O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Presidente acabou de falar ao país

O Presidente Cavaco Silva acabou de falar ao país, numa excepção que gerou grande expectativa sobre a razão. Cheguei a pensar se seria para declarar a extinção de Portugal ou a instauração do Quinto Império, o que poderia ser o mesmo. Cheguei a pensar, mais a sério e num assomo de esperança, se seria para se solidarizar e responsabilizar pelo crescente sentimento de mal-estar, angústia e infelicidade que se abate sobre o povo de que é o supremo representante e que cada vez menos espera alguma coisa dos seus governantes. Cheguei a pensar que seria um assomo de humanidade, consciência e alma. Cheguei a pensar que escutaria palavras vindas do coração.
Não. Apenas uma questão burocrática, por mais importante que a seu nível seja, num discurso soletrado como um autómato e com a postura rígida de quem se comporta como se o fosse. Apenas o mesmo de sempre.
Tranquilizemo-nos. Portugal não acabou, o Quinto Império não foi instaurado e tudo está como antes. Podemos dormir descansados. O Presidente não teve uma crise de identidade e o povo pode continuar infeliz à vontade.

Uma paciência selvagem trouxe-me até aqui (Adrienne Rich)

...e uma impaciência não menos selvagem me leva daqui, para as falésias de Odeceixe, para traduzir os ensinamentos do Dalai Lama sobre Nagarjuna em Nantes, para falar de Eckhart, Longchenpa e Fernando Pessoa em São Paulo e de Vieira em Belo Horizonte.

Para quando a paz e o agir não agindo a que exorto!? Para quando ter juízo!? Para quando não perguntar mais para quando!?

Estarei felizmente quase sempre desligado da net durante o mês de Agosto e desejo-vos serenas inquietações, sábia loucura e doce e terno e amoroso e feliz Despertar!

Abraços

Paulo

Divagações

A passagem por este mundo é o mistério por desvendar
fio que se desenrola sem se conhecer princípio
meandros enrolam os dias e os confundem nas trevas.
Entre tempos retorna-se a esta praia ocidental
escuta-se o rumor das ondas em espuma desfeita abruptamente
como se do fundo dos tempos nos tentasse relembrar.
Teme-se, foge-se sempre de algo
passam rostos que não reconhecemos, vidas que esquecemos,
passamos por nós sem repararmos
Caminhamos como se algo faltasse, nas profundezas do ser
quanto tempo demorará a reencontrar?
Estranho sentimento de passar, de existir, efémera maré...
Contemplação.
Universo observa-nos anima de todos os seres,
espera por nós viajantes no sempre em busca de algo.
Só esta praia ocidental devolve a presença de tudo
fugazes sulcos no encrespado das águas derramadas no éter.
Ó civilização, cobiça, aqui não encontram lugar!
Tudo se consome em névoa onde já não se decifra a tinta.
Deste Cabo onde se avista o nada
nas falésias despenham-se trevas e refaz-se em apoteose a luz

E os sonhos serão ilusão?
Com os sonhos aprende-se a conhecer a alma e a reinventar o mundo
sem querer ou não querer, acesso ao poder do mais profundo
sem obstáculos, energia emergente de todas as fugas.
É além que tudo se mostra por dentro das máscaras
e o que se revela por amor nada anseia receber.
Amor fiel a si próprio sem renúncia à fonte geradora,
dócil vontade escapando à tirania que nos disciplina
para obedecer e cada vez mais reprimir o pulsar criador.
Carregamos fardos de tristeza,
olhemos a fera aprisionada
ora ruge incontrolável ora padece submissa sob o chicote
domador, de nós marionetas, iremos consentir?
Se escolhermos aniquilar os impulsos,
cruéis seremos e amordaçados,
sem a força dos sentidos débil é a razão.
As árvores oscilam ao sabor do vento
a seiva torna-as flexíveis e os ramos não quebram,
Amor é seiva da árvore que somos
quem o sente é forte, quem o seca morre.
Os homens separaram o corpo da alma, destruíram o Amor
e o mundo mergulhou na confusão
não o caos primordial, mas o caos surgido de conceitos
e preconceitos reprimindo o sensível, padronizando atitudes,
engrenagem social que afastou o humano da Natureza
separando-o de si-mesmo distorceu a percepção.
Talvez um “Guardador de rebanhos” cruze o nosso caminho
como aquele que despertou em Alberto Caeiro:
“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...”
Urge libertar o Amor aprisionado
da condição de objecto que se dá ou recebe.
Basta apenas amar sem posse e sem limites,
e não “perdidamente” como quis Florbela, antes
reencontradamente sem ilusão nem desilusão
haja quem se entregue liberto ao Amor
amando a liberdade do ser amado.
Ódio é prepotência que escraviza,
Amor pleno libertará a humanidade da escravidão.
De Agostinho o lema:
“A paixão que temos de pensar é o amor activo, o amor criador”.

O Silêncio da Montanha do Poeta


O que buscas, poeta, na luz que do cimo te projecta em sombra?
Que saudade cresce no lugar do céu e se abre em luz candente
No teu peito de arqueiro do céu? Esculpes na pedra o ouro, e na mente
És a paisagem crescente da montanha tocada de silêncio.

Que chuva de setas prateadas atira o arqueiro da festa do céu
Para a boca do poeta?! O arco do poeta é feito de água de lua
E a sua seta é um desejo vertical de espaço e da lonjura;
A sua imagem é um perfil de píncaros na solidão da montanha.

Para encontrar o poeta, é preciso subir à montanha verde,
Para acertar na cor o pintor renasce poeta; para pintar o céu
O poeta faz-se arqueiro do sonho, senhor da distância, mendigo do ar;
Eco de ser, voz do silêncio que lhe acerta no peito de pássaro
Recortado a negro na vastidão imensa da alma iluminada.

A onda e o mar, a mente e o corpo, viver é sur-far

O mar que gera as ondas é o mesmo mar do amor que gera o Homem. Cada onda forma-se porque se deixou formar.
Do mar se forma a onda, da mãe se forma o filho, do corpo se forma a mente, de que serve querer o Homem controlar o próprio corpo que o forma? De que vale a onda querer controlar o mar? O Homem que se pensa como onda perde-se do mar que é, reduzindo-se a uma ideia sem corpo, a uma onda sem mar.
O Homem esquece-se que não é só quando nasce que é formado pelo corpo da mãe, que continua vivo por estar sempre a ser formado pelo mar do seu corpo.
Agora percebo o meu desprezo quanto à actividade humana, não são mais do que ondas do mar, que ainda por cima se enganam a si mesmas como sendo algo mais do que o magno mar que as originou. O se-r-eno mar é o meu ser real, o horizonte que o une ao céu o meu único destino, ali onde o sol nasce rei, a ilha do sul onde veramente a cruz da vida floresce.

com dedo de camarada barbudo


rosas (só - para não dar bronca)


ro(u)sas

Summertime









Sinais de um penetrante abandono...

deus absconditus

quarta-feira, 30 de julho de 2008

eu tenho um deus

Toda a gente tem um Deus
Toda a gente
Desde sempre
Teve um Deus

Um Deus que tem uma casa própria onde morar
Mesquita Igreja Sinagoga
Um Templo

Eu tenho um deus menor
Que não se importa mesmo nada que o escreva com minúsculas
Sem casa, sem um tecto
Um sem-abrigo
Um cívico contudo
Que não passa por mim sem me cumprimentar

É baixote e magro
Com as calças remendadas nos joelhos
Barba por fazer
Não a longa e bem cuidada barba dos Deuses únicos
Dos que crêem

O meu deus não é nada mediático
Ninguém o pinta nas paredes ou em telas
Não vem nos calendários
Dos Conventos de religiosas
Dos Lares da terceira idade

Ou de qualquer sapateiro de Bairro
Sacrificado no interior de uma porta de madeira

Não me exige sacrifícios
Nem incensos
Nem a crueldade de caminhar descalço sobre espinhos
Nem colectas espúrias
Para fins quantas vezes duvidosos

É um deus camarada a que nada peço
Apenas agradeço
De manhã quando acordo porque acordo
À noite quando me deito
E adormeço

Vejo-o com frequência ao longo do meu dia
Ao trabalhar na horta
Ao passear no campo

Quando os pássaros indiferentes
Em vez de se assustarem
Cantam

Quando podo as roseiras
Ou planto os meus bolbos de tulipas
Ao mondar as ervas dos canteiros
Quando acendo o lume
E as chamas sobem tranquilas

Não me exige muito
Como eu lhe não exijo nada
Assim nos entendemos
-sem subordinações
Como bons camaradas

eu gosto do meu deus
-com quem faço
intermináveis caminhadas

Da utilidade do abandono que se deve realizar interior e exteriormente

"Deverás saber que, nesta vida, nunca uma pessoa se abandonou assim tanto, que não tenha achado que se devia abandonar ainda mais. Existem poucas pessoas que respeitam isso correctamente e nisso são constantes. É uma troca de valor igual e uma justa transacção: tanto quanto tu saíres de todas as coisas, tanto quanto, nem mais nem menos, entrará Deus com tudo o que é Seu, contanto que tu te tenhas inteiramente despojado do que é teu. Começa pois por aí, e expende nisso tudo o que conseguires arranjar. Aí encontrarás verdadeira paz e em mais lado nenhum.
As pessoas não necessitavam de reflectir tanto sobre o que deveriam fazer; elas deveriam, pelo contrário, reflectir sobre aquilo que elas são. Ora, se as pessoas e os seus modos fossem bons, então as suas obras poderiam refulgir limpidamente. Se tu fores justo, então as tuas obras também serão justas. Não se pode pensar a santidade com fundamento numa acção; deve-se, pelo contrário, fundamentar a santidade em um ser, pois as obras não nos santificam, senão que nós devemos santificar as obras. Por muito santas que as obras possam ser, elas não nos santificarão de modo algum, porquanto elas sejam obras, mas: tanto quanto nós formos santos e possuirmos ser, assim santificaremos todas as nossas obras, sejam elas comer, dormir, despertar ou seja o que for. Aqueles cujo ser não é grande, façam que obras fizerem, daí nada sairá. Reconhece, por conseguinte, que se deve empregar toda a determinação em ser bom, - e não tanto naquilo que se faz ou no modo de as coisas serem, senão em qual há-de ser o fundamento das obras" - Mestre Eckhart, Conversações Espirituais, 4, in Mestre Eckhart, O Abismo Eterno, antologia de tratados e sermões escolhidos por Paulo Borges e Jorge Telles de Menezes, prefácios de Paulo Borges e Jorge Telles de Menezes, tradução do alemão de Jorge Telles de Menezes, Lisboa, Mundos Paralelos, 2008 (no prelo).

As ideias i-nova-dora-s nascem de modo inconsciente

O corpo gera a mente, porém, quando esta está ocupada por ideias externas ou por pensamentos conscientes, não recebe as novas ideias criadas a partir do sangue vivo e verdadeiramente suas, não renascendo, permanecendo cega na escuridão das ideias velhas, mortas.

Heróis do Mar

Tal como o ar é formado pela água, a ideia é formada pelo sangue-sentimento, reproduzindo a própria origem, não precisando, nem podendo, condicionar o que a precede, visto ser apenas consequência e de ter deixado de existir esse mesmo sangue, ao tornar-se nela.
Pensar sobre a realidade, querendo sobrepor-se aos acontecimentos que nela ocorrem, é querer que o ar formado crie a água que o antecedeu, que a filha-ideia gerada crie a mãe-sangue, forçando o ciclo para que este retroceda, o que nunca pode acontecer, apenas podendo se criar outros ciclos.
A sociedade racional estabelece ideias sobre a realidade que toma como sendo guias para vivê-la, invertendo-se, pois é o cérebro que assimila as ideias digeridas pelo corpo.
A humanidade é guiada por homens que fingem que as suas ideias são assimiladas para lá do sangue do seu corpo: pelo sangue da realidade. Assim, o que fazem é programar a conversão dos alimentos pelo corpo da realidade, digerindo ideias de modo paranormal, querendo concretizá-las finalmente a partir do corpo da realidade. Ainda dizem que não há Heróis!...

terça-feira, 29 de julho de 2008

De(finição)

... é a lembrança do esquecimento e a esperança de a ele regressar.


sempre que vais à casa de banho pensas que estás grávida?


O meu professor de shiatsu diz que

as rebentações nas ondas das praias vão

embater cada vez sem mais resignação

contra camarins do favoritismo, contra os

modus-operandi estravagantes de arcebispos,

contra as trivialidades snobs dos deputados,

contra o agasalhado château dum leopardo

filistino en-vogue – paralítico napoleão rebaixando

reuniões sobre fisco infalível ou dumping social –

e contra as cúmplices matracas dos crachás.


Após as provações de permissividade inibidora

virá a papeira avant-garde desmantelar a perícia

das boulevards deflectoras da cidadania global,

com encorajamento de poliomielite dar-se-á a

subtóxica polinização ad aeternum dos opus dei

desbocados pelos ditames à palheta de sua cómoda

desvirtuada, atestando com grogue de formol a

anímica hor’agá, à escala, dos pilotos estroinas que

processam os componentes e calibram os reagentes

da carola de caruma e ComItivA de CompanhIA que

desapropria da ilibação tais enxovais com desacatos.


Virá uma contrasalva do Paleolítico Superior servir de

hélice propulsora para salvaguardar o Holismo Gaiense!


As treliças do alfarrobista são corroídas pelas zeigeist

entrópicas, cujo perfil vigora como ipomeia violacea

de restrição, que autofagiam as comissuras labiais dos

morpheus escapulindo-se da água-benta aspergida,

sem absentismo, deste eugénico gulag blutschande.


É mata perpétua abjurada como trégua, ex-pectante

fusível estampilhado pela mundivisão dos estratos,

âmbito de asneiras grassando munições em lavagem,

delgado tarrafal, gaspacho à beira do badagaio, elixir

de oxidase de monoamina, itinerante toro pré-helénico

de foro ontológico cujo rejuvenescimento é entravado

pela disritmia diapezam, warcraft e dungeons&dragons.


Quando a incisão coronária tolher a hipersemia

fac-simile do sôr-reverendo será rapsódia de ciano,

seu clíster onanístico será enema de morning glory e o

Outro Transcendente, esfarelado pelos torções, poderá

novamente ser quinino de ergotina, a bobina rústica

será destravada, do Minóico Tardio recomeçará um

narcótico Revivalismo Arcaico, o convénio de adidos

passará por umbral admonitório e fará melopeia com

Tanatos, eclodido num cacifo chamuscado de Gizé ou

Queóps e o Relâmpago de Indra efectuará os Mistérios

Elêusicos, isto disse-me a minha professora de reiki mix.




in quimicoterapia

2004

A Língua Portuguesa é o ar que deseja ser novamente mar

O pensamento, por ser demasiado sofis-ticado para ser usado nesta realidade, visto ela apenas ser física, é incapaz de a substituir, não podendo ocupar-lhe o lugar, por não poder ocupar espaço algum. A loucura do Homem é querer conduzir os destinos do mundo através de um leme que não existe: a mente. Persistindo o que sempre apenas houve como guia: o vento que sopra e o mar que move. O pensamento humano é essa brisa que se desloca no ar, e que o mar do sentimento dilui, por ter sido ele que a criou, o mesmo mar que corre no corpo da realidade... sopra o vento das ideias nas velas ao sabor-saber do mar do corpo.

O Poeta de Chagall

O poeta bebe com os olhos e vê com a boca.
Ela está virada para o silêncio do céu
E os olhos voltados para a terra.
Este é o poeta! As palavras estão em cima
No céu do seu pensamento
Os olhos são aves de voo rasante
Às coisas que a sua boca prova.
O poeta não tem porquê
E os bichos comem com ele à mesa
O Poeta tem um coração branco
E veste o azul do céu como se fosse
Marinheiro da saudade do que trinca
O poeta tem a cabeça da cor das árvores
E morde o fruto dos céus.
Assim como é, o poeta não tem alto nem baixo
É uma pluralidade de sentidos.

Vê coisas em todo o lado
E às vezes parece bêbado
Mas está sentado no céu sem se desiquibrar
Só porque encontra a cada passo
Uma palavra para os olhos
O poeta parece perdido, mas apenas
segue o seu olhar
Enquanto a sementeira dos céus
semeia astros na sua boca.

O ser humano caminha ainda para ser humano

A ruptura que o ser humano provoca consigo próprio ocorre quando acolhe como se fossem seus pensamentos alheios, pois deixa de viver de acordo com as ideias criadas dentro do seu corpo, as que poderia criar realmente, passando a viver a partir de ideias externas ao corpo, que só a sua mente pode imaginar, não podendo o corpo integrá-las, por não as reconhecer como suas.
A educação que é dada ao ser humano ensina-lhe que respeitar os pensamentos estabelecidos pela sociedade é a conduta adequada e digna de quem é boa pessoa. Por isso, despreza as ideias que intimamente poderiam ser criadas, em prol da cega aceitação do que se encontra em vigor, não procurando escutar as próprias ideias, deixando de se cumprir como pleno ser humano: tal como Portugal relativamente ao mundo.
O Homem, ao relacionar-se, confunde afectos com ideias, assim, a oposição que acontece ao nível intelectual é levada para o nível sentimental, não se estabelecendo relações verdadeiras pela ausência de total liberdade de cada um ser o que é. Tudo devido ao Homem pensar-se como sendo as próprias ideias, não se dando conta que vive num corpo real e não numa ideia imaginada, que ele é o ser que pensa e não o que pensa o ser. Todos os conflitos humanos são resultado do ser humano ter deixado de viver no corpo e passado a viver na mente, de se ter tornado uma ideia de ser humano.

domingo, 27 de julho de 2008

Nada

Ave que passa lá longe a voar,
paira no céu,
no ar a planar...
Cia a pique, algo a caçar,
volta subir e nada apanhar.

Porque posso não ter tempo para mais

Discurso do Ministro Brasileiro da Educação nos EUA...

... entrevista em http://www.youtube.com/watch?v=awniNjJ0eC0
Durante um debate na Universidade de Nova York, o Sr. Ministro da Educação Cristovam Buarque foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia. Pergunta esta muito pertinente visto que o tema se encontra em debate no campo político Norte-Americano. A questão foi levantada por um estudante que prontamente pediu a resposta ao senhor Ministro na perspectiva de um Humanista e não de um Brasileiro.
Esta foi a resposta do Sr. Cristovam Buarque:

*” De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso ima-ginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade. Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, interna-cionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais.
Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.”
**”Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar esse patri-mónio cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu
enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constran-gimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Uni-das, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria
pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da
Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!”

Existem fortes indícios que levam a crer que este discurso terá sido, prontamente, censurado (como é usual no país mais democrático do Mundo). Aliás, no país onde a informação é “livre-mente” censurada.




Internacionalização do internacional,


controlo absoluto,


cada vez menos utópico,


certamente real,


assustadoramente possível.


Probabilidade certa, igual a um.


Minha franca e sincera opinião.




Long live the American Dream (não sei quem disse)


Heil to the American night! (Jim Morrisson)




III Guerra Mundial?


Não sei como será...


A IV Guerra Mundial?


Certamente com paus e pedras.


(Albert Einstein)
por VT

Uma carta e dois poemas encontrados nos Jardins de Cupido


A Deusa do Destino
“As orquídeas de Outono e o levístico
Despontam em tufos ao pé da sala.
As suas folhas verdes e caules brancos
Lançam-me os seus perfumes em ondas.
Todo o homem, seguramente, tem o seu grande amor:
Por que está a deusa triste e só?
A orquídea de Outono, que esplendor!
Verde é a folha, violeta o caule.
A sala fervilha de belos rapazes
Mas de súbito para mim ela dirige o seu olhar:
Chegou sem uma palavra, partiu sem um adeus:
Um tornado é a sua montada, uma nuvem o seu pendão.

Que desgosto se compara ao de uma partida
Que felicidade à de um primeiro amor?
Vestida de lótus, cinta de basilisco
Ela chega de repente e num instante se vai.
À noite mora no firmamento.
Que esperais, Deusa, na berma de uma nuvem?
Pudesse eu convosco banhar-me no Lago Celeste
Secar numa encosta ao sol os vossos cabelos!
Espero a minha bem-amada mas ela não vem!
Ao vento desolado, canto em alta voz.
Sob um dossel de penas de pavão, com um estandarte de penas de pica-peixe
Ela sobe aos Nove-Céus, toma em mão os cometas.
Erguendo a sua longa espada para socorrer novos e velhos
Só a deusa será, para todos, justa.”
Qu Yuan (Séc. IV-III a. C.)


Cânticos Taoistas
“Maldito seja o saber e o estudo –
Meu espírito vagabundo do silêncio!

Maldito seja o saber e o estudo –
Meu espírito vagabundo do silêncio.
Se o procurarmos sempre
Nunca mais o acharemos.

Um regato para lançar a minha linha
E desfruto de todo um reino.
Cabelos despenteados, arrebato o meu cântico
Que os homens retomam nos quatro cantos do mundo.
Qual é o refrão?
- Meu espírito vagabundo do silêncio!

Um alaúde e um poema chegam para a minha felicidade.
Vaguear pela lonjura é um tesouro
Cheio do Caminho que percorro sozinho
Em direcção ao fim do saber e do eu.

Tranquilo e sem cuidados
Para quê procurar outrem?
Sou um habitante das montanhas mágicas
Que rejubila no pensamento e alimenta o seu espírito.”
Xi Kang (223-263)


Para o P. G.
Uma certa Princesa da Distância, perdida na bruma da sua janela de outrora, confessa a um guerreiro de outras eras, a um companheiro de fogo com quem bebeu chá no Pavilhão da Chuva:
nada mais somos do que vozes num poema. E, nada mais, é tanto. Nada mais podemos desejar do que esse ritmo de uma voz que lendo alto nos reúne onde apenas nos encontramos.
O poema. Mas só aí. De resto, na paisagem nos encontramos: vendo e pensando. Simbolizando o que já nasceu como sinal da outra parte perdida.
Com a voz cheia de silêncio e canto, compondo hinos, ela nada mais é do que uma vagabunda presença que errando procura o som, os sopros que a dissolvam. Até lá mora na poesia e alimenta-se do mel da tua. Envia-te esta de que falaram e que ela deixou inscrita no coração quando no teu pousou a sua mão.
E ouve as tuas lágrimas e segue-as. Elas são da fonte onde na infância, antes do tempo, as vossas bocas saciaram a sede. Moraram junto da origem.
Enlaça-te nos sopros e nunca a perderás. Não tentes, guerreiro amigo, prendê-la ao que ela não é e ao reino que abandonou.
Ela canta-te e afaga-te com as sombras mágicas das montanhas. Mesmo quando desce ao Mar ela logo sobe. Só na mais alta montanha está escondido o jardim de Diotima. Só na mais alta montanha moram os deuses e Hölderlin. Só lá chegam os eremitas como a Princesa da Distância. Foste tu que lhe deste refúgio nesse nome.
Lá, por ser distância, ela reúne na sua mesa os que com ela falam do amor e com todos cuida dos Jardins de Cupido. Todas as manhãs entreabre a porta e espera os que, sem a terem procurado a encontram, os que dela se tendo desencontrado, a reencontram. Porque ela vive nos Jardins da Memória.
Cantando poesia e lendo-a, mais facilmente farás o caminho de regresso. Mas não te apresses. Ela é quase tão lenta como o que não é do tempo. E gosta muito de ti.
Assim que os homens deixarem de querer ser deuses uns dos outros, uma fantasia divina, passam a ser deuses de si próprios, verdadeiros.

sábado, 26 de julho de 2008

O pensamento Real é materno, o verdadeiro cér-ebro do ser humano é o útero

Enquanto o cérebro dá forma ao sentimento, criando o pensamento, o útero faz o mesmo, realizando-o. O primeiro precisa que o corpo concretize exteriormente a criação, o segundo cria de modo inteiro: in-terno.

O útero é o cérebro-mãe através do qual o cérebro-filho nasce e toma existência, toda a criação do cérebro-filho depende da Mãe. O corpo do Homem representa a ligação ao útero materno - à eternidade. Assim, qualquer criação que ignore essa Aliança não chega a existir de modo verdadeiro, real. A humanidade guia-se apenas pelo cérebro-filho, por pensamentos que não chegaram a nascer, abortados*...

|*A Lei do Aborto apenas agora foi aprovada para as mães em Portugal, mas desde sempre os filhos o fazem.|

Poema para Eugénio

Os poetas também morrem,
Mas morrem mais devagar do que nós.
A voz que foi a deles fica como uma baba, um cuspo,
Ou uma seiva que ainda anda a ser folha
Em qualquer parte,
Para além do bicho e da seda.

A morte dos poetas
É qualquer coisa que continua a ser árvore
Mesmo depois da raiz ou para além dela.
É uma forma que continua a ser corpo
Em qualquer espaço
Onde o vento se mova;

Onde haja musgo ou água
Ou fruto que se trinque
Para além do sabor e da semente,
Para além da boca que a morde
E continua sabor para além dela
Para além da mesma morte

A morte do poeta começa muito antes
Da noite e do dia da nossa mesma morte.
Agora morre o Eugénio
Amanhã haverá menos verde
Na relva que há amanhã.

A morte dos poetas é uma ficção nossa
Como a vida é uma ficção de poetas.


13-06-05

O que sou é a mãe, o que sei é meu filho

O Homem só existe, verdadeiramente, por se saber Homem, porém, quando chega a adulto, tende a inverter-se. Em vez de ser o que se sabe Homem, passa a ser o saber que tem de si, esquece-se que é o ser que é o saber, não é o saber que é o ser. O saber toma o lugar do ser, o filho toma o lugar da Mãe.

Eu sou o que sei, mas o que sei, por si, não me é. Ser é a Mãe, que está sempre presente, saber é o filho, que nasce constantemente, e que logo deixa de ser a Mãe assim que o faz. O ser humano apega-se ao filho como se ele continuasse a ser a Mãe, mas ele separa-se dela logo que aparece. A separação entre eles não indica que o filho não fosse verdadeiro, é apenas uma inevitabilidade, tendo em conta a natureza da sua relação.

O cérebro representa o ser embrião do nosso ser, dele nascem os nossos filhos-conhecimentos, somo-los todos, mas como todos eles estão condicionados ao tempo, nenhum deles preenche o nosso ser inteiro, eterno. O filho que nos poderá preencher todo o ser, terá de nascer da síntese de todos eles, de unir tudo, de nascer do sentimento de fusão do amor infinito, do saber que se sabe sem ser preciso saber, porque deixou de ser apenas um saber temporário do ser, tornou-se no próprio ser, na Mãe. O verdadeiro saber que a Mãe-Ser pode ter de si é dado pelo filho de Corpo Real, nascido do seu Cérebro Real: o Útero.

- Mas como? Como sabes?
- Não sei... mas também não nasci por saber-me. Sou, eu própria, o que digo, o que nasce de minha boca, pelo que também não posso sabê-lo.

Janelas

Os pássaros trazem letras de luz para a mesa do dia
Cada manhã, o livro acrescenta uma página para voar
E o olhar é uma canção de vento para a pauta do esquecimento
Quando a cidade acorda, os olhos são janelas rasgadas
Letras entornadas na partitura do sonho, e as flores
São jarros de chorar para regar a alegria.
Chegam versos com o vento à cómoda alta do pensamento.
E o céu de Magritte tem nuvens desfeitas nas asas...
Vêm de longe os pássaros, na boca ficam saudades,
O gosto azul do mar, a voz dos búzios, o perfume dos dias
O vidro das imagens reflecte os versos que os pássaros debicam no lago
Água de letras para as flores do jarro.

Sacratíssima

O coração da Cidade é uma aldeia. Eis o sentimento mais profundo de Lisboa, uma menina senhora, uma criança madura, uma frescura cálida, um rebento filosofal. O sino da torre daquela Igreja faz vibrar as colinas e todas as calçadas são santuários, e todas as janelas são miradouros, e todas as almas, santas. E a Serpente recurva-se.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Poetugal

O Poeta só é capaz de encarnar o seu poema, por isso, quando lhe é exigido encarnar um poema alheio, sente-se confuso, visto a vida apenas o ter colocado a sentir o seu próprio sentimento e, em consequência, o próprio pensamento-verso. Num mundo de homens-ideias, o Poeta sente-se inabilitado, não conseguindo viver através de ideias que não tenham um corpo real.
O português é acusado de viver na cauda do mundo-fantasma europeu, sente-se fora de um mundo que não tem fora nem dentro, restando-lhe ficar triste por estar vivo num mundo que -ainda- não nasceu.
Ser o português o culpado de ainda existir num mundo dominado por idei-ot-as? Por certo que sim-to...

aceitação

A noite enrola os cabelos

Sob os dedos do sol.

O pasto dos anos ressequiu

A gota de luz que nos guiava.

Lembro-me dela:

Uma lua solar. Nenhum incógnito:

Por toda a terra as sombras com olhos

Lambiam pregadas essa noite

O eco dos rastos e dos rostos

Consumidos na distância.

Os mortos ressentidos chispavam

No aço fino da voz: tudo foi dado,

O nobre nascimento e o voo sempre inédito

Das cinzas no oceano sem telhados.

Só a quimera é possível... a cura é a loucura

O Poeta sabe que definir em pensamento e palavras a realidade é um impossível que a poesia torna possível, que só de modo gentil e sonhador se pode querer imitar o inimitável. Ele tem pena que os seus companheiros se tenham esquecido de que estão sempre a fazer poesia, mas apenas de um modo que o aspira à única vontade de que todos regressem a saber que só podem ser poetas como ele: que os portugueses só são capazes de realizar uma utopia.

"Mensagem": mente agita a matéria, o que Pessoa nos quer dizer é que mente e matéria são uma só. Viver guiando-nos pela mente isolada não é viver, é imaginar somente. A própria mente agita a matéria, mas não é pensando-a, porque isso é separar-se dela como sujeito independente, a própria mente É já a matéria: de Real há só o sentimento, pois é ele que as une.
O Povo Luso é cantado na "Mensagem", mas o nosso Rei vive adormecido nos poemas de Alberto Caeiro, na nossa Eterna Criança, é Ela que conhece desde sempre o Real sentido do nosso Ser, Português. O que o Rei nos pede é que vivamos a Realidade do Corpo da Alma, sem divisões: fundamo-nos no Mar da União de Tudo, só nEle nos reconheceremos, só Ele é infinito, como o Amor que somos. A saudade da Alma Lusa é a de estar unida à sua Origem: ao Corpo, pois só assim se sente, é, Vive.

O Poeta Alberto Caeiro pensa através do corpo, porque é esse o único modo possível de se pensar realmente! Apenas se propôs a definir o que pensa-sente para que o mundo entendesse que pensar é estar doente, mas que a doença mais grave ainda é o homem pensar-se saudável estando doente.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Presentinho para os Amiguinhos




Obrigada ao Anónimo que me ensinou a postar estas coisas.

O Poema chamado Homem

Como o corpo caloso entre os hemisférios cerebrais do ser humano, Portugal é o porto cal-oso entre os hemisférios do mundo.

O cérebro representa, simultaneamente, a separação entre os dois lados do coração e o prenúncio da sua união através do corpo de ligação entre cada hemisfério, sendo um orgão interno, liga-se à realidade interiormente. A confusão do homem é proveniente do facto de apenas poder relacionar-se de modo exterior com o mundo, esquecendo-se que o seu estimado cérebro é incapaz de funcionar dessa forma. A ligação ao exterior apenas pode ser feita a partir dos sentidos, eles sim, unem o interior ao exterior do corpo, a mente à realidade, isto é, TODO o pensamento nasce da loucura do sentimento, ou da maior loucura ainda: a de não haver sentimento.
O Homem define o silêncio chamando-lhe voz, concretiza a loucura -ou ausência de razão- chamando-lhe razão, revela o sentimento chamando-lhe pensamento, materializa o sonho chamando-lhe realidade.
O pensamento é um esboço da realidade, nada mais do que poesia: ser poeta é, portanto, o único modo de ser humano. Todo o Homem é poeta, cria palavras e encarna como seu próprio poema: os versos que lhe revelam o significado do que vive.

Nasci da concretização do Amor
e foi esse o único dom
que a vida me deu:
ser poeta à solta!
E como eu
o mundo inteiro,
mesmo que o ignorando...

A Língua Portuguesa é o Mar que une a Terra: a Aliança entre Homem e Deus

Nada fica, só esta Língua Portuguesa, pela qual falamos e vivemos o Amor, se não apaga, sendo ela o que tudo apaga e renova: é o Mar da Terra, o Coração em que vivemos e por que vivemos, somos nós unidos n-Um só. Não sendo nada é tudo, não se vendo é por ela que vemos o mundo, não se tocando é por ela que sentimos, sendo ninguém é a humanidade inteira, não sendo a Mãe nem a Filha é a Aliança, não sendo o Pai nem o Filho é o Espírito Santo, não sendo real existe, não estando viva vive, é por ela que pensamos, sonhamos. É pela Língua que a humanidade se perdeu e se reencontrará.
Esta Língua o que é afinal? Esta Voz que se confunde connosco, de que matéria é feita? De onde e como nasce? Como podemos crer tanto que exista e que a somos?
A nossa Voz é já a Voz de Deus, pois é ela que nos liga à morte e à vida, ao sonho e à realidade, ao ser e ao estar, à mente e ao corpo, a Deus e ao Homem, ao homem e à mulher. “No princípio era o Verbo”: a Língua, o i-Dio-ma. “A Pátria é a Língua Portuguesa” porque é ela a eterna Aliança da humanidade a Deus.
Cada palavra reproduzida pelo Homem é um reatar da Aliança: rezar, cantar, é a recriação da Origem do próprio Homem, pois é a partir da palavra que o Homem se cria. Cada vez que o Homem fala é, ele mesmo, Deus criador, as palavras são filhos nascidos da mente e do corpo.
Somos todos, portanto, Deuses esquecidos que o são, criamo-nos a partir da nossa Voz, essa, que nos liga tanto a Si quanto ao Si-lêncio, pois ela é tanto um quanto o Outro.
O Homem caminha para a União com a própria natureza de que é feito: o Verbo. Só o Homem que for capaz de ser Deus, isto é, criar-se através da união de e com tudo, de ler a vida, falar e viver aliando os antagónicos do Universo pertencerá à Nova Era, estará voc-acionado.
Não precisamos de erguer nenhuma religião nova, porque ela já existe desde o início: a Língua Portuguesa. Não precisamos de converter ninguém a falá-la, porque já todos a sabemos. Mesmo os que não a saibam têm a Sua Voz. Por isso, o que lhes-nos falta, é reconhecê-La como a Aliança da humanidade à sua própria divindade. Portugal é Deus porque é, desde sempre, Filho da sua Língua-Mãe, como o Homem é Filho do Seu Verbo, é divino.

(Parte do texto que sairá na próxima Nova Águia)

Terra

Sou da mesma Terra que Tu

Da Terra das árvores,






Da Terra das flores,





Da Terra dos homens,





Da Terra dos animais,





Sou da mesma Terra que Tu


Da Terra das pedras altas,





Da Terra das cabeças duras,





Da Terra dos caminhos tortos,





Da Terra das janelas abertas,





Sou da mesma Terra que Tu


Fotos tiras algures pela Serra de Sintra*
Publicadas pela primeira vez no meu bolg pessoal e aqui reeditadas e partilhadas.

Há uma frase célebre que diz: "Nunca faças promessas que não possas cumprir".
Eis-me aqui a quebrar a promessa que fiz na primeira vez que aqui escrevi.
Prometi não voltar a repetir conteúdos...

Se não me puderem perdoar... espero, pelo menos, que gostem das fotos e da sequência que escolhi para a edição.

Enjoy :)

terça-feira, 22 de julho de 2008

SADISMO

A um mosquito que me suga avidamente o sangue

Conheço-te, palerma:
Chamas-te anopheles
És indiscutivelmente feminina
Estás grávida

Se é que alguma vez se pode chamar grávida
A uma fêmea insecto
Alada
Com o aparelho reprodutor repleto
De ovos fecundados

Entendes o que eu digo
Vejo-te enchendo o ventre de sangue meu vermelho
- capilé estival
Que trasfegas das minhas pobres
Veias áridas
Para o teu bojo
Inchado como um odre

Podia até esmagar-te facilmente
Tão entretida estás em esvaziar-me

Não

Prefiro ver-te levantar em voo feliz
Sabendo que não tarda vais cair
Cheia de mim:

Irremediavelmente podre

Política, Ascese e Santidade

"É necessário que surjam no mundo, a exemplo do que foram os frades-soldados da Idade Média, frades políticos, homens que, imolando tudo o que lhes é estritamente pessoal nas aras do geral, não queriam terras separadas do céu, nem céus separados da terra, mas sempre e sempre e sempre os dois unidos no mesmo esplendor de fraternidade, de paz e de bem-aventurança. Não se suponha, porém, que isto se fará falando ou escrevendo ou pensando; isto se fará fazendo. E fazendo pela não-intervenção absoluta na política de grupos; pela escolha, para governantes, de homens e não de legendas; pela atenção aos problemas locais e imediatos e não só aos planetários e futuros; e, como base de tudo, pela conquista e domínio de si mesmo, através do caminho único que têm apontado a experiência e os séculos: o caminho da ascese mais rigorosa e absoluta, da oração contínua e do amor dos homens em Deus e por Deus"
- Agostinho da Silva, "Política e Santidade", in As Aproximações (1960), in Textos e Ensaios Filosóficos. II, Lisboa, Âncora Editora, 1999, p.24.

Apenas acrescentaria que "ascese", neste contexto, quer dizer exercício constante da mente para superar os seus limites cognitivos e afectivos (tal como um atleta se treina para ultrapassar os seus limites físicos), que "oração" pode ser para alguns "meditação", que "homens" se pode dilatar a "todos os seres" e que "Deus" se pode traduzir por Infinito ou Natureza primordial. Sem esta ascese e este amor, creio que a política é o pior dos riscos, para si e para os outros. Mas, como diz Agostinho neste texto, é por isso mesmo que os ascetas, que buscam a santidade da não-dualidade, a ela se devem dedicar: não na esfera do confronto de grupos e partidos, mas no domínio mais amplo da sua transcensão e integração no serviço do Bem comum.

saudade tenho é da Mãe Natureza cuja canção de embalar o nosso DNA nunca esquecerá

extractos de um texto intitulado 21 teses sobre o trabalho de José Tavares
publicado no número 19 de 2005 da Revista Utopia cuja numero 25 sai nesta 4ªfeira



“Nunca se trabalhou tanto como hoje. Por todo o mundo, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, milhões de individuos gastam todo o seu tempo a trabalhar ou a procurar trabalho. Mas a maioria dos individuos não são senhores do tempo e daquilo em que se ocupam; as necessidades a que estão condenados são criadas e fomentadas exclusivamente pelos lucros que as mercadorias oferecem àqueles que são donos do trabalho.

A sociedade da ordem e da norma está na iminência de realizar outro milagre: que o cidadão esteja simultaneamente no cume do entusiasmo e no cume da passividade!

Enquanto a actividade humana, escravizada ao trabalho, fôr um instrumento de tortura, ele há-de realizar-se segundo as regras da compulsão, da desigualdade e da hierarquia. E os governos, seja qual fôr o sua forma, reproduzirão o modelo autoritário e simbolizarão as relações de subordinação.

Para os moralistas, especialistas e donos do trabalho, este significa honra e alegria porque significa bons lucros; para os outros, é um exercício monótono, repulsivo e que nunca será bem pago. Não é o sal da vida, nem “uma acção inteligente do homem sobre a matéria que distinguiria o ser humano dos animais”. O trabalho revela-se uma manipulação robótica, uniforme, elementar, sem génio, sem vida; uma relação que provoca sofrimento, suplício e miséria!

Os trabalhadores que trabalham de modo consciente para perpetuar o mundo tal como ele é. Convencidos que o mundo não pode ser outra coisa senão luta e fadiga, não têm tempo para mais nada senão trabalhar, o que os leva a imporem as mesmas condições aos outros. Vivem em permanente competição e concorrência.

Para os trabalhadores que conseguiram coincidir a sua paixão com o seu trabalho o tempo não conta porque encontram prazer na fadiga, enquadrando-se com a maioria quando a situação o exige ou a moral o impõe.

Os trabalhadores contrariados, os mais numerosos, que acompanham sem interesse nem paixão uma tarefa repetitiva, aborrecida e desesperante, muitas vezes totalmente inutil e nociva, pertencem à categoria dos excluídos, individuos sem qualificações, desempregados ou precários.

Não é possível que a atitude de respeito pelo trabalho difundida no séc. XIX, continue a existir, uma vez que a relação com o trabalho foi radicalmente alterada, já não se trata de subsistência directa, as pessoas foram transformadas em seres dominados pelas suas próprias obrigações e tentações.

Os sindicatos que se dizem defender os direitos dos trabalhadores são parte integrante do processo de reprodução do capitalismo e dos sistema hierárquico, mesmo afirmando oposição como o cidadão comum de ideias “progressistas”, põem de lado a crítica radical pela necessidade de produzir. Estão limitados à luta pelo aumento de salários que se esvai mal aumenta o custo de vida. Convertidos em intermediários, os sindicatos passam o tempo em negociação de multiplos acordos com o Estado.

O trabalho, terreno falseado e pantanoso da actividade humana, é um fomentador de patologias.

Os bens comuns como a terra, a água, o ar, convertem-se em mercadorias onde impera a lei da escassez. Escandalosa monetarização da vida presente.

Nesta sociedade que tudo consome e tudo destrói o salário é droga dura por excelência!"

a conhecer:

http://en.wikipedia.org/wiki/John_Zerzan

http://en.wikipedia.org/wiki/Anarcho-primitivism

domingo, 20 de julho de 2008

Amor

Vaza-me os olhos: continuarei a ver-te,
Tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te,
mesmo sem pés chegarei a ti,
mesmo sem boca poderei invocar-te.
Decepa-me os braços: poderei abraçar-te
com o coração como se fosse a mão.
Arranca-me o coração: palpitarás no meu cérebro.
E se me incendiares o cérebro,
levar-te-ei ainda no meu sangue.


Rainer Maria Rilke


Isto é qualquer coisa de fabuloso!
Junto a este poema duas fotografias com duas linhas de palavras.
Numa espécie de sonho... ponho ao mesmo nível de sentir e de agir o micro e o macro.
O micro, aqui representado pela dualidade. O macro, pela multiplicidade...
O Amor pelo outro e o Amor pelos outros, o incondicional.
O eu e o todo. Ou o todo e a parte.
O princípio e o fim, e o caminho que vai do princípio ao fim.

Enjoy
:)





São precisos sempre dois.
Um para dar
Outro para receber.





Mas podemos ser sempre mais.
Mais a dar.
Mais a receber.

Fui Eu Que Vi




Fui eu que vi a gaivota que partiu, levando no bico o tempo que passa.
A gaivota voava e ninguém a alcançava.
Fui eu que vi a pomba branca a voar.
Trazia nas asas a esperança infinita
de um mortal que grita e se agita.
Nas suas asas brancas, a esperança caminhava e ninguém a apanhava.

Vi também o adormecer da borboleta colorida,
com asas de seda e de cetim,
da cor da alma que duvida,
da cor da dor e da alegria que há em mim.
Adormeceu, como que a sorrir, de tão pouco sonhar e nunca ganhar.





Fui eu que vi partir a escuridão,
contida numa nuvem de verão,
que deixou reinar a claridade circular.
Partiu e, com ela, fugiu a angústia e a raridade de ser e de não ser.
Vi sorrir a água e cantar a mágoa
do ar que respiro da paz de viver.

(Fui eu que vi)

Sereia*


Era dia 27 de Abril de 1997... quando escrevi este texto.
Não sei o que me deu para revelar aqui e hoje, uma parte da minha adolescência.
Sim, é um texto de adolescente que, obviamente, nunca foi publicado sob qualquer forma existente de publicar o que quer que seja.
Sempre gostei de poesia e achava que podia combinar palavras à minha maneira e chamar-lhes poemas...

Hoje estou 'práqui' virada :)
Melhores dias virão :)

Mais umas sábias palavras de Nikos Kazantzakis (Report to Greco)

"(...) Father Akákios, a short, rotund monk with swollen feet, had spent the entire day painting Saint Antonius, and now, stroking a fat black cat on his knees, he spoke movingly about the saintly eremite. It seems that a girl came to him one day and said, "I have observed all of God´s commandments; I place all my trust in the Lord. He will open the gates of paradise for me." Saint Antonius then asked her, "Has poverty become wealth for you?" "No, Abba." "Nor dishonor honor?" "No, Abba." "Nor enemies friends?" "No, Abba." "Well then, my poor girl, go and get to work, because right now you possess nothing."

As I looked at the simple Akákios, who was perspiring from too much food, the fire´s great warmth, and the memory of the frightening ascetic, I kept thinking what a rosy-cheeked Antonius he must have been painting all day, and I was possessed by a diabolical urge to say to him, Go and get to work, poor fellow, because right now you possess nothing. But I did not speak. A crust of lard, habi, and cowardice envelops the soul; no matter what it craves from the depths of its prisom, the lard, habit, and cowardice carry out something entirely different. I did not speak - from cowardice. (...)

I am less affraid of the major vices than of the minor virtues, because these are lovely faces and deceive us all too easily. For my part, I want to give the worst explanation: I say I did it from cowardice, because I want to shame my soul and keep it from doing the same thing again. (...)"

Giovanni Falcone e Paolo Borsellino



Desculpem o arcaísmo mas não sei mostrar links directos para o You Tube.
Fez este mês 16 anos desde o assassinato de Paolo Borsellino que, com Giovanni Falcone (assassinado, este, quase dois meses antes), como sabemos, constituiu uma dupla de desemplumados pensadores e fazedores contra uma importante forma de Mal. E de Mal também se tem falado muito neste blog nos últimos dias.

Julgo que merecem plenamente constar aqui, como referência e inspiração multímoda e estímulo actuante.

http://www.youtube.com/watch?v=8DBwd_1nRpQ

sábado, 19 de julho de 2008

The Greatest Silence: Rape in the Congo "o conflito com mais mortos desde a 2ª Guerra Mundial"


"Não consigo compreender. Durante os dois anos que passei a trabalhar no filme, 1.4 milhões de pessoas morreram, ou seja, o número de mortos vai agora em 5.4 milhões. Não sei porque é que, pelo menos no Ocidente, temos este tipo de ofuscação em relação ao que se passa em África. As pessoas dizem, "ah, isso são guerrilhas entre tribos africanas malucas que se matam umas às outras", mas eu não acho que seja redutor dizer que se trata pura e simplesmente duma guerra de recursos. E quando se vê a coisa dessa forma, percebe-se a cumplicidade dos países de Primeiro Mundo no conflito, porque basta olharmos para o nosso telemóvel para ver uma ligação directa entre o coltão nos seus componentes (um minério cuja maior reserva se encontra na República Democrática do Congo) e a morte de milhões de pessoas. E acho que nós não queremos ter essa visão das coisas!"

"O documentário com mais sucesso até agora continua a ser a Marcha dos Pinguins porque as pessoas gostam de coisas fofinhas e peludinhas, não gostam de coisas fofinhas e peludinhas

mortas."



lisa f. jackson

sexta-feira, 18 de julho de 2008

DESIGN

Não sei bem o que significa
Julgo que é desenho

Mas não só desenho
“tout court” como diriam os franceses
Porque então seria desenho e nada mais

Desenhar uma árvore
Uma casa
Com chaminé e fumo e o sol
Como um ovo estrelado
Que qualquer criança desenharia nas primeiras classes
Será desenho ou será design?

Chama-se designer a quem faz design

Entre Salvador Dali
Picasso Rotko
Leonardo da Vinci
Onde os pintores e os designers?

Algum será uma ou outra coisa por excelência?

Julgo que design
É o desenho para ser usado:
O “a poesia é para se comer” de Natália Correia
Ou um retrato das searas de trigo
De José Manuel Rodrigues

O maior designer de sempre
Terá sido
O desenhador do universo

Que desenhou o Sol e o calor
E a fotossíntese
E as cores do arco-íris
E a Lua e Marte
- tão longe mas tão perto

E a Via Láctea
Como um enorme espanador perpétuo
E Andrómeda – você precisa de conhecer Andrómeda –
Um caracol de Pastelaria
Feito de milhões de estrelas

O maior designer de sempre
Terá sido
O desenhador do Universo

Que fez tudo tão infinitamente grande
Mas tão breve
Que bastam a contê-lo
Nove simples sílabas de um verso

O Estado da Nação

Passei hoje toda a manhã na Assembleia da República, para assistir à discussão da petição sobre os Direitos Humanos no Tibete, de que fui o primeiro subscritor e que obteve 11000 assinaturas. Mas não é disso que venho falar. Venho falar da confirmação directa da imagem que já tinha do estado da nação, no que respeita aos seus representantes parlamentares.
Hoje era o último dia de trabalhos antes das férias parlamentares, com uma agenda cheia de debates e votações sobre projectos de lei e petições. Às 10 horas, quando abriram os trabalhos, as bancadas teriam no máximo um terço dos deputados. À medida que os vários oradores, do governo e dos partidos, tomavam a palavra, aquilo a que se assistia era o seguinte: dos escassos presentes, ninguém parecia estar a ouvir absolutamente nada; uns levavam o portátil e mandavam mails, outros falavam ao telefone, uns conversavam em pequenos grupos, alguns de costas viradas para o orador, outros liam tranquilamente os jornais: diários, desportivos, etc. Apenas interrompiam estas actividades para aplaudirem maquinalmente o orador do seu partido, voltando depois ao mesmo.
Foi só por volta do meio-dia que o hemiciclo se começou a compor e só então chegaram as figuras mais relevantes e as caras mais conhecidas dos vários partidos, com ar descontraído, palmadinhas nas costas e sorrisos cúmplices para os seus correlegionários. Foi por essa altura que a petição relativa ao Tibete começou a ser discutida. Quando a deputada do PS começou a apresentar o relatório sobre a situação no Tibete, elaborado a partir das reuniões que o grupo parlamentar dos Negócios Estrangeiros manteve connosco, o ruído das conversas era tal que ela teve de parar por duas vezes e o próprio Presidente da Assembleia, Jaime Gama, de pedir silêncio aos "senhores deputados". Sem qualquer efeito. O ambiente era igual ou pior ao de uma turma das mais indisciplinadas do ensino primário ou secundário. Em abono da verdade, ressalve-se que só a bancada do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista mantinha relativamente maior silêncio e compostura.
Seria apenas hoje, por ser o último dia antes das férias? Não. Uma amiga que lá trabalha esclareceu que é sempre assim.
Após a apresentação das várias matérias em debate, nestas circunstâncias de total alheamento e desrespeito mútuo, ia-se seguir a votação. Levantei-me e vim-me embora. Estava elucidado e só pensava que, após dois mandatos de quatro anos nesta vida, saem de lá com belas reformas para sempre.
Estou esclarecido sobre o estado da nação, espelhado no seu Parlamento, que deveria ser-lhe exemplo. Só pergunto, a mim e a vocês, se são estes os nossos representantes, se são estes que queremos como representantes. É isto democracia, partidocracia ou mediocrecracia? E o que fazemos?

Um Modo de Ser, Um Modo de Arder

A Saudade está inscrita na minha forma de viver. Posso querer amputar esse modo de ser, mas não sei por onde começar. Não encontro o lugar dessa saudade em nenhuma parte do meu corpo. Não sei a que lugar da alma posso dirigir o bico da tesoura ou a faca afiada. Mas ela está lá. Sei que algures na origem de tudo, nessa fenda, nessa separação primeira ou última, ela foi criada para viver eternamente. Há no mundo muitas pessoas. Essas pessoas que vejo no mundo, porque as vejo com os olhos que a Saudade implantou nos meus, agitam-se, sofrem, afligem-se, morrem, matam. No mundo que a saudade gerou há divisão. Há gente pobre e rica; há guerreiros, poetas, místicos, religiosos, seres de excepção e de regras. Por todos a minha saudade se derrama em dor. Não sei se a dor é só minha, mas encontro a cada volta da vida, motivos de dor que não lamento. Vejo-os como filhos da saudade e na sua presença ausente eu encontro uma lição para a minha vida saudosa, mas nenhuma me expurga o sentimento mesmo da Saudade. Conheci muitos seres fracos, cobardes, vazios, mas nenhum deles era a sua fraqueza, o seu vazio a sua cobardia. Conheci também heróis na sua circunstância e no seu destino; conheci bravos e corajosos seres, na vida e na morte. Nenhum desses seres era a Bravura e a Coragem. Há no mundo, também conheci alguns, seres que irradiavam luz e bondade e, os seus gestos, o seu olhar, as suas palavras, trazem alívio, bálsamo e pacificação. Eles não eram a Luz, a Bondade e a Paz. Eram a Saudade de tudo isso, a mimar gestos antiquíssimos para a parcela de saudade com que os olhava. Da morte, esses seres trazem para a vida a sombra que se formou nos meus olhos. E se a saudade é para alguns a alma do mundo, como amputá-la do meu peito sem que antes morra? Olhar com saudade é ver acompanhado. É olhar todos os seres e ver neles o mundo da sua própria saudade e da nossa; é sua alma saudosa a derramar-se na vida, a marcar no chão e nos astros a sua sombra chorosa. Se os vejo, assim, como me vejo, órfãos do exílio da terra, a procurar alçar-se acima da sua altura, a lutar e a sonhar em pensamento a dor original do mundo, como não amá-los na sua espessura, no seu corpo degradado, na sua trágica e inútil caminhada? Na sua fuga ao inexorável destino que os trouxe à terra, para que se cumpra o mundo, e a saudade dele seja a nossa mesma dor. Ardo em saudade, esta tarde, por todos os fogos de todas as sombras, por todos nós.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Estação das queimadas

Fotografia: Robert and Shana Parkeharrison - Burn Season


Sonhai-me como se fora uma seara de Gramíneas, forragem em chamas, voragem incendiária. Labaredas altas, fogo fátuo que nenhuma carne humana soube alguma vez apagar. Olhai-me com olhos de arado, com mãos de foice que se desintegram na impossibilidade de me dilacerar. Vede, pois, que o rasteiro nesta superfície vos toca sem jamais vos agarrar, que a fundura da planície, a recta perfeita, o que se precipita em cascata de fumo nevoento vos deixa planar sem nunca vos aprisionar. Esquecei vossas mãos, vossos braços, pés, olhos e penetrai no mais imo deste lugar onde vossa água, breve, se evapora; o oxigénio se consome e só em fogo, pelo fogo, tudo quanto é nó consumido vos quererá desatar.

Pontos Luminosos



Pontos Luminosos


No silêncio basta um sopro e todo o tempo estremece
como se afasta cantando mais para dentro
a própria noite

Guardei para ti relâmpagos inúteis
prata feita de medidas vagas
e inclinada superfície implacável
cordas e alçapões

Do ponto mais alto do céu a 56 milhões de quilómetros
um dia me dirás
«desde a idade do gelo nunca estivemos tão próximos»


José Tolentino Mendonça, A Estrada Branca


Há coisas mesmo bonitas de se lerem.
Por isso, partilho este amor de estrelas e de noite transcrito.

Fragmentos de Novalis





" Quando a chave de toda a criatura
seja mais do que número e figura,
e quando esses que beijam com os lábios,
e os cantores, sejam mais que os sábios,
e quando o mundo inteiro, intenso, vibre
devolvido ao viver da vida livre,
e quando a luz e sombra, sempre unidas,
celebrem núpcias íntimas, luzidas,
quando em lendas e líricas canções
escreverem a história das nações,
então, a palavra misteriosa
destruirá toda a essência mentirosa"


Novalis, Fragmentos de Novalis
(tradução de Mário Cesariny)

Shambhala - Por uma sociedade iluminada

"Se bem que cada um de nós seja responsável por ajudar o mundo, pode acontecer que, tentando impor as nossas ideias ou a nossa ajuda aos outros, acabemos por acrescentar ao caos. Muitas pessoas têm teorias sobre as necessidades do mundo. Alguns afirmam que o mundo tem necessidade de comunismo, outros que carece de democracia; para alguns, a tecnologia salvará o mundo, para outros destrui-lo-á. Os ensinamentos Shambhala não visam converter o mundo a uma nova teoria. A visão Shambhala parte da hipótese de nos ser necessário em primeiro lugar descobrir em nós mesmos o que podemos oferecer ao mundo antes de estabelecer uma sociedade iluminada. Então, para começar, devemos esforçar-nos por examinar a nossa própria experiência a fim de ver o que ela contém de útil para enobrecer a nossa existência e para ajudar os outros a fazerem o mesmo.
Se estamos dispostos a lançar aí um olhar imparcial, veremos que, apesar de todos os nossos problemas e de toda a nossa confusão, apesar de todos os altos e baixos emocionais e psicológicos, há alguma coisa de intrinsecamente bom na nossa existência de seres humanos. A não ser que experimentemos este fundamento de bondade na nossa própria vida, não podemos pretender melhorar a vida dos outros. Se não somos senão seres miseráveis e infelizes, como poderíamos sequer imaginar uma sociedade iluminada e ainda mais realizá-la ?"
- Chögyam Trungpa, Shambhala - The Sacred Path of the Warrior (Shambhala - A Via Sagrada do Guerreiro)
linha verde ou linha azul

Ouço pessoas no metro a falar sobre outras pessoas, a dizer que gostam muito delas e vão ter saudades. A dizer bem de outras pessoas, o que é raro. Nomeiam as pessoas pelo nome e são americanas e hippies. Eu não sinto nada disto por pessoas e é de alguma forma triste e seco. A bem dizer também não sinto nada destes sentimentos agarrativos e muito emocionantes por coisas que não pessoas. Ou seja, não sinto nada e já estou como o outro. O que sinto, para dizer que sinto alguma coisa, é medo de não sei o quê, de pessoas e de mais nada porque que é o mundo senão pessoas? Estão por todo o lado.
Se fosse para um sítio sem pessoas o que sentia era nada, ou uma simples pacificação sem nada de emocionante, um sentimento de estabilidade por saber que não ia acontecer nada senão aquilo: nada. Não havia olhares nem olhares meus sobre mim. Eu não sinto nada. O máximo que sinto nos últimos tempos são pacificações pontuais quando me encontro sozinha, nada de outras coisas que façam andar para a frente ou para outro sítio qualquer. A serenidade pontual faz-me ficar onde precisamente estou. Chamemos-lhe apatia. E agora vou trabalhar.

20/5/2007

segunda-feira, 14 de julho de 2008

António Quadros

14 de Julho de 1923 nascia em Lisboa António Quadros

o quadro nunca acabado


Tudo que escrevi até hoje

foram asfixias infatigáveis d’agonia,

intenções inconscientes para um segundo eu ler,

anomalias abjectas a tornar realidade já amanhã

com direito a promessa desconcertante

e cruel auto-desonra em seguida.

Mas, com estes livros que aqui nascem

toda a voracidade à tangente será recusada

e, do útero do caos, emergirá recompensa...

Repudio o óbvio massificado e creio

na individualidade universal capaz de

nunca se cansar de viver lamentos e palpites

que inflamarão o brilho de cada falésia,

como cócegas num cadáver idêntico

que, ao mínimo contacto, acolherá o impalpável

sem receios do nosso interior absurdo.

Os facilitismos da fala são substimados,

cegam a participação à imposição imediata

de cada confissão registada no auto dos olhos

poder assumir e sugerir achaques tão díspares nas

imperceptibilidades onde intenções são sentenciadas

e grupos espessos finalmente deformados...

Tanta sílaba já vi deambular no secretismo

da tentativa suposta relegada para outro erro,

porque fúria é fracasso que colapsará

se te agarrares ao vexame da própria sarna;

desliga a mentira e abraça a integridade

quando sentires a sugestão constante

irradiar-se com calafrios compreensivos,

arremessa-te como aperitivo no

espeto da cobra dorsal do licor ritual.




in TREPIDAÇÃO/TREPANAÇÃO (ou a ausência de evolução)
2004

P´RA PULARES

à memória de mários:

de Sá Carneiro
& Botas

usamos iguais processos
não falamos iguais línguas
morreste à míngua de excessos
eu vivo ao excesso de mínguas

A Pele do Obscuro


No tempo em que era Obscuro, estávamos todos vivos e éramos felizes…. Escrevia epístolas ordenadas em romanos números e outras que, invisíveis, escorregavam para o vazio da inconsciência consciente de mim. Estava frio e escrevia poemas atirados às interrogações retóricas, para as quais nunca havia resposta… Não havia resposta, só uma longa, constante e febril interrogação. Não conhecia, então, os sons iluminados da escrita e da escuta invisíveis… Só sabia do mar, da saudade e das viagens à roda do abismo do ser. Chorava numa gruta a inexistência das luminosidades incandescentes. Atirava runas e alfabetos para os sinais de uma familiaridade funda e paradoxal. Não tinha os pés de azul ou mar pintados. Era o mar, eu era o oceano fundo de uma memória desconhecida, e pedia aos deuses, sem o saber, uma flor de seda para a sede dos olhos. Conhecia as bailarinas cegas dos retratos pintados na memória, e atirava ao vazio de tudo a temerária flor da alma absconsa e do grito sem eco. Desconhecia o rosto das bailarinas cegas com que tinha sonhado num passado, agora futuro. Tinha nos olhos a névoa de um laço preto no braço do mundo. Vivia a orfandade radical dos deuses como a ferida aberta e funda de uma escrita atirada para o muro do vazio de alfabetos de luz. Nunca, como então, a Serpente percorrera caminhos mais transcendidos, para além de Deus, dos Homens e da Natureza. Havia Pessoa, Pascoes, Heraclito, Heidegger, Spinoza, São Tomás de Aquino, Vieira, Camões, tantos rostos deste país…Havia Índias de que não conhecia o fim e rosas em cada círculo de emoção, desenhadas em cruz, na cruz do mundo.
Hoje desaguo-me em águas, e chamo de mãe a memória que guardo. Saudosa me revejo e me desconheço. A pele deixada é agora rio serpenteando os astros e as dunas. Paisagens de Luiza ao contrário, e as mesmas… Perfumes de Isabel em pedrinhas inúmeras dum rio claro… uma fonte de beber e não secar. Hoje, quando o Obscuro me visita, tenho saudades do seu rosto inominável, da sua voz vinda de nenhum lugar, do seu mistério de Arlequim nu, de Trovador patético, de Gilgamesh choroso sobre o corpo morto de Enkidu… Saudades de quando era rei de uma tragédia sem girândolas de flores para os olhos. Só a Rosa me era desejo… Saudades das princesas que houve nas Margaridas que havia, das crianças místicas que despertavam no mar dos olhos… Sou uma alma saudosa do futuro e uma Serpente Emplumada.
Para onde foi tudo o que era? É disso que sinto saudades. Dessa clareira de alma que me é ausência e presença eterna. É nessa clareira que encontro o país. O lugar raiz de todas as ausências, de esperança coroada, essa clareira de alma cravada na negrura do rosto desfeito em pluma de sentir.

domingo, 13 de julho de 2008


quem se atreve?

a salto

mãos ao ar
as ideias pra cá
sobretudo as palavras

abra-me esse cofre

você aí no chão
- não mexe

todas as palavras
sim todas as palavras metidas neste saco



isto é um assalto

sábado, 12 de julho de 2008

Serpentes ao Sol

Alguém reconhece, aqui, alguém?
Eu já reconheci...
Mas isso sou eu que vejo bem ao longe
E sinto saudades.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Poema para Mário de Sá-Carneiro


Nem de seda nem de ouro, as vestes quero, perfumadas
Para os bancos do jardim velado, entre choupos e cantos
Quero nuas as vestes para a morte das acácias deitadas
Fontes de dormir, entre o mar e o barco. Terras altas de prantos

Vêm beber à sede das hortas, as horas que esperam recados…
Tremem quebrantos as serras, e as vozes feras dos lobos
Devoram a pobreza das ervas do caminho. Tambores irados
Acordam a chuva outonal dos rios. Nem uma gota falte nos lodos

Pantanosos, veias de prata crescente na secura opiácea do dia!
Batam chicotes para a dor do Entrudo! Mário, é hora de ser mudo
Vistam-se os campos da nudez do vinho, sementes de alegria
Para o requiem de mim: nu, gordo e em brasa, vestido de cetim e tudo

O que é fresco e fica bem à esfinge branca em purpurina e verso
Quero alaridos, gritos e desmaios, quando chegar o jardineiro coxo
Que ninguém me aborreça se vestir um xaile e usar um terço
Na mão direita, e na sinistra, um lírio desmaiado e murcho e roxo.