O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Amor de Amor

Pintura de Eugene Medard

Amor, daqui me leve em voo de asa e maresia

Em barco de cristal, pluma de vela, ou poesia
Amor de dor, amor daqui, amor de cor
Em canto que estremeça a noite e o dia.

Amor que de mim mesma me levante
E dos meus véus se eleve a voz que cante
O mesmo amor me envolva de espaço e de lonjura
Que ao mar regresse, amor a dor que mata e cura.

E deste amor de viagem, de paisagem
Me chegue mais Amor em barca fria
Para que o abraço, o fogo, o laço, o braço
Me leve, amor, à praia em que a cantar morria.

A essa ilha de sal, de vela e de coral
Ilha onde afundo o peito na vastidão da pena
Estátua de sol a deitar-se no vale
Ilha onde o Mar gigante se apequena.

Para que amor não chegue e me não cure
Leva-me,enfim, amor, onde não dure
A tua ausência tanto que dormida
Eu suba em tuas pernas ao céu da despedida.

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - IX

Amor

O Amor descobre-se na metamorfose do desejo que, querendo tudo, pode sentir que afinal nada lhe falta, nem o nada. E assim morre, saciado antes de comer. Como moribundo que no derradeiro momento vê que nunca realmente existiu. E o não carecer torna possível tudo e todo se dar. Como a Origem, que esplende imparcialmente, ou seja, íntegra e total, em todas as coisas. Que nem sequer ama, pois é Amor. Abertura primeira e natural, nudez esplendorosa que em si tudo irmana e coliga.
Só por amor se a descobre e só por amor tem sentido o regresso. O regresso sem retorno a todas as pátrias abandonadas. Enquanto nelas houver quem não tenha feito a viagem. Enquanto nelas houver quem não haja ressuscitado no antes de haver nascimento e morte. Enquanto houver saudade sem força para que se mate. Enquanto in-ex-istir alguma coisa. Enquanto houver pátrias, ou seja, apego a acampamentos na vastidão do Infinito que a cada momento se não levantem para ir mais além.
Só por amor, que é levar todos a fruírem o Tudo-Nada que se descobre, faz sentido falar de razões, sentidos e fins. Estratégias e ardis para levar os sedentários a fazerem-se ao mar-oceano de si mesmos. Jangadas, frágeis barcas que o mar se encarregará de devorar, sorvendo a todos a pique para o sem fundo e sem princípio nem fim de tudo.
Só por amor, e só por Amor, há Império.

A verdadeira revolta

Creio que uma das atitudes fundamentais do homem humano deve ser a de reconhecer em si, numa falta de compreensão ou numa falta de acção, a origem das deficiências que nota no ambiente em que vive; só começamos, na verdade, a melhorar quando deixamos de nos queixar dos outros para nos queixarmos de nós, quando nos resolvemos a fornecer nós mesmos ao mundo o que nos parece faltar-lhe; numa palavra, quando passamos de uma atitude de pessimista censura a uma atitude de criação optimista, optimista não quanto ao estado presente, mas quanto aos resultados futuros – Agostinho da Silva, "Revolta", Glossas [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp.58-59.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

cavaleiro Andante

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - VIII

Descobrimento

Des(en)cobrir pode ser mais do que desocultar: ver(-se) através do que cobre ou se encobre, revelar a transparência da opacidade ou, melhor, mostrar não haver opacidade que não seja transparente. Mas para isso é necessário haver ido já ao fundo sem fundo e ser-se já onde sempre se é: do outro lado do espelho ou do outro lado de haver lados. Ser-se já o País de todas as Maravilhas, de todos os possíveis e dos impossíveis possibilitados. Isso mesmo que somos. Esplendor e prodígio, glória e graça, maravilha fatal além de toda a idade.
Pois, bem vistos, que somos nós e tudo a 360 graus à nossa volta, desde o estarmos aqui até aos confins de não os haver, senão o esplendor desnudo de algo sem quê, porquê ou para quê ? Que causa, razão, sentido ou fim é maior do que a presença muda destes caracteres, écran ou sala na consciência de os haver ? A esta luz, que é maior que eu e tu, leitor ? Que princípio ou fim do mundo, que deus ou diabo, que louco ou sábio, pode acrescer ou tirar ao incriado de estarmos aqui ? À explosão silenciosa do mistério que somos ? À infinita volúpia de não haver uma partícula de poeira que não seja aquilo para além do qual nada mais há, aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado ? De nada haver, para onde quer que se mova a nossa percepção, que nos não traga o sabor do infinito, com o travo à maresia do nosso tremendo naufrágio e salvamento ?
Dir-se-ia que perante o fulgor do Descobrimento nada mais resta. E todavia só agora tudo se inicia. Pois onde a terra acaba Amor começa.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

in rascunhos da Serpente

INSTRUÇÕES PRIMÁRIAS



SMALL IS BEAUTIFUL

O que é pequenino é bonito: uma criança; um cachorrito; um gatito bebé; um pequeno quintal cultivado com sentido estético; um teatrinho de Bairro; um cavaquinho…
A dimensão dispersa a qualidade dos sentidos. O cheiro de um bom café, do fumo de um charuto de elevada qualidade – devem ser apercebidos de maneira mais intensa, concentrada, por um indivíduo de 50 quilos do que por um latagão de 150…
Teoria? Seja – igual a tantas outras.
O paradigma em ruptura, o estilo de vida que esboroa a todo o instante bem pode ser classificado de, ocorre-me agora, Modelo Limousine. Economia Limousine. Actividade financeira Limousine; vida cultural Limousine; compra de casa Limousine; compras domésticas diárias Limousine. É tudo à grande, minha gente.
Quando eu era puto, vai lá uma eternidade, para se viajar entre o Almadafe (meu fojo) e a Casa-Branca (freguesia) a 5 Kms de estrada macadame – era de carroça, bicicleta, ou mais frequentemente a pé. Os casamentos, por exemplo, eram feitos em carros de parelhas engalanados – tantos quantos os suficientes para transportarem as dezenas de convidados até à Igreja da Aldeia, onde se realizava a cerimónia. O casamento da prima Joana Carapinha com o sapateiro António Varela – porque os pais fossem já gente de alguns teres, mas sobretudo possuídos avant-la- lettre do que acabamos de identificar como sindroma Limousine, retiram-se de cuidados e contratam, para transportar os convidados do grandioso casamento – em substituição dos tradicionais carros de muares – a camioneta da carreira. Para os noivos, alugam o Táxi do Delfino

Quando as nossas Universidades estabelecem protocolos com as grandes Universidades americanas; quando a nossa maltrapilha economia se abre aos grandes potentados mundiais em detrimento de mercados da nossa dimensão, estamos irremediavelmente mergulhados no SL (já sabe, sindroma Limousine – LS, se quiser, à inglesa)
O excelentíssimo senhor presidente da Adega Cooperativa, quando toda a atmosfera exala um saudável cheiro a vinho novo, remata o seu discurso com “ e a seguir quero convidar V.Exas para um Coffee Brake a ter lugar …. Presidente, um TINTO BRAKE, caramba, qual coffee brake qual caneco, e que V.Exas, Presidente…

15 mil famílias, dizem as estatísticas, com a corda na garganta para pagar o T3 em Caracavelos, o T2 no Resort de Tróia, ou o T1 no condomínio não sei quantos da Quinta da Marinha. É evidente que todos temos direito ao conforto, à privacidade, a desfrutar de paisagens frescas e bucólicas de abetos e de bétulas, com passarinhos a cantar por tudo quanto é sítio. Todos temos direito ao S. Carlos e ao Gambrinos, às camisas de seda e às gravatas de 200 €, às férias no Brasil ou nas Maldivas. A tirar retratos às crianças chapinhando de maneira grácil nas águas do TasMahl ou contemplando as neves eternas do Kilimanjaro….
Do meu tempo de arroubos literários, lembro-me de ter produzido a minha versão de “Os Direitos do Homem”, com uma alínea que prescreve o direito universal a um prato:
Toda a gente nasce com direito a um prato
- note-se, vazio
Ninguém nasce com direito a um prato cheio
Pretender enchê-lo diariamente de iguarias em vez de alimentos, também isso é SL
E toda a nossa vida, caros conterrâneos, tem sido, quando não um exibir de Limousine, pelo menos um permanente aluguer do Táxi do Delfino

Deixo-Vos com um que já vai apetecendo caloroso abraço

"Yuppie End" (este titulo apareceu pela primeira vez depois da "Quinta-feira negra" de '87, mas agora parece que "o bicho" vai mesmo "pegar")

Tears for Fears - Everybody Wants to Rule The World



Welcome to your life
Theres no turning back
Even while we sleep
We will find you

Acting on your best behaviour
Turn your back on mother nature
Everybody wants to rule the world

Its my own design
Its my own remorse
Help me to decide
Help me make the most

Of freedom and of pleasure
Nothing ever lasts forever
Everybody wants to rule the world

Theres a room where the light wont find you
Holding hands while the walls come tumbling down
When they do
Ill be right behind youS

o glad weve almost made it
So sad they had to fade it
Everybody wants to rule the world

I cant stand this indecision
Married with a lack of vision
Everybody wants to rule the world
Say that youll never never never never need it
One headline why believe it ?
Everybody wants to rule the world

All for freedom and for pleasure
Nothing ever lasts forever
Everybody wants to rule the world

AGORA (Jose Manuel dos Santos - in Expresso (Actual) 18 Out 2008)

Vêem-se naquelas avenidas onde os que se julgam donos do tempo encontraram lugar para dizer uns aos outros que pertencem ao mesmo mundo. Quando a hora se aproxima daquela em que se almoça, descem à rua com os seus fatos (ou blazers) cinzentos e azuis, as camisas com as iniciais bordadas no peito, as gravatas às riscas ou com brasões. Sósias uns dos outros, parecem multiplicados. Agrupam-se por idades e importâncias, nessa marcha hierarquizada, como a de um exército que avança para uma conquista infalível: a do sucesso. Os que chegam imitam os que já lá estão nos tiques, nas frases, nas marcas, nos gostos, nos gestos. Olham para as mesmas montras e têm as mesmas ambições. Mas, como no início de carreira ganham menos, o que parece igual, é diferente: nos casacos de uns, há lã e caxemira, nos de outros, lã e poliéster. Aí vão eles, com o seu andar ritmado e triunfante, emitindo ondas de perfume e falando obsessivamente ao telemóvel.

Já me aconteceu estar perto deles e ouvi-los. Falam pela boca uns dos outros uma linguagem uniforme e só referem coisas que o dinheiro compra. Gostam de verbos como alavancar, implementar, obstaculizar, externalizar, despoletar, posicionar, checkar, feedbackar, colapsar. Dizem o comum do comum e o ínfimo do ínfimo, convencidos de que nas suas bocas está a chave do futuro. Sentem-se a vanguarda do capitalismo, assim, outrora, alguns se sentiram a vanguarda do comunismo.Não se lhes ouve pronunciar o título de um livro. Conhecem apenas relatórios e powerpoints. Acham que ler, pensar, ouvir, contemplar, saber, esperar é perder tempo, num tempo sem ele. Afinal, na Internet está tudo disponível... Julgam que a criação do mundo coincidiu com a data e a hora do seu nascimento. Não têm memória nem alteridade. Odeiam velhos, pobres, perdedores, pretos, feios, melancólicos e intelectuais, que complicam o que é simples. São homófobos, mas alguns, à terceira bebida, sucumbem ao encanto do corpo musculado do vizinho de ginásio. No fim, telefonam muito aflitos à namorada a dizer que ficaram a fazer serão no escritório. Casam em igrejas barrocas e fazem o copo de água em quintas nos arredores de Lisboa, ou sob tendas onde se repetem as ementas e as caras. Adoram-se e passam horas em frente do espelho a acariciar a face e a ajeitar o nó da gravata. Tomam ansiolíticos e antidepressivos continuamente e em doses crescentes. Dizem de si que são jovens de elevado potencial e acreditam que, com dinheiro, a juventude lhes será eterna. Estes lobos ávidos confundem informação com sabedoria, interesse com desejo, imagem com visão, alucinação com imaginação. Sofrem de todas as ignorâncias que falseiam a vida. , . Ignoram que o homem não é mortal porque morre, mas morre porque é mortal. Querem-se elegantes, mas desconhecem que o mais elegante dos gestos humanos é aquele com que fazemos passar os outros à nossa frente. . Falam do Valor e do Lucro como os teólogos falam da Graça e da Salvação. Pensam que aquilo em que acreditam é o 'horizonte incontornável do nosso tempo'. Vorazes, violentos, vis, vaidosos e vazios, são prepotentes com o seu poder e subservientes ao poder dos outros: escravos hoje para poderem ser senhores amanhã.

Num destes dias, num restaurante, vi-os. Comiam todos a mesma salada triste de salmão fumado. . Os nós das gravatas pareciam gastos, desalinhados e decaídos. O aroma do último perfume que acabava de sair, e que todos usavam, misturava-se ao invencível cheiro a queimado que saía da cozinha. O que balbuciavam sobre o afundamento das bolsas era incompreensível. O temor tornou-os sentimentais. Parecem atingidos por uma morte que os faz fantasmas. Talvez tenham começado a compreender que serão as primeiras vítimas do Minotauro que habita o centro do labirinto que eles ajudaram a construir. José Manuel dos Santos colunista regular do 'Actual'

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - VII

Mar

Mar é, simultaneamente, a originária matriz de todas as possibilidades e o horizonte sem coordenadas da sua ilimitada experiência. Mar é a metamorfose e o caldear contínuos do nada e do devir, do imanifestado e da manifestação, na desmontagem da ilusão do ser como proteico fluxo de ritmos e correntes. Mar é a mente, a vida e o mundo, instável meio ondulatório da errância do in-ex-istir na saudade da experiência total. Mar é isto a que sem saber o que seja nos habituámos a chamar “nós”, esta turbamulta de sensações, emoções e pensamentos com que nos identificamos, este Todo o Mundo-Ninguém que nos vive sem que o vejamos ou queiramos, neste tempestuoso ou sereno rolar das vagas de acontecimentos, percepções e experiências que acreditamos nossas. Mar, e mar sem fim, mar-oceano, é o fundo sem fundo de tudo, o abismo que se abre em todo o fundamento, o vórtice que sorve nas entranhas hiantes o Titanic da vaidade de sermos, o apocalíptico tsunami que limpa da face da terra e do céu tudo o que pretendemos ser, saber, fazer e construir. O abismo que, enfim, fulgura em toda a superfície a clamar a infinita, excessiva e indizível profundidade de todas as coisas. A glória e a graça do seu haver sem quê, porquê ou para quê.
É neste mar-oceano que naufragamos e nos perdemos sempre que nele nos pretendemos achar e salvar, sempre que nele nos supomos outros, sempre que nele fantasiamos rotas, refúgios e portos seguros, razões, sentidos e fins que se substituam à nossa própria pertença e reconciliação com a impensável e inimaginável infinidade, inocência e imprevisibilidade da vida na sua caósmica irrupção. Como é neste mesmo mar-oceano que, oferecendo-nos a todos os ventos e tempestades, desistindo de nos orientar na cerração, podemos naufragar e, abismados no coração selvagem das coisas, subitamente emergir Ilha Encantada e Rei Encoberto, Ilha dos Amores exuberante das delícias da conformidade entre nautas e ninfas, na andrógina abertura da divina visão da totalidade, comovidos de espanto pela revelação do que sempre desejáramos sem que o soubéssemos.
Pois desde sempre, e sobretudo quando nos escondemos, o que secretamente queremos é descobrir-nos. O oculto móbil de tudo é o Descobrimento.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Curto Manifesto de uma Filosofia de Malandragem

Nunca seja escravo.

Sempre tenta atingir a liberdade maxima.

Sem esforco individual não ha roubo.

Nunca rouba o que pertence de verdade aos outros.

A unica coisa que pertence alguém e o pensamento e a vida.

Os objetos sao livres.

Tenta sempre diminuir a dor, o seu e dos outros.

Nunca trabalha para a mão alheia.

Vive o momento espontáneo.

A dor e inevitavel para os que querem dominar o prazer.

O corpo humano não é um objeto.

O prazer particular não tem valor, pois o prazer é para todos.

A dor verdadeira é espiritual, mas nunca material.

Sempre vai à praia quando possivel.
...

para continuar



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Se é um utilizador do Blogger, aconselhamo-lo vivamente a activar o acesso ao seu Perfil.
Casos típicos sem comentário... anónimo, começam dum modo insultuoso. Permite o debate? Não!
Anónimo, lerá isto? Não sei nem me interessa.
Quem torna o perfil anónimo é pessoa de coragem e aberto ao diálogo e à procura da verdade?
Desde Constantino, que tornou o Cristianismo a Igreja Oficial do Estado... o que passou a ser o Cristianismo, qualquer que seja a sua «variante»?
Qual a verdadeira face das cruzadas e do colonialismo?
Ainda acreditam nas histórias da Maga Patológica ou da Fada Madrinha?
Deixo-vos a reflexão e a resposta,
Vergílio Torres
...Porque estou na Blogosfera

O Bosque

O bosque é o livro de onde falam as vozes que a alma consegue escutar. Entregue a esta certeza, ela leu alto das Sombras Errantes:

Diante de mim, no rio, na obscuridade, a silhueta revestida de luz de um barco achatado, vazio, que parecia vazio, movia-se bastante depressa, descia em silêncio. [O flamingo não é um barco pensa ela, é uma arca que passa no rio a caminho do outro reino, mas aqui é um barco.]
- Incomodo-te?
Ele estava à minha frente, segurando-se à margem com a ajuda de um remo amarelo.
- Dá-me a corrente – disse-lhe eu.
Ele estendeu-ma.
Ela é a leitora, é a que pergunta. Ele, o barqueiro, é o que chegando primeiro à clareira, responde e empresta a corrente. Foi com ela, a corrente, que chegou ao âmago do livro, do bosque. O escritor ainda estava lá dentro e o sol declinava como um verbo que se diz no plural: nós incendiamo-nos de um fogo-solar, quando abrimos a paisagem interior à exterior. Quando deixa de haver diferença entre uma e outra. A clareira é esse lugar a que se chega quando, lendo, a abertura nos unifica com todo o real próximo e distante, nomeável e inomeável. Com a página, com a paisagem. Ou, dito por outras palavras, a clareira é a página que no meio da obscuridade do sentido da vida, do livro, aclara e rasga a passagem para dentro do legível e do audível, do bosque. Uma clareira é uma página de luz para quem escreve e para quem lê. Porque a corrente, na leitura, pode não ser um movimento, pode ser só uma intensidade, pode ser uma paragem no lugar onde o autor cego de luz se prepara para os caminhos e os descaminhos do bosque. No bosque os étimos estão fechados nos anéis antiquíssimos dos troncos e escondidos na metamorfose das folhas e das cores, nos rumores e humores das palavras abandonadas e apenas consagradas ao silêncio e à passagem dos poetas. Mas a clareira pode ser o lugar onde o texto se faz claro, diáfano e mistério. O leitor pode ser o eleito pela luz espiritual com que o autor se manifesta como afim ao inteligível, ao Sol. A página-clareira é o lugar onde, no bosque e no livro, se prende a corrente. Ele continuou a escrever. Ela continuou a ler:
Prendi-a ao pequeno desembarcadouro de madeira que balança diante do meu eremitério.
Presa a corrente e dedicada à leitura, absorta, ela percebe como na margem da clareira e conduzida pelo autor-barqueiro, ela tinha finalmente no eremitério da alma uma voz, um tu acompanhado de palavras-ninfas. O livro tinha conseguido que junto ao rio o autor-barqueiro tivesse falado com ela. Havia um tu que conseguia entrar, vagar no eremitério da sua alma. E havia um coro que, vindo do interior tenso e intenso do bosque, cantarolava o imperceptível para o qual no início de ler os seus ouvidos não estavam preparados. Ela procurava-os, dentro e fora do livro, ao autor e às palavras-ninfas, na corrente que é a leitura. No bosque uno da página e das folhas, das árvores e do livro. A leitura não a afastava da corrente intensa dos rumores e da luz. A clareira abria para dentro das páginas, para a densidade cerrada das copas e dos ramos, das frases e dos parágrafos, os seus raios, os seus sons e os seus tons. O sol sabe geometrizar o seu alfabeto de rectas para o lugar em que as sombras e os sonhos se passeiam, se desenham, se insinuam com a forma despida da palavra. Mas a palavra é sombra-luz, da mesma maneira que é som-sentido, e chegada ao acto de ler, sem-sentido. Recebidas, lidas do bosque, as palavras vêm revestidas de uma novidade-antiga que perturba, afecta a relação com a corrente. Com a vida. A palavra é uma intensidade hesitante entre o ser e o não-ser, que nos afasta e aproxima, nos devolve e nos engole ao presente e aos presentes. Há nela uma matéria visível e invisível, há nela sonoridades audíveis e inaudíveis, perceptíveis e imperceptíveis, há nela tempo e in illo tempore. Ler é contactar com o que dentro do bosque gemia. Mas o que gemia? O autor toca as palavras na sua arqueologia. Na sua etimologia, na língua morta do esquecimento e na ferida do uso, a verdade original da palavra padecia. Ler é cuidar do que do antigo se anima. Reanima. Ler os antigos é cuidar daqueles a que o tempo impôs uma afonia, uma atonia imerecida.
No bosque, como no livro, o antigo não comunica. O antigo profetiza. O antigo é o advento. O bosque é para a linguagem o lugar da iniciação e de uma justa recordação. Depois de atravessar a clareira – e o bosque é o lugar, como bem sabia Heidegger, que não conduz a parte alguma – o autor descobre em si um dom. Escrever é, na dedicação a uma arqueologia que é a etimologia, a celebração baptismal da palavra e do coro das ninfas que a acompanham no seu adensamento de sentido e significação. Escrever é um acto arqueológico complexo e completo que procura o som e o sentido perdidos, esquecidos. Escrever é uma anamnese que pretende a unidade da coisa com a palavra original. É esse o nome. Escrever é renomear.
Para a Lúiza, para o Soantes. Para os leitores.

Partilho a cozinha com baratas e sou vizinha das putas. No entanto, sou mais feliz do que alguma vez sonhei vir a ser.

Pois é preciso que as ilusões morram para que os sonhos possam frutificar.

Robbie Williams - Feel

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - VI

Nau

Nau é o que somos quando não presumimos ser alguma coisa. Nau é o corpo e a mente em que navega no oceano do mundo o piloto que não há. Que acreditamos haver quando não o procuramos, mas que, vendo bem, se não encontra na espuma das formas, sensações, percepções, conceitos e consciência que supomos unificar. Porque, como vimos, não há ser mas devir, o sujeito da viagem é a própria viagem, sem sujeito.
E assim a nau se revela o próprio oceano. Só assim, naufragando, afundando e afogando a ideia de sermos idênticos ou diferentes, nos salvamos do andar à deriva e do errarmos sem fim nem encontro, de ilha para ilha, de porto para porto, de ilusão para ilusão, verdadeiro Navio Fantasma, nesse outro e mesmo oceano da nossa inconsciência de o sermos. De sermos Tudo-Nada, Todo o Mundo-Ninguém. Todo o mar em todas as ondas.
Para que a nau seja a própria via é necessário que navegue sem bússola, remos, velas, leme, timão ou quilha. Levada pela ondulação e pelo vento de nada saber nem imaginar, de nada querer nem rejeitar, de a nada ser indiferente. Antes infinitamente sensível. A todas as terras e céus, a todas as paisagens, a todas as vagas, a todos os ventos. A todas as tempestades e bonanças. A todas as direcções e horizontes do não os haver.
Disponível para todo o Mar.

Tomai e bebei todos!

VT in Neste Mundo

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Elogio da Malandragem




Domingo passado em Ipanema:

Um céu azulíssimo, uma das maiores concentrações de corpos lindos à face da terra, o mar coroado de ondas mornas, o morro dos Dois Irmãos, a Pedra da Gávea e a Floresta da Tijuca a sorrir-nos sobre o nosso ombro direito.

Volto para toalha depois de ter sido enrolada umas duas ou três vezes pela rebentação e tento escrever. Que inveja dos surfistas! Quem me dera ter me permitido aprender a surfar nos anos em que pensava que isso era actividade de meninos calões que não gostavam de estudar e nunca seriam nada na vida ...

Para quê escrever quando tanta beleza exige a nossa atenção absoluta e integral?

Para quê estudar quando tanta beleza nos transmite num só momento de intuição a essêncial inominável de toda a philosophia perenis?

Para quê produzir quando nos é oferecida de graça tanta plenitude?

É por isso que admiro a sabedoria dessa arte bem Brasileira que é a da Malandragem, uma filosofia de vida profundamente amoral (o que não significa imoral, pois é o oposto de tudo o que é sistemático) que expõe toda a hipocrisia, pretensão e vaidade que se esconde debaixo das melhores intenções, do politicamente correcto, da intelectualidade (esse charco imundo de distúrbios da personalidade), da ética do trabalho e sobretudo da ilusão suprema, que sustenta a nossa sociedade supostamente civilizada, que é a da retribuição: Se fores uma boa menina ou um bom menino, se trabalhares muito, se fores boazinha ou bonzinho com os demais, se cumprires todas as regras morais que te enfiaram pela garganta abaixo e se fores generoso/a com os supostamente mais necessitados, vais te dar bem. Serás reconhecido/a socialmente, ganharás os favores de Deus/acumularás bom karma, todos aqueles a quem supostamente fazes o bem ficarão muito agradecidos e terás acesso a todos os confortos e mordomias reservados aos "bons cidadãos", "bons profissionais", aos "educadores", aos "formadores de opinião" e aos bons pais/mães/filhos/irmãos e outros membros de uma família. Quem sabe, até atingirás a Santidade/Iluminação?

Mas a realidade não é assim. Se fosse, como seria que um Ron Briggs, afamado assaltante de comboios Britânico, vivesse durante décadas uma vida de nababo aqui em Terras de Vera Cruz e até se tivesse tornado uma atracção turística, ganhado pipas de massa à custa de organizar churrascos com turistas curiosos de saber o segredo da sua boa vida? Como seria que mulheres e homens perversos ou pobres do ponto de vista emocional e/ou intelectual conseguissem viver grandes amores à custa de qualidades superficiais? Como seria possível que o Zezé Camarinha conseguisse enriquecer e até abrir o seu próprio negócio à custa de expôr a sua vida íntima de uma forma que nós, os bem-pensantes, achamos exibicionista, obscena e imoral? E então, como seria possível que o que julgamos ser umas "bestas quadradas" e/ou "pútulas de corrupção" conseguissem galvazinar tanto apoio político e/ou tanto "sucesso" material? Melhor ainda: Como seria possível que agiotas se tornassem santos?

A lei da Malandragem é a lei mais primordial que existe: A de saber ouvir o instinto e de o seguir a ele, e apenas a ele, de modo a minimizar o esforço e a dor e maximizar o prazer.

Que vivam os Malandros, exemplo mais perfeito a Besta Sadia Nietszcheana. Eles existem para nos lembrar da importância da incondicionalidade. Todo os esforços que empreendamos que vão além da lei da Malandragem, que os façamos não porque esperamos algum resultado específico, reconhecimento ou recompensa neste ou noutro mundo, mas pura e simplesmente porque o queremos fazer, porque temos prazer no próprio acto de os tentar concretizar, porque ao fazê-los cumprimos e nos libertamos daquilo que há de mais ilusório: A ideia de termos um "eu".

Senão, que nos entreguemos às exigências sofregas da beleza que nos rodeia.

Reprimir

Há que reprimir
tudo para dentro
até não existir dentro
tudo bem apertado
para não sair
é uma arte
há que limar bem limado
para não sair para fora
fácil é sair para fora
tudo à toa
como fazem os incontinentes
aqui há que apertar o rabo
e afigura-se isto até mais fácil
do que deixar sair
a deixar sair haveria critério de saída
qualquer coisa, de determimada forma, sairia.
Assim, reprimindo tudo para dentro,
não se faz coisa sequer
não compromete
e até nem enche
e com o tempo dizem que explode
mas são mitos.
Há que saber reprimir.

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - V

Viagem

Viagem é nascer a cada instante para a eterna novidade de si e de tudo. Ser novo e outro a cada momento e queimar a ilusão do bilhete de identidade. Libertar-se da crença na permanência e na personalidade, ou seja, trocar as voltas ao tempo e à morte. Não ser um ser vivo mas a vida, não ser uma pessoa mas a per-sona através da qual ressoa a trans-pessoal verdade de todas as supostas pessoas e coisas, miríade de máscaras do carnavalesco bailado eterno do rosto único e infinitamente múltiplo de tudo.
Viajar é levar a in-ex-sistência à plenitude do possível a que saudosamente aspira, a experimentar tudo de todas as maneiras, no interior, no exterior e para além da ilusão de os haver. Sempre sem pressupostos, projectos ou planificações. Pois doutro modo não há viagem. Apenas turismo. Que é deslocar-se sem partir, levar as malas bem carregadas de si, simulação de ir a toda a parte sem jamais sair de lado algum.
A verdadeira viagem é a um tempo absolutamente irreversível, pois nunca se repete ou regressa a um único momento do que se vai sendo, e infinitamente reversível, pois a cada momento se reitera o e regressa ao instante sem determinação, ontológica, ôntica ou temporal, que permeia todas as configurações do existir. Livre vacuidade e vacância que tanto é possibilidade de autocriação, decisão e rumo novo, não condicionados pelas opções anteriores, como de arrebatadora suspensão de todo o ser, pensar, criar e agir, inebriada conversão do êxtase da ex-istência no ênstase da in-sistência, trespassando o fado do ser no mundo com plena liberdade de nele se reinscrever ou não.
Porém é da natureza dos opostos que coincidam, aquém ou além do arcanjo de espada flamejante da razão dualista, que só a si mesma impede o regresso ao paraíso de cada instante. A verdade da viagem é assim a verdade da saudosa in-ex-istência que somos: renúncia a tudo que seja menos que tudo e nada, festivo vínculo a todo o possível e ao impossível que o possibilita. Ser e sentir tudo de todas as maneiras, ser uno e múltiplo como o universo e, simultaneamente, fruir a irrealidade de tudo isso. Viajar e viajar-se infinitamente, com o reconhecimento pleno de nunca haver quem parta de, chegue a ou esteja em lado algum.
O que parte sem partir é a Nau.

domingo, 26 de outubro de 2008


porque (re)criar é preciso!



ainda estou a digerir o conteúdo do filme e a juntar as peças do acaso que rodeia estas personagens


se puderem, respirem este filme


e falamos depois



que tal?
Viagem


(O mar rasgou a névoa, para lá de onde a nau havia, estava a ilha a ser. A névoa desfazia-se no horizonte, e o vento arrastava as nuvens, como a nau ceifava no mar. O mar era um caminho largo, as águas balançavam ao som do vento brando em brandas vozes a bramir baixinho ao ouvido das naus. “É Hora, é Hora!” E a viagem prosseguia a contentar as águas, a suave brandura das velas brancas. Mas a viagem não é o caminho nem o viajante; porque a viagem não termina na ilha. Esta apenas oferece do líquido do de Amor, o de que se contentar o marinheiro, no repouso da viagem. A viagem é um caminho mais acima, um caminho para o céu; não o céu dos que o merecem na morte. É antes aquele que dentro da viagem segreda ao marinheiro “Está próxima a ilha, está próxima a ilha! ”Havia a viagem e a Hora para onde o horizonte se abria à ilha e se chegava à nau a ilha que não havia. Havia a demanda, a questa eterna que impele para a viagem, que se cumpre no descobrir do questionar. Esta questa é a eterna saudade a lembrar o cais de partida; a lembrar o esquecimento insistente do mar sem princípio nem fim, por dentro da viagem. É um mar rumoroso e tenebroso de desconhecido e ausente palpitar. “É aí! É aí.”Aí onde não está o fim da viagem, nem o princípio se acha nesse aproximar. A viagem é antes do início e termina para lá do fim. È infinita e ilimitada. A ilha só surge quando o rei se avistar. E só acolhe, se for afortunada a alma de quem reina, ou reinou, ou deixou de reinar. A viagem é uma roda gigante a andar sobre a terra e sobre o mar. E o império continua para além do imperador. E o fim de qualquer viagem é a busca do sem fim. O ser da viagem só existe, não para castigar os inocentes, nem aos culpados engana, por maldade ou prazer. A sorte antes avisa os afortunados que a viagem é breve e atribulada e que os tempos empurram outros tempos, mas a roda da viagem não teme o mar e os perigos, a roda não vinga o imperador ou o beneficia o futuro rei. Cada alma é uma viagem sedenta dessa mesma viagem, mas a roda não oferece a escada para o céu. O viajante só repousa quando os olhos perseguem a ilha e o céu parece clarear. Mas é tão só o eco, a reminiscente voz que traz afortunado o que a ouve: é a Hora, é a Hora. E a ilha surge no centro do horizonte da mesma viagem.)

P.S. É a minha forma de agradecer ao Paulo, viagem que me fez fazer e que não termina na visão da ilha.

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - IV

Demanda

Andar em demanda é viver ferido e movido da fome e sede de todo o ex-istir. Fome e sede de ser e de supra-ser, fome e sede de todo o possível e do impossível que nele há, saudade funda de ser e sentir tudo de todas as maneiras e de a isso mesmo superar, sem deixar nada de fora da plenitude de o não haver, de não haver dentro nem fora. Demandar é não se saciar com menos que o Infinito que se é na Encoberta Origem-Oriente de si e de tudo. Por isso a demanda é questa: pôr radicalmente em questão todas as falsas seguranças, prazeres e riquezas da ex-istência, todas as ilusões de serem ou poderem ser jardins de delícias as duras e sempre efémeras terras de exílio, todas as ficções de serem pátrias e lugares naturais de habitação e convívio os modos quotidianos de ser, sentir e pensar.
Demandar é partir. Demandar-se na Origem é exilar-se do exílio dos hábitos mentais e emocionais, dos hábitos sociais, culturais e civilizacionais, dos hábitos. É expatriar-se, desancorar-se, dessedentarizar-se. Passar pela escura noite do abandono de todas as referências, apoios e portos de abrigo, ser deserto e oceano e neles peregrinar ao Deus dará da libertação de todos os rumos. Abrir mão de todas as opiniões, crenças e doutrinas. Deixar cair tudo, reconhecer que nunca se esteve, nunca se está e nunca se estará senão nu, irremediavelmente nu. Por mais ficções que se inventem, por mais ademanes de boa consciência, por mais camadas de artifícios e maquilhagens em que ilusoriamente nos escondamos. Todas são transparentes. E a nossa nudez também. Tão transparente e luminosa que nos revela o Rei e o mundo que somos a descoberto. O rei vai sempre nu. É essa a sua implacável majestade, que onde irrompe dissipa todo o medo, disfarce e hipocrisia. O fazer de conta que se é o que nunca se foi e jamais se pode ser. Um ser existencialmente correcto num mundo de convenções. Num mundo de legalidades à margem da única Lei da Origem, a Liberdade-Plenitude de nada-tudo ser. Isso que se é, sem dever nem direito: não parte, mas todo; não fatia, mas bolo; não finito, mas Infinito.
Demandar é partir. Do próximo para o distante, do conhecido para o desconhecido, do que nos presumimos para o que somos sem presunção de o aprisionar no conceito sequer de ser. Desorbitar-se do que se pensa ser para o que se devém sem pensar. Largar amarras do repouso no ser sediado, sitiado e sedentário para a odisseia do vagar disponível pela infinita abertura dos possíveis. Desenquistar-se do crer-se um e um eu para o desfraldar-se metamorfose e Viagem na vertiginosa sucessão de todas as paisagens.

sábado, 25 de outubro de 2008

Cinco Princípios




I Alma

Um vento transparente e invisível
leva o corpo do berço para a tumba
enquanto a vida pesa como chumbo
a alma é uma pluma leve e indivisível

centro e margem de um continente
feito de sangue, carne e saudade
não ela mas o corpo é o penitente
das coisas e da última verdade

da primeira também e do caminho
que nada tem a ver com ela
dizem que ela é um hálito divino

mas ao mesmo tempo ela é a vela
que leva o barco até à sua ilha
nas ondas dolorosas e doces do destino


II Saudade

Onda dolorosa e doce do mar salgado
vã palavra ou indizível vibração
cinde e une as lembranças em vão
e do profano parte para o sagrado

como o marinheiro à ilha afortunada
e a criança santa para a cruz
a saudade é a noite cheia de luz
uma estrela moribunda ardendo no nada

que é tudo quando o desejo venha
como um sonho sonhando que nunca tenha
saída sem regresso e entrada sem saída

olhando na paisagem do píncaro da vida
o futuro que uma lágrima desenha
na linha limiar da infinita despedida


III Horizonte

Linha infinita e limiar da mente
última região da realidade
até lá tudo é insuficiente
uma cartografia invertida da verdade

o horizonte é uma lâmina afiada
que finge abismos escuros e paraísos
e quem escuta os seus avisos
naufraga na água e depois no nada

no primeiro traço da última cisão
onde os peixes beijam as aves
e onde o céu engole as naves

no ponto onde a terra não tem chão
colorida da cor crepuscular das nuvens
tudo é possível na sua extensão


IV Liberdade

Tudo seja possível, exige a boca
para devorar inteiro o que existe
e que a fome humana pede de troca
da vida finita, dolorosa e triste

mas a liberdade não vem da falta
e nem da vontade sangrenta
talvez da saudade, que é mais alta
e na sua altura solitária inventa

uma companheira que nunca jura
nada para ninguém, somente a esperança
e uma sentença sem espada nem balança

a liberdade parece uma dança
da razão amarga com a loucura
alguém que perde e alguém procura


V Culpa

O homem que procura é este alguém
é uma sombra do deus ignoto
andando atrás do que nunca vem
carregando nas costas a história e o mito

e nos seus olhos o dom de ver o outro
a chaga purulenta do seu vizinho
e encontra na carne alheia um voto
um cálice dourado cheio de vinho

a culpa é mais profunda do que o pecado
que nem existe na verdade
o pecado é um produto da sociedade

mas a culpa do homem é um eterno fado
casada com a alma num círculo calado
com a saudade, o horizonte e a liberdade.

Sobre o Todo

I.

Será o todo apenas a soma das partes?
Para mim, o todo é mais do que a soma das suas partes.

Se calhar não estou correcto. Muito provavelmente.
Mas parece-me ser demasiado limitativo que o todo seja apenas a soma das partes.

Se algo for criado a partir de uma parte, fará com que o todo seja ainda mais todo.
Ou seja, se uma parte evoluir, o todo que daí surgir será diferente daquele que apenas seria sem essa evolução.

II.

A minha intuição é que é precisamente isso que faz com que o universo não seja apenas um, mas uma multiplicidade de possibilidades intermináveis.

Cada possibilidade nova, abre-nos um universo dentro do universo.

III.

O mesmo tempo dá origem a vários espaços e até a desfasamentos dimensionais dentro do mesmo espaço e tempo.

Diferentes frequências que coexistem no mesmo espaço

Será apenas a soma das partes o todo?
in Livro dos Pensares e das Tormentas

Domina Maris

Mar

(A Origem, saudade que remete para plenitude na ausência ou ausência plena, move-se no caos primevo do Grande Oceano, dentro e fora, oriente e ocidente em nós e no mundo. E o sentido deste oceano insituado é o ponto onde a ilha sem nome e sem rosto se move. Demanda universal da vazia estalagem onde aportam as almas e os barcos que ainda não partiram nem chegaram, porque não há lugar aonde ir fora desse Mar, e dentro dele, tudo é a mesma saudade. O mesmo pulsar universal da eternidade. Não os barcos e as almas que do rumo das bandeiras levam o desejo de domínio ou de novos impérios de terras e de homens, mas as almas e os barcos que invocam a Domina Maris de uma descoberta interior. Por isso mesmo, o mar é abismo onde a alma bebe o verbo e o sal, para além do mar existente que se não pode demandar, que não busca o achamento, tão só a sua memória. Mar que é em si e fora de si não o fim da demanda, mas a eterna demanda de uma memória insubstancial. Reminiscente e insistente memória do Caos primevo, andrógino, memória e esquecimento do mundo, coisa profunda e móvel que no oriente, no ocidente, do dentro e do fora do círculo e dos ciclos dos tempos, das dimensões e das distâncias; do que não está nem em movimento nem em repouso. Tão só repousa agora no movimento o que antes se movimenta no repouso. Em todos os sentidos e em todas as direcções, simultânea e atemporalmente. Isto é o mar sem fim que no abismo das almas saudosas se festeja. Para além das cordas do tempo, para lá do existente, vibra um som ausente e fundo. Domina Maris, Senhora do Mar lhe chamo, mas não lhe chamo pátria, pois não lhe dou um rosto com que não possa olhar-se nem olhar-nos nem ser olhado. Um som que se ouve para além da cessação do som, para além do ruído físico das bátegas e das tempestades. O Mar, água de luz e treva que a tudo envolve no instante em que se dissolve na substância oculta da sua sombra. Aí onde a Saudade busca a sua origem e a montanha petrifica a saudade do mar. Mar sem fim, infinitamente equidistante do antes e do depois do navegar à vela dos sentimentos e das emoções. Muito antes do desejo e do domínio. Mar nosso, como oração no deserto, a bater persistente e insistentemente na eternidade das nossas inexistências embarcadiças. O mar não é um ente nem tem cor; é um desejo de nadificção plena, de morte do que se agarra à mente inexistente. Elemento sagrado da nossa proximidade e distância, caminho simbólico para a ilha não menos simbólica do reino de nenhum lugar e de todos os lugares onde a ideia do Encoberto se desencobre
em Origem.)

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - III

Encoberto

Encoberta é toda a Origem para todo o ex-istente e todo o ex-istente para si mesmo, na medida em que, dela procedendo e a ela demandando, nela se ignora, buscando-a e buscando-se como se desde sempre e para sempre nela intimamente não permanecesse. Encoberta é pois a realeza de todo o ser e de toda a consciência, a sua verdade, liberdade e soberania plenas, de que são pálida imagem a ciência, o livre-arbítrio e o poder. Encoberta a Origem e Encoberto o ex-istente, Encoberto é o mundo original, a festiva ebulição de todas as coisas na matriz do seu poder ser e ser tudo. Assim, abandonada a ilusão de um salvador ou salvação exteriores, o Encoberto Rei que mora esperando na Encoberta Ilha é todo o outro do ser que, nela e fora dela, na Origem e no exílio, espera por si mesmo, o si sem si de tudo que sem esperança nem desespero se espera, aguardando, ou seja, vigiando, resguardando, o resgate da consciência vagamunda e o fim do exílio que em verdade nunca se iniciou. Vislumbrando, daquém e dalém mar do esquecimento, o pleno reencontro do que em verdade jamais se apartou. A complementaridade dos dois que nunca foram senão um, ou nenhum, símbolos que somos, nós e tudo, de não haver separação. Por isso é infinitamente mais verdadeiro que 1 + 1 = 1. A equação aritmética do Amor que somos, mas que nos falta. Porque nos faltamos. Mas sê-lo e não havê-lo, pressenti-lo e desejá-lo, é a condição da Demanda.

O Menino Jesus em mim, o Eterno Menino

"(...) ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo*
E que tudo vale a pena."
Alberto Caeiro

"Ah, que diversidade,
E tudo sendo. O mistério do mundo,
O íntimo, horroroso, desolado,
Verdadeiro mistério da existência,
Consiste em haver esse mistério."
Fernando Pessoa

Quando esquecemos que esse mistério existe, substituindo-o pelo conhecimento criado pela Humanidade, que afinal não é mais do que história, ou memória colectiva, pois já não pertence ao momento presente, deixa de haver o que viver... ao negar-se o mistério, nega-se a vida, pois ela compreende sempre algo mais do que possamos julgar - na sua infinitude de tempo e espaço. Apenas assumindo que o mistério é subjacente à vida, se vive:
ao renascer-se a cada momento...

"Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo..."

*Quando Alberto Caeiro diz que não há mistério no mundo, significa que o mundo é o próprio mistério, em contínua revelação.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Morte de Pierre Weil, psicólogo e filósofo Francês, fundador da UNIPAZ, sediada em Brasília: Mensagem de Jean-Yves Leloup


Pierre Weil (Estrasburgo, França, 1924 - Brasília, Brasil, 2008)
UNIPAZ
Nosso amigo Pierre Weil nos deixou - ele deixou seus limites para ser "um" com este Infinito cuja intuição e pressentimento ele tinha desde a sua mais tenra infância.Sentiremos falta da sua presença forte e frágil ao nosso lado, temos o direito de chorar... no entanto, devemos nos lembrar das suas palavras:"Saibam que a morte não existe enquanto desaparecimento definitivo da nossa existência; é apenas uma transformação, uma mudança de estado de consciência, comparável ao sonho e ao sono profundo...Se compreendermos isso, poderemos ficar contentes, lúcidos e estar em paz... enviem do fundo do seu coração um voto para que este estado se comunique a todos os seres vivos..."Nossas lágrimas serão, então, como as lágrimas do mestre, que ele frequentemente mencionou: lágrimas de compaixão.Que as sementes de consciência e de paz que ele plantou em nós e nas obras que ele fundou continuem a florescer e a dar o seu fruto.De agora em diante, que a sua presença, "clara e infinita luz", nos acompanhe...
Jean-Yves Leloup
P.S.: Não poderei estar com vocês no dia de hoje, mas vocês sabem que o meu coração está próximo do de vocês e do de Pierre. Meu grande abraço a todos.
Original em língua Francesa:
Notre ami Pierre Weil nous a quitté - il a quitté ses limites pour être "un" avec cet Infini dont il avait dès son plus jeune âge l'intuition et le pressentiment.Sa présence forte et fragile à nos côtés va nous manquer, nous avons le droit de le pleurer... mais il faut pourtant nous souvenir de ses paroles :"Sachez que la mort n'existe pas en tant que disparition définitive de notre existence ; c'est seulement une transformation, un changement d'état de conscience, comparable au rêve et au sommeil profond...Comprenant cela, vous pouvez être heureux, lucides et en paix... émettez du fond de votre coeur un voeu pour que cet état se communique à tous les êtres vivants."Nos larmes deviennent alors comme celles du maître dont il nous a souvent parlé : des larmes de compassion.Que les semences, de conscience et de paix qu'il a déposées en nous, et dans les oeuvres qu'il a fondées continuent à fleurir et à porter du fruit.Que sa présence, désormais "claire et infinie lumière", nous accompagne...
Jean-Yves Leloup
P.S. : Je ne peux pas être avec vous aujourd'hui, mais vous savez que mon coeur est tout près du vôtre et de celui de Pierre. Je vous embrasse.

Chamei-lhe um figo


fotografia de João Sousa

A Primeira Religião do Mundo

"Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
- Mas o que é sentir?
Ter opiniões é não sentir.
Todas as nossas opiniões são dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. (...) O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras é proibido ser explícito.

Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar - são os únicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos são divinos porque são a nossa relação com o Universo, e a nossa relação com o Universo Deus.
(...) Só sentir é crença e verdade. Nada existe fora das nossas sensações.
(...) Não há critério da verdade senão não concordar consigo próprio. O Universo não concorda consigo próprio, porque passa. A vida não concorda consigo própria, porque morre. O paradoxo é a fórmula típica da Natureza. Por isso toda a verdade tem uma forma paradoxal.
(...) Pensar é limitar. Raciocinar é excluir.
(...) Substitui-te sempre a ti próprio. Tu não és bastante para ti. Sê sempre imprevenido por ti próprio. Acontece-te perante ti próprio. Que as tuas sensações sejam meros acasos, aventuras que te acontecem. Deves ser um universo sem leis para poderes ser superior. (...)
Faz de tua alma uma metafísica, uma ética e uma estética. Substitui-te a Deus indecorosamente. É a única atitude realmente religiosa (Deus está em toda a parte excepto em si próprio). (...)"
Fernando Pessoa, "Sobre «Orpheu», Sensacionismo e Paulismo"


quantas alvoradas
nas crostas do ventre alado do vento rasteiro
e amplexo de punhal no verso de existir
quem sinta a imensidade a irromper no entre isto
no cá e lá de estar atento
quantas
as núpcias do olhar e do firmento
debaixo do chão e das contracturas dos penedos
só medos e restos de memórias de não ter sido
com sabor à crepitação das oliveiras
quando envoltas em luz do sol que as torna álgicas demoras
dum tempo enroscado aos desejos e aos bocejos das coisas enxugáveis
são rúmulos murmúrios e rumos onde a morte se torna navegável
e há um depois que não se sente
um rasgo de treva que não pertence à sorte
há o que vem no que se fica a ver
do lado de cá dos olhos com amplitudes secretas
só espaço espiralado e marulhante
temos os mares todos no estarmos acesos
todas as vidas nos sopram em metástases
estilhaços
coisas de ser e ter sido
que bailam sem se deter
além da fogueira e da perdição no coração e nas partidas
quantos barcos se nos tornam do avesso
barcas do fim e sem princípio
no lodo e na frieza de manhã
onde quer que nos vejamos como eco ou como partitura
quantas madrugadas
vieram e lavraram o nosso sono
e as mãos
essas máscaras com que criamos o entrudo que somos
asas de pomba naufragada
começo falhado de rio
enxadas que dedilham a terra
e a tornam um silêncio moldável
ficam cravadas na escuta

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - II

Oriente

Manência, procedência e abertura, a ex-istência é saudade da Origem sempre instante. A Origem simbolizada no Oriente, crepuscular alvorecer de um puro advir no seio do nada ou do primo e irredutível indiferenciado, alheio a qualquer entificação, divina, humana ou outra. Oriente não geográfico, sempiterno, sem Oriente nem Ocidente, ou seja, sem nascimento, duração, declínio e morte. Sol sempiternamente nascente e poente. Treva a iluminar-se, luz a entenebrecer-se. Caosmos.
Símbolo da matriz de todo o possível, da virtualidade inesgotável e infinita, onde toda e cada coisa é um poder ser tudo, o Oriente orienta, polariza e magnetiza a saudade de todo o ex-istente. Pois tudo o que aparenta tornar-se alguma coisa, tudo o que se de-termina e limita, aspira a transgredir-se devindo tudo o que pressente jamais ter deixado de ser. Mas só se pode devir tudo reconhecendo-se nada. Não o nada como não ser, mas enquanto “nulla res nata”, origem latina do “nada” português e castelhano: não manifestação onde nada se reifica e tudo é possível, sempre e a cada instante. Só o grau zero do ser é plenipotente matriz de todas as possibilidades, que nela são acto, antes de qualquer actualização parcial. Só o vazio é absolutamente pleno. Por isso a Origem, sem que em si o seja, se converte num fim e numa orientação, um fascínio que move ao seu reencontro tudo quanto dela se extravia, ou seja, tudo o que nela é e a é ignorando-o e ignorando-se pela identificação ilusória com o ser isto ou aquilo que o esquece e vela como o nada que é tudo. A Origem reorienta tudo o que a encobre encobrindo-se. Tornando-a e tornando-se Encoberto.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Pedaço de Mim

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

Chico Buarque

Numa onda particular de saudade, este e os outros dois poemas.

Primavera

Murchas estão as flores, ainda não cresceram os alperces verdes
Quando voa a andorinha
O rio de águas glaucas circunda as casas
O vento voltou a transportar a flor do salgueiro
E em todo o horizonte não há onde cresça a erva perfumada
Por detrás do muro há um baloiço, fora do muro um caminho
Fora do caminho um caminhante
Por detrás do muro o riso de uma rapariga
O riso vai-se atenuando, o seu som vai-se apagando
E começa então a saudade do amante pela sua amada.

Su Dongpo (1035-1101)

Retrato de uma sombra

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.


Paul Celan

Este é um dos poemas de que mais gosto, e quando o Professor falou numa recolha de textos sobre a saudade, também me ocorreu prontamente. Não sei se poderá/deverá incluir-se nesse conjunto mas resta, pelo menos, a sua beleza.

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - I

Introdução

Publicou António Quadros em 1967, em O Espírito da Cultura Portuguesa, um ensaio onde, procurando formular o que seria o “ideal português”, na linha das preocupações da Renascença Portuguesa, enuncia “um grupo de dez palavras ou cifras, cujo sentido ideal e simbólico se desdobrou na nossa cultura em vários planos significativos, desde o literal ao simbólico, do poético ao artístico e mesmo ao filosófico”. Diz serem “arquétipos” [...] cuja conjugação desenha porventura [...] o ideal português” e que seriam tónicas profundas do “nosso modo de filosofar” ou “palavras-mães” “que nos soam tão familiares [...] que nem reparamos na originalidade das meditações que nos sugerem”. Ilustra-o com sintéticos mas fecundos desenvolvimentos da premência na história, na cultura e no pensamento português, bem como das sugestões filosóficas e universais, das palavras nesta ordem apresentadas: “Mar, Nau, Viagem, Descobrimento, Demanda, Oriente, Amor, Império, Saudade, Encoberto”.
Não pretendemos fazer aqui uma avaliação crítica desta proposta, da qual indicamos apenas o seu notável valor sugestivo, e pelo menos representativo de uma dada forma de pensar e vivenciar a história cultural portuguesa, que não se pretende aliás uma enumeração e interpretação fechada, exclusiva de um “alargamento a outras palavras não menos arquetipais”. O nosso objectivo é outro. Em homenagem ao saudoso pensador e Amigo, convictos de que a melhor forma de o fazer é pensar a partir dele, desenvolvendo aquelas que nos parecem as suas mais amplas possibilidades, mesmo se isso nos levar a um salutar afastamento dos seus horizontes mais imediatos – o que é sempre um modo de lhes desvelar insuspeitas amplitudes – , arriscamos aqui uma leitura especulativa e pessoal dos dez vocábulos, que por esse motivo reordenamos, assumindo-os não já como arquétipos e indicadores do “ideal português”, mas antes como instâncias da realização de si, do nosso ser e consciência mais universais e profundos. Pretendemos passar assim da hermenêutica filosófica da cultura portuguesa para, assumindo toda a inspiração que possamos colher de elementos fundamentais dessa cultura e da nossa vivência dela, deles não menos nos expatriarmos no sentido das profundezas do ser universal, anterior e posterior a toda a determinação e representação histórico-cultural. Que isso, todavia, possa constituir-se, retroactivamente, em factor de reformulação, e porventura de enriquecimento, da própria cultura a que não deixamos de pertencer, é natural e grato. Ultrapassar algo, tomando-o como trampolim para ir mais longe, é enriquecê-lo, mostrando limiares onde de outro modo só se experimentariam limites.

Saudade

Saudosa é a condição de toda a ex-istência. Ex-istência: ser a partir de e em exposição e abertura a, originária cisão que é intrínseco vínculo ao imo da plenitude primordial e anseio da experiência total aí possível. Como se denuncia na etimologia e na evolução semântica, é inerente à experiência da saudade a singularidade e relativa solidão, bem como a união e aspiração, em memória e desejo, ao pleroma aparentemente abandonado e à fruição de todo o possível, em reminiscência e pressentimento de uma saúde que é salvação, libertação do êxodo ex-istencial que realiza a sua mais ampla possibilidade. A saudade é in-sistência na ex-istência, ser em do que é a partir de, integração do que se cinde. Revela assim a condição in-ex-istente de tudo o que se manifesta ou percepciona como entes e coisas, a sua comum união-cisão, a sua solidária interdependência, ou seja, a sua ausência de realidade substancial e própria, independente do entrançado matricial em que se constelam e entre-são e da consciência que o percepciona, no mesmo entrançado tecida.
Pode a saudade ser predominante ou simultaneamente retrotensa, protensa e intensa. Do passado, do futuro ou do eterno instante. Todavia, sendo do passado ou do futuro, é sempre do eterno instante, mesmo que iludida o recorde e/ou deseje no passado ou no futuro. Pois só os instantes experimentados como eternos, furtando-nos ao comum encadeamento do tempo e à monotonia da sua consciência, nos trazem a glória de que há saudade. A glória dos seres e das coisas surpreendidos no esplendor da sua intemporal origem: um rosto, uma relação, uma paisagem, um cheiro, uma melodia, um sabor, um objecto antes de o ser, sempre um afecto. A afecção pela plenitude sensível, física ou não, de haver algo e simultaneamente o nada, a afecção pela graça e glória do mundo, pela glória que gratuitamente há no mundo. A comunhão primeira, sem quê, nem porquê, nem para quê, anterior ao refúgio do ser e da consciência na sub-jectividade que os agride e auto-lesa pro-jectando o que se lhe ob-jecta, os objectos perante os quais se perfila e sub-ordina, desejando-os ou rejeitando-os na mesma saudade de os não haver.
Saudade do nem sujeito nem objecto. Saudade da Festa e jogo primordial, dança arrebatada e livre dos sentidos-consciência-fenómenos, inocente nudez das delícias anteriores ao exílio do conhecimento do bem e do mal, da memória que é esquecimento, da busca de sentidos e verdades, razões e finalidades, seres, saberes, teres e afazeres. Festa anterior à insegurança, ao medo e à agressão, ao desejo, à aversão e à indiferença de uma consciência privada porque autocentrada num ilusório lugar próprio, constituído por demissão ou esquecimento da irrecusável plenitude. Festa anterior ao haver antes e depois.
Saudade de não haver saudade. Impulso de a matar na inefável Origem anterior a sê-lo. Anterior a ser Oriente.

"Só então (...), por já não ser, será"

"Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado 'Nau Catrineta'. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.

Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.

Pensava também que se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.

No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia em silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.

Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário de almoço dos turistas - coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria palavra, desligada de mim.

Tempos depois escrevi estes três versos:

A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha."
Sophia de Mello Breyner Andresen, Ilhas

(Foto da Campanha Nacional da Voz - Brasil)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

CURSO DE INTRODUÇÃO À FILOSOFIA E À CULTURA BUDISTA 2008-2009

Atendendo ao crescente interesse e às solicitações do público em geral, e pensando também em criar as bases de formação para uma possível docência do Budismo nas escolas, conforme previsto na legislação em vigor, a União Budista Portuguesa, de forma semelhante a anos anteriores, vai realizar um Curso de Introdução à Filosofia e à Cultura Budista, aberto a todos os interessados. O curso, que se inicia neste Sábado, dia 25, decorrerá num total de 12 sessões, de 4 h, durante o ano lectivo de 2008-2009.
O objectivo é apresentar os temas fundamentais desta tradição multissecular, nos seus aspectos religiosos, éticos e filosóficos. Cada sessão terá uma componente teórica e prática, podendo incluir, além das exposições dos orientadores, questões, debate, períodos facultativos de vivência meditativa, a leitura conjunta de textos e/ou a apreciação de material áudio - visual. Em cada sessão serão fornecidas indicações bibliográficas específicas.
Os participantes podem optar pela inscrição na totalidade do curso ou, caso existam vagas, nas sessões individuais que desejarem, que terão uma unidade própria. A União Budista Portuguesa emitirá no final certificados comprovativos de frequência a quem haja assistido a um mínimo de 8 sessões.
Os orientadores - Tsering Paldrön , Paulo Borges e António Teixeira – são praticantes há mais de duas ou três décadas, integram a actual Direcção da União Budista Portuguesa, têm sido instrutores de yoga e/ou de meditação e responsáveis por múltiplas actividades de divulgação do Dharma do Buda (conferências, seminários, traduções, livros). Tsering Paldrön tomou votos religiosos, em 1999, com Kyabje Trulshik Rinpoche.

Programa

2008

I - Os Fundamentos da Via de Buda

25 de OUTUBRO – O Buda histórico e a Natureza de Buda. A vida e a Iluminação do Príncipe Siddhartha Gautama. O Sermão de Benares e as Quatro Nobres Verdades: o sofrimento, sua origem, sua extinção e a via que aí conduz ( o Óctuplo Caminho). Ética, meditação e sabedoria. Os Três Cestos: Vinaya , Sutra e Abhidharma. O sentido terapêutico, experimental e não dogmático da Via e do Ensinamento do Buda.
8 de NOVEMBRO – A natureza primordial da mente, a ignorância e o ego. As duas verdades: absoluta e relativa. Ilusão e Libertação. Samsara e Nirvana. Os quatro selos.
22 de NOVEMBRO – Os três ciclos de Ensinamento e os três níveis da Via: Hinayana, Mahayana e Vajrayana. Arahats, Bodhisattvas, Mahasiddhas e Budas. As principais escolas filosóficas budistas. O budismo perante as diferentes tradições religiosas e filosóficas indianas. A história oriental do Budismo e a sua actual expansão no Ocidente.
13 de DEZEMBRO – Vacuidade e interdependência: os doze factores da coprodução condicionada. Impermanência e insubstancialidade do eu. A Via do Meio entre eternalismo e niilismo – I

2009
10 de JANEIRO - Vacuidade e interdependência: os doze factores da coprodução condicionada. Impermanência e insubstancialidade do eu e dos fenómenos. A Via do Meio entre eternalismo e niilismo – II.Os Sutras da Prajnaparamita. O Sutra do Coração.

II - A Essência e a Prática da Via de Buda

24 de JANEIRO - O sentido do yoga e das técnicas de meditação. Calma mental (samatha) e visão penetrante (vipashyana).
7 de FEVEREIRO – As quatro meditações fundamentais: 1 - o valor da preciosa existência humana, rara e difícil de obter; 2 - a impermanência e a morte; 3 - a acção (karma) e a lei da causalidade; 4 - os sofrimentos dos seis mundos do ciclo da existência (samsara).
28 de FEVEREIRO – O Refúgio nas Três Jóias, Buda, Dharma e Sangha, e seus benefícios presentes e futuros. O Bodhicitta, ou espírito de Iluminação, relativo – em aspiração e em acção – e absoluto. As quatro meditações ilimitadas: amor, compaixão, alegria e equanimidade. A “troca” e outros exercícios de meditação.
14 de MARÇO – As seis paramitas, virtudes ou perfeições transcendentes: generosidade, ética, paciência, diligência, concentração e sabedoria.
28 de MARÇO – Os Sutras da Prajnaparamita: o Sutra de Diamante.
18 de ABRIL – Os Tantras Budistas: exposição da Visão, dos Métodos e do Resultado da Via de Diamante (Vajrayana).A necessidade de adequada preparação do mestre e do aluno. Tantras externos e internos. A Grande Perfeição.
9 de MAIO - Vida, morte, estado intermediário e renascimento. Como viver melhor a aproximação e o momento da morte e a experiência pós-morte.

O curso terá uma comparticipação total de 220 €uros, a pagar no acto da inscrição.
Cada sessão terá uma comparticipação individual de 25 €uros.
Metade do curso (50%) terá uma comparticipação de 135 €uros.

Horário: Sábados, 15-19 horas

O presente programa pode estar sujeito a alterações e há limite de inscrições.

UNIÃO BUDISTA PORTUGUESA
Calçada da Ajuda, 246, 1º Dtº, Lisboa
telefone: 21 363 43 63 (a partir das 15h)
www.uniaobudista.pt

Desculpável enfermidade

"Infelizmente meu tio, se não em conversação, pelo menos quando falava em público, tinha a pronuncia perra e difícil, defeito terrível num orador. Muitas vezes, nas lições, necessitava interromper-se; lutava com algum vocábulo bravio que não queria deslizar-lhe pelos lábios, antes resistia, inchava e só saía por fim sob a forma pouco científica de praga. O doutor desesperava-se. Em mineralogia há inúmeras denominações semigregas, semilatinas, difíceis de pronunciar, palavras bárbaras que esfolariam lábios de poeta. Não quero dizer mal desta ciência. Longe de mim tal ideia. Porém, à língua mais ágil é lícito negar-se quando tem de amoldar-se a cristalizações romboédricas, retinasfaltos, fucshites, goetites, molibdenatos de chumbo, tungstatos de manganês e titaniatos de zircónio.
A desculpável enfermidade do meu tio era conhecida em toda a cidade; zombavam dele e, quando ele se enfurecia, riam a bom rir, o que até na Alemanha é de mau gosto
."
In Viagem ao centro da Terra

Um Portugal

"(...) o que de mais fundamental a Europa poderá ter dado ao mundo: com Ulisses, a ideia de que o mito é mais importante do que a realidade, de que o poder vir a ser é o substrato do que é (...).
Pessoa dá o que foi (...) a convicção de que só em Deus, como último porto, encontrariam o porto de repouso; (...) a glória de ter mostrado que o mar é sempre o mesmo e que a sua posse nada significa de vital; (...) o mérito de ter sido o corpo da vontade de Deus, de ter sido o Tempo da Eternidade a revelar; (...) o ter ensinado que toda a descoberta se faz apenas quando se tem a cora­gem de passar além dos domínios da alegria e da dor (...).
Portugal, comple­tando a sua obra, dará ao mundo o seu íntimo Império feito de anseios, de lonjuras, de reinos ilocalizáveis em tempo ou espaço, o seu reino de alma humana continuamente sendo e continuamente ansiosa de mais ser, tendo-se inteiramente desprendido das ilusões de uma afirmação puramente pessoal e de uma pessoal felicidade; o mar bate nas costas do Império, mas, se o escutarmos, pára; decerto, porém, um dia, desistindo de nos opormos ao mundo, não mais o quereremos escutar; então, através de todo o nevoeiro, pelo próprio nevoeiro, terá surgido a Hora; o Encoberto, em milagre supremo, se descobrirá."
Agostinho da Silva, "Um Fernando Pessoa"

(Geoglifo)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Sonho de Dante - Beatriz e Isis

À procura de Beatriz parte em viagem, que é iniciação de Amor, o barco que aportou à ilha do fim. O guia vê a donzela a sonhar de olhos fechados, e passa para além dela para não a acordar. Um halo de luz resplende do seu rosto extasiado. É um momento que não pode ser interrompido, nem por mortos nem por vivos. Grita para o comandante que não a viu, que só sonhou uma boca entreaberta e que das mãos em asa entrelaçada, teria visto a divina pomba deixar nesse regaço uma rosa de luz. O comandante, o fiel, deixou cair duas grossas lágrimas que formaram um rio a correr debaixo dos olhos. A figura do fiel traz na mão aberta em palma a luz da vida, mas Beatriz não a vê. Dorme ou sonha enlevada e extática. Contempla o céu e a terra. Esquecida do Amor e do sabor dos frutos da terra. O pintor guarda a mulher na luz que a envolve e pinta na fronte do homem uma serpente. A mulher acorda dos mistérios de Isis e segura na rosa. Cresce com ela a saudade do rei, cresce na flor do tamarindo até ao fim do tempo. Até ao fim do ritual onde o filho eterno se consome na chama. Senhora da Saudade, Beatriz, aspira pelo corpo do seu marido, nem vivo nem morto o encontrará; nem na terra nem no mar. Uma estátua de sal se abrirá no centro dessa dor.

Identidade

Ó vil criatura
de vãs fantasias,
vives socialmente
no “plasma amorfo das sensações”.
Descontraído.
Habituado.

Mas nada criaste!
Absorveste,
as normas e os comportamentos
que a sociedade te deu
ou impôs.

Então,
como sabes que és?
Onde está o teu Eu?

in Metafísica [Poética]

Dormitóprio

Raiva eleita como a mais bela das mulheres!
Alegria madrasta,
tantas vezes odiada,
a mais bela de todas as outras!
Cão velho mirrado pela esgana!
Vidro polido com algodão
Raiva és mulher! E mais...
Alegria, que tantas vezes reprimes o não!
E não queres, porque és bela demais...

A Dama do Apocalipse


















"Branco por cima e o negro de um sorriso herói
Trancam-me a mente e eu nego o quanto a dor destrói
Rasgam-me o sonho e o mal me põe na vida

E a vida me faz sem medo
Nos diademas, pragas, anjos de neon
Nos holocaustos trompas, flexas, megatrons
Rasgam-me a terra e o fogo traz a vida

E a vida não tem segredo
Fecha-se o ar e o sol se nega, nega-se o pão e a paz
E o amor me cega

Sete rajadas correm, somem
E uma mulher

Se entrega e se impõe ardente
Constante, serpente, vulgar
Rasga-se o sonho e o corpo sente a dor crescer
Abre-se a mente e o cego vê a luz nascer
Trava-se a guerra e o fogo faz a vida"
Nathan Marques / Crispim Del Cistia, Lilian Bosco

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

e mais isto

É toda a falta de um Deus verdadeiro que é o cadáver vácuo do céu alto e da alma fechada. Cárcere infinito - porque és infinito, não se pode fugir de ti!

Bernardo Soares

Aforismos


Escrevo para escutar o silêncio. Leio e ouço.


Ninguém deveria falar, antes de ouvir o coração.


Se corres à frente do medo, ele espera-te no fim.


Desliga-te do que morre, sê com o que permanece.


Em certas paisagens naturais, prefiro os odores aos rumores.


Mesmo só, tens-te a ti e ao mundo.


Os que desprezam o mundo ainda têm que renascer mil vezes.


Só o Amor liberta a Saudade, mas só a Morte a eterniza.


Sê simples e calmo, assim, o que vier em ruído não te perturbará.


Pensa, ora e obra. Não precisas de fazer mais nada.


Livre de desejos, a tua alma é transparente à luz do mundo.


Será o encoberto onde o sonho dele se desocultar.


Não temas o que vier, pois se nem sabes o que há…


Não podes dizer que o mundo é real. Apenas podes pensar que o é. O contrário também é verdadeiro.

O Poeta em Lisboa


Para Paulo Borges


Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
Sem pressa de chegar seja onde for
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror

Entra num café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
Espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
Atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
Dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
Segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
Vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
Da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
E dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
A aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.

António José Forte

Sede silente

Talvez à vista não salte,
porque se firmam no firmamento, imóveis
- em tons que se mudam sem se moverem
na sombra e no ímpeto dos azuis-
as vozes pousadas em silêncio na sede de um diálogo cristalino.

Luz Cristal

Analisar a vida implica estar fora dela, mas eu só existo nela, sendo-a, por isso, para analisá-la teria de morrer, e morrendo deixaria de haver o que analisar. Imitá-la, é só o que me é concedido fazer a partir dela (para além de a viver como ela é): escrevê-la, aqui... Como esta foto, que apenas pode imitar o Real.

(Fenómeno habitual no Ártico e Antártico, provocado pelos cristais de gelo quando o Sol surge no horizonte.)

Para além de Ocidente e Oriente, o desafio do Treino da Mente,



Caros Amigos,

Temos o enorme prazer de vos informar que a próxima Conferência
Pública organizada pela Fundação Kangyur Rinpoché conta com a presença
de Tulku Pema Wangyal Rinpoché e Jigme Khyentse Rinpoché, e é hoje, dia 20 de Outubro, pelas 19h, no Hotel Real Palácio (Av. Tomás Ribeiro, junto do Imaviz), em Lisboa, com o tema "O Treino da Mente".

Contamos com a vossa presença !

Fundação Kangyur Rinpoche

domingo, 19 de outubro de 2008

A Magnólia

A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.


Luiza Neto Jorge

Nibiru

"A profecia Maia diz que uma escada surgirá no centro da Via Láctea no ano de 2012; da escada descerá uma Serpente, o Deus Quetzalcoalt. Essa escada é uma imagem representativa de um fenómeno celeste, uma tentativa de explicar ou definir uma abertura que se forma no espaço por onde passam viajantes interestelares com destino à Terra. Em outras palavras, a escada é uma alegoria para os hoje conhecidos buracos negros. (...)
Os Maias dizem que em 2012 um grande basilisco (um tipo de lagarto) vai surgir no centro da nossa galáxia, a Via Láctea; (...). Em seu livro Contacto, sobre o primeiro contato com uma civilização extraterrestre, Sagan propõe uma porta estrelar ou buraco espiralado como uma maneira cientifica válida, enquanto hipótese, de uma civilização tecnologicamente avançada viajar para a Terra. (...) Nibiru pode significar várias coisas e há várias histórias sobre a serpente emplumada dos Maias (e a espada flamejante da porta do Éden). Para os Sumérios, Nibiru era um criador de vida. Era o «criador dos grãos e das ervas que causa o crescimento da vegetação... quem abre os poços, proporcionando água em abundância - o irrigador do Céu e da Terra». Nibiru era o (...) «rei corpulento, alto, luminoso cuja luz é abundante». (...)
Entre os Maias, a serpente, a escada e a espiral aparecem com frequência com as formas estilizadas em totens e pirâmides. O Deus e Salvador dos Maias, Quetzocoalt, é a Serpente Emplumada; emplumada porque associada aos pássaros; porque voa! Na Índia, os Nagas são criaturas reptilianas, cobras (ou Dragões, na China - que é o caso do Ano 2012, Fogo+Água!) e simbolizam a Sabedoria. A cruz é o símbolo do Deus supremo Annunaki, Anu, e Annu é o lugar no Egipto onde o equinócio se cruza, também de Anit (Neith, Isis, Issa e Mary), quem traz o menino diante da cruz. A «ideia raiz» do grupo de palavras nibiru e suas formas quase sempre significa algo como cruzando, a porta. «Permita a Nibiru ser o possuidor do cruzamento entre o Céu e a Terra» (...). «Nibiru é um Planeta Ponte, que conecta o material, o lado mortal da humanidade com a nossa mais alta natureza imortal e espiritual. O lugar oposto à Terra é o Jardim do Éden (...)." Site


Sistema Nibiru, avistado pela NASA, censurado.

Outro, com datas.

"A Lua cheia da noite sobre a alta montanha,
O novo sábio com um cérebro solitário vê:
Por seus discípulos convidados a ser imortal,
olhos para o Sul. Nas mãos fingidas, corpos no fogo."
Nostradamus

História do Futuro, de 2012: O Amanhecer do Novo Mundo previsto pela cultura Maia, há 5000 anos.

HERBERTO HELDER


Os Animais Carnívoros

Herberto Helder

I

Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo
sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia
depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um
parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais
diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, desco-
bria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava
impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o
que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e
urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às
nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então
os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha
intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora
era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos
eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era
uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas
abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.

sábado, 18 de outubro de 2008

Alma Amante

Algo se recolhe porta atrás de porta.
Algo procura o centro.
Não busca o mundo. Só quer absorver-se
perceber-se a si mesma
soberanamente.

Quer estar imóvel
na lenta plenitude
sem paixões.
Quer perpetuar-se abandonada isenta
atenuada e serenamente deslumbrante.
Quer secretamente ser sempre encantada
sem pedir mais que o oiro do seu sossego.

Longe, longe está do mundo, sem instrumentos,
mas o seu peito tm mil portas abertas.
Ela ascenndeu vagarosa por imponderável adesão
e sem desejos, o seu Desejo consumando
na chama intemporal que é o seu corpo amante

Ninguém poderá chamar o seu nome ardente.
A sua certeza é ninguém e o seu ócio vazio.
Já não se opõe a sim mesma no seu único arco
em que reuniu os dois pólos num inviolável nascer.

Está com todo o intacto remotíssima e presente.
Sabe e tudo o que sabe é áerea plenitude
que transparece nos meandros do silêncio.
Ouve-se a frescura através da distância
É uma Deusa Branca.

A. Ramos Rosa

Palas Atena


















Narra o mito que a Sabedoria e a Justiça, personificadas pela deusa grega Athena, é fruto de Métis (a astúcia, a inteligência) com o poderoso Zeus, ordenador do Cosmos.
Após ter sido proferido pelo oráculo que, se Zeus tivesse uma filha, ela se tornaria ainda mais poderosa que ele, Zeus tratou de engolir Métis para impedir o nascimento. Assim, Athena é gerada na cabeça do soberano do Olimpo (por isso, a deusa é associada ao lógos).
Findado o período de gestação, o supremo deus começou a sentir terríveis dores de cabeça, pois enquanto a Justiça não nasce, elas são inevitáveis.
Desesperado e no limite, Zeus ordena ao ferreiro divino Hefestos (Vulcano) que lhe abra a cabeça. Mesmo a contragosto, com técnica e precisão, desferra-lhe o machado de ouro certeiro e todos se surpreendem ao verem surgir, imponente e armada, pronta para a guerra, a deusa Palas Athena.
Palas significa "a donzela", pois a poderosa filha pede ao pai para manter-se sempre virgem e, desta forma, impor-se com a autoridade de quem não se deixa seduzir ou corromper.
Sua principal característica física é o porte altivo. Invocando a proteção de Athena sobre todo e qualquer embate, tem-se a vitória como certa, uma vez que Palas Athena é sempre acompanhada por Niké (a vitória).


Com a espada de ouro em punho ou lança resplandescente (numa imagem mais arcaica), que fora presente do deus da techné Hefestos, Athena já nasce fortemente armada, pronta para a guerra. Mas o combate da deusa grega é diferente da guerra do bélico deus Ares.
Na mitologia grega, Ares, é o cruel deus da guerra, da carnificina. Individualista, não titubeia em impor sua caprichosa vontade a quem quer que seja. Enaltecido pelos Romanos, impulsivo, Ares é um deus de caráter epimetéico: primeiro age, depois pensa.
Pensar é atividade da mente, do elemento Ar, este sim, distingue os homens das bestas. Daí a prudente razoabilidade de Athena ser tão necessária à manutenção da ordem (Cosmos) e à evolução do espírito humano.
De gosto pelo desafio da conquista, Ares é acompanhado de Éris (a Discórdia), que com seu archote em chamas acende o furor no coração dos soldados e seus filhos, Deimos (terror) e Phóbos (medo), também servidores fiéis desse funesto deus.
O espetáculo hediondo da carnificina causa horror a deusa Athena. Os gregos sempre preferiram a sábia, justa guerreira Palas Athena, filha da razão do soberano do Olimpo. Athena é também patrona da guerra, mas trata-se do combate feito com inteligência e astúcia, motivado por um ideal honroso, guerra somente enquanto último recurso, quando torna-se insuficiente a lúcida resolução diplomática e pacífica de qualquer polémica. Uma batalha também pode ser encarada como última e importante argumentação na defesa da justiça quando todas as outras falharam.
Sempre às turras com seu inimigo Ares, pois nem sempre encontram-se do mesmo lado na batalha, Palas (a donzela) será a única mulher a imiscuir-se aos homens, sendo sempre respeitada por eles. Antes do começo da batalha, eles sentem sua presença inspiradora e com isso anseiam mostrar seu heroísmo. “Sacudindo a terrível égide, a deusa brada e corre veloz entre as fileiras convocadas à batalha. Um momento atrás, esses homens haviam aplaudido com júbilo a ideia de voltar para sua pátria; agora a esquecem por completo: o espírito da deusa faz agitar todos os corações com ardor bélico”.
Renomados heróis como Tideu, Hércules, Ulisses e Aquiles dobram-se aos seus sábios conselhos.
Quanto ao herói Tideu, Athena foi sua fiel companheira de batalha, até quis torná-lo imortal. Aproximou-se do herói ferido de morte trazendo na mão a bebida da imortalidade. Mas ele estava a ponto de fender violentamente o crânio do adversário morto para sugar-lhe o cérebro. Horrorizada, a deusa retrocedeu e o protegido para quem ela cogitava o mais elevado destino mergulhou na morte comum, pois tinha desonrado a si mesmo.
“Athena seria mulher porque os orgulhosos heróis que se deixaram conduzir por ela não se submeteriam tão facilmente a um varão, mesmo que fosse um deus”.
Quando em fúria cega Aquiles está prestes a liquidar Agamémnon, Athena toca seu ombro e o aconselha a dominar-se, contentando-se em ofender o Atrida somente com palavras. O herói prontamente guarda a espada já desembainhada.
Refletindo sobre a máxima de Heráclito: “A Guerra é Pai de todas as coisas”, é pela espada de Athena que se impõe a Justiça.

Athena carrega, no peitoral de sua armadura a cabeça de Medusa, a rainha das Górgonas.
As Górgonas são três irmãs (Medusa, a dominadora; Euríale, a errante e Esteno, a violenta) que simbolizam os inimigos interiores que temos de evitar. São deformações monstruosas da psique nascidas do desvirtuar de três pulsões humanas: sociabilidade (Esteno), sexualidade (Euríale) e espiritualidade (Medusa). Como a perversão espiritual prevalece sobre as outras, Medusa é conhecida como rainha das Górgonas.
A perversão da pulsão espiritual, por excelência, é a vaidade (imaginação exaltada em relação a si mesma) que é simbolizada pela serpente. Em Medusa, inúmeras serpentes coroam sua cabeça.
No frontispício do templo de Apollo (irmão de Athena), deus da harmonia, lêem-se as palavras que resumem toda a verdade oculta dos mitos: “conhece-te a ti mesmo”. A única condição do conhecimento de si mesmo é a confissão das intenções ocultas, que, por serem culpáveis, são habitualmente maquiadas pela vaidade (por uma justiça falsa, pois sem mérito, infundada). A inscrição reveladora significa, portanto: desmascara tua falsa razão, ou, o que dá no mesmo, aniquila tua vaidade. Faz-se necessário a clarividência em relação a si mesmo, o inverso do ofuscamento vaidoso e petrificante.
Ver Medusa significa: reconhecer a vaidade culposa, perceber a nu suas falsas razões, suas intenções ocultas, o que ninguém consegue confessar a si mesmo, da qual ninguém suporta a visão.
A cabeça da Medusa foi presente do herói Perseu, a quem a deusa Athena auxiliou em combate emprestando-o seu escudo, para que não a encarasse de frente e ficasse estagnado. O escudo reluzente de Athena, ao refletir a imagem verídica das coisas e dos seres, permite conhecer a si mesmo: é o espelho da verdade. Neste escudo, o homem se vê tal como é, e não como gosta de imaginar ser.
Athena é a deusa da combatividade espiritual (as três manifestações da elevação espiritual são a verdade, a beleza e a bondade). A sapiência, o amor pela verdade é a condição para ascender ao conhecimento de si e, em consequência, para adentrar na harmonia (Apollo).
Para derrotar a Medusa, foi necessário que o herói a surpreendesse enquanto dormia pois o homem somente é lúcido e apto ao combate espiritual quando a exaltação de sua vaidade não está desperta. Arma muito cobiçada, mesmo morta, a cabeça da Medusa continuou mantendo seu poder de petrificar quem a encarasse de frente.
Contra a culpabilidade advinda da exaltação vaidosa dos desejos, não há senão um único meio de salvaguarda: realizar a justa medida, a harmonia.
A deusa, símbolo da combatividade que inspira o amor à verdade, convida os mortais a reconhecerem-se em Medusa, incitando-os à luta contra a mentira essencial, a mentira subconscientemente desejada, o recalcamento, as falsas razões. A cabeça cortada prova que a Medusa não é invencível.
Antes de merecer o apoio de Athena, todo mortal deve encarar o símbolo da decadência espiritual (a vaidade). Somente assim tem-se certeza de que sua reivindicação não oculta outra intenção, ou seja, não é capricho, teimosia. Ante a imagem da Medusa, quem busca a deusa clamando por justiça tem somente duas possibilidades: contar com sua proteção (vitória certa), se já passou pela prova da Medusa, ou imobilizar-se no pânico e petrificar-se.


As aves, por serem consideradas os seres mais próximos dos deuses, foram, conforme suas características e atribuições, associadas a eles. (...) À atenta coruja coube a companhia da sábia Athena.
Vemos a imagem da coruja, símbolo de uma vigilância constantemente alerta, nas mais antigas moedas atenienses. A coruja, em grego gláuks “brilhante, cintilante”, enxerga nas trevas. Um dos epítetos de Athena é “a de olhos gláucos” (esverdeados).
Em latim é Noctua, “ave da noite”. Noturna, relacionada com a lua, a coruja incorpora o oposto solar. Observem que Atena é irmã de Apollo (Sol). É símbolo da reflexão, do conhecimento racional aliado ao intuitivo que permite dominar as trevas. Apesar de haver uma forte associação desta ave à escuridão e a sentimentos tenebrosos, o que é natural a um ser noturno, o fato de ela ter sido (devido a suas específicas características) atribuída à deusa Athena também a tornou símbolo do conhecimento e da sabedoria para muitos povos.
A coruja é uma excelente conhecedora dos segredos da noite. Enquanto os homens dormem, ela fica acordada, de olhos arregalados, banhada pelos raios da sua inspiradora Lua. Vigiando os cemitérios ou atenta aos cochichos no breu, essa embaixadora das trevas sabe tudo o que se passa, tendo-se tornado em muitas culturas uma profunda e poderosa conhecedora do oculto.
(...) Eis a ave da deusa da Sabedoria e da Justiça: atenta coruja, cujo pescoço gira 360º, possuidora de olhos luminosos que, como Zeus, enxergam “O todo”. Devido a todos esses atributos, a Coruja simboliza também a Filosofia, os Professores e nossa proposta de Conhecimentos Sem Fronteiras: integrar todas as formas de conhecimento com o olhar para O Todo.


"Quando a filosofia pinta cinza sobre o grisalho,
uma forma de vida já envelheceu e, com o cinza
sobre cinza não se pode rejuvenescer, apenas reconhecer;
A coruja de Minerva (Atena) alça seu vôo
somente com o início do crepúsculo."
Hegel (1770-1830), "Filosofia do Direito"