O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Como nos libertamos do jogo do ser e não-ser?

Este post vem a propósito do anterior e sobre a questão de, por vezes, nos sentirmos aprisionados no jogo do ser e não-ser. A pergunta é: como nos libertamos do jogo? No post anterior, não é dada uma resposta clara. É, apenas, dito que nos libertamos através de toda uma série de actos verdadeiramente diversos. Naturalmente, uns serão mais libertadores do que outros. Mas pretendo, agora, de forma clara e, no entanto, quase paradoxal, responder à questão: como nos libertamos do jogo do ser e não-ser? Jogando.

3 comentários:

João Beato disse...

Libertamo-nos do jogo desmontando o próprio jogo, o que também pode ser feito jogando...

Paulo Borges disse...

Desmontar o jogo é ser jogo, não jogador. O que acontece quando nos entregamos plenamente ao jogo, esquecendo o ganhar e o perder. Só quem joga condicionado pelo ganho e pela perda, ou seja, só quem joga fora do jogo, é que se pode sentir nele aprisionado e com desejo de se libertar. Só esse padece o jogo como oposição ou contradição entre ser e não-ser. Libertar-se é abandonar essa percepção subjectiva do devir lúdico do mundo, abandonar a ideia de libertação, abandonar-se.

Luar Azul disse...

É possível falar apenas do que é condicionado, do que existe em relação, pois falar é precisamente descrever a relação entre isto e aquilo.

Mas para haver libertação teria de haver algo *incondicionado* que só tivesse necessidade de si próprio para existir.

Confia... naquilo que em ti não tem causa... .

Nunca deixarás de ser condicionado enquanto ser real, a expressão será sempre condicionada, porque és homem, mortal, pensador, etc.

Mas podes trazer ao mundo uma *fragrância* do incondicionado. E podes *vivê-la*. Apesar de que há quem diga que quem a vive muito acaba por ansiar pela morte como se fosse o momento do Grande reencontro...