O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


domingo, 30 de novembro de 2008

ensaio sobre a cegueira

O único livro de Saramago que li com gosto, com sede de virar a página. Magnífica metáfora!
O único filme que até agora não desiludiu (sendo uma adaptação de livro).
Uma interpretação fantástica da Julianne Moore, bem como do excelente elenco de actores que dão vida às palavras de Saramago.

Tudo está ali como imaginei. Excepção para um pormenor ou outro. O livro é mais rico, porque aprofunda momentos e explora outras situações.

A não perder.
O livro e o filme.

Numero de Identificação Fiscal

A alma que habita em nós
Que nos aquece o corpo
Que nos dá forças para continuar
Porque sentimos quem somos
E somos muito mais do que isto!
Somos
Imortais viajantes
Nesta infinidade de coisas
Neste universo infinito
Somos alguém, finalmente!

o jogo da tua vida

Pelo que tenho observado não vejo sinceramente, que o homem seja a medida de todas as coisas. Pelo contrário, o homem é o escravo de todas as coisas. Até à data tenho observado que ele agarra a faca pela lâmina e não pelo cabo. Arrasta-se num suicídio lento, e é engraçado que todas as decisões que tomam visam única e simplesmente acelerar esse suicídio! Não, o homem não é a medida de todas as coisas, é antes uma vítima de si próprio, no cárcere da sua própria irracionalidade!
Em certa medida são robots, têm gestos e atitudes mecânicas, e vocês não confundam instinto com mecânica, pois eles são mais mecanizados do que propriamente instintivos, e já nem vou meter aqui a racionalidade ao barulho!
A vida parece um jogo qualquer cujo o objectivo é o jogador conseguir libertar-se, passando assim, de nível! Mas muitos perdem-se nos labirintos do materialismo e em muitos outros labirintos.
As maternidades são o hall de entrada de novos jogadores, daí são encaminhados para secções onde lhes serão transmitidas as regras do jogo, procuram transmitir-lhes leis em todos os campos da sua existência, espiritual, alimentar, comunicação, etc.
Muitos não conseguem ultrapassar essas leis, por isso nunca chegam à libertação, acabando por ser suprimidos, ao passo que outros, estão já no final do jogo olhando para a meta, esperando que surjam os jogadores que faltam!

Bardo - a Fernando Pessoa, no dia da sua transfiguração

Screveste teu livro à beira-mágoa
Por não ser tua a Hora que anunciaste.
Tiveste teus olhos quentes de água
Por em ti não chegar Quem esperaste.

Que houveste tu,
da névoa e da saudade,
senão a mui grande coita
em que por vida andaste,
e a alterosa dor,
em ti sofrida,
da pátria e do povo
que cantaste?

Repousa, amigo,
que mais que o incerto sopro
foste o divino anseio
humano feito,
e,
por haveres desejado e não tido,
deste ao tempo a Hora
em que por tua obra
se conheça o Eleito.

- in Trespasse, Lisboa, Edições do Reyno, MCMLXXXIV, p.74.

"Amanhã, a estas horas, onde estarei" / "Dá-me os óculos..." - derradeiras palavras de Fernando Pessoa, que partiu em 30 de Novembro de 1935

"Acontece-me às vezes, e sempre que acontece é quase de repente, surgir-me no meio das sensações um cansaço tão terrível da vida que não há sequer hipótese de acto com que dominá-lo. Para o remediar o suicídio parece incerto, a morte, mesmo suposta a inconsciência, ainda pouco. É um cansaço que ambiciona, não o deixar de existir - o que pode ser ou pode não ser possível - , mas uma coisa muito mais horrorosa e profunda, o deixar de sequer ter existido, o que não há maneira de poder ser.

[...] o facto é que me creio o primeiro a entregar a palavras o absurdo sinistro desta sensação sem remédio"

- Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

Silêncio (in Regatos de Ternura)



Até o nome universal dos tempos,
até o som dos silêncios
nada existe:
tudo é húmido vapor,
língua do ar.
Na dor cósmica apaream-se
as linhas da saudade
e a vida;
a energia
deita
longos caminhos
contra o caos.

Nada.
Apenas dor.

Ave que dizia amor
no tempo primitivo,
o da criação,
do verbo.
E tudo era tudo,
tudo era.
Fluido de existência,
energia do círculo,
da onda,
do número ínfimo
que mudou
para computar
em carne erótica
o átomo prequântico
dos beijos universais.
A concepção incolora
da cor,
a gestação insípida
do sabor,
o nascemento inodoro
do odor:
selvagem ternura das hidronímias
na terra dos rios
para o mar.

sábado, 29 de novembro de 2008

Francisco de Goya e Marquis de Sade





dois fontes da nossa cultura europeia

Incubus

confiar

Por que razão confiais vós!
Gente a morrer de fome
Mal pagos e abandonados
E ainda assim confiais as vossas vidas
Nas mãos de quem vos quer destruir!
Não sabeis vós, discernir?
Não ouviste tu, falar da vida
Que é o contrário dessa efermidade
Que ternamente abraçaste!
Porquê?
Na tua irracionalidade
Milhões perecem, na culpa que tentas ocultar!
Ser vivo, tu?
Não tens tu, coração?
Não és tu, racional?
Parece-me que não, pelo que tenho observado!

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

a existencia


Até hoje, o ser humano, na sua generalidade trabalhou sempre, derramando sangue alheio e transpirando o suor dos que o rodeiam, nas religiões proclamam outros, não da melhor das formas, na política trabalham com o dinheiro dos outros, mas não da forma mais correcta. Quando o ser humano foi chamado a fazer algo que fosse verdadeiramente seu, nada fez, porque os que o rodeiam nada tinham feito daquilo que lhes foi solicitado. Tudo o que é grande, é fruto do individuo, e não das massas. Feitas as contas, a humanidade até à data nada fez, que não fosse feito com o esforço alheio. Foi tudo mero oportunismo e falsas promessas, quando os recursos acabam o ser humano fica muito mal despido, e revela a sua insuficiência. A história da humanidade é comparável à história daquela criança que encontra um doce, que quando acaba, deixa a criança num choro interminável. Toda a existência humana revela-se, a nível construtivo, em vão. Apenas foi comendo os doces até que estes acabassem! É triste ser humano!

Livre de ti e de ser

Livre de ti e de ser, "és" o lugar sem lugar onde o sol se ergue e declina, o espaço e o tempo se constelam e dissipam, a realidade, a existência e a vida florescem e definham, eu, mundo e Deus emergem e se reabsorvem: que esperas e temes ainda, que saudade nutres, que ilusão abrigas, ó Coração imaculado!?

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

She's a sensation - Ramones & Sylvia Saint for your pleasure

Acredito na Utopia, mesmo acordado.

"Conspiro um movimento de libertação universal, que também assuma todo o potencial de sabedoria, amor e universalidade da cultura portuguesa e lusófona, vocacionada para ser uma cultura alternativa, especializada em diálogos, pontes e mediações planetárias. Um movimento que contribua para o que mais importa: a Revolução profunda, que desde sempre urge e tarda, a Revolução do Despertar, a Revolução do desencobrir o Infinito em si e em tudo, no apocalipse de todas as máscaras."

Conspiro porque acredito. Nas coisas da humanidade sou um pinga amor. Esta contradição de mundo atroz não me faz desviar um décimo que seja dessa conspiração e deste acreditar em utopias quase impossíveis.

Dou mil passos para um quase nada
E todos os passos são um simples passo
Que passo de passo em passo a caminhada
Para um dia me encontrar nesse compasso

Ás vezes, emociono-me sempre, quando leio algo "que mais importa", "que desde sempre urge".

JSL

A vida

A vida é grata ingratidão
Entre nascer até à morte
É sobretudo aos que verão
Uma ingrata e grata sorte

É muito mais que não se sabe
A sua mestra mestra até ignorância
O não saber-la é sabor que não sabe
É um saber tão curto e sem distância

E depois tem na dor muitos sintomas
É é sangue e tripas ... indisposições
São abortos eutanasias e são comas
E antes dela (a morte) só confusões

E tudo porque não tem de comer
Para matar a fome a si mundo
Para ter o privilégio de viver
Uma vida vivida a fundo

De: José Lourenço

Poema homenagem à poesia/filosofia de Agostinho da Silva
www.agostinhodasilva.blogtok.com

Jigme Khyentse Rinpoche em Lisboa, 30 de Novembro - Pela Libertação!

Caros Amigos,

É com enorme prazer que vos informamos da presença de Jigme Khyentse Rinpoché em Lisboa, a convite da Fundação Kangyur Rinpoché, para um dia de Ensinamentos Públicos e Sessões de Meditação Shamata.

A data é 30 de Novembro, o local o Hotel Tiara Park Atlantic (R. Castilho, 119 - Lisboa) e decorrerá entre as 14h30 e as 18h00. A contribuição será de 10 euros, não sendo necessária inscrição prévia.

Fundação Kangyur Rinpoché

http://www.krfportugal.org


Visitar também:

http://www.songtsen.org
www.chanteloube.asso.fr

“Certain Rinpoches, those known as great teachers, would by definition be the ultimate bad partner, from ego’s point of view. If one approaches such great masters with the intention of being gratified and wishing for a relationship of sharing, mutual enjoyment, etc., then not only from ego’s point of view, but even from a mundane point of view, such people would be a bad choicer. They probably will not bring you flowers or invite you out for candlelit dinners.

If someone goes to study under a master with the intention to achieve enlightenment, one must presume that such a student is ready to give up his or her ego. You don’t go to India and study with a venerable Tibetan master expecting him to behave according to your own standards. It is unfair to ask someone to free you from delusion, and then criticize him or her for going against your ego. I am not writing this out of fear that if one doesn’t defend Tibetan lamas or Buddhist teachers, they will lose popularity. Despite a lot of effort to convince the world about the pitfalls of the dharma and the defects of the teachers, there will still be a lot of masochists who have the misfortune to appreciate the dharma and a crazy, abusing teacher who will make sure to mistreat every inch of ego. These poor souls will eventually end up bereft of both ego and confusion.”

Dzongsar Khyentse Rinpoche

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Festas Bacanais

I

Borrachas, borrachões assinalados,
Que de Alcochete junto a Vila Franca,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram inda além de Peramanca:
Em pagodes, e ceias esforçados,
Mais do que permite a gente branca,
Em Évora cidade se alojaram,
Onde pipas e quartos despejaram:

II

Também as bebedices mui famosas
Daqueles que andaram esgotando
O império de Baco, e as saborosas
Águas do bom Louredo devastando;
E os que por bebedices valorosas
Se vão das leis do Reino libertando;
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar Baco, e não Marte.

III

Cessem do Novelão, do grã Barbança
As grandes bebedices que fizeram;
Cale-se do Rangel e do Carranca
A multidão de vinhos que beberam,
Que eu canto doutra gente e doutra lança,
A quem frascos de vinho obedeceram:
Cesse tudo o que a musa antiga canta,
Que outro beber mais alto se alevanta.

IV

E vós, bacanais ninfas, pois criado
Em mim tendes a sede tão ardente,
Se sempre em largo copo espraiado
Festejei vosso vinho alegremente,
Dai-me agora um bom papo despejado
Para beber à perda co'esta gente,
Porque de vossas águas Baco ordene
Um rio para bêbados perene.

V

Dai-me uma vasilha mui cheirosa,
Seja de bom licor, não saiba a arruda,
De Peramanca seja que é gostosa,
O peito esforça, a cor ao gesto muda;
Dai-me igual nome às taças da famosa
Gente vossa que Baco tanto ajuda;
Que se espalhe, e se cante no universo,
Se tanta bebedice cabe em verso.

- Festas Bacanais,
Conversão do primeiro canto d'Os Lusíadas do Grande Luís de Camões
Vertidos do humano em o de-vinho por uns caprichosos actores:
o Dr. Manuel do Vale, Bartolomeu Varela, Luís Mendes de Vasconcelos e o Licenciado Manuel Luís, no ano de 1589.

Lisboa, Apenas Livros, 2007

Hoje - Encontro Inter-Cultural e Inter-Religioso

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Intelectualidade: Benção ou praga?

Qual será a verdadeira origem do trabalho intelectual?

Será que surge de alguma predisposição natural que faz com que os seus autores só se realizem inventando fórmulas, livros, máquinas, quadros, esculturas e ensaios? Porquê estas formas e não outras? Porquê não dar vazão a essa energia pura e simplesmente fruindo a beleza que nos rodeia até aos limites? Tornando-se pura receptividade e dissolvendo-se nela, transformando-se eles próprios nessa beleza beleza e deixando a beleza tornar-se neles mesmos?

Será que a arte, a ciência, a filosofia e a literatura têm ao invés origem nalguma incapacidade dos seus autores de fruirem a vida em plenitude?

Será que a inadaptação que atinge tantas "grandes cabeças" será resultado de alguma falha inata, de um qualquer defeito orgânico que os torna aquilo que são, "grandes cabeças"? Ou será resultado de uma má-vontade intríseca do "homem comum" que só pensa em satisfazer suas necessidades e curtir um lazer massificado? Da sua incompreensão e inveja em relação ao que supostamente o ultrapassa, condenando assim as "grandes cabeças" à solidão e neurose, quando não à auto-destruição?

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Annwyn


As linhas do teu nome eram azuis
e falavam da eterna Avalon,
a ilha das maçãs e as fadas,
onde sempre sobreviveu o teu olhar perdido,
nos mil rostos, nos mil brilhos
do fruto que mordemos numa longa noite
do mês de Abril,
na primavera das revoltas.
A primeira maçã tinha o cheiro de Genebra,
e tinha o sabor de Lancelote.
Confundiam-se na cópula os rostos,
os nomes, as palavras,
o sentir profundo
que deixava eternidade,
os passados revoltos,
que encarnavam o corpo novo
das peles rubricadas
e os corações rotos nos cantos,
nas forças, nos sonhos,
nas múltiplas sementes de luz.
O bem e o mal eram na maçã tempo,
o rancor e a compaixão,
o afecto na ponta do triângulo,
o amor, o desejo.
Choviam fios de paz e esperança
e desciam em comum dos nossos lábios
num beijo de luz
que podiamos morder, sentir
de boca cheia, de lua nova
na macieira de Avalon,
nossa Avalon,
Annwyn a doce..

Yukio Mishima, "A Senhora de Sade"

"Quem comete um crime, por mais que não queira, tem que se confrontar com Deus. O erotismo é um processo de chegar a Deus, seguindo o lado inverso. "

Lançamento de A TELA DO MUNDO : 6 DEZEMBRO, 17h MUSEU DO FADO


A Tela do Mundo
Por motivos que me são totalmente alheios e, como noticiado pelos órgãos de comunicação social, ocorreu o encerramento da que era propalada como a maior livraria do país,a livraria Byblos, situação que me apanhou totalmente de surpresa, obrigando-me a alterar o dia e o local do lançamento do meu livro A Tela do Mundo para o Museu do Fado (Largo do Chafariz de Dentro, n.º1, Bairro de Alfama, Lisboa), dia 6 de Dezembro, às 17 horas.
Com um renovado entusiasmo e desejo que venham partilhar o nascimento da obra A Tela do Mundo, quase ferida de morte por quem não honra compromissos, pois fui tão apanhado pela "bomba" do fecho da Livraria como todos vós e cujos estilhaços me perfuraram por dentro: o ânimo, a vontade.
Porém gestos generosos , mensagens de múltiplos quadrantes de apoio e incentivo, respeito e convicção pela qualidade do meu livro, pelas pessoas que tanto se têm empenhado em planear e sonhar o seu evento (a produção de imagens prodigiosa de Inês Apolinário, o empenho da criadora de jóias contemporâneas Inês Nunes, da Mónica Cunha, da Cíntia Gonçalves, a colaboração de vários artistas plásticos , da Direcção da Cultura da Câmara M. de Lisboa, na pessoa, minha amiga, de Drª Laurentina Alves P, da Directora do Museu do Fado, Drª Sara Pereira, da Professora Doutora Isabel Clemente (autora do posfácio da obra) e que fará a apresentação do meu livro, de tantos outros, porém, dizia-vos, toda essa dinãmica ditou, com a força de um kantiano imperativo categórico, que o meu livro seja lançado, num espaço lindíssimo, num evento com um prelúdio musical de três guitarristas exímios (Isabella's Bop), com a apresentação de uma especialista maior em filosofia/estética e história de arte, com a leitura polifónica de poemas do livro tendo por fundo a projecção de imagens que serviram de rampa à construção poemática, com um fecho sublime protagonizado na guitarra portuguesa por Luísa Amaro (companheira de vida e de palcos do saudoso Carlos Paredes) e do primeiro clarinetista Gonçalo Lopes, que interpretarão uma composição inspirada nesta obra A tela do Mundo.
Depois haverá autógrafos e, sobremaneira, as dedicatórias sinceras e gratas que quero deixar nos vossos livros, que serão a vida do meu livro, e, finalmente, um beberete oferecido pelo Museu do Fado.

A Todos agradeço. A muitos, desejo e acredito, até dia 6 de dezembro no Museu do Fado para co-celebrarmos o nascimento de A Tela do Mundo.
luís filipe pereira

domingo, 23 de novembro de 2008

hieróglifos na corte do imperador

Labaredas de Sal

Trouxeram-me a cinza de grinaldas puras
Porque sabem que o fogo
Devora a mãe e as palavras que não arrefecem
Alastram pelos rios em chamas
E um combóio vai por entre as labaredas
Abrir novas sepulturas,
Reabrir as nossas valas.

Jurei que o vento havia de alastrar nessas fogueiras,
Mas para o rosto interrogado
Não se calaram os pássaros
Nem suspenderam o tempo, as grinaldas passadas.
Com um caule de sal é que esmagamos a voz,
A voz magnificada entornada em terreno de lágrimas.


Haverá velocidades interiores para corredores
Onde o tempo ainda não chegou.
Esperam-me, sôfregas, as rosas,
E há uma campânula que se abre com veemência
Nas pálpebras dos jarros e das tintas.


Ainda havemos, amor, de atear madeiras frias
E construir espaços ilimitados para os pássaros
Hão-de medir a altura do vento com uma vara de cristal
As rosas entornadas em cima da mesa hão-de escorrer
Pela garganta do ar, servidas de morte
Em grinaldas do vento, ateadas no fogo.

Ocaso


Não há o princípio não há o fim

do que em mim se levanta com o sol

em tudo arde o fogo de não ter sido

um crisol de luz e pranto um jardim


florido o coração um girassol

com todas as manhãs florescido

um incêndio de nada acontecer

madrugada cristalida a arder


a brisa matutina entardecendo

precipita a manhã no anoitecer

e consuma o tempo já transcorrido


e faz com que, mesmo sem o sabendo,

os seres se aquietem no pesado olvido,

na saudade perene do não-ser

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

GRITO

saibamos
como o gladiador
que é transportado à arena para enfrentar as feras

saudar o imperador
com um Imperial
Manguito

Ontem foi o Dia Mundial da Filosofia.

o caminho faz-se caminhando...

...degrau a degrau

"... em absoluto livre e desprendida, como Deus em Si mesmo é desprendido e livre"

"Eu disse algumas vezes que existe uma potência no espírito, que é só livre. Por vezes disse que ela é uma guarda do espírito; outras vezes que ela é uma luz do espírito; às vezes, que ela é uma centelha. Mas agora eu digo: ela não é nem uma coisa nem a outra, no entanto ela é algo mais elevado do que uma ou a outra, tal como o céu o é em relação à terra. Por isso nomeio-a eu agora de um modo mais nobre do que o fiz, apesar de ela escarnecer de tal nobreza e do seu modo, porque é superior a isso. Ela é livre de todos os nomes e despida de todas as formas, em absoluto livre e desprendida, como Deus em Si mesmo é desprendido e livre. Ela é tão inteiramente um e simples, como Deus é um e simples, que é impossível encontrar um modo de olhar para dentro dela. Essa mesma potência da qual falei, na qual Deus é verdejante e florescente com toda a Sua divindade e o espírito é (florescente) em Deus, nessa mesma potência gera o Pai o seu Filho unigénito tão verdadeiramente como em Si mesmo, pois Ele vive realmente nessa potência, e o espírito gera com o Pai o mesmo unigénito Filho e a si mesmo como o mesmo Filho, e é o mesmo Filho a esta luz, e é a verdade. Se vós pudésseis conhecer com o meu coração, então entenderíeis bem o que eu digo; pois isto é verdade, e é a verdade, ela própria, que o diz"

- Sermão "Intravit Jesus in quoddam castellum et mulier quaedam, Martha nomine, excepit illum in domum suam. Lucae II. (Lc 10, 38)", in Mestre Eckhart, O Abismo Eterno, antologia de tratados e sermões escolhidos e prefaciados por Jorge Telles de Menezes e Paulo Borges, tradução do alemão de Jorge Telles de Menezes, Lisboa, Paulinas, 2009 [no prelo].

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

navegação matutina




A harpa do silêncio dedilhada pelo vento

O esquecimento lavrado p'la espera

É sem regresso o que nunca partiu

Austera ânsia de em cada momento


Não ter nada mais que a esperança sincera

Do mundo se tornar mar e navio.

E inventar viagens nas ruas caladas

Fazer chegadas nas praças sombrias,


Ilhas de espanto na desolação

Das vidas mais firmes e sossegadas,

Na dormência da passagem dos dias


Recusar a paz e a continuação

Aportar em todas as madrugadas

E ter como rota a perdição.

Shiva e Buda - Quem tu vês e o que sentes



Quadro de João Teixeira da Motta, intitulado e enviado pelo próprio, de Nova Iorque. Segundo as suas palavras: "O quadro é mágico no sentido de que se o olhas com intenção durante uns minutos as imagens ganham vida e mudam, adquirem várias expressões e comunicam contigo, pelo menos essa é a minha experiência..."

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Medita

pára
suspira
fecha os olhos

contempla
a natureza
com o teu coração
e funde-te
com a essência
do próprio universo

sê bactéria
pó de estrela
minério
vegetal
e animal
sê deus!

sente a forma
e a matéria
unidas
na mágica transcendência
que constitui a existência
de tudo quanto existe

medita…

Estamos apresentando

Olá. O meu nome é Isidora Gouveia e tenho 42 anos. O nome com que assino este texto é fictício: surge-me numa alucinação auto induzida própria para a selecção de nomes assináveis. Trabalho em relojoaria e estudo Comunicação Interior. Procuro parceiro para amizade séria ou a brincar dependendo das cócegas. Vivo em Alcochete e nasci em Lisboa. Os meus livros preferidos são "Identidades Precárias: O Recomeço" e "Fidalgo Pereira, o próprio e outras histórias". A música é a banda sonora das estradas que a têm. O filme não me recordo mas se me derem a escolher 3, eu escolho. Interesso-me por coisas vastas como a vida e seus subtítulos, e o mar. Na vida gosto de estar, no mar gosto de ir e voltar. O meu perfil é low embora suba uns pontos se o espelho a que me olho for panorâmico. Ontem fui sair à noite e bebi uma bebida branca cujo nome transmitirei à primeira pessoa que me adicionar ao seu estômago. Costumo fazer boa digestão.
Gostaria de ir ao debate abaixo publicitado mas tenho o carro na inspecção.

Conversas de Bairro… Às Voltas com a Nação - Hoje, 18.30, na Bulhosa (Campo de Ourique)

Conversas de Bairro… Às Voltas com a Nação
Convidados: José Neves e Paulo Borges
Moderador: Rui Duarte

Debate com José Neves (Autor do livro "Comunismo e Nacionalismo em Portugal no século XX") e Paulo Borges (Co-Director da Revista Nova Águia, Presidente da Associação Agostinho da Silva e da Comissão Coordenadora do Movimento Internacional Lusófono)

Numa época em que a independência real das nações é vista e revista a cada momento, convidamos dois oradores com visões bastante diferentes sobre o tema. Mais do que discutir Portugal e o seu papel, é a própria ideia de nação que se pretende ver debatida.

Rua Tomás da Anunciação, nº 68 B
1350-330 Lisboa

terça-feira, 18 de novembro de 2008

lá fora... é amanhã*




Um dia fiz-me actriz e representei para o mundo o meu único papel.
Nesse dia, vi voar a minha alma em liberdade;
Nesse dia, eu própria me libertei do mundo.
E que bom foi saber que ainda há tanto para ver!
Ainda há tanto para representar!
Que não cabe num só mundo.
Foi esse o dia em que nasci...
E é esse o dia em que vou partir...
Para longe do mundo
E representar outras coisas.
A máscara tem por dentro da cegueira uma fonte de lágrimas. Uma câmara escura. Dentro dessa membrana, película fina que se rompe quando os sinos se calam, há um filme de sequências de imagens a rodar. É uma câmara de memória, a gravar a vida. Quando deixamos a máscara na paisagem, e vamos visitar outros lugares, um duplo se desprende da vida que em imagens nos acompanha, e são dois os rios que correm ao mesmo tempo em cada lugar. A câmara da memória é dupla e o grito, um buraco fundo para onde atiramos o que se desprende dos pântanos e dos lagos. A nossa mesma morte a boiar na corrente das lágrimas. O sorriso é o negativo da tragédia a querer subir da terra, a aparecer na imagem. Cortado, o nosso rosto-máscara é uma Veneza com lágrimas, um Arlequim axadrezado e só, por entre os restos do baile. Um tabuleiro lento de um xadrez impotente, jogado em silêncio com a morte. Arrefecemos muito antes de morrer. A face é uma ausência de luz, um buraco negro a implodir. Uma câmara-escura a revelar imagens de um cortejo onde somos o morto. E a essa visão, o duplo disfarce parece acordar no disparo da luz penetrante que percorre todo o caminho de regresso. Acordamos na nudez da luz, intactos. O que ficou com a máscara que deixámos, atravessou os mundos da Origem. Essa luz fria que atravessámos, essa sombra luminosa, é que nos faz acordar e caminhar acompanhados por muito mais seres do que os que julgamos ver. Na realidade, não há morte, nem vida, nem duas margens para segurar o rio. Vida e morte transbordam de tudo o que é e de tudo o que não é. Nunca atrevassamos o rio. Somos atravessados por ele. Somos Amor.

CONVITE A TODOS OS COLABORADORES DA SERPENTE EMPLUMADA (29 novembro, 18h45, Livr. Byblos, amoreiras

LANÇAMENTO DO MEU PRIMEIRO LIVRO DE POESIA: A TELA DO MUNDO
A Tela do Mundo, livro de estreia de Luís Filipe Pereira nos meandros da poesia, propõe-nos um diálogo entre a palavra poética e um conjunto de pinturas e pintores contemporâneas (de Vieira da Silva, Antonio López, Helena Almeida, Miró, Chagall, Cézanne, até aos desenhos do Poeta António Ramos Rosa, Graça Morais, Frida Kahlo, Tàpies, Júlio Resende, Paul Klee, Edward Hopper, João Vieira, Laura Cesana (uma pintura sua, expressamente realizada para o livro, dá rosto à capa idealizada como uma tela) Helena Almeida, De Chirico, van Gogh, Magritte entre vários outros).Um livro que explora o enlace ou concerto de duas artes: a poesia e a pintura, numa reinvenção da linguagem segundo o mote lançado por P. Klee para a arte moderna: "dar a ver o invisível" e convertido pelo autor de A Tela do Mundo em versos como:"O encontro dos lábios/ com a paisagem dos dedos". Este livro, como se tela em branco a ser pontilhada pelos sulcos de cor recriados pelo olhar dos leitores, nascerá no dia 29 de Novembro, às 18h45, na Livraria Byblos das Amoreiras, com apresentação da Professora Doutora em Filosofia/Estética A. Isabel Clemente (autora do Posfácio da obra), num evento pautado pela interartisticidade, pelo "encontro inesperado do diverso" (M. G. LLansol), por hibridismos de artes e polifónicos modos de dar a ver sob o signo do Poético em sua amplitude poiética e aiesthésica.
"Universo poético, rico, muito rico, que é preciso ir descobrindo, linha a linha, poema a poema, em que nos vamos deixando enlear e cuja magia persiste para lá da leitura." (Isabel Clemente)

"Tal como um homem enlaçado pela sua amante nada mais sabe do exterior nem do interior..."

"Tal como um homem enlaçado pela sua amante nada mais sabe do exterior nem do interior, assim este indivíduo enlaçado pelo atman [...] nada mais sabe do exterior nem do interior. Tal a condição suprema onde todos os seus desejos são satisfeitos, onde não mais deseja que o Si, onde os seus desejos se desvanecem, onde não conhece mais o desgosto... Aí um pai já não é um pai, uma mãe já não é uma mãe, os deuses já não são os deuses, os Vedas já não são os Vedas, os mundos já não são os mundos. Aí, um ladrão já não é um ladrão, um abortador já não é um abortador, um Candala já não é um Candala, um Paulkasa já não é um Paulkasa, um asceta já não é um asceta. Aí, as suas boas e más acções já não mais o seguem, pois ele se mantém então para além de todos os sofrimentos do coração"

[Candala e Paulkasa são duas categorias de "intocáveis" ou sem-castas na sociedade indiana]

- Brhadaranyaka-Upanishad, IV, 3, 21-22.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Pur’Amor


Há imagens que só têm silêncio, disparam flashes facultando vistas de que não se sabe falar. Há coisas que se vêem luminosas de que não se lhes consegue arrancar a obscuridade. Não está nos sentidos, se os quisermos delimitar, porventura estará nos inomináveis, e com certeza está no que se sente, nas Estações da Hora, do Dia, da Vida. Primavera, Verão, Outono e Inverno, cada uma dirigindo-se e mergulhando na outra de si nunca deixando o que percorre ou penetra de ser outra coisa que não o que sempre foi, é e será, impenetrável por natureza.

Às vezes falamos não sobre o que vemos mas de um reflexo que fala connosco: ouvi uma paisagem Pacífica e Bela cuja reflexão tomou os seguintes termos: Esta Vida que (nos) Mata…



domingo, 16 de novembro de 2008

"A morte é uma flor"

Dizem-me que arrefeces. E que tudo dentro de ti escureceu. Venho à tua frente e só por isso não estou onde as lágrimas escorrem dessa fonte que é o olhar endurecido pela dor. Venho para preparar a passagem.
Descubro as escadas, porque não sei se a morte é uma forma de descer ou de subir. Depois talvez possas escolher, como quando te ensinava, o caminho. O caminho é sempre teu. A direcção, o rumo deixo que o escolhas porque te quero sempre entregue à liberdade do pensamento. Mesmo quando arrefeces e as palavras são mais frias dentro de nós, elas indicar-te-ão, vestidas no manto branco do silêncio perene, um norte ou um desnorte. Creio que andarás ainda por perto do reino dos vivos, mas não faças mais como nós fazemos, porque somos sonâmbulos que se perdem da relação entre a vida e a morte. Faz agora o teu caminho e não nos imites ou te deixes chamar mais uma vez.
Penso neste lugar. Parece mais abaixo mas pode ser também um útero em que a terra se levanta para te erguer ou uma morada em que sintas que, como o mar e as ondas, a terra te embala e é a grande mãe onde te fundes. Um útero dentro da terra para descobrires outras mães e outras mulheres fecundas onde inscrevas a luminosidade do teu riso brilhante. Um riso de louco pode parir uma estrela…acho que nunca te ensinei o sentido último deste pensamento, mas sei que te falei deste autor. Ouve-lo? Anda como tu por entre as paisagens do sul e desertas e nunca ouviu vivos. Chegas ao seu reino e, se o encontrares, recebe dele e de Ensor uma máscara para dançares e bailares nos espaços eternos onde a luz nunca é tão breve como aqui. E o teu sorriso não terá fim…
Antes que chegues, certifico-me que te deixei a árvore para ouvires os pássaros e os nomes com que na Terra os homens bons renomeiam a beleza e o instante. Quero que sorrias com a nossa capacidade, quase inexistente, de iluminarmos o fugaz e o passageiro que os pássaros cantam. A árvore é uma parte do bosque e nela moram as palavras inauditas e aquelas com que daqui em diante podes escutar a Terra vista desse lugar longínquo e desse lugar sem tempo. A luz doura-as, às folhas, e com elas espero-te neste lugar fundo da saudade para te soprar os versos que aprendi a ler nos movimentos de Klimt. Klimt não pintava nem escrevia. Deixava-se vagar pelo atelier à espera dos que apareciam ainda com a aura de beleza e juventude intactas. Retirava os movimentos restantes e repousava os mortos na imobilidade de uma visão imemorial. Esse repouso, esse descanso, cobria-o ele soprando a cor do que é eterno sobre os vossos corpos frios. Por isso todos os seus mortos estão revestidos desse brilho que ele conhecia e nenhum de nós partilha: recebia os mortos com folhas de ouro, douradas, que soprava e onde iam escondidas as sílabas do outro mundo. Esta noite soprarei neste atelier onde Klimt e tu descem ou sobem, não sei, os versos órficos que trouxe guardados dos teatros gregos por onde ouvi Sófocles e Ésquilo. Esta noite, e para ti, não serei nem Isabel nem a tua professora, serei como Cassandra, a do grito incontido. Klimt repreender-me-á como a uma sombra viva que o atrapalha. Desviarei o grito para não perturbar os sopros e, no vento, te deixar as múltiplas direcções com que vivos e mortos se podem ainda cruzar.
Dizem-me que inexistes, e, no entanto, ainda és dentro de mim fechado num grito e num espasmo. Um rosto vibrante e aberto por onde te digo, na última lição, a saudade. Queria dizer-te que um túmulo é outra porta e que a minha saudade te oferece o portão da espera, da espera infinita, a Idade de Ouro onde Klimt te pinta, Nietzsche te espera em gargalhadas furiosas e eu deposito a minha amizade numa lágrima que entrego à raiz desta árvore com sede de ti e de nós. E, quando pensares que o lugar onde te espero é ainda escuro, olha para ti e verás que eras tu que polias com folha de ouro a nossa tristeza.
Dizem-me que morreste e eu vejo Klimt andando pelo atelier com folhas douradas para te receber e grito, prometo, noutra direcção. Aqui. Ofereço as lágrimas a um pintor que queira limpar os pincéis com que se escreveu sobre a morte. E a morte é uma flor, como sabia o Celan…



Esta desce sobre ti e não sei onde vai cair ou subir. Mas ela sabe como te encontrar no caminho.

Em memória do meu aluno Diogo Costa, o mais feliz dos alunos que tive, o do sorriso mais feliz e permanente e a quem agradeço a imensa alegria com que contagiou os meus dias e os da turma. À turma que me chamou para estes lugares mais fundos, a Morte e a Saudade, que são a grande sala metafísica da Vida, em particular ao João Moita e à Teresa Neves que estão ou na base da escadas ou no topo das escadas e confiam no que encontro e não procuro. Por confiarem na minha memória e no amor com que nos enlaçamos nas orlas da eternidade.

Comunicação


Vê. Que perfume vem do não ter sido

Que alvoradas te semeiam de espanto

No centro do teu peito está a luz

Essa luz que me traz anoitecido


A mesma luz que brilha no meu pranto

tudo em mim transfigura essa luz

Vê. Sempre essa luz alva e dançarina

Sempre sem mácula e alucinante


Tudo é na luz pouco mais que neblina

Uma vaga impressão um breve instante

Vê. O tempo é um voo para além


Não existe o que resiste à mudança

Não há morte. Vê. Que perfume vem

Do Longe que nenhum olhar alcança?


_________

(Para o Luís. Quando eu tinha 16 anos o seu irmão morreu quase sozinho no hospital Pulido Valente. Só lá estava eu e o meu medo sem nome. No sábado passado lembrei-me do olhar vazio do Zé e do sorriso triste do Luís. Minutos depois soube da sua morte. Uma morte do mundo.).

Fantasma

Percorria, por entre a névoa, o porto da esperança.

Já não sabia se era homem, se tinha um espírito livre, no vento; ou se alguma vez tinha meditado, pois a mente balbuciava-lhe um turbilhão de inquietações, angustiantes. E o corpo, dorido, era fustigado por um cansaço enorme e cada passada, parecia uma chicotada.

Contudo, tinha fé...fé de que poderia ainda chegar a tempo. Dentro de si, uma réstea de luz, um trajecto de vida alicerçado na busca de paz. Pois bem, era o que agora também pretendia, afinal, o que sempre quis: luz e paz, envoltas em sabedoria, na prática da compaixão.

Num pote, sagrado, levava as cinzas de quem fisicamente, amara. Como era possível que o ser humano ficasse assim reduzido? Chorava, por dentro. Emudecido, sentia ainda um nó na garganta provocado pela dor da perda. Queria também morrer, parar de sofrer. Cobardia? Talvez sim... E contrariava, sem dúvida, tudo o que tinha aprendido no mosteiro.

Diante de si, o barco que o levaria, rio fora, até ao oceano gelado, e profundo. Já se poderia imaginar a navegar, quase sem rumo (por que rumo, há sempre - por desconhecido que seja!). Seria a partir de hoje, e sempre, um monge eremita. Isto se não morresse, em corpo.

Precisava parar, do mundo, se afastar... Mas restava-lhe o sonho como bálsamo para a saudade, constantes lembranças que o atordoavam noite, e dia. Seria então um fantasma, coabitando com os seus mais íntimos.

Dura solidão, pura loucura, almejo de felicidade... Este é o trajecto de um homem, na sua senda de verdade.

sábado, 15 de novembro de 2008

Dança(s) com o Vento *

Há um qualquer lugar, que em viva memória existe, onde perdemos peso. São momentos-penas, asas soltas que resistem à gravidade pesada do olhar. Voos – dizias – enquanto buscavas as palavras leves de dentro de uma caixa fechada. O que fazemos nós, os que temos a boca fechada, com essas palavras-pássaro, senão devolvê-las ao espaço sem dimensão de uma invenção superior? Nada podemos fazer com essas palavras atordoadas de pleno vazio. E se traçarmos – repetias - círculos concêntricos até ao infinito, para ver até onde se ouve o eco dessas palavras? Porque as não seguimos até não podermos dizer se elas se elevam no ar ou se caem no chão, mais além? Quem sabe se as engole a terra, abrindo em espiral, até ao avesso do céu? Até ao vazio de tudo o que, sem gravidade continua a girar por toda a eternidade... O que veriam então os nossos olhos, nessa superfície de tão rarefeito ar? “Também há beleza nos cavalos alados!” Continuava sem perceber se eles se suspendiam no ar ou se faziam mover, nas suas asas, as infintas direcções do vento. E eu não encontrava o modo para te dizer do frémito das crinas e dos zéfiros em corrida pelas páginas do livro de imagens que, como num filme rápido e sem legendas, nos atira, palavras sem cor, para o peito largo e triunfante do silêncio... E, continuavas tu, “Os Flamingos, sim, são criaturas da mesma intensidade silenciosa dos bosques iluminados”. Deixo caír um monte de palavras sobre as águas, e o nevoeiro cai sobre as letras e o choro silencioso dos navios. Palavras a perder altura, a ganhar peso. Havemos de construir um veleiro com as penas e as coisas desse lugar. Desse lugar de onde avistamos clareiras, e fontes, e rios dançantes, e bailarinas voando e cantando a oração dos flamingos sobre o rio do pensamento. “Se pudesses dançar como eu”, dizia a bailarina ao vento. E desapareceu no ar puxada pelas invisíveis cordas do momento.
*O título foi sugerido do outro lado. Grata ao leitor(a)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008



nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas

E. E. Cummings



Na distância mora o fim dos meus rumos

O que dá às romãs o esquecimento

Do seu sabor ser apetecido

É treva densa a irromper do húmus


No vago torpor de cada momento

O princípio sempre já acontecido

A eterna saudade de não ter sido

Alucinação rubra e continuada


O pó da estrada de me perder

A noite revisitada da amurada

De ter partido um dia sem saber


Que a sorte não tem norte nem um porto

Chegar é quase ser tudo e estar morto

Lavrado de longes sou sem querer

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Maimónides

Serpente Emplumada em acróstico






Legenda: USA, California, San Francisco, the Thinker
Fotógrafo/artista: Stuart Dee



S abedoria

E scrita

R eencontro

P ensamento

E specificidade

N ada

T ranscendência

E ncanto



E mpolgamento

M estria

P alavra

L iberdade

U niverso

M aiêutica

A dquirido

D ifícil

A juste

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

nexo

nos EUA
50 000 anos depois da Europa
o sapiens - que é a maioria de nós próprios hoje -veio precisamente de África.

Não do Quénia-
da Etiópa, de Rift, ou de lá próximo.

Obama talvez seja
um regresso às origens da civilização

Dirigir o olhar


praia de carcavelos


Dirigir o olhar, é contemplar o horizonte amplo, não circunscrevendo-o, somente, na unilaterialidade da visão.

É abraçar o todo, como uno, reconhecendo a especificidade ontológica de cada criatura.

É respirar, ser e acontecer, num fazer que se quer humilde e assim, mais sábio.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Terras do Quinto

Olha o chão. Não o vê. O olhar transluz. O ombro para onde descai a cabeça não está ferido, todo o corpo está incólume, mas o olhar abandonado é barro húmido a olhar o impossível chão. A profunda saudade levou-o até ali, ao cabo mais finisterra da vida. Parados, os olhos fitam a profunda espessura do tempo, a espiral da errância, o vazio do corpo nu, e a sua vulnerabilidade é alheamento e sombra. Chegou ao limite do fim. Não contorce o corpo nem o rosto, as mãos desenham uma cruz, repousam, seguram-se. Só o cabelo descaído sobre a sombra dos olhos parece mover-se... No pé, os dedos levantados conhecem o movimento de andar sem caminho aonde ir. No cabo do mundo, já não conhece mundo o caminho que não há! Nada há para a frente da distância. Só distância... Talvez só a névoa esbatida da montanha a formar-se... Não há pedra que se abata sobre a estátua do passado. Dela a montanha se formou. Talvez que os pés do desterrado conheçam o movimento para além da passada e do caminho; talvez que o olhar recorde o que ficou do homem e do caminho, mas o que quer que tenha ficado para trás, não o segue o mínimo gesto. É em frente, no fim do fim que é esperado o que há-de vir. Nenhuma pedra o destruirá, pois que não existente, nada do que ficou lhe lhe pertence. O que sabe o desterrado é que o oiro que floresce na terra não é nela que deve procurar-se. Talvez saiba que muitos caminhos andados não são o fim do caminho. O fim está no princípio... na montanha que se avista na distância e que não se sabe se virá, nem quando virá. Porque não é de sua natureza vir ou ir. O desterrado pende a cabeça para o coração. Chegado ao sem espaço e sem tempo, que fazer, senão abandonar em repouso o corpo mais que nu ao som de uma guitarra a nascer na garganta do vento. Ao divino fado. À barca de nenhum lugar...

ESBOÇO DE UMA SERPENTE

Entre a árvore, a brisa acalenta
a víbora que hei de vestir;
um sorriso, que o dente espeta
e de apetites vem luzir,
sobre o jardim se arrisca e vaga,
e o meu triângulo de esmeralda
atrai a língua do réptil...
Besta sou, porém besta arguta,
cujo veneno, embora vil,
deixa longe a sábia cicuta!

Suave é este tempo de prazer!
Tremei, mortais, ao meu valor
quando, sem me satisfazer,
bocejo e quebro o meu torpor!
A esplendidez do azul aguça
esta cobra que me rebuça
de uma animal simplicidade:
vinde a mim, ó raça aturdida!
Que estou prestes e decidida,
semelhante à necessidade!

Ó Sol, ó Sol!... Falta estupenda!
Tu que mascaras o morrer,
sob o azul e o ouro de uma tenda
onde as flores vão se acolher;
em meio a mil delícias baças,
tu, o mais feroz dos meus comparsas,
dos meus ardis o mais perfeito,
aos corações não deixas ver
que este universo é só um defeito
na puridade do Não-Ser!

Ó Sol, que soas as matinas
do ser, e em fogos o acompanhas,
que num fatal sono o arrepanhas
todo pintado de campinas,
fautor de fantasmas risíveis
que prendes às coisas visíveis
a presença obscura da alma,
sempre me agradou a mentira
que tu sobre o absoluto espalhas,
rei das sombras tornado pira!

A mim o teu calor brutal,
onde a minha preguiça gelada
vem devanear sobre algum mal
próprio à minha índole enlaçada...
Este amável lugar me seduz
onde cai a carne e produz!
Aqui meu furor ama dura;
e eu o aconselho, e eu o refaço,
e me escuto, e em meio aos meus laços
minha meditação murmura...

Ó Vaidade! Causa primeira,
que domina os Céus e os conduz,
de uma voz que já foi a luz
abrindo o cosmo sem fronteira!
Lasso de Seu puro espectáculo,
o próprio Deus rompeu o obstáculo
de tão perfeita eternidade;
ele se fez O que dispersa
em consequências Seu começo,
em estrelas Sua Unidade.

O Céu, Seu erro! E o Tempo, a ruína!
E o abismo animal alargado!
Queda naquilo que origina,
fagulha em vez do puro nada!
Mas o primeiro som do Seu Verbo,
EU!... dos astros o mais soberbo
que disse o louco criador –
eu sou!... Eu serei... E ilumino
esse diminuir divino
dos fogos do grão Sedutor!

Radioso objecto de minha ira,
Tu, que amei de um amor flamante,
e que da geena decidiste
conceder o império a este amante,
nos meus escuros Te remira!
Que ao veres Teu reflexo triste,
troféu do meu espelho negro,
tenhas tão funda comoção,
que sobre a argila o Teu ofego
seja um suspiro de aflição!

Em vão moldaste nessa lama
a prole dos fáceis infantes
que dos Teus actos triunfantes
a eterna louvação proclama!
Tão logo secos – e perfeitos,
são da Serpente já desfeitos,
filhos que o Teu criar produz.
Olá, lhes diz, recém-chegados!
Homens que sois, e andais tão nus,
animais brancos e abençoados!

Odeio-vos, que do execrado
à semelhança fostes feitos,
tal como ao Nome que tem criado
esses prodígios imperfeitos!
Eu sou o agente da mudança,
retoco o peito que se afiança,
de um dedo exacto e misterioso!
Transformaremos essas obras
e as evasivas, moles cobras
em répteis negros, furiosos!

Meu intelecto inumerável
toca no humano coração
o instrumento de minha raiva,
que foi feito por Tua mão!
E Tua Paternidade alada,
todo aquele que, na estrelada
câmara ela acolha que a afague,
sempre o excesso dos meus assaltos
lhe traga uns longes sobressaltos
que seus propósitos estrague!

Vou e venho, deslizo, enfronho,
desapareço em peito puro!
Houve jamais seio tão duro
onde não possa entrar um sonho?
Quem quer que sejas, não sou esta
complacência que te requesta
a alma, desde que ela se ame ?
Ao fundo sou de seu favor
este inimitável sabor
que de ti em ti se derrame!

Eva! que eu tenho surpreendido
em seus primeiros pensamentos,
o lábio aos hálitos rendido
que das rosas se evolam lentos.
Quão perfeita me apareceu,
de ouro coberto o flanco seu,
sem temor ao sol nem ao homem;
ofertada aos olhos da brisa,
a alma ainda estúpida, tal como
perplexa ante a carne, indecisa.

Oh, massa de beatitude,
és tão bela, prémio veraz
para toda a solicitude
das almas boas e das más!
Para que aos lábios teus se prendam,
basta que a um sopro teu se rendam!
Tornam-se piores os mais puros,
logo se ferem os mais duros...
Também a mim teus dons encantam,
de quem vampiros se levantam!

Sim! De meu posto entre a folhagem –
réptil que de ave se fingia –,
enquanto a minha pabulagem
uma armadilha te tecia,
eu te bebi, surda beldade!
Prenhe de encanto e claridade,
eu dominava, sem tremer,
fixo o olho em tua lã dourada,
tua nuca obscura e carregada
dos segredos do teu mover!

Presente estive, qual odor
que a alguma ideia corresponda,
cujo fundo, insidioso negror
não se elucida nem se sonda!
Pois eu te inquietava, ó candura,
carne molemente segura,
sem ter de mim nenhum temor,
a tremer em teu esplendor!
Logo eu te tinha, eu te levava,
e tua nuance variava!

(A soberba simplicidade
demanda infinitos cuidares!
Sua transparência de olhares,
tolice, orgulho, felicidade
guardam bem a bela cidade!
Procuremos criar-lhe azares,
e traga o mais raro artifício
ao peito puro o seu motim.
Eis minha força, o meu ofício,
a mim os meios do meu fim!)

Ora, de uma baba ofuscante
fiemos os suaves assaltos
que façam com que Eva, hesitante,
se envolva em vagos sobressaltos.
Que sob a seda da surpresa
palpite a pele dessa presa,
acostumada ao azul puro!...
Mas de gaze nem uma trama,
nem fio invisível, seguro,
além da que meu estilo trama!

E ditos, língua, redourados,
dá-lhe os mais doces que conheças!
Alusões, fábulas, finezas,
e mil silêncios cinzelados,
emprega tudo o que a seduza:
nada que a não bajule e induza
a se perder nas minhas vias,
dócil aos declives que guiam
para o fundo das azuis bacias
os veios que nos céus se criam.

Oh, quanta prosa sem parelha,
quanto espírito não recoso
e lanço ao dédalo sedoso
dessa maravilhosa orelha!
Penso: lá nada é sem proveito,
tudo importa ao suspenso peito!
O triunfo é certo, se o propor,
da alma espreitando algum tesouro,
como uma abelha a alguma flor,
não deixa mais a orelha de ouro!

“Só o que o meu sopro lhe confere,
a ela, é a própria voz divina!
Uma ciência viva fere
o corpo do fruto maduro!
Não ouças o Ser velho e puro
que a breve mordida abomina!
Que, se a boca se põe a sonhar,
a sede que à seiva se atreva,
esta delícia por chegar,
é a eternidade fundente, Eva!”

Ela bebeu minha mensagem,
que tecia um estranho arranjo;
seu olho perdeu algum anjo
por penetrar minha ramagem.
O mais hábil dos animais
que se ri de seres tão dura,
ou pérfida e cheia de males,
é só uma voz entre a verdura!
– Mas Eva muito séria estava
e sob o galho ela a escutava!

“Alma, eu lhe disse, doce pouso
de tanto êxtase condenado,
não sentes este amor sinuoso
que foi por mim ao Pai roubado?
Tenho esta essência celestial
a fins mais doces do que o mel
reservado tão suavemente...
Apanha o fruto... Oh, que se estenda
a tua mão e, ardentemente,
te faça dele uma oferenda!”

Que silêncio – o bater de um cílio!
Que sopro no peito soçobra,
que a árvore mordeu de sua sombra!
O outro brilhava qual pistilo!
– Silva, silva! – ele me cantava!
E eu sentia fremir as mil
dobras do meu dorso subtil,
saindo então do meu abrigo:
rolaram atrás do berilo
de minha crista, até o perigo!

Ó génio! Ó comprida impaciência!
Eis chegado o instante em que um passo
em direcção à nova Ciência
fluirá de um fino pé descalço.
Aspira o mármore, o ouro enxambra!
Tremem as bases de sombra e âmbar
na véspera do movimento!...
Ela vacila, a grande urna,
de onde emana o consentimento
dessa aparente taciturna!

Do vivo prazer que antegozes,
belo corpo, cede aos apelos!
Que a sede de metamorfoses
em torno da Árvore dos Zelos
engendre a cadeia de poses!
Vem, sem vires! Ensaia passos
vagos, como ao peso de rosas...
Não penses! Dança nos espaços...
Aqui há causas deliciosas
que bastam ao curso das coisas!...

Oh, quanto é infértil a fruição
que me ofereço, com demência:
de ver tão suave compleição,
fremir em desobediência!...
Breve, emanando seu sustento
de sabedoria e ilusões,
toda a Árvore do Conhecimento,
esguedelhada de visões,
no amplo corpo que investe rumo
ao sol, bebe do sonho o sumo.

Grande Árvore, Sombra das Alturas,
irresistível Árvore de árvores,
que os sucos amáveis procuras
na fragilidade dos mármores,
ó tu, que os labirintos cevas
por onde as constrangidas trevas
se percam no marinho lume
da sempiterna madrugada,
doce perda, brisa ou perfume,
ou pomba já predestinada,

Cantor, secreto bebedor
das mais profundas pedrarias,
berço do réptil sonhador
por quem já Eva tresvaria,
grande Ser, pleno de saber,
que sempre, como por mais ver,
ao alto apelo de teu cimo
cedes, e ao ouro puro os braços
estendes, teus esgalhos baços,
de outra parte, cavando o abismo,

Podes o infindo repelir,
feito só de teu crescimento,
e, da tumba ao ninho, sentir
que és inteiro Conhecimento!
Mas este velho amante do impasse,
de uns secos sóis no inútil ouro,
vem em tua copa enroscar-se –
seus olhos fremem teu tesouro!
Frutos de morte, de incerteza,
de desespero ali sopesa!

Bela serpe, suspensa aos céus,
sibilo, com delicadeza,
ofertando à glória de Deus
o triunfo da minha tristeza...
Basta-me, nos ares tranquilos,
que a ânsia do amargo fruto os filhos
do barro ponha em desvario...
– A sede que te faz tamanha
até ao Ser exalta a estranha
Toda-Potência do Vazio!

de Paul Valéry

(Tradução de Renato Suttana)
N.T.: Agradeço a Sephi Alter pelas valiosas sugestões a esta tradução

A Pedra, a Estátua e a Montanha ou da actualidade do V Império

"[...] o título deste livro consagra os três símbolos fundamentais do sonho de Nabucodonosor, interpretado por Daniel, decerto o texto central do imaginário quinto-imperial, vieirino e não só: a pedra que, sem intervenção de mão alguma, embate violentamente nos pés de ferro e argila da terrível estátua antropomórfica, com cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze e pernas de ferro, pulverizando-a e convertendo-se numa “grande montanha”, que enche a terra inteira (Daniel, 2, 31-45). Esta narrativa visionária é susceptível, como tudo o que é simbólico, de uma multiplicidade inesgotável de leituras, consoante as inclinações e níveis de compreensão dos intérpretes. Dela se pode em geral dizer que, abatendo e dissipando o gigantesco ídolo de pés de barro - símbolo de uma realidade aparentemente total e invencível, mas na verdade parcial e extremamente frágil no seu fundamento e composição, interpretada tradicionalmente e por Vieira como os quatro impérios e poderes civilizacionais histórico-mundanos, e interpretável como figura de todas as falsas e frágeis construções humanas, mentais e materiais - , a pedra, figura do Messias, do Cristo ou da consciência desperta e livre, converte-se na montanha cósmica, símbolo da plenitude e da verdadeira totalidade e universalidade ou do eixo que une céu e terra, espírito e matéria, transcendência e imanência. A moral da história da pedra que pulveriza a estátua e se converte em omni-abrangente montanha, é que a imprevisível e espontânea irrupção do que parece mínimo e insignificante faz na verdade evanescer o que parece máximo, sólido e perene, convertendo-se por sua vez na verdadeira integralidade e totalidade, ao contrário da estátua, que por mais monumental era apenas um ente parcial, composto e localizado.
A partir daqui podemos vislumbrar a sempre fecunda actualidade do imaginário quinto-imperial, não só no plano histórico-civilizacional e teológico-político em que tem sido predominantemente interpretado, mas também no da nossa vida pessoal e do nosso crescimento espiritual. Pois não se aplicará a história da pedra, da estátua e da montanha ao nosso presente histórico, com seus impérios, globalizações, padrões de pensamento e ficções em aparência tão esmagadoramente triunfantes e incontornáveis, mas afinal tão frágeis, desde já minados pela ausência de verdadeiro fundamento e à mercê da ínfima pedra que contra eles subitamente se levante, contendo em si uma imensa montanha ? Pois não seremos potencialmente todos e cada um de nós essa mesma pedra, essa mesma tomada de consciência e essa mesma força que imprevisivelmente pode surgir e derrubar pela insustentável base tudo o que interior e exteriormente nos amedronta, violenta e escraviza, sem outro alicerce senão as falsas projecções da nossa ignorância, medos e expectativas, convertendo-se na ou revelando-se a inabalável montanha da descoberta da nossa natureza íntegra e primordial, único fundamento sólido de uma nova sociedade e de um novo mundo ?"

- excerto da Introdução a A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008. Livro apresentado na 4ªfeira, dia 12, pelas 18.30, na Igreja de São Roque (Largo Trindade Coelho ou da Misericórdia, em Lisboa).

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Convites para o V Império, a Saudade como Libertação e a Gnose



Caras Amigas e Amigos,

Tenho imenso gosto em vos convidar para o lançamento do meu último
livro "A Pedra, A Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António
Vieira" (Ensaios e Antologia), na próxima 4ª feira, dia 12 de
Novembro, às 18.30, na Igreja de São Roque (Largo Trindade Coelho),
onde o grande orador proferiu muitos dos seus inspirados sermões.

A apresentação será feita pelo Padre António Vaz Pinto, SJ, que na
ocasião também apresentará o livro "Sermões de Santo António do Padre
António Vieira", organizados e introduzidos pelo Prof. Abreu Freire.

No dia 13 será também apresentado, por Rui Lopo, o meu livro Da Saudade como Via de Libertação, na Fauldade de Filosofia da Universidade de Santiago de Compostela, bem como o segundo número da Nova Águia. Este programa repete-se no mesmo dia, às 21h30, na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo.
No dia seguinte, 14 de Novembro, os mesmos lançamentos repetem-se integrados no programa de um Colóquio que vivamente aconselho:

Colóquio internacional
GNOSE E GNOSTICISMO – GENEALOGIAS, EMERGÊNCIAS
Porto - 14 e 15 de Novembro de 2008
Ateneu Comercial do Porto

PROMOTORES

Instituto São Tomás de Aquino
Centro de Estudos do Pensamento Português (CEPP)da Universidade Católica Portuguesa
Grande Oriente Lusitano (GOL) – Maçonaria Portuguesa
Instituto Investigación sobre Liberalismo, Krausismo y Masonería, da Universidade de Comillas

Comissão Científica:
Antonio Piñero - Universidad Complutense de Madrid
José Augusto Mourão - Instituto S. Tomás de Aquino, Universidade Nova de Lisboa
Arnaldo Pinho - Grupo de Estudos do Pensamento Português, Universidade Católica Portuguesa
Francisco Teixeira - Escola Secundária Francisco de Holanda
Enrique Menéndez Ureña - Instituto Investigación sobre Liberalismo, Krausismo y Masonería, Universidade de Comillas
Pedro Alvarez Lázaro - Instituto Investigación sobre Liberalismo, Krausismo y Masonería, Universidade de Comillas
Paulo Borges - Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Organização:
Arnaldo Pinho
Belmiro Sousa
Fr. José Filipe Rodrigues - 210312300; 965168245
Francisco Teixeira - 914 786 581
José Augusto Mourão
Luis Moutinho

Programa:

Dia 14 – sexta-feira

9.30 Horas:

Conferência plenária de abertura:
José Augusto Mourão - Cibergnose

Gnoses cristãs:

Arnaldo Pinho - S. Ireneu e a Gnose do seu Tempo
José Manuel Fernandes - A Sagrada Escritura na polémica contra os gnósticos. Tertuliano e a sua obra "De praescriptionibus adversus haereses omnes"
Abel Pena – Julião, o Apóstata

14. 30 Horas:

Gnoses não cristãs:

Paulo Borges - Os três corpos do Cristo gnóstico e os três corpos de Buda
Carlos Silva - A IDEIA ARCAICA – Do originário da Gnose pré-cristã
Clara Calheiros – Os krausismos ibéricos e a maçonaria

18 Horas:

Lançamento da revista Nova Águia, Nº 2.
Apresentação de Renato Epifânio e Paulo Borges.

18.30 Horas

Lançamento do livro Da Saudade como Via de Libertação, de Paulo Borges, Ed. QuidNovi. Apresentação de Rui Lopo.

Dia 15 – sábado

9.30 Horas:

Gnoses na cultura portuguesa:

Ricardo Ventura - Prisciliano e priscilianismo: contributo para a discussão do conceito de "gnose"
Rui Lopo - Ecos e ressurgências da Gnose na cultura portuguesa contemporânea
Afonso Rocha - A Gnose de Sampaio Bruno: perspectivas, manifestações e referências
Luís Filipe B. Teixeira - A Gnose em Fernando Pessoa

14. 30 Horas:

Gnoses hoje:

Francisco Teixeira - Gnosticismo e Maçonaria
Jorge Martins Rosa - Transmissões ocultas: A fantasia gnóstico-científica em Philip K. Dick
Jorge Leandro Rosa - O Aprisionamento Cristalino. Alguns Temas Gnósticos em Peter Sloterdijk

Intervalo

Conferência plenária de encerramento:
António Piñero - El estado actual sobre la investigación del Evangelio de Judas

domingo, 9 de novembro de 2008

9 de Novembro - nascimento


Foi hoje, porque tinha de ser. Um dia de Outono. O Outono nesse dia. A minha mãe sorria do outro lado do vento que levanta as águas que vêm do futuro e chegam aqui.Uma onda que transbordou, e eis-me caída no solo, colo e olhos da minha mãe. Muda. Nascida desse olhar de onde deus nos saúda, agora, no lugar da nossa mesma memória. Mudas, ambas. De alegria nos acendem velas para que ardam estrelas, e nelas se vislumbre o olhar branco de deus, ou o tempo a enrolar-nos as palavras em posição fetal, a quererem olhar e ver o espanto que nos enternece, o livro com muitas páginas para celebrar. Nesse dia, dos olhos da minha mãe nasciam estrelas que se cruzavam no céu com as da Mãe maior. Tantas e tantas vias-lácteas que se cruzam com as minha! Mas acabamos sempre nos braços de quem tem saudades da forma do colo que teve em criança. Acabamos sempre por ficar para ver essa luz que para além das estrelas, das montanhas, do deserto e de nós mesmos nos acolhe em Amor.

P.S E se não acabo isto a tempo... já será futuro o nascimento que é.
Levanto a minha taça e festejo a vida. Estamos sempre a tempo da alegria de nunca ter nascido...


Perdoem-me a mudança de tom em relação ao post anterior, mas... não fui eu quem escolheu o dia de partilhar convosco.... Se a minha mãe soubesse... tinha-me proíbido de ser a professora em que me querem tornar...



Escuta, Zé ninguém!

Há uma grande virtude em sermos governados da forma como o estamos a ser, aprendemos na pele a inutilidade dum governo. Neste momento as escolas públicas só funcionam, graças ao empenho de todos os que nelas trabalham. Só isso impede que a legislação educativa produzida nos últimos anos em Portugal produza todos os seus efeitos. Só isso impede a implosão do "sistema".
É pena que não se saiba que existem funcionários que ganham menos de 500 euros por mês e que estão numa situção precária há muitos anos. Não estão vinculados, não têm uma carreira, não podem ver a sua situação sócio-profissional melhorada, mas são submetidos a uma avaliação que não os vai beneficiar em nada. O ambiente entre os funcionários das escolas piorou muito desde que começaram a ser avaliados de acordo com as novas regras.
O mesmo se passa com milhares de professores contratados. Estão no início daquilo que deveria ser uma carreira, mas vêem-se obrigados a aceitar ordenados de 300 euros, 400 euros, enfim... Têm horários incompletos, muitas vezes longe de casa e aceitam-nos na esperança de que possam ter uma colocação melhor nos próximos anos. Esperam que a estupidez abandone a vida política. Mas a tenacidade da estupidez é a sua maior virtude. Agarra-se aos lugares. Porque a estupidez é o contrário da utopia. E esperam. E são excelentes professores, jovens e com ideais. Mas vêem-se cada vez mais nas margens do sistema. Mesmo assim, no ano passado foram "avaliados".

O que esse universo de Zés ninguém que serve de referente ao termo eleitorado, uma das palavras preferidas pelos agentes da estupidez, não sabe nem sonha é que a escola pública está a ser desmantelada. O sector que está na vanguarda desse processo é a área anteriormente designada por "educação de adultos". No que respeita aos adultos a escola transformou-se numa fraude. "Ensinar" está fora de questão e "aprender" é um verbo sem presente e sem futuro, inconjugável com a vida e com a elevação cultural dos cidadãos. "Validar competências", é esse o eufemismo que hoje serve para abrir aos adultos as portas das escolas e de uma série inenarrável de centros de formação. Aí já não há professores, mas sim "formadores". É a "venda" de certificados a pataco. Certificados de competências que, até aqui, estavam reservados aos atrasados mentais.
Há professores que se enganam. Recebem as turmas dos cursos EFA e começam a tentar ensinar, para serem repreendidos de imediato: "o que conta não são os conteúdos, mas sim as competências." Mesmo que o aluno faça mal, o aluno fez, logo sabe fazer. Imagine-se numa fábrica um operário fabril recém-licenciado em saber-fazer, completamente ilustrado em "boas práticas", tem que carregar num botão verde duma máquina qualquer, com botões coloridos. O homem em vez de carregar no botão verde, carrega no vermelho. Estraga a produção diária de coisas (pode ser de chinelos, cafeteiras, água destilada, bobons de natal, efim...). Acabará promovido porque fez o que tinha que fazer, carregou num botão. O conteúdo simbólico do mesmo é indiferente, é quase como pedir Macieira e receber São Domingos, isto se o taberneiro for "ilustrado".

Esta "lógica" vai ser aplicada a todo o sistema. Ao nível do ensino pré-escolar, a coisa ainda poderá funcionar. A inteligência dos miúdos ainda está muito acima da dos governantes, por isso não haverá por aí muito mal. Depois é que há que incutir a ignorância activa nos até há pouco tempo designados por "alunos". Como se sabe, na internet está tudo e tudo pode ser metido em portefólios. Hoje em dia, estudante que cumpra este viático de bestial a besta tem que fazer portefólios. Em vez de meter conteúdos na pinha, aprende a preparar papeladas para a reciclagem, pois temos que salvar o Planeta, e o areal da Caparica, para que os nossos filhos, se não se enganarem no orifício, poderem nascer num mundo mais porreiro do que o nosso.
Um mundo com TGVs e aeroportos da Ota em Alcochete e muita gente com licenciaturas tiradas a preceito, antes das universidades fecharem as portas.
Neste momento tenho uma aluna doente, confirmadíssimamente doente, que vai ter que se subtemer a um exame global quando regressar às aulas porque, devido à doença (já alguém viu algum exemplar do Homem Novo, ou seja, algum membro do governo, doente? Não? Ora aí está, a doença é uma coisa sem importância) faltou ao seu dever de assiduidade. Eu acho bem, porque como professor também não posso ir para casa doente. Se adoecer não poderei ser avaliado com Muito bom ou Excelente. O que é natural. Toda a gente sabe que a doença é uma coisa vergonhosa porque aumenta o défice da Segurança Social.
Mas ainda temos o Inem. É claro que corremos o risco de, se sentirmos que estamos quase a ter um enfarte, as meninas lá da central nos mandarem um barco salva-vidas. Pena é não vivermos em Veneza. Mas aí os genéricos para o reumático estariam muito mais caros. O que seria mau.
Ora, a avaliação dos professores transformou-se num processo quase kafkiano. Convém deixar o Kafka fora disto, porque algum zeloso agente do SIS pode pensar numa qualquer diatribe islâmica no seio da comunidade docente.
Em relação à minha avaliação, enquanto professor, estou à espera da anunciada quartelada para reparar as injustiças junto da instituição militar. Se a tropa conseguir sair dos quartéis sem se esfrangalhar perante a risota geral, acho que até seria bom termos um novo 25 de Abril. Se fosse em Abril, até se poderia aproveitar o feriado.
Mas há uma coisa que não entendo: não era melhor esperar pela coisa, antes de se começar a nacionalizar bancos? E não era melhor começar por nacionalizar o banco que desse mais lucros? Os senhores assessores que usam o Magalhães acho que não teriam problemas em fazer contas... Para que é que servem os Magalhães afinal?
E já agora... não podiam ter dado ao tal computador o nome dum navegador que tivesse concluído a viagem? Uma qualquer viagem? Por exemplo: Sr. António Pinto, Mestre de Cacilheiro. Hum?!
(As fotos são da manifestação de ontem, 8/11/2008, que reuniu uns 120.000 professores).

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

LANÇAMENTO do livro de poesia de Luís Filipe Pereira: A Tela do Mundo, 29novembro, 18h45, Byblos amoreiras

A Tela do Mundo, livro de estreia de Luís Filipe Pereira nos meandros da poesia, propõe-nos um diálogo entre a palavra poética e um conjunto de pinturas e pintores contemporâneos (de Vieira da Silva, Antonio López, Helena Almeida, Miró, Chagall, Cézanne, até aos desenhos do Poeta António Ramos Rosa, Graça Morais, Frida Kahlo, Tàpies, Júlio Resende, Paul Klee, Edward Hopper, João Vieira, Laura Cesana (uma pintura sua, expressamente realizada para o livro, dá rosto à capa idealizada como uma tela), De Chirico, van Gogh, Magritte entre vários outros). Um livro que explora o enlace ou concerto de duas artes: a poesia e a pintura, numa reinvenção da linguagem segundo o mote lançado por P. Klee para a arte moderna: "dar a ver o invisível" e convertido pelo autor de A Tela do Mundo em versos como: "O encontro dos lábios/com a paisagem dos dedos". Este livro, como se tela em branco a ser pontilhada pelos sulcos de cor recriados pelo olhar dos leitores, nascerá no dia 29 de Novembro, às 18h45, na Livraria Byblos das Amoreiras, com apresentação da Professora Doutora em Filosofia/Estética A. Isabel Clemente (autora do Posfácio da obra), num evento pautado pela interartisticidade, pelo "encontro inesperado do diverso" (M. G. Llansol), por hibridismos de artes e polifónicos modos de dar a ver sob o signo do Poético em sua amplitude poiética e aiesthésica.

"Universo poético, rico, muito rico, que é preciso ir descobrindo, linha a linha, poema a poema, em que nos vamos deixando enlear e cuja magia persiste para lá da leitura."
Isabel Clemente

Aqui fica o meu desejo, em jeito de convite, para que os serpentinos colaboradores

desta Serpente Emplumada queiram dar-me a honra de vir partilhar o nascimento do meu livro



Trans-Pátria - Por uma educação lusófona e universalista ao serviço de uma formação integral

Recordo um dos pontos das propostas para Portugal da secção portuguesa do MIL, na nossa Declaração de Princípios e Objectivos:

"XI – Redignificar, com exigência, os professores e todos os profissionais ligados à
educação, tornando esta e a cultura – não só tecnológica, mas filosófica, literária,
artística e científica - o investimento estratégico do Orçamento de Estado e da
governação. Os vários níveis de ensino visarão a formação integral da pessoa, não
a sacrificando a uma mera especialização profissional. Neles haverá uma forte
presença da cultura portuguesa e lusófona, bem como das várias culturas
planetárias. Um português culto e bem formado deve ter uma consciência lusófona
e universal, não apenas europeia-ocidental"

Este é um dos pontos que mais acarinho e que vejo mais conformes à nossa tradição histórico-cultural de povo em diáspora planetária. Resume algumas das motivações fundamentais do Professor Agostinho da Silva e deveria ser ponto de honra de todos os portugueses e lusófonos, em especial dos aderentes a este movimento. Exorto todos ao esforço por conhecermos melhor a cultura lusófona e aliarmos isso à abertura da mente e do coração às culturas planetárias, como forma de colhermos daí perspectivas renovadas sobre a formação integral do homem e a realização das suas superiores possibilidades. Sem isso não é possível cumprir o grandioso projecto de converter Portugal e a Lusofonia em mediadores do diálogo e harmonia entre todos os povos, culturas, civilizações e religiões do mundo. Sem isso não é possível criar um movimento de opinião e de pressão que leve os nossos responsáveis políticos e culturais a incluir estes imperativos nos currículos de todos os níveis de ensino, desde o primário ao superior. Sem isso não podemos fazer do MIL uma efectiva transformação das mentes e das vidas.
Para tal, proponho que os professores aderentes a este movimento criem um grupo de trabalho que elabore um projecto para a implementação deste objectivo no ensino público. A partir daí podemos inscrevê-lo na bandeira de uma reivindicação concreta e procurar apoio social para ela. Esta reivindicação deve surgir associada à da redignificação social, profissional e humana dos professores e de todos os profissionais da educação. Temos de inverter o processo bárbaro em curso que visa destruir a Cultura hostilizando os agentes da sua transmissão e fazendo da carreira docente, sobretudo no secundário, um tormento e uma sujeição a todas as tarefas menos a de aprender e ensinar. Alguém toma a iniciativa de se oferecer para a comissão coordenadora deste grupo de trabalho?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Zu Meister Eckehart

Wo habe ich den Grund in Dich zu stürzen
An mir verliert sich jeder Sinn
Wie soll ich Deine Grösse bis in mich verkürzen
Was macht mich denn zu Deinem Sinn.

Wo finde ich am Abgrund Deiner Dinge
den Halt, der mich in mir erhält
Wo sind sie wirklich diese Deine Dinge
bevor die Welt in mir zerfällt

Wer sagt, was ich vor Dir noch bin
nur Schatten denk ich oder selbst wie Du
ich gehe ein und gehe auf Dich zu
soll ich denn hoffen, dass ich dann noch bin.

Por causa das Margens


Intervencões

I

O pobre tolo que fala e escreve somente sabe abrir um esgoto onde os ratos e as baratas se multiplicam.

II

Utopistas e Realistas: ambos não conseguem deixar de assassinar.

III

A raiva e o vinho: dois amigos do aforismo.

IV

O meu campo de batalha somente conta um cadáver: Eu.
O resto morre nos seus campos sozinho.

V

Europa, meu querido pesadelo
o Paraíso encontra-se além do mar
mas nunca te deixo de me deixar
Europa, meu querido pesadelo

Mestre Eckhart ou “o homem de quem Deus nada escondeu”

É com funda emoção que prefaciamos esta primeira publicação em Portugal de uma antologia de tratados e sermões de Mestre Eckhart (1260 ? – 1328) , o teólogo, filósofo e pregador dominicano cuja profundidade e subtileza espiritual e “mística” o tornam cada vez mais uma referência fundamental para todos os que, independentemente da sua cultura ou religião, procuram ir ao fundo das possibilidades da vida, da consciência e da existência, sem se contentarem com a mera especulação intelectual sobre o seu sentido. Com efeito, em Eckhart dá-se a rara e feliz conciliação de uma sólida erudição universitária com a radicalidade da experiência espiritual que rompe e inova as categorias do pensamento da sua época e da sua tradição, fazendo dele um “Leben Meister” (“Mestre de vida” e não só de doutrina) que influiu decisivamente em gerações de discípulos e tem inspirado um significativo e crescente número de pensadores, psicólogos, escritores, poetas, pintores e músicos contemporâneos.
Consagrado pela posteridade como “o homem de quem Deus nada escondeu”, Eckhart assume de facto a sua visão e discurso como “uma verdade não encoberta, que veio directamente do coração de Deus” . “Voz” vinda “da eternidade”, mas não compreendida senão nos limites do tempo, como o disse Tauler, seu discípulo, acabou por ser objecto de um processo e de uma Bula papal que condenou vinte e oito afirmações suas como heréticas ou “mal sonantes, ousadas e suspeitas de heresia”. Todavia, se Eckhart ousa transgredir o plano teológico-filosófico e doutrinal para falar em nome de uma experiência imediata de Deus, esta fuga à norma da sua própria tradição institucionalizada pode noutro sentido ser vista como fidelidade a uma experiência cristã mais profunda, em que a resposta à questão tradicional – Cur Deus homo; Porque se fez Deus homem ? – é a de que Deus se faz homem para que cada homem “seja engendrado como o próprio Deus”, sendo “a abissalidade [Abgründigkeit] do ser divino e da natureza divina” inteiramente gerada “no seu Filho unigénito” para que “nós próprios sejamos o mesmo Filho unigénito”. Cristo, o Filho único de Deus, não é assim somente considerado uma pessoa individual e distinta, designando sobretudo a suprema possibilidade, histórica e trans-histórica, comum a todo o ser humano, cumprida no acesso de cada um ao estado de unção espiritual que esse nome designa.
Se a pregação eckhartiana tem dois temas capitais - o nascimento de Deus na alma e o trespasse do espírito na Divindade - , é neste último que se torna mais sensível a sua inovação e radicalidade. Bernard McGinn usa a expressão “mística do fundo” para designar a nova forma de experiência espiritual iniciada ou redescoberta por Eckhart, seus contemporâneos e seguidores , sintetizada na afirmação: “o fundo de Deus e o fundo da alma são um fundo”. Grunt (forma antiga do moderno termo germânico Grund) abre assim um “campo de palavra místico”, constituindo uma “metáfora explosiva” (Blumenberg), enquanto “expressa de modo concreto o que não pode ser capturado em conceitos” e “trespassa anteriores categorias da linguagem mística para criar novos modos de apresentar um encontro directo com Deus”. Dos vários sentidos que Grunt assume no alemão medieval, destaca-se em Eckhart o do “mais íntimo” e “oculto” de um ser, “a sua essência”, referindo-se quer ao “mais íntimo da alma”, quer às “profundezas ocultas de Deus”, para designar a radical unicidade desse seu fundo único. Univocamente comum a Deus e à alma, o fundo transcende-os enquanto “Deus” e “alma” surgem como algo distinto em si mesmo e na sua relação mútua. Com efeito, metáfora do infinito e do absoluto livre de todo o limite e referência, o fundo é “sem fundo” e “um único um” que transcende o Deus pensado pelo homem “enquanto causa eficiente do universo” e diferenciado nas pessoas trinitárias: como diz, a origem do ser divino e de todas as coisas reside nesse “fundo simples” e “imóvel” ou “deserto silencioso onde jamais a distinção lançou um olhar, nem Pai, nem Filho, nem Espírito Santo”. Sendo a “indistinção” e a ausência de características a “característica distintiva de Deus” como fundo, este é “nu, livre, vazio, puro”. Daí a relação da metáfora do fundo com as do “deserto”, do “mar” e do “abismo” [Abgrund], imagens de espaços vastos, uniformes e desobstruídos, sem limites nem entidades. Referindo também o incondicionado que há na alma, esse “algo incriado” que nela reside, o fundo é a mais poderosa metáfora que Eckhart usa – a par de outras, como a “pequena centelha” e a “cidadela” – para indicar a presença em cada ser do absoluto e infinito, isso que transcende e identifica o humano e o divino: “Aqui o fundo de Deus é o meu fundo e o meu fundo o fundo de Deus”.

[excerto do prefácio de Mestre Eckhart, O Abismo Eterno, antologia de tratados e sermões escolhidos e prefaciados por Jorge Telles de Menezes e Paulo Borges, tradução do alemão de Jorge Telles de Menezes, Lisboa, Paulinas, 2009 (no prelo)]