transcender e reintegrar infinitamente na sua própria auto-transcensão como sujeito de um mundo de representações e objectos que, na exacta medida da sua apresentação como sagrados e divinos, se constituem como os mais dissimulados ídolos que acima de tudo importa reconhecer e desconstruir. Quer por via negativa, na inversão e suspensão do mundo religiosa, moral e socialmente correcto, quer por via positiva, na experiência de uma liberdade face a toda a determinação divina, humana ou outra do ser, emergente na possibilidade da carnavalesca mutação das formas e das aparências, e na orgiástica abolição de todas as fronteiras entre sagrado e profano, céu e terra, masculino e feminino, indivíduo e mundo, homem e Deus, aquilo que surge como um sacrilégio pode veicular uma libertação que, noutro sentido, pode ser vista como a mais elevada forma de cumprimento do sentido da religião e de experiência do sagrado, enquanto vivência do Infinito que abole todas as mediações. Isto com a condição de começar e terminar por destituir a idolatria do egocentrismo, não se detendo numa mera prática do irrespeito e da licença por um sujeito que se ria de tudo sem nunca haver rido de si, supondo que no seu iconoclasmo se está efectivamente a libertar de algo que não das suas próprias e ilusórias projecções e representações, a começar pela da sua suposta solidez e autarquia ontológica.
E, se porventura estamos aqui perante uma dessas manifestações da verdade que excede as possibilidades comuns do entendimento e, sobretudo, da vivência, convém declararmos que estas são, antes de mais, e obviamente, as nossas...

- "Da Loucura da Cruz à Festa dos Loucos. Loucura, sabedoria e santidade no cristianismo", in Paulo Borges, Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, pp.154-156 (as notas de rodapé foram suprimidas).

ambiente invertido

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A Casa

Imagem retirada de Astronomy "...The Christmas Tree"
Sem temores, mas com o coração de pomba a bater apressado, levado por ágeis corcéis e indireccionados voos, Nu era por todo o lado e em nenhuma parte. Dormia como a planta em deserto, sem cuidados e sem que disso fora consciente, ou houvesse ainda sinal de haver algo fora de Nu. É preciso dizer que então a treva era ausência sem ausente, o tempo era sem necessidade e os rios dormiam no vazio pleno de nem rios serem. Para visitar esse reino de absoluta unidade, plenitude e verdade, era mister segredar algumas palavras para dentro dum poço. Velavam por ele sopros inquietos que levantavam os véus do seu mesmo espaço. E era a respiração dos que não existiam ainda diferenciados, dos que não existiam de nunca ter existido, que se agitava dentro do peito do coração de pomba, do seu não-peito.Não existia Saudades, nem Adonai, nem estrela de Santiago. Ainda não havia a pedra em chamas. Hadid, e se havia, não se sabia como encontrá-lo. O esconderijo era distância e proximidade, contracção e quietude. Movimento puro. Era ainda o não lugar de onde todas as possibilidades podiam (ou pediam) a manifestação do existir.A Humanidade haveria de experimentar essa antiquíssima sensação de ocupar todo o espaço em todos os pontos e em todas as direcçãoes, muitas vezes, tantas, que haveria de lhe ser devolvida à memória, depois de passadas as águas do rio do Esquecimento, as águas que ainda não existiam.E de tanto não haver, o Homem se lembrou de o esquecer. Desaparecera-se-lhe até a lembrança, mas não a sensação. Tantas vezes que o Homem haveria sempre de o reviver quando, a sós, ouvindo apenas o não audível, vendo apenas o não visível, sendo apenas do Ser sem Ser, se lhe fechariam os olhos, sobre outro sono ainda. Talvez que do fundo dos corredores do tempo haja de encontrar aí, o som fundo da Origem. E contudo, tantas vezes, quando, em repouso, embarcamos nessa barca e parece que foi aí que nascemos. Chamam-lhe Amor – sou eu que o digo que agora penso alto para que me oiçam, e já não tenho febre - porque a memória é a de uma sensação física de não pertença extremamente pura e pacificadora.Por agora, era a Casa, a desmesurável casa que tem a forma sem forma de uma maçã (para usar metáfora, mais moderna). Mas, na verdade, não tem forma nenhuma, e é só espaço imenso. No deserto, no mar, nos bosques sombrios, nas clareiras iluminada, aí, ouvimos sem escutar (pois não havia ainda escuta), falámos sem falar (pois ainda não havia fala). Só som. Só Som. E uma casa a vogar no espaço infinito debruado de estrelas mansas – só para compor, pois estrelas também não as havia. E essa casa ainda não estava em construção, nem Universo se chamava, nem Mãe, nem Nada. Era o Nada. Aí era o Nada. A Casa sem casa, o Ser no Ser, sem Ser.

apostamos tudo


às vezes tu levantas-te de manhã da cama e pensas,
não vou fazê-lo, mas ris por dentro
lembrando todas as vezes que te sentiste assim, e
caminhas para a casa de banho, lavas-te, vês essa cara
ao espelho, ai ai ai, mas penteias-te na mesma,
vestes a roupa de sair à rua, dás de comer aos gatos, apanhas
o jornal dos horrores, coloca-lo em cima da mesa da cozinha, beijas
a tua mulher, e recuas o carro para a vida,
como milhões de outros que entram na arena mais uma vez.

agora estás na auto-estrada passando por entre o trânsito,
caminhas ao encontro de algo e de rigorosamente nada enquanto
ligas o rádio e apanhas Mozart, o que é algo, e de alguma maneira
consegues atravessar os dias lentos e os dias cheios de trabalho e os dias
aborrecidos e os dias horríveis e os dias raros, todos ao mesmo tempo bons
e ao mesmo tempo maus porque
somos ao mesmo tempo diferentes e iguais.

encontras a saída, conduzes pela zona mais perigosa
da cidade, sentindo-te momentaneamente bem enquanto Mozart
atravessa o teu cérebro e percorre os teus ossos e
sai pelos teus sapatos.

tem valido a pena lutar esta luta desigual
enquanto todos conduzimos
e apostamos num próximo dia.

(poema de Charles Bukowski)

“Nós não desejamos ser poupados pelos nossos melhores inimigos, nem por aqueles que amamos do fundo do coração. Deixai, pois, que vos diga a verdade.
Guerreiros, meus irmãos, do fundo do coração vos amo. Sou semelhante a vós, sempre o fui. E sou também o vosso melhor inimigo. Deixai, pois, que vos diga a verdade.
(…) Que o vosso amor da vida seja o amor da vossa suprema esperança, e que a vossa suprema esperança seja o supremo pensamento da vida.
(…) Eu não vos poupo, pois vos amo do fundo do coração, guerreiros meus irmãos”
(Friedrich Nietzsche, “Assim falou Zaratustra”)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

jangos

Natal

És deveras tu a mais excelsa Árvore
que agora
de glória e espanto nimbada
no íntimo de cada lar
ergues e iluminas

Tu que
sagrado e primordial
de ti despido
desde sempre e para sempre
Céu e Terra congraças

Em ti
o ouro e a prata eternos brilham
as velas se acendem
fulvas as estrelas cintilam

Em ti circula a seiva das coisas
o Dom
a anónima Alegria que perpassa
abrindo a mão que dá
e a que recebe

Em ti se acende a Luz
que súbita a noite ilumina
e tão mais esplende
quão menos se apercebe

És tu que na gruta do Coração
no Presépio de cada instante eterno nasces
entre o bafo e a adoração do mundo
e os coros celestiais

Tu que trazes o universo no coração
e com ele infante a sorrir brincas
suspenso, irradiante e puro
a girar na palma da mão

Pois em ti
nu, inocente e mudo
o tempo ainda não é
e já finda:
adamantino tudo a florir ressuscita
da ilusão de haver distância

És esplendor, prodígio, maravilha
Promessa, Anúncio, Presença

Festa

Todo o Mundo e Ninguém

Natal

...

Com votos de Feliz Natal e Ano Novo solar, dedico este poema, embora imaturo ainda em forma e conteúdo, a toda a comunidade serpentina emplumada, nomeada, heterónima e anónima, grato pelas vossas/nossas luzes e sombras, harmonias, zizânias e demais folias. Que neste Carnatal (belíssimo achado, Saudades!), agora e sempre, haja Folia!

"É Natal, ninguém leva a mal!" - II

As Festas dos Loucos, “festum stultorum”, “fatuorum” ou “follorum”, do Burro e dos Inocentes, celebradas, consoante os locais, em diversos dias do referido período, quase se identificam e confundem . Promovidas pelo baixo clero, em particular pelos subdiáconos, são testemunhadas desde o final do século XII até ao do século XVI, com raros prolongamentos pelo século seguinte, quando as constantes condenações e proibições dos vários concílios episcopais, aliadas à intervenção de um poder real centralizado, que agora se leva mais a sério e dispensou já o espelho de verdade que era o bobo da corte, as restringem ou fazem desaparecer, pelo menos das igrejas, dando porventura origem às confrarias seculares, as “companhias dos loucos”, que, procedentes agora da burguesia, as continuarão sob a forma de festejos carnavalescos laicos. Nelas se elegia, entre os subdiáconos, e a exemplo das Saturnais e dos vários reis carnavalescos, um “dominus festi”, um burlesco soberano da festa, vulgarmente designado como “Bispo” e, por vezes, “Papa dos Loucos”, o qual assumia toda a autoridade durante o período dos festejos. Momento marcante é, em plena eucaristia, a transmissão simbólica do “baculus”, do dignitário do ano anterior para o novo, quando significativamente se entoam os versos do Magnificat, “Deposuit potentes de sede: et exaltavit humiles”, que referem a escatológica inversão, por Cristo, da ordem do mundo, exaltando os humildes, destituindo os poderosos. Este rito é o centro de um conjunto de sistemáticas e metódicas, mas também espontâneas, transgressões, paródias, blasfémias e sacrilégios. Como escreve, em 1445, o deão da Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, numa carta condenatória dirigida aos bispos e cabidos de França: “Padres e clérigos podem ver-se usando máscaras e aparências monstruosas nas horas do ofício. Dançam no coro vestidos de mulheres, lacaios ou menestréis. Cantam canções licenciosas. Comem chouriços pretos no altar enquanto o oficiante diz a missa. Jogam aí aos dados. Incensam com um fumo fétido procedente da sola de sapatos velhos. Correm e pulam pela igreja, sem corar da sua vergonha. Viajam finalmente pela cidade e seus teatros em miseráveis carruagens e carroças; e suscitam o riso dos seus companheiros e circunstantes através de representações infames, com trejeitos indecentes e versos torpes e libertinos”. Ainda em 1645, numa igreja franciscana, o Dia dos Inocentes foi comemorado, segundo relata em carta a Gassendi um seu discípulo livre-pensador, com a entrega da celebração aos irmãos leigos, pedintes, cozinheiros e jardineiros, com as vestes do avesso, os livros voltados para baixo, cascas de laranja como óculos, soprando as cinzas dos incensórios sobre os rostos e cabeças uns dos outros e cantando a liturgia num palavreado incompreensível. No que respeita à Festa do Burro, por vezes indistinta da dos Loucos, note-se que a sua figura central é um animal de simbolismo ambíguo, entre a “ignorância” e a “obscuridade” satânica e a “humildade”, a “pobreza”, a “paciência” e a “paz” cristãs, também clarividente, como no episódio de Balaão (Números, 22, 22-35), e de qualquer modo profundamente ligado à vida de Cristo. A singularidade é aqui a introdução de um burro no altar, durante uma missa solene em que momentos fulcrais como o Kyrie, o Gloria e o Credo terminam com zurros. No final o oficiante zurra três vezes e os assistentes respondem de igual modo, numa desfiguração cacofónica e burlesca de toda a seriedade e compostura litúrgica, conforme se pode constatar na reconstituição musical contemporaneamente feita pelo Clemencic Consort. Conforme o relato de John Huss, numa Festa dos Loucos na qual participou, para seu remorso, quando menino, o clérigo eleito “Bispo” era colocado sobre um burro, o rosto voltado para a cauda, sendo assim levado à missa, na qual presidia à folia geral.

- "Da Loucura da Cruz à Festa dos Loucos. Loucura, sabedoria e santidade no cristianismo", in Paulo Borges, Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, pp.151-154 (as notas de rodapé foram suprimidas).

co.Naître


Já Amanhecia
antes,
muito antes da manhã preceder a Noite que a procria,


e assim no escuro, tão obscuro
claro me parecia tudo o que não via.

Pela sugestão de um título

Lisboa, Cais do Sodré, 24 de Dezembro de 2008
2:45 am

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Há bocado minha irmã estava visitando os seus blogues preferidos e viu isto:
http://lishbuna.blogspot.com/2008/12/notcias-de-inspirao-crist-iv-outras.html

´"É Natal, ninguém leva a mal!" - I



Intitulado com um dito de um mascarado de Trás-os-Montes inicio aqui a publicação da parte final de um estudo já editado, em homenagem ao espírito arcaico, esquecido e encoberto desta época natalícia, o da Folia caósmica e metamórfica, hoje transformado no da folia consumista, festiva e desvairada emergência ainda da Festa da liberdade primordial e da saudade de tudo-nada ser.

...

É a mais que divina transgressão do divino, a trans-religiosa transgressão do religioso, a transcendência do transcendente, que encontramos, já não no contexto da cultura erudita, mas no da cultura popular, na arcaica tradição ritual e festiva que desponta, em pleno seio do medievo cristão e nas camadas mais baixas do clero, nas Festas dos Loucos, do Burro e dos Inocentes. Parecem constituir-se estas como novas formas das arcaicas e cíclicas festas de renovação e fecundação cósmica, por recriação do Caos primordial ou da originária Idade de Ouro, nos períodos de fim e início do Ano, nesse intervalo de doze dias, por vezes prolongados, que se crê não terem lugar no calendário temporal. Neles se suspende a ordem cósmica, reemergindo a liberdade primordial, anterior à constituição do universo das determinações, com a aparente solidez das diferenciações e formas ônticas, instituídas, funcionalizadas e hierarquizadas em supostos lugares naturais, e com a lei que estabelece as suas medidas e relações no plano cósmico e social. Tais festividades consistem assim na vivência do “sagrado de transgressão” que, neste período, se substitui à do “sagrado de respeito”, violando os interditos e as regras que normalmente asseguram a conservação da ordem do mundo e das mentes, mas que agora importa ultrapassar e destituir para que a realidade se recrie na a-cósmica liberdade do Infinito primordial. É que a diferenciação, determinação e fixação dos entes em seus limites implica uma privação, quer da primordial liberdade da ausência de forma, quer da plasticidade e imprevisibilidade das metamorfoses criadoras, transitando-se do tudo ser simultaneamente possível para o confinamento das possibilidades à sua actualização apenas parcial, exclusiva e sucessiva, com o inevitável sacrifício e aprisionamento do excesso de energia vital na ordem de um mundo de formas que, também inevitavelmente, acabam por temporalmente se desgastar e sucumbir no processo da sua cristalização e erosão recíproca, na imanente tensão em que se inter-dissolvem reintegrando-se no infinito primordial, como o sugere o conhecido fragmento de Anaximandro. Nas festas a que nos referimos emerge então a sacralidade da subversão e inversão de todas as formas supostamente normais de ser, pensar e agir, traduzida na religiosa vivência do riso, da paródia, da blasfémia, do sacrilégio, da desmesura e do intercâmbio, metamorfose, fusão e indistinção das formas, por via do mascaramento, do travestimento, do jogo, da fantasia, da licença e do excesso sexual e alimentar, da inversão e suspensão das funções sociais, num paroxismo orgiástico que faz da loucura a regra num autêntico e carnavalesco mundo às avessas.
Celebrações como a dos Loucos, do Burro ou dos Inocentes, moldando a exaltação evangélica da divina loucura de um Deus e de um Reino às avessas da normalidade mundana à continuidade da tradição pagã das celebrações do solstício de Inverno, das Crónia gregas, das Saturnalia romanas e das Calendas de Janeiro, entre outras, fazem do período que se estende da segunda metade de Dezembro até à Epifania, a 6 de Janeiro, “um contínuo carnaval”, tradicionalmente designado como a “libertas Decembrica” e vivido num singular misto de elementos pagãos e cristãos. “Mascarada” que, como diz Jean-Paul, “sem nenhuma intenção impura, interverte o temporal e o espiritual e transtorna a ordem social e os costumes, na grande igualdade e liberdade da alegria”. Vejamos as mais significativas características e simbolismo desses festejos cuja descrição se imortalizou literariamente nalgumas páginas célebres de Victor Hugo e, mais recentemente, no cinema, com o Corcunda de Notre-Dame, da Walt Disney.

- "Da Loucura da Cruz à Festa dos Loucos. Loucura, sabedoria e santidade no cristianismo", in Paulo Borges, Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, pp.148-151 (as notas de rodapé foram suprimidas).

Inefável


inefável

sopro d'algodão

que voa

sempre

mais além

de mim própria



toque de nuvem

aspiração de céu

abismo de mar



teima na dicotomia

quando tudo é uno

vasto

horizontal

holístico



inefável

este amar

que me faz ser

e em ti me perder

para depois me reencontrar...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Natal

Desnudas-te em fogo e nasces Deusa no berço das minhas mãos. Ajoelho-me ouro, mirra e incenso. É Natal.

NATAL (Fernando Pessoa)

Nasce um deus. E outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Voz dos párias, divina voz

"Gosto muito do Jardim Zoológico! Há muitas pessoas bonitas, dentro das jaulas"

[Um vagabundo hirsuto a rir-se com uma cerveja na mão, hoje, em Lisboa, às 10.04]

"Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim..." (Álvaro de Campos)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Universo em festa*




Eram grãos de areia que nunca mais acabavam
Eram gotas de água salgada que nunca mais adoçavam
Eram estrelas que luziam e nunca mais se apagavam

Eram corações que pareciam que nunca mais batiam
E, logo ao lado, outros tantos em forma de coração que só amavam, só sentiam

Eram braços que só envolviam e confortavam
Eram olhos que só brilhavam e, ao longe, pareciam aquelas estrelas que luziam
Eram pés assentes na terra quente com as cabeças bem soltas nas nuvens

E as almas, essas, estavam vivas entre tudo e todos.
Eram almas soltas que nunca mais deixaram de sonhar

E o sonho?
O sonho.
O sonho tinha tantas cores como as do arco-íris vezes sete

Eram gotas de água, eram grãos de areia, eram estrelas.
Era um praia onde tudo e todos chegavam a cada instante e de lá saíam, em grande algazarra, sem saber para onde ir a seguir. Riam, dançavam, soltavam areia no ar, corriam, cantavam e sentavam-se à conversa com outro qualquer.

Era o mar a dizer-lhes que ficassem.
Eram as ondas a rebentar pelas costuras do mar
E de tanto tentarem alcançar a areia, as rochas, os pés secos
De tanto irem e virem

As ondas e o mar já iam e vinham como se não soubessem que nome tinham
Era o mar sem dar nome às coisas e a dizer que ficassem perto dele.

Eram grãos de areia que nunca mais acabavam
Eram gotas de água salgada que nunca mais adoçavam
Eram estrelas que luziam e nunca mais se apagavam

O universo em festa*


*

O texto foi publicado originalmente no meu blog pessoal.
Perdoem-me a partilha póstuma.
É este o meu desejo para todos os serpenteados e todos os emplumados,
para o Ano Novo que caminha até nós com os passos do tempo.
Ao qual acrescento com o coração:

Saúde!
Festa eterna na alegoria, no sonho e na manhã seguinte!
Fechem os olhos e deliciem-se com a festa de luz e cor que cada um tem em si mesmo!
Gargalhadas vindas do útero da alegria que todos trazemos cá dentro!
Saltos no infinito de tudo o que não somos.
Porque o que somos sempre deixamos de ser a cada momento, a cada passo do Universo.
E o Universo não se engana. O tempo passa porque é assim que tem que ser.

Os meus votos de Boas Festas...


...são em forma de música no coração.


Que o Natal aconteça verdadeiramente em cada um de vós.




Raminho de cheiros para a consoada


"Eu caminhava na noite
e entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava.


(...)


Nesse lugar pensei: quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto."


Sophia de Mello Breyner Andresen


"Fica tranquilo se, de repente,
o Anjo se sentar à tua mesa;
alisa com vagar os breves vincos
que a toalha fez debaixo do teu pão.


Convida-o para a modesta refeição,
que também ele lhe saboreie o gosto,
E possa levar aos lábios puros
um simples copo de todos os dias."


Rainer Maria Rilke


"Riquíssimo Senhor; quem vos fez pobre?
Se vestistes terra e céu, quem vos despiu?
Ó encoberto Deus, quem vos descobre?


Aires Teles de Meneses


"Silêncio! Todo o Universo
Está ali - dentro de um berço"


Miguel Trigueiros



"Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos."


(...)


Alberto Caeiro


PS. Uma sugestão: porque não colocar sobre o lugar de cada um na mesa um textinho destes, ou outro? Para vós vai este raminho, embrulhadinho em beijos.

Mirante


st

sábado, 20 de dezembro de 2008

“Nós somos o sentido das coisas – há que criar as coisas!” (António Maria Lisboa)


O que acontece em nós não depende da nossa vontade, da nossa vontade é a adesão incondicional ao que em nós acontece, da nossa vontade é a eliminação dos elementos aberrantes que contraem e desviam disso, da nossa vontade é cumprirmos exactamente isso. O que foi libertação de forças prender-nos-á, será um muro no nosso caminho, uma algema, se não passarmos de novo através das palavras. Criámos o seu novo sentido: há agora que criar a sua nova realidade. As coisas não estão feitas senão assim: nós somos o sentido das coisas – há que criar as coisas! Tudo se cumprirá implacavelmente – e da nossa vontade é isso e o nosso pensamento será isto pois não sairá de nós a não ser quando o nosso pensamento for já ele próprio o que se cumpre implacavelmente.” (António Maria Lisboa, “Exercícios sobre o sono e a vigília de Alfred Jarry”, in “Poesia de António Maria Lisboa”, Assírio & Alvim, 1977)

Quando, na fase inicial da maioria das práticas espirituais, se procura silenciar o fluxo do pensamento, o asceta apercebe-se rapidamente que aquilo que ele até então supunha ter origem em si próprio navega na verdade, e porventura anda atolado, num mar mais vasto e mais impessoal ou supra-pessoal, do que a sua próprio mente.
É quando procura manter-se, persistentemente, como testemunha de tal torrente - feita quer da “materiais” propriamente pensados, mas também dos diversíssimos sentimentos, emoções e memórias de que a mente se constitui local indistinto de armazenamento -, que verifica que é a sua própria adesão a tais “sementes” de “pensamento” que precisamente dá vida e alimenta essa inquieta corrente interna de um “mentar” inferior ancorado e dominador.
Ocorre-me - a propósito do que António Maria Lisboa aqui escreve acerca da criação dum novo sentido, criador de uma outra realidade, que por sua vez crie e re-crie as coisas mesmas -, uma singular demonstração de como linguagem, palavras, sentido e apreensão da realidade estão mais interligados do que talvez, apressadamente, supuséssemos.

Talvez o filtro genético social mais comummente reconhecido seja o nosso sistema linguístico. Dentro de qualquer sistema linguístico específico, por exemplo, parte da riqueza da nossa experiência está associada a um número de distinções feitas em alguma área das nossas sensações. Em maidu, uma língua indígena americana do norte da Califórnia, apenas três palavras são utilizadas para descrever o espectro de cores. Dividem o espectro como se segue (as palavras em português são as aproximações mais chegadas):

Lak – Vermelho
Tit – Verde-azul
Tulak – Amarelo-laranja-castanho

Enquanto os restantes seres humanos são capazes de fazer 7.5000.000 distinções de cores diferentes no espectro de cores visíveis (Borng, 1957), os falantes nativos de maidu habitualmente agrupam a sua experiência nas três categorias fornecidas pela sua língua. Estas três palavras maidu para cores cobrem a mesma gama de sensação do mundo real que as oito palavras específicas para cores em português. Aqui a questão é que um falante de maidu é caracteristicamente consciente de apenas três categorias de experiência de cor, ao passo que o falante de português tem mais categorias e, portanto, mais distinções perceptivas habituais. Isto significa que, enquanto os falantes de português descreverão a sua experiência de dois objectos diferentes (digamos, um livro amarelo e um livro laranja), os falantes de maidu tipicamente descreverão a sua experiência da situação idêntica do mundo real como sendo a mesma (dois livros tulak).
Ao contrário das nossas limitações genéticas neurológicas, as introduzidas pelos filtros genéticos sociais são facilmente superadas. Isso é demonstrado mais claramente pelo facto de que somos capazes de falar mais de uma língua – isto é, somos capazes de utilizar mais de um conjunto de categorias ou filtros sociais linguísticos para organizar a nossa experiência, para servir como nossa representação do mundo. Por exemplo, tomemos a frase comum: O livro é azul. Azul é o nome que nós, como falantes nativos de português, aprendemos a usar para descrever a nossa experiência de uma certa porção do continuum de luz visível. Enganados pela estrutura da nossa língua, chegamos a presumir que azul é uma propriedade do objecto a que nos referimos como sendo um livro, ao invés de ser o nome que damos à nossa sensação.”(Richard Bandler e John Grinder, “A Estrutura da Magia – Um livro sobre linguagem e terapia”, Editora Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 1977)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

em cena

Experiência fácil

"Experimento-me ridículo, de todas as vezes que subo a um palco."

Nielsen Földmaan

Como seria a nossa cultura se ela fosse feita pelos livres, pelos sãos e pelos humildes, em vez dos que sofrem, estão sós e se sentem incompletos?

Acima de tudo, que critérios se usariam para definir a saúde, a liberdade (sobretudo de si mesm@), a humildade e a completude?

Muito se tentou no século XX "refundar" a cultura Ocidental, com resultados desastrosos.

De que forma a História nos poderia ensinar a fazê-lo de forma a que não voltássemos a pôr o pluralismo e, acima de tudo, vidas em risco?

De forma a que o maior risco que corrêssemos fosse cair no ridículo?

(desculpem-me tantas perguntas nos meus últimos posts, espero não estar a maçar vocês mais que a conta, mas quanto mais me embrenho nesta aventura, mais pergutnas me surgem, menos respostas, e mais sinto que escrever poemas ou textos em que digo "isto é" ou "isto não é" é algo completamente risível. Cada vez mais ponho em causa a própria pertinência do acto de escrever, ou até de pensar.

Desculpem-me o tom cáustico e a "sinceridade pornográfica" com que muitas vezes tenho escrito. Se não o fizesse, estaria a trair o que vivo e o que sinto.

Desculpem-me qualquer coisinha;-).)

Um grande abraço e desejo que fruam bem da "libertas Decembrica", desta festa extraordinária do "Sol Invictus",

A

Arena Vulgar


Ultimato à rigidez. Vocabulário incerto. Manhã sucessiva.

Se eu dissesse fechar os olhos. Se sentisse que os olhos se fecham e quando eu pedi para se fecharem sentisse o que teria sentido. Abro os olhos e não mais que meros tempos verbais. Ou não. Lá longe, ou melhor, sentir-Me lá longe, no ainda muito longe, muito para o além longínquo demais infinito, obriga-Me a imaginar. Caminhava pé após pé seguindo o apoio em apoio até ao passo seguinte.
A manhã era clara. Não mais que uma manhã azul, por causa da laranja que lentamente iluminava o imaginário. Não era sede que sentia, mas sim, a falta líquida da frescura. A manhã era clara e com ela o frio que a resumia a singularidade. Sim. Era uma manhã como muitas outras manhãs que sucedem a noite, fria como é normal. Acontecia-Me parar e mesmo assim era o impulso de continuar. Não era o pressuposto de chegar ainda mais longe, não era querer chegar mais além, não era estar longe do ponto de partida. Não houve início. Se sentisse a pergunta, diria que sim. Não tinha razões para negar. Tinha a consciência do estar-Se. Estava somente a andar. Se não sentisse nada, nada diria. Certamente no fim diria não, se não a tivesse imaginado.
A resposta obtida, caminhar sem noção da pergunta. Noção de estar perdida. Não. Não imaginava um deserto. Era demasiado complexo para se resumir a um ponto. Queria desenhar no passado o passo que dava em frente… Imaginava-Me na reticência em pausa. É demais. Avançava pois em frente, avançava de mãos dadas no interior, era coração que assim mo dizia. Não tinha medo, porque nada esperava descobrir. Lembrava-Me a pergunta não a tendo como tal. Faltava-Me a resposta sem ser necessária. Era profundo na minha intimidade. Não existiam esferas que me pudessem rodear. Não havia envolvente porque nem ar respirava. Não era somente ar. Em frente, e nunca o chegar. Era a falta dele que me denunciava na respiração. Agora, que o dia era azul, agora laranja em todo céu, era conforto e calor. Passo a passo era a linha residual que se projectava atrás do andar, linear, por causa do infinito atrás de mim. Recordei-Me neste momento. Não havia infância, não seria senilidade. Consciência e imediatamente passado. Não era recordação. Queria em mim velocidade. Laranja no alvo e uma seta em sua direcção, sempre maior sempre a si direccionada. Dividia-Me em passos que embora sucessivos eram diferentes dos anteriores, cada vez mais em frente, cada vez mais limitados em dimensão e sempre em linha recta. Falava de dentro para mim, noite, dia, liminar e locomoção. Por baixo dos pés não era chão. O ar demasiado que não acredito. Definia-Me inexistente e amplamente infinito. Podia parar por aqui, mas a força que se descarregava sobre os meus ombros impelia-Me em rumo. Não era direcção, essa previamente definida. Seria decisão por que movimentava. Continuava o dia, a meio dia da existência. Na imagem em redor, que aqui descrevo como paisagem, nada havia de novo. Apenas a luz que agora perpendicular eliminava qualquer outro eu em rasto bandeado. A sombra mensurável. O reflexo no espelho. Estaria eu a andar. Nem mais uma pergunta, respondi-Me. Agora, nem laranja nem menos tangerina, somente um céu aberto em todo o seu esplendor, azul, finito em cor, estampado como numa fotografia. No entanto, era o calor que me fazia leve, como qualquer imaginário de leveza em contraste com o meu corpo que de momento se arrastava, como uma pena. Sede, não a via.
Muito menos vontade de saber o que era. Vontade somente. Esse meu trilho que não desaparece, que cresce na sombra da minha existência. Cada vez maior ou qualquer outro sinónimo que defina crescente em todo o seu sentido. Óbvio, não é. Cada vez maior prendeu-Me a atenção. Não me lembro de ter parado. Acho que continuei a andar, não sei. Sim. Não. Não continuei a andar. Imobilizei-Me. Parado a primeira e última vez, o suficiente para descrever a infinita linha por mim impressa. Num chão, que não o era. Mas, subitamente desviando o olhar sabia perfeitamente enquadrar-Me entre início e fim. Ontem e amanhã, passado e ultrapassado. Por mim, em pegadas de alegoria. Só azul em frente, tomando-o como rumo. Atrás, laranja cada vez mais forte. Sabia-o e nem por um instante senti curiosidade em aprová-lo. Comprovação de estado, era supérflua. De dentro, apenas uma luz fantasiada de ideia. Ou um céu, aberto em seu interior. Como isso não fosse suficiente. Por fora, apenas a tarde. Tangerina com reflexos de limão. Cada vez mais quente, no breve calor que agora aquecia o meu corpo lançando no horizonte uma silhueta, do meu eu. Grande, como qualquer sombra projectada em fim de tarde. Durante algumas horas foi esta mesma sombra que me mantinha consciente, nunca ilusão, muito menos miragem. Absorvê-la, na geometria casual, mutável e ao mesmo tempo para mim, simples. Simbólica. O que foi pontual e referido como sombra inexistente, por mim, a algumas horas de distância, ou dias não me lembro, era uma linha esticada em fundo, sem volume aparente, que fugia com o chegar do fim da tarde.No tempo, onde o estar-Se não existe, um tempo onde o tempo não o é, um tempo e um espaço imaginados, longínquos como qualquer outra nuance de infinito. Era noite, ou o dia que se fechava. Desejei ouvir música. Vezes sem conta, e esta voz interior que me diz tanto e com razão. Ritmo apenas o resultante do contínuo bombear do coração, do meu, embora não o sentisse. Talvez apenas um pulsar das mãos que teimosamente permaneciam imóveis, adjacentes aos braços sempre estirados pela gravidade que pouco a pouco parecia devolver-Me. Tentei lembrar-me de uma música e nunca as minhas orelhas se abriram a qualquer harmonia, apenas andamento. Em contexto de brincadeira. Não era de hoje o problema de surdez. A ausência da fala. Mudez de qualquer palavra era irmã acompanhante do abafado rugido maternal. Deixei três filhos para trás, numa tentativa vã de me ver livre deles. Avô. Porque nem sempre se recordava. Mulher que não tive e o meu último irmão, meu avô também. Nunca fui pai. Vagabundo sem fim, com um brilho nos olhos. Uma trova de tios. Fins de tarde numa casa de campo, e o Sol. Não o via, simplesmente. Palavra, só recordação. Palavras definidas por convenção, não por nós, porque de momento palavra única simboliza-Me, em presença, não sendo para isso necessária qualquer género de explicação, muito menos significado. Denso, não é. Foquei-Me então. Creio apenas por uma única vez ter reparado por breves instantes o que por detrás de mim acontecia. Ou aconteceu, dada a brevidade do acontecimento esporádico, ou um qualquer piscar de olhos. Olhei-Me em frente. O peso na cabeça demasiado. Demasiadamente forte para se contrariar. Gravidade de colapso das primeiras vértebras subjacentes. Enrolaram-se lentamente até que todo o meu corpo respondeu. Não. No chão. Ou base. Superfície imaginada. Amparei-Me em queda antecipando-Me a uma quebra total de sentidos. Tacteei-Me a medo. Tudo estava na mesma. Ouvi-Me em diálogo, um eu interior para o eu que não o era e mais não consegui ver. Apenas uma marca. Noite, ou escuro total. Ainda não. Assumo a primeira paragem. Não, consegui, andar. Imobilizei-Me em passo pendente. A surpresa de sentir na sola do pé esquerdo a forma por mim imposta em início imaginado. Ou não. Recomeçarei tudo outra vez, de apoio em apoio até ao passo seguinte. A noite era negra, qual capa sem pontos de luz. Sempre houve descoberta, moldada na perfeição pela sola dos meus pés. E avancei, porque até agora nunca senti o contrário.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Esta noite sonhei III

Ao longe parecia uma cor quente.
Mas quando ela saiu debaixo de água os olhos demoraram na adaptação da luminosidade e da cor. A cor chegou primeiro aos seus olhos salgados, do que o foco.
Mesmo assim, era longe.





Quando chegou mais perto, viu...

Eram Línguas de Fogo do Santo Espírito da Mãe Natureza que ardiam.
Não havia uma foligem no ar, não havia fumo.
Era a Mãe Natureza que brotava de si mesma
e dela saiam línguas vermelhas, a fervilhar, num ardor de Amor
Num Amor que ilumina qualquer par de olhos que o vislubrem, ao longe





Se fechar os olhos, ainda vejo a cor e a luz.
E as labaredas vermelhas a arder*

"Wer gross denkt, muss gross irren."



O horizonte



O caminho de Heidegger





"No pensamento qualquer coisa vai ser solitario e lento"





O caminho do Ser





A casa do Ser



A porta do Ser



O Ser



Quem pensa grande, deve enganar-se grande.

Poema religioso escrito a 27/4/2005 tinha eu 12 anos

O diabo está em cada esquina
literalmente
o diabo existe para castigar
deus existe no mar
onde tudo dorme e nada.

Toque d'infinito




barragem

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Trans-Pátria - o tempo hispânico

"Certo historiador brasileiro, Gilberto Freire, muito mais perspícaz do que a média, descobriu um importante traço antropológico que aproxima de perto os brasileiros de seus vizinhos continentais. É o sentido da temporalidade. Brasileiros, mexicanos, colombianos, chilenos, argentinos, uruguaios e paraguaios participamos todos da vivência do que Freire chama de "tempo hispânico". Em contraposição ao tempo utilitário, cronometrado, urgente, dominando os países do hemisfério norte, notadamente os anglo-saxônicos, vivemos mergulhados na fruição do tempo hispânico, que é o tempo cheio das coisas que valem por si mesmas, e não por outra coisa, a utilidade, o lucro, o planejamento abstrato da vida. O chamado tempo hispânico é o tempo que se perde (se ganha) conversando com os amigos, ou consigo mesmo, no café, na confeitaria, no bar; o tempo da fruição pura, da amizade, da conversação, da elaboração errante do que vamos fazer, da captação do acaso, do imprevisto, de modo a enriquecer nossa vida com a nota do inesperado. O homem hispânico não vive como escravo do tempo, mas goza de soberania sobre ele, única forma de fazer da vida humana a minha vida, no dizer de Marías"

- Gilberto de Mello Kujawski, Idéia do Brasil. A arquitectura imperfeita, São Paulo, SENAC, 2001, p.81

Publico isto recordando a grande proximidade com a visão de Agostinho da Silva, a afinidade dos portugueses a este outro ritmo mais contemplativo da vida e como todos vivemos hoje compelidos a perder cada vez mais este sentido da temporalidade, por pressão de paradigmas mentais e económicos produtivistas importados, para não ganharmos com isso senão stress, ansiedade e frustração, perda em vida da própria vida. Preservar este domínio do tempo, este perdê-lo para ganhá-lo, e exportá-lo, civilizando a Europa da auto-mobilização acelerada e infinita (Sloterdijk), é outra das vocações da alternativa lusófona à globalização da constante fuga para a frente dos ritmos mentais e operativos.
Claro que, em termos últimos, diria: "Perde o tempo sem perda de tempo" (A Cada Instante Estamos a Tempo de Nunca Haver Nascido, Sintra, Zéfiro, 2008)

serpenteemplumada.blogspot.com

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Bodhi


em oferenda de lótus e jasmim
caminho pelo (meu) mágico de jardim
e medito vacuidade
não-existência
luz
paz
e sapiência
quero acordar
para o nirvana, alcançar
bodhi

Jan.08


Bodhi (बोधि), é um termo Pāli e Sânscrito para "desperto" ou "iluminado", é um substantivo abstrato da raiz verbal budh (acordar, ficar acordado, perceber, saber ou entender), correspondendo aos verbos bujjhati (Pāli) e bodhati ou budhyate (Sânscrito).

(escutar Monges Budistas : "I wanna fly" )


Pôr-o-Sol

ao vero serpentino

desejar-te um NATAL
de calor
tamanho
e luz

e cor
=
ao Sol

(a sério)

Provocação em jeito de Parabéns

Agradecendo a lembrança da Sta Alice, e como prenda de aniversário a todos nós, aqui renovo o primeiro post da Serpente Emplumada, intitulado "Provocações":

"O "eu" constitui o privilégio apenas daqueles que não vão até ao fim de si mesmos" - Emil Cioran, A Tentação de Existir .

Que possamos ir e residir sempre no fundo, sem fundo, de nós mesmos!

Morte e apetite de vida

"É o amor que gera o objecto amado. "O objecto do amor, qualquer que seja, não preexiste ao amor, mas é por ele criado" (Gentile). Nesta ordem de ideias, portanto, no mundo apareceria como o correlato projectivo de nosso amor natural, do nosso sistema de impulsos que dilataria diante de nós o contínuo empírico. "Nichts ist, das dich bewegt, du selber bist das Rad, das aus sich selbsten läuft und keine Ruhe hat" [Nada há que te mova, tu próprio és a roda, que por si mesma corre e nenhum repouso conhece] (Angelus Silesius). A doutrina platónica do corcel indócil que, pesando sobre o carro da alma, o arrasta para a terra relaciona-se a esta mesma tese que vê em nossa constituição apetitiva a instância responsável pelo nosso nascimento na carne. Nosso corpo e o complexo de seus órgãos tais como se manifestam no espaço seriam a exteriorização dos nossos impulsos, uma espécie de transposição espacial de nossa concupiscência ontológica. Isto já nos disse Schopenhauer: "O corpo com todas as suas mudanças e actos não é mais do que a Vontade objectivada, isto é, transposta em representação". O corpo como símbolo de nossa devoção, de nossa militância, é um documento vivo de nosso assentimento ao jogo da vida; a presença corporal já é um índice dessa escolha metafísica que nos põe como dilectores mundi [amantes do mundo]. Na menor parcela de tecido vivo, enquanto a vida se alça como um ramo para o céu, subsiste esse profundo e radical assentimento. O reino dos vivos se definiria, portanto, como a assembleia daqueles que, pela determinação do seu amor e do seu zelo, pelo sentido prospectivo de seu cuidado, gerariam sempre mundo ao seu redor. É justamente essa comunidade de libido e de cuidado que o evento da morte vem interromper, destruindo o vínculo exteriorizado dessa comparticipação" - Vicente Ferreira da Silva, "Meditação sobre a morte", in Dialéctica das Consciências e outros ensaios, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2002, p.45.